. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 03.5
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 03.5 – Ensopado para um Fugitivo
A porta do quarto rangeu e a mulher saiu. Nos braços dela, a filha.
A criança, com o rosto vermelho de febre, procurava o pai. O cocheiro se levantou rapidamente e a pegou no colo.
— Elza, como você está se sentindo hoje?
— Estou bem.
— Temos um convidado. Quer cumprimentá-lo?
— Olá.
— Olá, Elza. Prazer em conhecê-la.
A respiração da criança era curta e rápida. Mesmo que a doença fosse rotina, ela sorriu timidamente ao ver Rensley. Quando escondeu o rosto no ombro do pai, ele estranhou.
— Elza, o que foi?
A criança sussurrou algo em seu ouvido, e o pai riu baixinho. Para Rensley, que estava confuso, o homem transmitiu as palavras da filha:
— Ela disse que o hóspede é bonito.
— Ah, é mesmo? Obrigado, Elza! Você também é muito bonita. Já viajei por muitos lugares, mas nunca vi uma criança tão corajosa e bonita como você.
Rensley respondeu com um tom deliberadamente animado, e a criança continuou a sorrir, olhando-o de soslaio. Rensley olhou ao redor da casa. A solidariedade de pessoas que compartilhavam uma vida difícil, que não podia ser fingida, aquecia a pequena cabana velha, junto com o fogo da lareira.
A mão de Rensley, segurando a trouxa, apertou-se. Uma ou duas pequenas moedas de ouro não seriam de grande ajuda para eles. Seria melhor do que nada, mas era bom ter hesitado em oferecê-las.
O que aquela família precisava era de uma quantia grande o suficiente para continuar o tratamento da filha.
Por exemplo, o suficiente para viver sem trabalhar pelo resto da vida, e desfrutar de uma vida invejável para um nobre…
Rensley cerrou os lábios. Fechou os olhos com força, olhando para a tigela vazia, e perguntou a si mesmo:
…Será que, se eu implorar como um cão…
…Sua Alteza não me daria uma chance?
Gizel Zibedad era um soberano muito bondoso. Embora a recompensa exorbitante indicasse que ele estava muito furioso, eles haviam passado noites juntos. Talvez ele concedesse uma chance de perdão.
“…Não. Já fui perdoado uma vez por fingir ser Ivet; esta seria a segunda.”
Mas! Não era apenas confiar em sua bondade. Lembrava-se do carinho que ele demonstrara por Rensley Malocen.
Ele abriu uma porta fechada para que ele fizesse o teste de admissão, cedeu à sua teimosia e compartilhou a primeira noite, construiu uma estufa de vidro caro, prometeu dar-lhe um feudo ou um título se ele quisesse…
“Com tantas gentilezas, ele deve ter ficado furioso por ter sido traído por um amante tão favorecido.”
Ele entendia. A fúria era incompreensível.
— Ai…
O diálogo interno inútil continuava. Apoiando a testa na mão e gemendo, o homem perguntou preocupado:
— O senhor não está se sentindo bem?
— Não, só estou pensando… Quanto tempo leva daqui até Roudequen?
— Depende, mas com nossa carroça, levaríamos cerca de quinze dias. Hóspede, se tiver pressa, vá à estação de fronteira. Eles têm um dispositivo de teletransporte que chega à capital rapidamente. Antigamente, era tão caro que só nobres podiam usar, mas o atual grão-duque mandou reformar várias vezes a rede de dispositivos mágicos do país, e agora as pessoas comuns também podem usar. Ainda não é barato, mas quando nos estabelecemos aqui, tivemos que levar nossa filha com urgência, e usamos uma vez.
A luz das realizações do grão duque chegava até aquela cabana isolada. Ele é realmente notável. Ao ouvir o título da pessoa que temia e ao mesmo tempo sentia falta, mencionado inesperadamente, Rensley, melancólico, olhou pela janela. A estação de fronteira. Não era um lugar para um procurado aparecer sozinho. Mas, com o dono da casa, ele poderia passar sem chamar muita atenção. Mesmo se fosse preso, ser entregue pela estação seria uma prova de que o homem havia entregado um criminoso…
Elza reclamou, sentindo-se mal, e a mulher a pegou no colo para acalmá-la. Rensley se aproximou do homem e sussurrou:
— Senhor, qual é o seu nome?
— É verdade, não me apresentei ao hóspede. Meu nome é Bill Bauer.
— Eu… hmm… me chamo Stan Simon. Sr. Bauer, na verdade, tenho que ir a Roudequen com urgência e gostaria de pedir sua ajuda.
— O senhor está sem dinheiro para a viagem? Mas como vou fazer? Como eu disse, no momento não tenho dinheiro para emprestar.
— Não é isso… Sou novo em Oldenlant, então, se o senhor puder me levar até Roudequen no dispositivo de teletransporte, cobrirei todas as despesas de ida e volta. Se me guiar, pagarei bem pelo seu trabalho.
— Até Roudequen?
Seus olhos, sem foco, hesitaram. Com o dispositivo mágico, a ida e volta seriam rápidas, mas a distância por terra é muito grande. Deixar a filha doente e a esposa para trás não seria fácil.
Com um suspiro fingido, Rensley baixou ainda mais a voz.
— Na verdade, sou um mensageiro de Pereira. Preciso entregar uma mensagem urgente ao grão duque.
— Ah, eu achei que seu sotaque era um pouco diferente… Para o grão duque?
A surpresa na voz de Bill era evidente. Ignorando sua expressão de desconfiança, Rensley continuou:
— Sim. Mas como é uma mensagem secreta, evito locais movimentados ou estações públicas. Por isso, tive que fugir da confusão na vila. Se o senhor for comigo, acho que podemos chegar a Roudequen sem problemas.
— Entendo. Como não enxergo, sou o guia ideal para você.
— Não, sr. Bauer, não foi isso que quis dizer.
Surpreso, Rensley balançou a cabeça, mas o homem não pareceu ofendido. Cansado da vida repetitiva e exaustiva, a situação inesperada parecia até um pouco divertida, e ele olhava para Rensley, que não podia ver.
— Como o senhor vai cobrir os custos, não há problema em guiá-lo por um tempo. Espere um momento. Vou falar com Anna.
— Ah, sr. Bauer. Mostre isto à sua esposa. É para a viagem e para o seu trabalho. Pagarei adiantado.
Ele entregou a maior moeda de ouro que tinha à mão de Bill. Como ele dissera que trabalhava numa oficina, pareceu reconhecer rapidamente a textura, o peso e o valor do metal em sua mão.
Ele se aproximou de Anna com uma expressão mais séria e, após conversarem, ela arregalou os olhos.
— Hóspede! Isso é uma fortuna por um simples guia. Com esta única moeda, você poderia usar o dispositivo várias vezes até a capital.
— Não é nada. Recebi uma grande ajuda de vocês hoje. Considere isso como um presente de agradecimento.
O casal ajudara Rensley apenas por boa vontade, sem esperar nada em troca. Ele sabia disso. Mas eles eram pobres demais para recusar uma renda inesperada. A mulher, hesitante, aproximou-se de Rensley com uma expressão de desculpas.
— Não devemos cobrar por ajudar os outros. Desculpe, hóspede.
— Fico feliz em poder ajudar.
— Querido, leve-o com cuidado. Você trouxe um convidado importante para nossa casa.
A noite caía.
Pensando em voltar para a fronteira antes que a estação fechasse, Rensley e o homem saíram apressados. Depois de se despedir da mãe e da filha, Rensley ajustou o chapéu. Com o cachecol emprestado pelo dono da casa, enrolado até o nariz, ele escondeu o rosto.
A carroça, carregando o hóspede com uma missão importante, corria muito mais rápido do que na volta para casa. A estrada acidentada fazia a carroça balançar violentamente, seus corpos saltando dos assentos a cada instante.
— Acho que chegamos.
Depois de uma longa corrida, Rensley avistou a estação, ainda iluminada. Embora já fosse tarde, a estação ainda não havia fechado; as pessoas estavam tão agitadas quanto na vila da fronteira. Percebendo a multidão, o homem murmurou surpreso:
— Que estranho. Parece que há muita gente, mesmo não sendo hora.
— É mesmo. O que será que aconteceu…?
Com tanta gente, seria difícil se mover sem ser notado. Enquanto Rensley respondia preocupado, puxando o cachecol, o homem procurou o funcionário responsável.
— Não é possível. Não podem entrar em Roudequen agora. O dispositivo de teletransporte também está bloqueado.
— O quê? O que houve?
— Você não ouviu? A defesa da muralha foi rompida, a batalha vai começar em breve. Depois de um período de paz, eles não vão deixar passar antes da primavera. É improvável que os monstros cheguem até a fronteira, mas nunca se sabe; temos que nos preparar. Há cerca de 10 anos, todo o Oldenlant se tornou um campo de batalha. Volte para casa. Preparem-se com sua família.
Rensley, que ouvia a conversa a alguns passos, aproximou-se apressadamente.
— Um ataque a Roudequen? Por monstros?
— Isso mesmo. Por isso, o dispositivo não pode ser usado agora. Retirem-se.
— Não! Eu, eu preciso ir agora!
A voz de Rensley acelerou. Seu coração batia descontroladamente.
O que aconteceria quando reencontrasse o grão duque, que tipo de punição receberia, se seria perdoado, se desta vez seria executado…
O medo do seu destino e a profecia sinistra do lobo se desfizeram como poeira.
Monstros, ataque, campo de batalha.
Palavras que ele só ouvira, mas nunca vira, que pareciam histórias inventadas. Agora, aquela situação se tornara realidade além das muralhas de Roudequen.
A senhora Samlit, o comandante Sorel e seus colegas, Stan e seus irmãos, Tia e os amigos da cozinha, Marilyn e os tratadores… As muitas pessoas que conhecera desde que chegara a Oldenlant surgiam diante de seus olhos. A pessoa que aparecia com mais clareza era, naturalmente, seu grão duque, que ele deixara para trás.
Seus olhos se franziram como se fosse chorar. Ouvir sobre o ataque e fingir que nada estava acontecendo seria uma traição muito maior do que enganar e fugir do grão duque, uma traição proporcional ao tamanho da batalha.
— Não é possível agora. É perigoso.
Rensley desviou o olhar para a cintura do funcionário que balançava a cabeça. Em seu cinto de couro grosso, pendiam várias chaves e equipamentos. Rensley, que já usara o dispositivo de teletransporte várias vezes no castelo, reconheceu entre os objetos qual era a pedra mágica do dispositivo.
Ágil, Rensley pegou a adaga e estendeu a mão para a cintura do funcionário, que não conseguiu impedi-lo. Bill, que não enxergava, também não. O funcionário gritou.
— O que está fazendo?!
— Desculpe! Eu tenho que ir! Juro que voltarei para compensar!
— É perigoso! Não pode!
As pessoas que esperavam ansiosamente por notícias da capital, com os olhos fixos na estação, voltaram a atenção para Rensley. Desviando dos guardas que corriam para detê-lo, Rensley encontrou o mecanismo do dispositivo e encaixou a pedra mágica que havia roubado. O círculo mágico gravado no piso e nos pilares começou a se encher de luz rapidamente. Entrar num dispositivo já em funcionamento é perigoso. Os guardas observaram Rensley ser envolvido pela luz com expressões constrangidas.
— Voltarei depois! Com certeza!
Foi para Bill, mas ele provavelmente não ouviu.
Quando a luz que preenchia o círculo mágico se apagou, Rensley não estava mais sobre o dispositivo.
↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna