. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 03.3
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 03.3 – Ensopado para um Fugitivo
Um cavaleiro corria pelo corredor.
Normalmente, os cavaleiros reais não correm apressados pelo palácio. Havia um membro que nunca se importava com essa regra, mas agora ele não estava no castelo. Qualquer um que o visse podia perceber que algo urgente havia acontecido.
— Comandante!
— Por que tanto alvoroço?
O comandante Anton Sorel, com olheiras visíveis, olhou para ele enquanto segurava um relatório. O membro, que atuava como informante na ordem, respondeu com um tom de quem achava inconveniente, mas com olhos perspicazes.
— Disseram que Malocen foi encontrado.
— O quê?
A notícia que ele mais esperava fez Anton largar o relatório e se levantar.
— Conte-me em detalhes.
— Disseram que ele foi encontrado num restaurante numa vila de hospedaria perto da fronteira. Segundo as testemunhas, ele não sabia que estava sendo procurado, entrou calmamente e até pediu comida. Lá, sua identidade foi descoberta, e parece que houve uma discussão e uma perseguição com as pessoas reunidas pela recompensa.
— E então? Ele não se feriu?
— Não há notícias de ferimentos. Como o senhor sabe, o membro Malocen é muito rápido. No final, ele escapou de novo, sem ser pego por ninguém.
— Escapou de novo?
Anton repetiu, incrédulo, e depois, em silêncio, suspirou.
— Talvez ele tenha se assustado com a situação de ser procurado. Tentei avisar que isso não era o certo.
— Mas o chanceler e o ministro do interior insistiram, não havia escolha. O líder da equipe de busca também concordou.
—…Vou relatar ao Alteza.
— Não seria melhor esperar para confirmar?
— Acho melhor lhe dar uma notícia positiva. De qualquer forma, os boatos já devem ter se espalhado, mas você não precisa passar adiante.
Anton saiu apressado do escritório da ordem. Como esperado, o boato de que Rensley havia reaparecido já estava no castelo; as pessoas que cochichavam se calavam e se dispersavam quando Anton se aproximava.
Ele entrou na torre principal do Castelo de Roudequen. No entanto, não foi para a sala de audiências, nem para o laboratório subterrâneo, nem para o quarto. Também não foi para o quarto de Rensley Malocen ou para o da grã duquesa. Ele atravessou o corredor central, saiu para o pátio dos fundos, passou pelo jardim e pelo terreno baldio, e chegou à entrada da torre perto da muralha externa norte.
O acesso à muralha externa norte era restrito a pessoas comuns e trabalhadores. Se a muralha norte não conseguisse conter a invasão dos monstros, a muralha externa norte de Roudequen seria o próximo alvo. As únicas pessoas com acesso permanente a este local são o grão duque, que governa o reino, os altos magos e cavaleiros, e os conselheiros autorizados. A entrada de cavaleiros comuns e soldados é permitida apenas em tempos de guerra.
Dentro da muralha norte, havia uma torre sólida. Uma torre de pedra retangular, com suas próprias guaritas, era sombria e fria, mesmo quando se aproximava.
Era uma prisão de segurança máxima, usada para prender criminosos de traição e condenados à morte. Por isso, era um edifício isolado, que ninguém no castelo se atrevia a visitar, com rumores de fantasmas, sangue, maldições e ressentimentos. Curiosamente, na torre, que parecia uma caixa de pedra, não havia porta em nenhum lugar da parede. Apenas dois magos estavam de um lado da parede, e eles cumprimentaram Anton quando ele se aproximou.
— Vim ver sua Alteza.
Os magos, sem perguntar o motivo, recitaram um encantamento. Uma marca escura se espalhou pela parede, como se um padrão estivesse se formando, até que a parede se abriu como a entrada de uma caverna. Anton entrou em silêncio.
As paredes escuras eram iluminadas apenas por lâmpadas a óleo, e o interior de pedra, duro e frio, não tinha móveis decorativos comuns. Os passos de Anton, caminhando pelo corredor silencioso, ecoavam ao longe. No final do corredor sinuoso, como um labirinto, havia grades de ferro fortes. E atrás das grades, uma cama, uma cadeira e uma mesa, grandes e resistentes para serem objetos de prisão.
Uma lareira aquecia a parede de pedra fria. O homem sentado na cadeira virou a cabeça.
— Alteza.
Com um olhar tão inexpressivo quanto áspero, Anton engoliu em seco. Pensando bem, seu rei sempre fora uma pessoa seca assim, mas, em algum momento, ele começou a mudar, e Anton também se acostumara. Já fazia cerca de três semanas que Rensley Malocen desaparecera. As notícias eram praticamente inexistentes; a família real de Cornia, para quem ele enviara mensageiros, respondera com palavras longas e elegantes, mas que se resumiam a “tudo isso não tem nada a ver conosco, e é surpreendente que ele ainda esteja vivo”. Durante a primeira semana após o desaparecimento, Gizel Zibedad procurou Rensley Malocen como um louco. Ele mobilizou um grande número de pessoas para encontrá-lo, algo que parecia impossível para o soberano que sempre priorizara a defesa de Oldenlant.
A equipe de busca direta visitava florestas e feudos todos os dias, e os magos vasculhavam o fundo do rio com magia de visão. Graças a isso, encontraram vários corpos afogados, mas nenhum era de Rensley Malocen.
Se ele tivesse usado apenas rotas terrestres, era improvável que tivesse deixado Oldenlant em uma semana. Mas, após as pegadas que paravam no penhasco, nenhum outro vestígio de Rensley Malocen foi encontrado…
Então Gizel Zibedad fez uma escolha que não deveria ter feito.
Ele tentou “verificar” se Rensley Malocen estava realmente morto.
Felizmente, Larcov, que o observava de perto, o impediu pouco antes dele completar a magia que convoca a morte. Mas a partir dali, os conselheiros concluíram que não podiam mais ficar de braços cruzados.
Na véspera da primavera, quando a última defesa precisava ser reforçada, a decisão era arriscada, mas, precisamente por isso, Gizel Zibedad aceitou silenciosamente os argumentos dos conselheiros de que era necessário.
O rei de Oldenlant é o protetor não apenas do norte, mas de todo o continente. Governando a floresta negra e o rio prateado, ele “se submete” ao sagrado dever de governar.
Seu jovem rei era um governante tão talentoso e ideal que não seria exagero dizer que não se via há centenas de anos. Ele possuía uma sabedoria excepcional e um talento genial como mago, e, acima de tudo, valorizava o cumprimento de seus deveres, sem se deixar abalar por emoções ou interesses mundanos.
— Alteza, disseram que um homem que pode ser o senhor Malocen foi visto.
Gizel, que nem perguntara por que Anton viera, levantou-se abruptamente. Anton engoliu em seco ao ver os olhos dourados que o encaravam pelas grades.
— Ele está vivo?
Sua voz grave, rouca, estava cheia de um calor ardente. Anton balançou a cabeça.
— Ainda são apenas relatos, mas muitas pessoas disseram ter visto. A equipe de busca vai confirmar em breve.
Ele não pôde mencionar que Rensley havia escapado novamente. Enquanto os olhos, que haviam ardido como ouro, esfriavam lentamente para um âmbar, e a expressão feroz, como a de uma fera, se transformava no rosto sério do jovem rei que ele conhecia, Anton engoliu uma amargura que já não sabia quantas vezes sentira. Antes ou depois, o maior erro que ele, como cavaleiro do rei, cometera fora não ter detido Rensley Malocen naquela noite.
Gizel, como se não acreditasse totalmente nas palavras de Anton, mas claramente aliviado, cerrou os lábios. Ele, que costumava supervisionar os assuntos de Oldenlant de onde estava, devia estar achando insuportável ficar preso esperando notícias de fora.
A torre norte de Roudequen era uma corrente que, por gerações, prendia os reis de Oldenlant. Era um lugar para conter o “poder” que poderia se descontrolar e lembrá-los de seu dever.
— Ordene à equipe de busca que ele não deve se machucar de jeito nenhum.
Preocupado com a pessoa que partiu, enquanto estava preso como um prisioneiro. Sua voz estava cheia de ansiedade. Anton balançou a cabeça.
— Entendido. Não se preocupe.
—…Ele vai voltar?
— Claro, Alteza.
— Diga-lhe que, mesmo que ele queira partir de novo, peço que volte pelo menos uma vez. Como eu disse da outra vez, não posso deixá-lo ir assim.
Quem no mundo procuraria alguém que está prestes a partir novamente usando magia negra?
Anton engoliu a pergunta cheia de suspiros e balançou a cabeça repetidamente. Ele gostaria que o confinamento terminasse, mas os teimosos conselheiros mais velhos insistiam em que não se podia confiar facilmente na súbita excentricidade do jovem rei.
Não era a primeira vez que Gizel visitava a torre norte. Seu pai, o antigo guardião, passou a maior parte de seus anos restantes ali, depois que sua saúde mental e física se deteriorou, e Gizel, desde jovem, frequentava aquela torre para visitá-lo.
Depois de ser nomeado comandante, Anton aprendeu muitas coisas sobre a família real que antes servia apenas com um patriotismo e lealdade vagos. Ele também adivinhou vagamente por que seu soberano passava todos os dias trancado no laboratório subterrâneo.
Talvez não fosse apenas por não gostar do frio, por estar absorto em pesquisas mágicas ou por amar livros; antes de tudo, ele se sentia mais familiarizado com as paredes de pedra escuras, iluminadas apenas pela lareira, do que com qualquer outro lugar do vasto castelo.
— Alteza, espere um pouco mais. Por minha culpa, as coisas chegaram a esse ponto. Não tenho desculpas.
— A decisão de partir foi por minha causa, e você está se culpando.
Gizel soltou a mão que segurava as grades. Recuou alguns passos e encarou Anton.
— Não há nada de especial lá fora?
— Não. Não houve mudanças. Eu, Larcov e os conselheiros estamos convencendo os outros, então o senhor deve ser libertado em breve.
— É inevitável. Elementos perigosos devem ser isolados ou eliminados.
Com um tom indiferente, como se estivesse se referindo a si mesmo como um objeto, Anton não teve resposta e se calou. Ele curvou-se e fez uma reverência.
— Vou me retirar.
— Se houver alguma mudança em relação ao senhor Malocen, informe-me imediatamente.
— Entendido.
Agora que o rei estava preso, o comandante não podia se ausentar por muito tempo. Deixando de lado o desejo de ficar mais um pouco, Anton se virou. Quando o caso de Malocen fosse resolvido, esta confusão também terminaria.
Agora, todos poderiam imaginar que havia uma história não revelada em torno de Rensley Malocen. Embora restasse a difícil tarefa de explicar essa pessoa aos conselheiros e outros, se ele voltasse e o rei se recuperasse, tudo o mais seria secundário.
Quando Anton saiu da torre, os magos fecharam novamente a porta que haviam aberto na parede. A torre norte voltava a ser uma prisão perfeita, sem entrada nem saída. Anton olhou para o alto da torre por um momento, depois se moveu.
Ao atravessar o corredor norte e voltar para a torre principal, Anton percebeu que a atmosfera do castelo estava agitada. Ele acelerou o passo e agarrou um soldado.
— O que há?
— Ah, comandante! Disseram que chegou uma comunicação da muralha!
— Da muralha?
Em vez de pedir detalhes ao soldado, Anton foi rapidamente para a sala de audiências. Ao abrir a porta, vários altos conselheiros e magos já estavam reunidos. Larcov, que olhava para um mapa, disse brevemente:
— A defesa da muralha norte foi rompida. Parece ser um ataque de grande escala. Os monstros chegarão a Roudequen em algumas horas.
Anton franziu a testa. Embora soubesse que não era culpa deles, ele ergueu a voz e repreendeu os conselheiros reunidos:
— Não lhes disse que era um erro prender o Alteza na torre nesta época!
— Estava muito silencioso. Não podemos saber se, mesmo com sua Alteza presente, o ataque teria ocorrido ou não.
— Que os monstros detectam a mana que protege Oldenlant é apenas uma suposição. Eles virão porque pensam que o Alteza está ausente.
A atmosfera tornou-se tensa e fria.
Mas as acusações mútuas eram problemas para resolver depois. Não era hora de discutir responsabilidades ou culpar os outros. Todos na sala de audiências se levantaram e foram cuidar de suas tarefas. Os conselheiros cuidaram de seus afazeres, Larcov foi para a torre norte, e Anton, para o quartel-general da ordem.
Mesmo um “elemento perigoso”, no final, é uma pessoa necessária. Como um veneno usado como remédio.
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↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna