. ₊ ⊹ Capítulo 04
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 04 – Prova de Admissão
Pt. 01
A aula particular especial, na qual o soberano de Oldenland dedicou seu tempo a uma única pessoa, estendeu-se até a meia-noite.
Foi a primeira vez na curta vida de Rensley Malocen que ele conseguiu ler um livro tão espesso em apenas um dia. Embora a poção mágica misteriosa tivesse sua parcela de contribuição por ele ter se aprofundado nos estudos sem perceber o quanto a noite havia avançado, o mérito de um professor habilidoso certamente também estava presente. Por mais que a memória e a concentração de um ser humano melhorassem temporariamente, não seria possível compreender de repente histórias complexas e difíceis com a fluência de um romance de aventura. No entanto, mesmo as partes que pareciam emperrar um pouco eram rapidamente compreendidas após ouvir as explicações do grão-duque.
As refeições também foram feitas rapidamente no laboratório, e a longa aula continuou sem um único intervalo adequado. Em determinado momento, Gizel, como se tivesse recuperado o senso, olhou o relógio e disse que por hoje era o suficiente, começando a arrumar as coisas. Ele explicou a Rensley, que não estava acostumado a longas leituras, que o descanso também era importante, já que teriam que estudar durante uma semana inteira.
Entre os ensinamentos do mestre, haveria uma única sílaba que não fosse sábia? Rensley, tornando-se pela primeira vez na vida um discípulo obediente, balançou a cabeça em concordância e se levantou. Gizel entregou a Rensley o livro que haviam lido juntos até aquele momento.
— Acho que só poderei arranjar tempo amanhã à tarde. Até lá, revise o que estudamos hoje.
— Vossa Alteza também vai descansar agora?
— Pretendo passar a noite aqui. O senhor Malocen, volte logo ao seu quarto e descanse bem.
Após a consideração de Gizel, Rensley havia retornado ao quarto da grã-duquesa e se deitado, fazendo resoluções para o dia seguinte até o último momento. Já fazia um bom tempo. Rensley se revirou na cama inúmeras vezes, até que finalmente se ergueu desgrenhado.
Ele olhou para o relógio colocado ao lado da lareira. Embora Rensley ainda não soubesse ler as horas, podia pelo menos ter uma noção de quanto tempo havia passado observando a posição dos ponteiros.
Quando se deitara, o ponteiro pequeno apontava para o canto superior direito; agora, apontava para o canto inferior direito. Isso significava que um bom tempo já havia passado.
— Por que estou assim…?
Rensley sempre fora alguém que, mesmo quando enfrentava qualquer injustiça na vida, por mais que chorasse de raiva e tristeza até adormecer, nunca perdia o sono noturno. Hoje, ele havia usado a cabeça como nunca, então deveria ter caído no sono imediatamente de tão cansado. No entanto, de jeito nenhum conseguia pegar no sono. Não parecia que sua resistência física tivesse melhorado de repente, pois sentia cansaço, mas sua mente permanecia completamente desperta.
Além disso, ao contrário de antes, quando estava focado nos estudos com Gizel e não havia espaço para pensamentos dispersos, agora, deitado sozinho na cama, diversas lembranças que normalmente não vinham à mente ou que ele quase esquecera surgiam sem ordem. Coisas felizes, tristes, divertidas, assustadoras, que o irritaram, que o preocupavam… Tudo se misturava e envolvia sua cabeça como um redemoinho. Era a primeira vez que sentia algo assim.
— Será por causa daquele remédio?
Rensley perguntou a si mesmo, vagamente, recostado em um travesseiro grande. O grão-duque havia dito apenas que era um remédio que ajudava nos estudos, não explicou que era um remédio que causava insônia. Se fosse esse o caso, teria sido bom que ele tivesse dado pelo menos um aviso.
A inquietação nunca antes sentida, as emoções turbulentas que ondulavam como ondas, atormentavam Rensley. Ele se sentia mal. Tentou fechar os olhos e adormecer de qualquer forma, mas acabou não aguentando mais e se levantou de um salto.
Vestiu apenas um roupão de dormir e uma sobrecasaca interna de veludo, cobrindo-se com um véu. Como era noite, não deveria haver muitas pessoas circulando no primeiro andar. Na noite profunda, como se até os fantasmas estivessem dormindo, o som da porta se abrindo era assustadoramente alto. Quando ele caminhou cautelosamente pelo corredor, os guardas que estavam de plantão, conversando em voz baixa entre si, se assustaram e o saudaram.
— Vossa Alteza, a Grã-duquesa, aonde vai a esta hora da noite?
Ele saíra do quarto por impulso, mas agora estava em apuros. Rensley não podia falar. Percebeu tarde demais que havia cometido mais um ato precipitado. No entanto, os guardas não pareciam achar sua ausência de fala particularmente estranha. Como Rensley permanecia em silêncio, um deles tomou a iniciativa e disse:
— Vossa Alteza, por mais que seja dentro da torre principal, não podemos deixá-la ir sozinha à noite. Acompanharemos Vossa Alteza.
Que sorte que não perguntaram o motivo. Rensley apenas balançou a cabeça em concordância. Talvez, aos olhos dos guardas, esse comportamento tenha parecido mais imponente do que se ele tivesse tentado explicar verbalmente. Quando Rensley começou a andar novamente, os guardas com lanças o escoltaram, caminhando em ambos os lados.
— Até aqui já é suficiente.
Ao chegar em frente à porta do laboratório subterrâneo, Rensley expressou sua vontade apenas levantando a mão. Os guardas também pareceram entender imediatamente o que ele queria dizer. Com uma expressão de constrangimento, como se tivessem testemunhado uma cena embaraçosa, eles se curvaram em reverência e se retiraram.
Sozinho, Rensley finalmente hesitou. Era tarde da noite. O grão-duque poderia estar dormindo, seria apropriado entrar?
Mas se aquela insônia desconhecida era causada pelo remédio, a única pessoa que poderia resolver a situação era o grão-duque. Rensley, sem alternativa, bateu à porta.
— Quem é?
Uma voz clara, sem nenhum traço de sonolência. Rensley suspirou aliviado e lentamente puxou a maçaneta.
Pela fresta da porta entreaberta, vislumbrou-se um rosto rígido, como se estivesse descontente por ter sua solidão interrompida. Rensley, sem se intimidar, abriu a porta completamente. Quando se encararam de frente, a testa franzida e os olhos afiados do homem do outro lado se suavizaram sutilmente. Enquanto Rensley tirava o véu que o incomodava, o homem que estava sentado diante da lareira se levantou e se aproximou.
— Senhor Malocen?
— Desculpe interromper seu descanso.
— Já se passaram mais de duas horas desde que o senhor subiu para o quarto. Ainda não foi dormir?
Ao ver seu rosto, uma onda de emoção subiu inesperadamente. Como nunca havia passado por uma noite de insônia, não sabia que não conseguir dormir era tão angustiante. Inconscientemente fez uma careta, mas, percebendo o erro, rapidamente compôs a expressão.
— Assim que cheguei ao quarto, me deitei, mas não consigo dormir.
— Costuma ter dificuldade para dormir?
— Não. Na verdade, sou famoso por conseguir dormir em qualquer lugar, mesmo em lugares barulhentos como um mercado, é só deitar a cabeça que apago…
Olhando para Gizel, que parecia um pouco surpreso, Rensley fez a pergunta que o incomodava.
— Isso também é um efeito do remédio para se tornar um gênio?
— …Pode ser. Foi a primeira vez que tomou uma poção preparada com magia?
— Sim. Em Cornia, nunca…
— Parece que o efeito foi muito forte. Sente-se aqui.
Cedendo a poltrona onde estava sentado a Rensley, ele se aproximou da grande mesa onde várias poções coloridas estavam alinhadas.
— Espere um momento. Vou preparar um neutralizador imediatamente.
Em vez de se sentar na poltrona, Rensley ficou em pé, a uma curta distância, observando-o preparar a poção. Gizel misturava habilmente os ingredientes e, de vez em quando, murmurava algum encantamento. A poção opaca no frasco de vidro brilhou fracamente algumas vezes, mudando de cor a cada vez.
Durante o dia, com a tarefa impossível de terminar todos os estudos em uma semana pairando sobre sua cabeça, Rensley não havia prestado atenção adequada ao processo de preparação da poção. Os movimentos refinados e habilidosos, sem nenhum gesto inútil, pareciam conter, mesmo em um simples aceno de mão, inteligência e um tipo indescritível de beleza.
Enquanto Rensley o observava, quase hipnotizado, a poção pareceu ficar pronta, e Gizel virou a cabeça.
— Cada pessoa pode ter uma capacidade de absorção diferente, eu deveria ter observado mais de perto. Foi um erro meu.
— Não, de forma alguma. Normalmente, mesmo que eu coma algo errado, quase nunca passo mal. É uma pena que justamente a poção que Vossa Alteza preparou com as próprias mãos tenha feito esse meu corpo começar a se fazer de exigente.
— Não teve febre ou tremores nas mãos?
— Não, acho que…
A voz de Rensley se perdeu. Sem que ele percebesse, Gizel se aproximara e estava tocando sua testa com a mão.
O contato não era algo especial. No início, eles se comunicavam escrevendo com os dedos na palma da mão um do outro. E quando ele se disfarçava de grã-duquesa e saía, andavam de mãos dadas por um bom tempo. Até mesmo durante o dia de hoje. No entanto, agora, a grande palma da mão seca e sem umidade parecia estranhamente familiar. Talvez fosse porque a mão, sempre quente, estava mais fria que o normal.
Rensley fechou a boca com força e prendeu a respiração. A mão que cobria sua testa esperou um momento e depois se afastou.
— Não é grave, mas você está com uma leve febre. Parece ser mesmo um efeito colateral da poção.
— É… é mesmo?
— Não podemos prejudicar seu corpo, então tome isso rapidamente. Durma cedo, e amanhã pensaremos em outra forma.
— …Mas sem essa poção, vou falhar na prova.
— Primeiro vamos ajustar a poção.
Gizel ponderou por um momento e depois balançou a cabeça, como se tivesse se convencido sozinho.
— Se realmente for muito difícil, podemos tentar no ano que vem.
— Será que vou poder ficar aqui até lá…?
Rensley suspirou internamente, mas pareceu que o grão-duque também não tinha uma solução definitiva. Na verdade, ele mesmo disse que raramente saía de Oldenland. Por mais talentoso que fosse um mago, não seria difícil lançar uma magia perfeita contra alguém com quem nunca lidara antes? Rensley, que não entendia muito de magia, fez suas suposições dentro de suas capacidades.
A nova poção era mais amarga do que a que ele havia tomado durante o dia. Assim como quando tomou a poção que ajudava nos estudos, a princípio não sentiu nenhuma mudança, mas, esperando pacientemente, a sensação desagradável, como se espinhos estivessem eriçados em sua cabeça, começou a diminuir gradualmente. A mudança em seu estado deve ter se refletido em seu rosto, pois Gizel não perdeu tempo e perguntou.
— Como está se sentindo?
— Bem. Obrigado. Acho que agora posso dormir.
Ao ouvir que a poção tinha feito efeito, a expressão de Gizel, ao contrário, ficou um pouco séria.
— O senhor Malocen é sensível aos efeitos das poções. Isso é bom para tratamentos, mas em outras situações precisaremos ter cuidado.
— Agora que mencionou, um farmacêutico de Cornia já tinha dito algo parecido… Desculpe por não ter mencionado antes.
Com o fim da ansiedade infundada, uma sonolência logo se instalou. Agora era só voltar ao quarto e dormir, mas Rensley, por algum motivo, não conseguia se despedir facilmente. Gizel percebeu seu estado e perguntou.
— Há algum outro problema?
— Não. Não, nenhum. Vossa Alteza, obrigado. Boa noite.
Após a saudação, Rensley cobriu o rosto com o véu com movimentos desajeitados e apressados.
Já era hora de se adaptar à vida em Oldenland, mas por que, diante do grão-duque, ele só fazia se atrapalhar cada vez mais? Se disse que faria a prova de admissão como cavaleiro, deveria mostrar pelo menos um pouco de compostura em tudo.
Comparado aos movimentos graciosos que o grão-duque demonstrava, ele se sentia envergonhado. Quando estava prestes a se curvar novamente e recuar, Gizel o chamou.
— Vamos juntos até o quarto. É noite, e com o véu deve ser difícil andar.
— Sim… Obrigado.
Ele pegou a mão que lhe foi estendida descuidadamente. A temperatura corporal que se transmitia através da palma da mão também parecia mais baixa do que antes, como se ele realmente estivesse com febre.
Eles saíram pela porta do porão e subiram as escadas por onde haviam descido. O saguão vazio do primeiro andar, com o mundo adormecido, estava silencioso, e por isso os passos não muito altos de quem caminhava ao seu lado, o som dos cabelos roçando, as roupas se encontrando, tudo soava terrivelmente alto.
A noite, que quando ele andava com os guardas era apenas escuridão, agora parecia um mundo diferente. As sombras que dançavam à luz da lanterna na mão do grão-duque falavam silenciosamente com Rensley.
A sonolência acumulada começava a fazer suas pálpebras pesarem, à medida que o efeito da poção se espalhava, mas era estranho. Mesmo depois que a ansiedade se acalmou, a agitação em um canto de seu coração não cessava facilmente.
— Então, durma bem.
— Sim. Então, Vossa Alteza…
Quando Rensley hesitou, sem terminar a frase, Gizel inclinou levemente a cabeça, aproximando o rosto.
— Ainda parece que há algum problema.
— Não! É que espero que Vossa Alteza vá dormir cedo. Assim vai amanhecer. Dormir tão tarde faz mal à saúde.
— Não se preocupe. Eu também vou dormir em breve.
Em frente ao quarto, eles se despediram em voz baixa. O grão-duque se virou rapidamente, e Rensley fechou a porta sem demora. Deixando cair o véu e o casaco que tirara ao andar, ele se jogou na cama como se fosse desmaiar.
Hoje, especialmente, seu coração estava inquieto. Se dissesse que queria dormir juntos, ele certamente permitiria, mas por que não conseguiu dizer? Não sabia o motivo. Para pensar mais profundamente, o sono já estava muito próximo.
***
No dia seguinte, Rensley, que havia dormido tarde, só acordou quando o sol já estava alto no céu. Ele se lavou rapidamente e revisou o livro que havia lido no dia anterior, como o grão-duque havia ordenado. Depois de virar algumas páginas, Rensley deixou a cabeça cair sobre o livro.
Mesmo tendo estudado tudo, não sentiu a mesma facilidade de absorção do dia anterior. Não era o gênio Rensley Malocen, mas o Rensley de cabeça fraca que havia voltado. Afinal, sem aquela poção, terminar os estudos em uma semana era uma ilusão impossível.
— Sua Alteza, o Grão-duque, chegou.
A voz de um guarda veio de fora da porta do quarto, e a porta se abriu. Gizel Zibedad, tendo terminado os assuntos de governo, entrava.
Rensley, que estava rabiscando em um caderno vazio em vez de ler, com a motivação quebrada como uma asa partida, rapidamente fechou o caderno e se levantou. Gizel se aproximou, olhou para a mesa e, percebendo a situação, olhou para Rensley.
— O estudo não foi bem?
— …Parece que realmente não vou conseguir sem aquela poção.
Gizel balançou a cabeça e colocou a mão dentro da capa. Quando a mão reapareceu, segurava um pequeno frasco de poção.
— Mudei um pouco a composição. Também reduzi a quantidade, então espero que hoje não haja efeitos colaterais.
Rensley balançou a cabeça rapidamente. Na noite anterior, ele havia reclamado da insônia que sentiu pela primeira vez, mas era melhor lidar com os efeitos colaterais do que não conseguir estudar e falhar na prova que lhe deram a oportunidade de fazer.
Depois de beber a poção e esperar um pouco, a mesma sensação do dia anterior chegou. A mente ficava mais clara, o raciocínio mais rápido, e até a visão parecia mais brilhante.
— Parece que está tudo bem.
Rensley, animado, olhou para cima com um sorriso, mas Gizel, mesmo assim, não se sentou à sua frente, e sim o observou de cima, como se o examinasse.
Mesmo ao se sentar, como se tivesse tomado uma decisão, ele não se esqueceu de recomendar:
— Se aparecer algum sintoma diferente do normal, não deixe de me contar.
— Sim. Não sou bom em aguentar essas coisas, pode ficar tranquilo.
Gizel abriu um novo livro. “O Aventureiro David, Viajando até os Confins do Continente”. A palavra “aventura” fez os olhos de Rensley brilharem.
— É um livro escrito por um aventureiro? Parece interessante.
— É o diário de viagem de alguém que visitou Oldenland há muito tempo. Como organizou uma quantidade imensa de informações, muitos em Oldenland usam este livro para estudar. Como foi escrito por um estrangeiro, há erros, mas podemos corrigi-los enquanto lemos.
— Adoro romances de aventura. Vossa Alteza disse que raramente saiu de Oldenland, mas eu também nunca saí de Cornia. Por isso, sempre tive curiosidade de saber como seria viajar por este vasto continente. Desta vez, na vinda para Oldenland, viajei por um longo tempo, mas foi mais como ser transportado como uma bagagem do que uma viagem propriamente dita. Também não podia andar livremente por causa dos vigilantes. Quando Vossa Alteza se casar com uma verdadeira grã-duquesa, terei que deixar Oldenland. Nessa altura, gostaria de viajar por aí como esses aventureiros e poetas.
Gizel ouviu silenciosamente a longa história de Rensley e, enquanto abria o livro, respondeu de forma concisa:
— Mesmo que uma nova grã-duquesa chegue, o senhor Malocen não precisa partir. Não disse que queria viver como um cidadão de Oldenland? É para isso que está se preparando para esta prova.
— Claro, se isso for possível, seria o melhor! Isso mesmo. Vou me esforçar muito para conseguir a cidadania de Laudken.
Rensley pegou a caneta novamente e, com entusiasmo, olhou para o livro.
A segunda aula particular começou. O efeito da poção se manifestou normalmente, e os estudos corriam bem. Parecia que, desta vez, ele poderia se preparar para a prova sem problemas. Rensley acreditava firmemente que, finalmente, um raio de sol brilhante começava a iluminar seu futuro.
No entanto, naquela noite, Rensley sofreu não de insônia, mas de dor de cabeça, e foi forçado a procurar Gizel novamente tarde da noite.
Depois de examinar minuciosamente o estado de Rensley, Gizel ponderou seriamente e chegou a uma conclusão.
— Parece que não vai dar certo. Melhor não usar a poção.
— E a prova?
— Vamos tentar sem a poção primeiro. Como eu disse ontem, mesmo que você não passe, a prova de admissão será realizada novamente no próximo ano.
Com essas palavras, Rensley não respondeu prontamente, hesitando. Gizel, que estava preparando um novo neutralizante para aliviar a dor de cabeça de Rensley, também sentiu o desconforto do silêncio e olhou para ele com um olhar que perguntava o que havia de errado.
Rensley finalmente abriu a boca com cautela.
— Se eu falhar na prova de admissão, poderei ficar aqui até o próximo ano…?
— ……
— Naquela época, o comandante da ordem de cavaleiros e o grão-mago disseram que o casamento seria mantido por alguns meses apenas para fingir, e depois encontrariam um motivo para depor a grã-duquesa. A partir de então, eu viveria longe de Laudken, e quando Vossa Alteza se casasse com uma verdadeira grã-duquesa, tudo se normalizaria sem problemas…
Sempre havia um jeito de criar uma desculpa. Como já haviam espalhado o boato de que a saúde da grã-duquesa estava muito debilitada, poderiam dizer que ela teve que partir para longe em busca de recuperação, já que não podia mais viver em Oldenland. Em um caso mais extremo, mas mais seguro, poderiam até realizar um funeral falso.
Se a notícia de que o bastardo enviado para as terras do norte havia morrido de doença chegasse a Cornia, mesmo que tarde, para eles seria uma sorte, e para Rensley significaria obter a liberdade sem mais preocupações.
Também poderiam pedir o divórcio questionando sua conduta. Os casamentos reais eram geralmente por motivos políticos, e, pela mesma razão, não era incomum repetir divórcios e novos casamentos. Embora houvesse a condição de obter o consentimento da igreja e a permissão do imperador, o divórcio geralmente era facilmente concedido se houvesse uma justificativa razoável.
Gizel também não respondeu imediatamente à história de Rensley. Parecia se concentrar em preparar o novo neutralizante por um tempo, e só depois de terminá-lo deu uma resposta à pergunta de Rensley.
— A decisão sobre o que fazer com o senhor Malocen não será de outros, mas minha.
— ……
— Você é meu convidado, aquele que eu recebi. Como eu disse desde o início, se o senhor confiar e se apoiar em mim, eu também farei o meu melhor.
Rensley não conseguiu levantar os olhos. Nunca duvidara da autoridade de Gizel como soberano, mas sentiu que havia cometido um deslize. Inclinou a cabeça rapidamente.
— Perdoe-me, Vossa Alteza. Parece que disse algo desnecessário. Nunca duvidei de Vossa Alteza. Se não sei agradecer pela generosidade que me foi concedida e falo coisas superficiais, peço que entenda como sendo a natureza de um bastardo de baixo nascimento…
— Levante a cabeça. Não fique se curvando assim.
O tom firme lembrava as imponentes muralhas de Laudken. Rensley não insistiu e se endireitou.
Em vez de estender a poção, Gizel olhou para ele em silêncio. Sem conseguir adivinhar o que estava pensando, Rensley encolheu-se discretamente.
Era a pessoa que o acolhera mesmo depois de ter sido enganado por um embuste que não era diferente de um insulto a um rei estrangeiro. Sempre gentil e educado, e que abriria as portas para ele em uma prova já encerrada. Por que ele se tornava tão difícil de entender tão rapidamente? Na verdade, Rensley sabia o motivo.
A vida de Rensley Malocen estava em suas mãos, e esse fato não mudava. Mesmo diante de um mestre bondoso, um escravo se prostra. É uma situação em que se é deixado à mercê, com a tácita sugestão de que podem matar ou deixar viver, curvar ou quebrar. Um capricho de sua parte, e o destino de Rensley poderia desabar a qualquer momento e lugar.
— Desculpe-me.
Sem mais o que dizer, Rensley pediu desculpas brevemente. Gizel não disse nada.
A mão segurando o frasco de vidro se aproximou. Ele esperou Rensley terminar de beber a poção, recolheu o frasco vazio e, após um momento de silêncio, falou.
— Em Cornia também era sempre assim?
— Hã?
— Você sempre se curvou tão facilmente diante dos outros? Por mais que seja bastardo, o senhor Malocen ainda é filho de um rei.
— Ah, não. Não era bem assim…
Para ser honesto, às vezes era.
Não era do tipo que insistia em manter o próprio orgulho diante de pessoas que só se importavam em afirmar seu próprio status. Quando criança, ele também teimava por se sentir injustiçado, mas aprendeu com o tempo que isso só tornava tudo mais difícil e cansativo para todos.
Se necessário, ele se curvava diante deles quantas vezes fosse preciso. Depois, bebia com os amigos e zombava da vaidade vazia da realeza e da nobreza, e, ao acordar no dia seguinte, as coisas desagradáveis do dia anterior já estavam longe, como se fossem problemas de outra pessoa.
Mas, como o grão-duque dissera, ele também era filho de um rei. Ele só se curvava por hábito diante das mesmas pessoas da realeza, especialmente o príncipe herdeiro, famoso por sua crueldade, e alguns de seus assessores próximos. Rensley Malocen não era alguém que se diminuía facilmente diante dos outros.
Ele havia sido escolhido como noiva substituta, um bode expiatório, em vez de Yvette. Durante a longa jornada até Oldenland, pensamentos que fluíram sem que ele percebesse haviam se instalado em algum lugar profundo de seu coração. Rensley hesitou e então abriu a boca.
— …Como Vossa Alteza disse, também sou membro da família real. Mesmo que não possa ser igual aos filhos legítimos, achei que essa vida não era tão ruim. Não poder fazer o que queria não parecia grande coisa. Há tantas pessoas no mundo que se preocupam em ganhar a vida; de qualquer forma, não precisava me preocupar com fome ou com onde dormir, então isso já não era uma vida abençoada? Eu achava que, com isso, o rei de Cornia já havia feito o que podia como pai.
A voz de Rensley foi diminuindo, como se estivesse falando sozinho. Gizel observou seu rosto, que, ao contrário do normal, se tornava sombrio e escuro, sem desviar o olhar por um instante.
— Eu só pensava assim, mas se eu realmente era alguém que podia morrer… nem eu mesmo sabia…
Após terminar de falar, ele ficou distante por um momento, como se tivesse esquecido o ambiente ao redor. Quando Gizel, que hesitava em silêncio, como se ponderasse o que dizer, estendeu lentamente a mão, Rensley balançou a cabeça com um sobressalto. Gizel rapidamente retirou a mão que havia estendido. Rensley abriu bem os olhos e se aproximou dele. Em sua expressão, uma determinação resoluta, como a de um general prestes a ir para a batalha, se instalou novamente.
— Vou tomar cuidado. Acho que minha confiança caiu porque fui pego em uma armadilha que nem sequer imaginei. Alguém que vai fazer a prova de cavaleiro não pode agir assim.
— Sim.
— Mesmo sem magia, vou me esforçar ao máximo para me preparar. Afinal, essa era a minha intenção desde o início! Não vou mais reclamar.
— Sim. Está bem.
Pareceu que Gizel sorriu levemente ao responder, mas também podia ser impressão dele. Hoje também, Rensley teve que usar o véu, e a noite estava escura. Ao acompanhá-lo até a porta do quarto da grã-duquesa, Gizel verificou pela última vez.
— A dor de cabeça está melhor?
Rensley balançou a cabeça. Se era porque ele realmente tinha uma constituição que respondia bem aos remédios, ou se a poção que Gizel preparou era excepcionalmente eficaz, a dor de cabeça já havia desaparecido completamente.
***
Foram apenas dois dias usando o poder da magia. Depois disso, confiando apenas no cérebro comum de Rensley e em sua força de vontade, talvez excepcional, a semana passou num piscar de olhos.
Infelizmente, a capacidade de aprendizado sobre-humana que ele tivera ao tomar a poção do gênio não se manifestou novamente, mas Rensley fez o seu melhor. Seu mestre, Gizel Zibedad, também não faltou um único dia, compartilhando as horas difíceis até a meia-noite.
No dia da prova, Rensley acordou cedo e tomou um banho completo. Para manter a energia e se concentrar durante a longa prova, ele comeu até a comida sem graça, limpando o prato. Tendo comido continuamente, agora a comida de Oldenland começava a parecer palatável.
O local da prova era o quarto da grã-duquesa. Originalmente, a prova era realizada na capela do castelo, mas hoje, para não chamar a atenção, foi decidido que a prova especial seria no quarto.
Depois do café da manhã, ele arrumou o ambiente. Abriu todas as portas de madeira das janelas para deixar a luz entrar e, enfrentando o frio, arejou o quarto por um momento.
Terminados os preparativos, Rensley tentou puxar a corda pendurada ao lado da cama. Ao puxar essa corda, hoje, não seria a senhora Samlit, mas o comandante da ordem de cavaleiros que viria.
Toc, toc. Alguém bateu à porta. Antes que Rensley respondesse, a porta se abriu, e o homem que ele esperava ver apareceu. Rensley andou rapidamente em direção à porta, quase correndo.
— Vossa Alteza, não é a hora da reunião oficial?
— Vou agora mesmo. Ainda não começou, não é?
— Sim.
— Mantenha a calma. Você se esforçou muito, com certeza vai passar.
A expressão de Gizel Zibedad era sempre uma linha reta, sem curvas, como uma planície silenciosa onde nem um sopro de vento soprava.
Hoje também era assim, mas apenas seus olhos estavam suaves. Rensley, que agora conseguia distinguir cada pequena diferença em seu rosto, sentiu-se realmente seu discípulo e sorriu amplamente.
— Isso mesmo. Talvez o milagre de passar em uma semana realmente aconteça.
A perspectiva otimista e infundada aqueceu seu coração, e de repente um impulso brincalhão se agitou.
— Vossa Alteza, poderia me dar a mão por um momento?
Gizel apenas ergueu ligeiramente a sobrancelha, como se não entendesse o motivo, mas estendeu a mão obedientemente. Rensley pigarreou e, depois de muito tempo, colocou o dedo na palma da mão dele. Para mostrar sua sinceridade, escreveu com o dedo lentamente:
<Com certeza vou passar e retribuirei sua ajuda, mestre.>
— Haha.
Rensley arregalou os olhos de surpresa. Desta vez, não havia dúvida de se era real ou imaginação. Embora por um breve instante, o grão-duque riu em voz alta.
E, mesmo depois daquele breve riso, um vestígio de sorriso permanecia em seu rosto. Para Rensley, que havia provocado primeiro e agora apenas piscava os olhos surpreso, ele respondeu:
— Sim. Eu também vou torcer.
— S-sim!
Rensley respondeu desajeitadamente.
A hora da reunião oficial se aproximava. Depois de uma breve despedida, o grão-duque se dirigiu ao escritório. Mesmo depois de fechar a porta, Rensley continuou andando nas nuvens, como se flutuasse sobre bolhas de sabão.
— Ele é realmente bonito. Eu já sabia, mas quando ele sorri assim, é realmente um homem incrivelmente belo.
Para esfriar o rosto quente, Rensley esfregou as bochechas com as mãos várias vezes. Mesmo assim, ele se sentiu absurdo consigo mesmo. Por que seu rosto ficaria vermelho só porque outro homem é bonito ou não? Com certeza, por não ter convivido com pessoas ultimamente, alguma parte de sua mente estava começando a dar pequenos problemas.
— Assim que eu passar, serei um homem livre. Embora não seja tão bonito quanto Vossa Alteza, também não sou feio, certo? Quem sabe não aparecerão belas donzelas se declarando para o valente e belo cavaleiro Rensley Malocen? Vamos nos concentrar, a partir de agora, só penso na prova.
Ufa. Rensley respirou fundo e segurou a corda comprida. Nesse momento, ao levantar o pulso, um brilho cintilou.
Era dourado, como uma pulseira. Rensley, que não usava nenhum adereço, franziu a testa e examinou o próprio pulso.
— O que é isso?
O raio de luz, que brilhou brevemente como a luz do sol refletida em um espelho, desapareceu no instante seguinte. Olhou para fora da janela, mas ainda era cedo para o sol entrar com força.
Por mais que girasse o pulso para um lado e para o outro, a luz não reapareceu, talvez tivesse sido uma ilusão de ótica. Mesmo que tivesse visto errado, não seria um bom presságio? Rensley deu de ombros e puxou a corda com força.
Como não conseguia se acalmar, ficava andando de um lado para o outro em frente à mesa, quando ouviu passos se aproximando. Por ter passado um tempo confinado no quarto, quase sem ver ninguém, ele estava sensível a sons de pessoas.
A senhora Samlit, a camareira-mor, tinha um andar leve e alegre. O grão-duque se movia quase sem fazer barulho. O comandante da ordem de cavaleiros tinha uma passada larga e imponente. Rensley ficou em posição de sentido, esperando o homem que poderia se tornar seu superior.
— Bom dia, senhor Malocen.
— Dormiu bem, comandante?
Assim que a porta se escancarou, o homem que o cumprimentou educadamente estava, por ser o fiscal da prova, diferente da última vez que se encontraram, vestido de forma mais leve. Sem a armadura de metal, usava apenas uma armadura de couro simples sobre a camisa. Em suas mãos, algumas folhas de papel e um pequeno relógio de bolso.
Uma prova escrita. Fazia muito tempo, desde os treze anos, que não sentia essa sensação. Durante as provas, até os filhos arrogantes da família real de Cornia ficavam tensos e esperavam os professores em silêncio.
Lembrou-se da sala de aula com um cheiro levemente mofado por causa dos muitos livros, do professor real que distribuía as provas com o rosto severo, da atmosfera particularmente silenciosa e rígida que só se sentia antes das provas. Embora nunca tivesse gostado daquele momento, talvez fosse porque tudo aquilo agora pertencia a um lugar para onde nunca mais poderia voltar. Uma estranha nostalgia ameaçava surgir.
— Como está seu estado? Não há problemas para fazer a prova?
— Sim. Nenhum problema.
— Sente-se. Por ser uma prova individual, pode ficar mais nervoso, mas, por outro lado, é um privilégio fazê-la em um ambiente confortável.
Bem que eu sei. Rensley balançou a cabeça e se sentou à mesa. Respirou fundo e recitou mentalmente os conhecimentos que havia memorizado até o dia anterior. Nunca em sua vida havia se esforçado tanto para estudar.
Tentar passar em uma prova para a qual as pessoas se preparam por um ano, estudando apenas uma semana. Mesmo agora, parecia um absurdo. Se fosse a história de outra pessoa, talvez tivesse rido com desdém.
Mas o simples fato de ter se esforçado apaixonadamente por um objetivo já o deixava orgulhoso. Para Rensley, que nunca havia recebido uma oportunidade, o próprio tempo em que pôde fazer isso era valioso. E ainda mais com alguém que o ajudou e apoiou com todo o coração.
Anton, que observava o relógio, finalmente se moveu. Com um leve ruído, a prova foi colocada à sua frente.
— Pode começar.
Rensley pegou a caneta rapidamente. Começou a ler a primeira questão rapidamente.
A primeira questão era sobre o brasão da família real de Oldenland. O padrão de uma besta prateada, bordada na capa que o grão-duque usava com frequência. Não, a princípio ele pensou que fosse uma besta, mas na verdade era a representação de uma besta mágica fantástica, não uma ave. Uma besta que não existe na realidade, com asas em animais como lobos ou leões.
A questão perguntava sobre o significado do brasão, o número de penas das asas, e a forma dos chifres, dentes e garras. É importante memorizar com precisão os símbolos das forças pertencentes a soldados ou cavaleiros.
— O brasão de Oldenland é uma representação da besta mágica que apenas o rei pode invocar.
— Besta de invocação? Então Vossa Alteza também pode invocar bestas mágicas?
— Claro. Mas é uma magia permitida apenas quando necessário. É perigosa e não é usada a menos que seja para repelir invasões inimigas.
Lembrando-se da conversa com Gizel, Rensley resolveu calmamente a primeira questão. Se o nível de dificuldade continuasse assim, seria realmente uma bênção…
A próxima questão era sobre a Batalha da Muralha que ocorreu em Oldenland cerca de cinquenta anos atrás e a estratégia principal utilizada na época. Rensley respirou fundo e se concentrou. Na história de Oldenland, as batalhas na muralha eram muito frequentes, e a cada vez o cenário mudava um pouco, tornando a memorização bastante difícil. Mas…
Rensley escreveu as respostas com facilidade. Ao passar para a próxima questão, e para a seguinte, não encontrou nenhum obstáculo que o impedisse.
Surpreendentemente, o conteúdo dos livros que havia lido estava perfeitamente armazenado em sua mente, e ele só precisava recuperá-lo e colocá-lo no lugar certo.
A expressão de Anton, que supervisionava a prova com olhos afiados, endureceu de surpresa. A testa de Rensley também se franziu lentamente.
— Que estranho. Será que eu realmente me tornei um gênio?
Talvez… Rensley Malocen fosse, na verdade, originalmente um gênio inteligente? Desde criança, ele odiava as aulas e achava que não era bom nos estudos, mas a aula particular que durou uma semana, embora fosse cansativa, sempre foi agradável. Ele não enrolou nem foi preguiçoso; fez o melhor que pôde dentro do tempo dado, sem se arrepender. Depois de tomar a poção mágica por dois dias, ele nem a provou novamente. Portanto, esse era o resultado apenas do esforço de Rensley.
Talvez ele tivesse talento para os estudos, mas achava que não tinha. Talvez só não tivesse florescido por não ter um bom professor. Sua expressão, ligeiramente franzida, se iluminou como uma flor que desabrocha. Sorrindo alegremente, ele escreveu as respostas mais rapidamente. O pressentimento era bom.
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↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna