. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 02.3
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 02.3 – Profecia Sinistra
Assim que a carroça saiu completamente do castelo de Roudequen, Rensley saiu de trás da lona e sentou-se ao lado do cocheiro.
A luz da lanterna ao lado da carroça iluminava a planície escura da noite, como um fantasma vacilante. Tudo parecia igualmente escuro, mas olhando para longe, dava para distinguir a linha do horizonte e o céu, o que aliviava a sensação de ter caído em outro mundo.
O ar frio, como se o gelo tivesse se transformado em ar, parecia que seu nariz ia cair. Mas o frio agora era um problema menor. O comerciante que conduzia a carroça do lado de fora também devia estar com frio; não podia se queixar por ter recebido ajuda.
— O que aconteceu?
O comerciante, curioso, perguntou com cautela. Ele, que certamente tinha experiência em viajar por regiões frias, pegou uma pequena trouxa e uma xícara amassada ao lado, despejou algo e estendeu. Rensley cheirou e sentiu o cheiro de vinho quente com especiarias. Depois de alguns goles, sentiu seu corpo endurecido relaxar. Rensley riu.
— Errei com o grão-duque. Por causa disso, não posso mais viver lá. Obrigado por me tirar de lá. Eu estava pensando em como fugir.
— Ouvi dizer que o cavaleiro ainda é um aprendiz. O que um cavaleiro aprendiz poderia fazer para errar com o grão-duque?
— Bem… Com sorte, ele pode me perdoar. Mas minha consciência está pesada. É melhor o corpo trabalhar duro do que a mente ficar inquieta, não é? Ele foi muito gentil comigo, que vim de longe, mas em vez de retribuir, só causei problemas. Partir foi melhor para mim e para o grão-duque.
— Não é um problema grande, é? Eles não vão nos perseguir até a caravana?
— Não, claro que não. Por causa de um cavaleiro aprendiz, não fariam isso.
Ele fez um gesto de negação e bebeu mais alguns goles. Lambendo os lábios, Rensley também fez a pergunta que o intrigava.
— O que… Daria disse?
— Disse que um irmão tinha ido para Oldenlant no lugar dela. Que o pai tentou vendê-la, então ela fugiu, mas descobriu tarde demais que o irmão fora enviado em seu lugar. Não pôde entrar em detalhes, mas pediu que eu verificasse como ele estava e, se ainda estivesse em Oldenlant, que eu o trouxesse de volta, pois certamente não estaria bem. Fiquei surpreso quando descobri que ele era cavaleiro. O destino de quem é enviado no lugar de outro para pagar dívidas geralmente é previsível: trabalham como escravos, morrem cedo ou são vendidos para outro lugar, desaparecendo. A maioria é assim. Para ser sincero, no começo, nem esperava encontrá-lo.
Rensley balançou a cabeça. A história de ter sido vendido para pagar dívidas era uma farsa, mas, no fundo, não era muito diferente.
A bagagem que foi descartada com a mensagem implícita de “morra se for preciso” provavelmente teria sido descartada pelo grão-duque naquele mesmo dia, sem alarde. Olhando para trás, talvez isso tivesse sido melhor para a rápida estabilidade da família grão-ducal de Oldenlant.
— Bem, eu já vim aqui algumas vezes por causa de negócios, e as pessoas de Oldenlant não são tão mesquinhas como se diz lá fora. Embora um pouco reservadas, elas não se importam com pequenas coisas, o que as torna generosas e diretas. Também são menos propensas a fazer cálculos mesquinhos, então para um comerciante, não há pessoas melhores para lidar.
— Daria está bem?
— Claro. Como você deve saber, ela é sua irmã. No começo, entrou como guarda da caravana por ser boa com a espada, mas, como é esperta, recentemente fechou vários negócios. É a promessa da nossa caravana.
— Imagino. Sempre acreditei que Daria se sairia bem em qualquer lugar. Por isso, não me preocupei muito. Fiquei curioso para saber como ela estava, mas…
Ao ouvir elogios a Ivet, seu ânimo escuro se reanimou. Pensar em reencontrar a irmã depois de tanto tempo, mesmo sem ter coragem para enfrentar aqueles que deixou para trás, o deixava animado.
— Então, posso encontrar Daria no lugar para onde estamos indo?
— O quê? Não. Se ela planejasse vir aqui, teria vindo ela mesma, não me pediria. Daria foi para outro lugar para outro negócio. Mas se você voltar comigo para a sede da caravana, com certeza a encontrará.
— Ah, entendi.
Rensley baixou o copo e olhou para a escuridão. O banquete provavelmente ainda estava no auge, e as pessoas no castelo provavelmente não haviam notado seu desaparecimento.
A pergunta que ele havia ignorado começava a incomodá-lo como um espinho. Quando o comerciante perguntou se eles seriam perseguidos até a caravana, ele riu e disse que não, mas a possibilidade sempre existia.
Se ele tivesse saído sem ser visto, a preocupação seria menor, mas havia uma testemunha. O comandante Anton sempre entendia sua posição, mas se o grão-duque quisesse encontrar Rensley Malocen, ele naturalmente seguiria a vontade de seu senhor. Tanto para o grão-duque Gizel quanto para o comandante Anton, havia sempre a sensação de vagar entre o coração e o dever.
— Não vou até lá.
Rensley decidiu rapidamente, e o comerciante arregalou os olhos.
— Por quê? Não vai demorar. Vamos passar uma noite na estalagem e, quando chegar ao ponto de encontro, pegamos um barco e seguimos para o sul. De lá, alguns vão para a sede, e você poderá ver Daria rapidamente.
— Acho que ele não é esse tipo de pessoa, mas depois de ouvir você, não sei mais. Se eu for perseguido até lá… seria um problema para você e para Daria.
— Mas, o que você fez? Conspirou uma rebelião?
— Não queria dizer, mas… sim. Se me pegarem, posso acabar enforcado.
Quando ele disse isso com um tom sombrio, os olhos do comerciante se arregalaram. Enquanto seu rosto endurecia, Rensley, sem conseguir se conter, riu alto.
— É brincadeira! Não é nada demais, mas não sei se o Alteza vai ficar com raiva ou me perdoar.
— Ora essa, que piada macabra é essa? Quase tive um ataque cardíaco.
— Acho que ele não faria isso, mas não quero causar problemas para a caravana. Então é melhor nos separarmos aqui.
— Mesmo assim… Se você não tem um destino específico, não seria melhor ir junto? Daria também está esperando.
O desejo de não prejudicar a caravana era maior para o comerciante. Percebendo a hesitação em sua voz ao sugerir que fossem juntos, Rensley continuou.
— Cavaleiro, vamos pelo menos até a estalagem. Que mal há em nos separarmos lá?
— Não, vou descer aqui.
— O quê? Não pode! Você sabe onde está? Andar por essas planícies no norte é uma morte certa.
— Então me venda algumas coisas. Não vai demorar até a próxima parada. Só me dê um dos burros que puxam a carroça. Comida, roupas, algo para fazer fogo… Você deve saber melhor do que eu o que é necessário para viajar.
Rensley remexeu sua trouxa e tirou uma pequena moeda de ouro. O ouro, como sempre, brilhava mesmo na escuridão da noite.
Os olhos do comerciante mudaram. Ele olhou alternadamente para Rensley e para o ouro, depois o pegou e mordeu levemente.
— Isso cobre o custo?
— Para ajudar na viagem, é mais do que suficiente.
— Já que me ajudou a sair do castelo, considere isso como pagamento.
O comerciante não tentou mais convencê-lo. Parou a carroça por um momento e, indo e vindo, preparou uma nova bagagem para Rensley.
O burro era forte e dócil. Mesmo quando soltou a corda que o prendia à carroça, ele apenas olhou ao redor, sem dar um passo em falso.
— A planície do norte no inverno não é lugar para um iniciante vagar à noite. Tenha muito cuidado.
— Sim.
— Aqui, vista esta capa. Calce as luvas e troque os sapatos. Tem um feitiço, não é permanente, mas vai ajudar a manter a temperatura corporal por alguns dias. Coloque esta faixa sobre o chapéu. É uma pedra mágica que coletores de ervas e mineradores usam em cavernas. Não usa velas, então não se apaga com o vento; é ótima para viagens noturnas. Também não dura muito, mas aguenta até o amanhecer. E estas, se encontrar animais selvagens ou monstros, jogue-as.
O comerciante explicou cada item, ajudando Rensley a se equipar.
Embora resmungasse que era uma loucura, ele não tentou impedi-lo de verdade; parecia que não era algo que o levaria à morte. Rensley sentiu-se aliviado.
— Com isso, você deve conseguir viajar por um tempo. Mas é só por um pouco. Encontre uma estalagem ou uma casa, aqueça-se e decida seu próximo destino.
— Obrigado.
Rensley remexeu a trouxa mais uma vez. Desta vez, tirou um colar de cobre. Não parecia ter muito valor material, era mais um souvenir ou um brinquedo infantil.
— Entregue isso a Daria. Ela vai reconhecer, é meu. Diga que estou bem e que ela não se preocupe.
—…Tem certeza de que não quer vir? Mesmo que parta, pelo menos se despeça…
— Haverá outra oportunidade.
Rensley desviou o olhar para o Castelo de Roudequen, que agora era apenas uma sombra. Alguns fios de cabelo loiro que escapavam do chapéu chicoteavam seu rosto com o vento cortante. Quando olhou para o comerciante, seu rosto tinha um sorriso caloroso, que não combinava com o tempo frio.
— Agora que ouvi as notícias, sinto que posso encontrá-la a qualquer momento. Onde posso procurá-la quando quiser vê-la?
— Cavaleiro, o nome da nossa caravana é Kiroz. Ficamos nos arredores de Molbesa, a capital de Pereira. É um lugar grande, não será difícil encontrar se perguntar.
— Vou lembrar. Obrigado.
Rensley montou no burro. Acenou para o comerciante e se virou. Atrás de si, ouviu um suspiro pesaroso, mas não olhou para trás.
O comerciante também partiu, e o som das rodas da carroça rolando no chão duro chegou aos seus ouvidos. Os ruídos de pessoas foram se afastando até desaparecerem completamente.
Apenas o som do vento e das ervas secas farfalhando, e o zumbido abafado criado pela mistura desses sons, permaneceram ao redor, apertando-o como uma ameaça. O vento como um chicote fez seus olhos lacrimejarem, mas Rensley fechou os olhos com força e os abriu novamente. Puxou o cachecol novo até o nariz e cantarolou uma canção.
O vento sempre fora seu amigo. Só porque estava um pouco mais frio e cortante, isso não quebraria uma amizade tão antiga.
— Desculpe por te arrastar para esta viagem de repente. Vou contar com você.
Rensley inclinou a cabeça perto do focinho do burro e se apresentou. O burro resfolegou baixinho, como se tivesse entendido.
Para onde ir? Com a luz do dia, ele decidiria olhando o mapa. Por enquanto, o importante era fugir de uma possível perseguição.
Se houvesse perseguição, primeiro pensariam que ele seguiu a caravana. Mesmo que não, como ele escapara do castelo, achariam que ele iria o mais longe possível. Talvez fosse melhor se esconder por perto e se mover devagar. Rensley olhou para a floresta, que parecia um mar negro ao longe.
Disseram que a floresta à noite era perigosa, mas ele tinha armas e artefatos mágicos de defesa; talvez fosse seguro ficar na entrada por um tempo. Lembrava-se de que, em comparação com a planície aberta, a floresta era mais abrigada do frio e do vento.
— Vamos, vamos.
Ele puxou as rédeas, e o burro caminhou sem reclamar. Rensley ergueu a cabeça e olhou para o céu. As estrelas brilhantes, como se estivessem cobertas de geada, cintilavam. A beleza do céu noturno dissipava um pouco o medo.
O prateado que fluía como bordado no céu negro. A imagem do homem que deixara para trás vinha naturalmente à mente. Os pensamentos adiados se acumulavam.
“O que ele vai fazer quando descobrir que eu desapareci?”
Embora tivesse se separado do comerciante para o caso de ser perseguido, ele não imaginava que o grão-duque realmente o procuraria. Mas, dada a situação repentina, talvez houvesse alguma reação. Rensley imaginou-o com cuidado.
Será que ele ficaria muito magoado? Talvez com raiva? Será que pensaria que eu o enganei? Será que não devia ter dito que o amava? Mas era o fim.
…Será que ele realmente vai tentar me encontrar?
No final, tudo o que veio foi um sorriso amargo. Por que o coração humano é tão covarde? Ficou cada vez mais difícil ficar ao lado dele, e pedir para ir embora era humilhante, então ele fugiu como um covarde. E agora, só de pensar que ele pode querer encontrá-lo, o fez sentir-se bem.
“E daí? É só imaginação.”
Enquanto avançava pela escuridão solitária, pensamentos mesquinhos eram bons companheiros.
Quando a noite começou a se transformar num amanhecer sombrio, Rensley chegou à borda da floresta. Lá dentro, a luz das estrelas, que ainda era visível, se escondia, era uma zona de escuridão total.
— É um pouco assustador…
↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna