Capítulo 05
ᥫ᭡. Capítulo 05
Ele ouviu dizer que o Sistema de Traços havia sido estabelecido no exterior há muito tempo, mas, na Coreia, esse fenômeno só havia surgido cerca de 80 anos atrás. O Traço não se espalhou pelo mundo simultaneamente, manifestando-se de formas diferentes em cada lugar. Países do Leste Asiático, como a Coreia, estavam no lado mais tardio, e ele ouvira que ainda havia países sem o Traço.
A razão exata pela qual a humanidade havia desenvolvido Traços além do sexo ainda estava sob investigação, mas nenhuma causa clara havia sido encontrada. Existem apenas algumas deduções baseadas em pesquisas sobre hormônios ambientais ou razões evolutivas.
Como resultado, a Coreia e seus países vizinhos estavam num estágio em que a pesquisa sobre Traços estava apenas começando, e a maior parte da educação era baseada em conhecimento do exterior. Na época em que Dojin nasceu, os Traços já eram tidos como certos, então ele os havia aceitado como uma parte natural da vida.
No entanto, ele não tinha memória de ter ouvido falar de um Alfa Dominante durante o ensino fundamental ou o ensino médio. Alfa, Beta, Ômega. Haviam ensinado que aquilo era a totalidade do sistema de Traços.
Ele procurou o celular para pesquisar e, de repente, se lembrou de que o havia perdido no local da briga no dia anterior. Era mais do que natural que tivesse deixado o celular cair enquanto rolava e brigava.
“Ah, que droga.” Não tinha dinheiro para comprar um celular novo, e o pensamento das mensagens que Doyeon devia ter enviado o fez se levantar às pressas. Ele havia dormido sem trocar de roupa e, justo quando estava prestes a sair disparado pela porta, ouviu uma batida.
— Sr. Jin Dojin, o senhor está acordado?
Era uma voz familiar. O homem de meia-idade, cuja voz ele já ouvira mais do que o suficiente na noite anterior.
— …Sim.
— Se não se importar, posso entrar?
— Não, eu vou sair.
De qualquer forma, não era o quarto dele, então Dojin abriu a porta com força. Um homem elegante, usando um terno de verão, estava ali, com um sorriso radiante no rosto. Visto à luz do dia, ele parecia uma pessoa gentil saída de um livro didático. Embora, por dentro, ele fosse tudo, menos isso.
— Descansou bem ontem? Você ganhou um arranhão nesse rosto bonito.
Dojin se lembrou da sensação de inquietação que vinha sentindo. O homem estava sendo excessivamente educado. Com um olhar cauteloso, ele fez um pedido.
— Por favor, fale à vontade, chefe.
Quando proferiu o título que havia escutado, o homem soltou uma gargalhada.
— Estou fazendo isso porque me sinto mal por todos os erros que cometi ontem, então não se importe comigo. Você deve estar com fome; por isso, vim mostrar onde tomar o café da manhã. O refeitório fica no segundo andar.
— …Hã, o senhor não precisa fazer tudo isso. Eu vou aos aposentos e pego algo por conta própria.
A julgar pelas palavras do homem, parecia que ele não havia sido demitido. Checou discretamente o relógio, eram 10 horas da manhã. Parecia que ele já estava bem e verdadeiramente atrasado, e a preocupação começou a se instalar. Naquele momento, o homem disse algo inesperado:
— Não, a partir de hoje, Sr. Dojin, você vai ficar ao lado do Sayoon-nim.
Diante da ordem repentina, Dojin não conseguiu controlar a expressão. Antes de dormir, ele havia considerado várias coisas que poderiam acontecer naquele dia, mas nunca havia imaginado o que acabara de ouvir.
— Não sei se sou qualificado para isso. Como o senhor sabe, sou um substituto, então não tenho as habilidades para esse tipo de defesa pessoal.
Ele não desgostava de Yoon-young, mas não queria se envolver em mais assuntos problemáticos. Depois de uma boa noite de sono, sua cabeça havia clareado. Ele sentia fortemente que havia ultrapassado seus limites no dia anterior.
Embora tivesse conseguido revidar de alguma forma, ele enfrentou o momento mais perigoso de sua vida. Se Yoon-young não tivesse interferido, ele poderia ter sido esfaqueado. E, mesmo que tivesse fugido, não havia como pessoas daquele nível não o encontrarem.
E se Doyeon ou seus tios fossem prejudicados? Ele podia lidar com o fato de estar em perigo, mas não podia deixar sua família se meter em apuros.
Então, de agora em diante, ele deixaria as coisas como estavam, como sempre fazia, e estava determinado a nunca mais ser um enxerido. Se dependesse dele, largaria o emprego, mas largar o trabalho no meio também criaria problemas. Por isso, só queria fazer o que originalmente deveria fazer.
“Será que eu deveria só ter fingido não ver nada?”
Voltando ao começo de tudo, Dojin pensou brevemente que talvez tivesse sido mais vantajoso ter fingido não ver Yoon-young mesmo depois de tê-lo avistado.
Porém, a lembrança das pequenas coisas que aconteceram depois que ele encontrou Yoon-young, as palavras que o garoto deixara escapar na noite anterior e o olhar triste que ele viu no carro, trouxeram uma pontada de culpa. Ele se sentiu excepcionalmente egoísta por se arrepender de ter ajudado o garoto.
“Ugh, não. Não vamos remoer o que já passou. No fim das contas, nada de grave aconteceu, certo?”
Tendo chegado a uma conclusão, Dojin abaixou levemente a cabeça, evitando o olhar do homem de meia-idade. Ao ouvir a recusa de Dojin, o homem ficou em silêncio por alguns segundos antes de perguntar suavemente:
— Quanto é a sua diária agora, Sr. Dojin? Uns 300 mil wones? Acho que mandei contratarem alguém nessa faixa.
Diante da menção de dinheiro, ele teve um sobressalto e ergueu a cabeça. Então, o homem sorriu abertamente.
— Vou dobrar para você. Então, fique ao lado do Sayoon-nim. Na verdade, é mais fácil que o seu trabalho original. É claro que haverá uma troca de turno à noite e você não terá que ficar de pé lá fora o dia inteiro, só precisa ficar perto do Sayoon-nim lá dentro. Quando ele sair, outro funcionário será designado, então não terá que protegê-lo sozinho.
As condições oferecidas pelo homem eram maldosamente tentadoras. Não ter que sair no calor era uma coisa, mas, acima de tudo, o dinheiro o deixou balançado.
Uma diária de 600 mil wones renderia mais de 50 milhões em três meses. Esse dinheiro seria mais do que suficiente para cobrir a mensalidade e as taxas universitárias de Doyeon. Com isso resolvido, Dojin não teria que se desdobrar em qualquer trabalho que conseguisse, desde o braçal até o serviço de segurança.
Dinheiro é tudo neste mundo. Podem existir valores maiores, mas, sem dinheiro, você não consegue viver.
Diante dessa verdade óbvia, Dojin ficou seriamente abalado. Para alguém que havia vivido a vida toda na pobreza, não havia tentação maior do que uma grande quantia de dinheiro.
“Mas… não faz sentido se eu morrer. Qual é o sentido se eu bater as botas antes mesmo de conseguir o pagamento?”
Dojin precisava de uma rede de segurança. Yoon-young havia usado um truque estranho no dia anterior, mas aquilo foi um golpe de sorte único, que não se repetiria. Ele não queria depender de um garoto, e precisar do poder de outra pessoa só o deixaria mais ansioso.
— O senhor não pode pedir isso a outra pessoa?
Dojin decidiu testar o quão útil ele era para o homem. Na verdade, também se perguntava por que, dentre tantas pessoas, ele havia sido o escolhido.
— Atualmente, entre os funcionários, o Sr. Jin Dojin é o que mais se aproxima da idade do Sayoon-nim. Como não há muito o que fazer no interior e o Sayoon-nim não gosta de computadores ou consoles de videogame, parece uma boa ideia tê-lo por perto. Mente sã, corpo são, não é mesmo?
— Então, que tal trazer alguém parecido…?
Como se percebesse que Dojin o estava testando, o sorriso do homem enfraqueceu levemente. Sem o sorriso, seus olhos eram de um preto profundo, dando a sensação de que podiam ver através de uma pessoa.
— Sr. Jin Dojin.
— Sim?
— O que você viu ontem é algo que apenas um número muito pequeno de pessoas deve saber. Ao menos até que o Sayoon-nim desperte completamente e reine sobre os outros. O Presidente não deseja que mais ninguém saiba sobre o assunto. — O sorriso voltou ao rosto dele. — Então, diga suas condições. Contanto que não sejam excessivas, eu as concederei.
Ele não sabia a razão exata, mas o homem queria que Dojin ficasse. O que ele havia dito antes era seu raciocínio, mas claramente havia outra razão além da superficial. “Nesse caso, ele provavelmente vai aceitar minhas exigências até certo ponto.”
— Aquele tal de Kim Seokju e o senhor, chefe, vocês dois passam um ar de que não se importariam se alguém morresse.
Diante das palavras de Dojin, o homem engoliu uma risada. Embora não tenha sido uma negação nem uma afirmação, era um sinal claro de confirmação.
— Não quero morrer. Espero que algo como o de ontem não aconteça de novo, e quero que o senhor me deixe ir embora quando esse trabalho acabar. Tenho certeza de que, se o senhor quisesse, seria fácil para o senhor se livrar de alguém como eu. Ainda assim, preciso de uma promessa.
O homem ouviu em silêncio as palavras de Dojin antes de assentir. Então ele olhou para cima e chamou:
— Madame Ju, poderia trazer o terno que pedi mais cedo?
De longe, um “sim” ecoou. Enquanto Dojin observava, franzindo a testa, o homem sorriu radiante. Aquele sorriso parecia ser um hábito, como se fosse uma máscara para esconder o que ele guardava por dentro. Era como uma máscara que ele não conseguia tirar.
— O Sayoon-nim não gostaria disso de qualquer forma. Você vai sair daqui com as suas próprias pernas, então estarei em suas mãos durante o verão.
— Por favor, deposite a diária todos os dias.
— Haha. — O homem assentiu. Então, ele estendeu a mão para Dojin. — Eu sou Park Hyun-bae. Você pode me chamar de Chefe Park ou Sr. Park. O que for mais confortável para você.
— …Eu sou Jin Dojin.
Dojin apertou a mão de Park Hyun-bae. Sentindo-se inquieto com a leve ameaça que acabara de demonstrar, ele curvou a cintura respeitosamente. A risada que ressoou acima de sua cabeça era tão morna quanto a mão de Hyun-bae — nem fria, nem quente.
︶꒦꒷♡꒷꒦︶
Antes de encontrar Yoon-young, ele fez um reconhecimento da mansão. Precisava conhecer a planta do local e se preparar para quaisquer circunstâncias imprevistas. Com a ajuda da mulher chamada Madame Ju, ele percorreu a mansão.
Depois de trocar de roupa, tomar banho e até comer o café da manhã, ele se sentiu um pouco mais à vontade. Embora tivesse lidado com tudo calmamente, Dojin era apenas um garoto de vinte e três anos. Parecia que ele havia ficado mais assustado com os acontecimentos do dia anterior do que havia percebido.
À medida que a tensão diminuía, pensou que devia ir checar Yoon-young. Ele se sentia desconfortável por ter, sem querer, interferido na vida privada do garoto na noite anterior, mas não podia evitar. O Chefe Park havia lhe pedido para ser o companheiro de brincadeiras de Sayoon-nim, e seu horário de trabalho ia da manhã até a hora do jantar. Seu coração estava agitado por ter se tornado, de repente, uma babá em vez de um guarda-costas.
O quarto de Yoon-young ficava no terceiro andar. Dojin estalou a língua, admirado com a casa de campo de três andares da família dele.
Porém, a admiração não durou muito. Afinal, mesmo com todo aquele dinheiro, Yoon-young, que vivia lá dentro, parecia muito infeliz. A imagem dos olhos sem vida do garoto e de seus ombros sombriamente caídos se sobrepôs na mente de Dojin. Uma sensação áspera se instalou num canto de seu coração.
“Não pense demais. Só faça o papel de babá, como foi ordenado.” Afastando os pensamentos perturbadores, Dojin pigarreou e parou diante da porta.
Toc, toc.
Ele bateu e esperou, mas não houve resposta. “Será que ele não está aí dentro? Mas o Chefe Park havia dito com certeza que ele subiu depois do café da manhã. Ninguém o viu sair, então devia estar no quarto.”
No entanto, devido ao seu histórico de fuga do dia anterior, um pressentimento lentamente se insinuou em sua mente. Ele bateu mais uma vez e, quando não houve resposta, Dojin finalmente girou a maçaneta.
Clic.
Estava trancado. Dojin, que estava prestes a forçar a porta, sentiu que poderia quebrar a maçaneta e chamou Yoon-young da forma mais afetuosa e brincalhona, como faria com a irmã.
— Sayoon-nim, ainda está dormindo? Não achei que você fosse um dorminhoco.
Assim que a voz de Dojin ressoou, houve um sinal de movimento lá dentro. Um som de farfalhar ecoou, seguido pelo tap-tap de passos.
“Hmm, parece que ele não fugiu. Que alívio. Pelo menos mais ninguém vai apanhar como eu.” Enquanto pensava nisso e esperava, a porta se abriu com força.
— …Moço, você não foi embora?
A pergunta que Yoon-young lhe atirou assim que abriu a porta foi bem indelicada. Dojin deliberadamente colocou uma expressão magoada no rosto, abaixou levemente a cabeça e olhou nos olhos de Yoon-young.
— Você queria que eu tivesse ido embora?
Conforme seus rostos se aproximavam, os olhos se encontraram. A energia feroz e faiscante da noite anterior havia sumido, e seus bonitos olhos castanhos se arregalaram. Agora que ele olhava, notou que os cantos de seus olhos estavam avermelhados, como se ele tivesse chorado sozinho. A imagem triste do dia anterior se sobrepôs àquela. Lembrando-se de como Yoon-young havia falado casualmente sobre a morte, Dojin ficou preocupado de repente.
“Ele não está pensando em fazer algo estranho, não é?”
Tinha acabado de decidir manter distância, mas ver Yoon-young chorando fez seu coração amolecer. Realmente não seria certo ignorá-lo por completo. Ele não tinha intenção de se aproximar, mas, como cuidar de Yoon-young era sua missão para o verão, precisava saber um pouco sobre a pessoa que estava protegendo.
“Moderadamente. Só mantenha uma distância moderada.” Tendo tomado sua decisão, Dojin observou Yoon-young com cuidado e perguntou:
— Você andou chorando, Sayoon-nim. O que houve?
— Eu não… chorei. Sou uma criança por acaso?
— Para alguém que diz isso, os cantos dos seus olhos estão vermelhos.
Dojin estendeu a mão e tocou gentilmente o canto do olho de Yoon-young com o dedo indicador. Foi um gesto inconsciente. Quando Doyeon chorava por causa de suas travessuras na infância, ele se sentia culpado e esfregava os cantos dos olhos dela, e aquele hábito havia surgido de repente.
— O-o que você está fazendo?
Ele não havia pensado muito em sua própria ação, mas a reação do outro foi diferente. Assim que o dedo de Dojin tocou o canto do olho de Yoon-young, ele teve um sobressalto de surpresa e virou a cabeça bruscamente. Um vinco se formou em sua bonita sobrancelha, e os lóbulos de suas orelhas adquiriram um tom vermelho-vivo.
Embora o contato fosse muito íntimo, Dojin não esperava que Yoon-young se surpreendesse tanto, por isso, deu um passo desajeitado para trás.
“…A pele dele é mais macia que a de uma garota?”
Talvez por causa da reação de Yoon-young, o humor de Dojin também mudou de repente. A textura suave e macia deixada na ponta do dedo não parecia a de um garoto. Ao ver o rosto de Yoon-young de perto, sem nenhum traço de barba, Dojin ficou impressionado novamente com quão delicado ele era.
Ao se dar conta dessa diferença, Dojin também se sentiu um pouco desajeitado. Ele achou que era bobagem se importar com esse tipo de coisa entre dois Alfas, mas a aparência de Yoon-young era tão bonita que ele se sentiu como se tivesse assediado um Ômega. Bem, Alfas tendiam a sentir repulsa só por estarem no mesmo espaço, portanto, a reação de Yoon-young não era tão incomum.
— Ah, desculpe. Você não gostou? É meio nojento entre Alfas, né?
Diante do pedido de desculpas de Dojin, Yoon-young lentamente virou a cabeça para encontrar seu olhar de novo. Ele mordiscou o lábio antes de finalmente sussurrar, com a voz rouca:
— …Não é isso, mas só se deve tocar o rosto de alguém se estiver namorando.
— Como?
Ao ouvir aquilo pela primeira vez, Dojin soltou um som de perplexidade. Embora só o conhecesse há apenas um dia, Yoon-young era realmente um garoto imprevisível. Aquilo não era algo que se esperaria ouvir de um adolescente de sangue quente…
— Você vai à igreja, Sayoon-nim?
Se ele fosse um crente devoto, aquilo seria outra história. Dojin fez uma inferência razoavelmente lógica.
— Por que eu iria a um lugar desses? Não acredito em coisas como religião. Só acrescenta mais regras a serem seguidas.
No entanto, tudo o que ele recebeu de volta foi um olhar severo de Yoon-young. Ele estava tão frio que sua aparência inocente de um momento atrás parecia uma miragem.
— Então, de onde veio essa ideia tão estranha? O que namorar tem a ver com tocar o rosto de alguém?
— É íntimo demais. Você tem que estar num relacionamento para tocar alguém.
Sua filosofia era tão firme. Ao ouvi-lo, Dojin ficou estranhamente quase convencido. Porém, por mais que ele olhasse, essa era uma forma conservadora de pensar para se viver nos dias de hoje. Para começar, infelizmente, os Alfas e Ômegas não tinham um Ciclo de Cio que vinha periodicamente?
A forma de resolver um Ciclo de Cio era similar à de um animal — encontrando um parceiro do Traço oposto. Apesar de a medicina ter avançado, permitindo passar por ele de algum jeito, ainda havia limites.
Suprimir à força um fenômeno corporal natural significava que o uso prolongado de Supressores levaria a efeitos colaterais. Os Feromônios agiam de forma diferente para cada pessoa, portanto os efeitos colaterais e o Ciclo de Cio variavam, mas o princípio era geralmente o mesmo.
Além disso, os Supressores eram caros. Como não eram considerados medicamentos essenciais, não eram cobertos pelo plano de saúde e, com poucos desenvolvedores, o preço unitário era alto.
Por isso, Dojin evitava tomar Supressores o máximo possível. Quando era suportável, ele aguentava. Quando não era, encontrava um parceiro adequado. Geralmente, uma Ômega mulher. Homens eram ocasionais, apenas quando, por acaso, eram do seu tipo.
— Pela sua lógica, Sayoon-nim, como planeja lidar com o seu Rut? Você vai virar adulto algum dia e, ao contrário de quando se é adolescente, seu Rut virá periodicamente. Só os Supressores não bastarão para resolvê-lo. — Embora perguntasse, Dojin rapidamente encontrou a resposta por si só. — Ah, com um rosto como o seu, Sayoon-nim, seria difícil não ter alguém.
Ele havia feito uma pergunta idiota. Yoon-young era excessivamente belo, uma aparência que conceitualmente combinava mais com um Ômega do que com um Alfa. No entanto, numa inspeção mais atenta, era possível notar que ele tinha muitos traços masculinos. Só com aquele rosto, namorar um Ômega seria moleza.
— Eu… a menos que seja alguém com quem eu vá me casar, não vou namorar.
Mais uma vez, Yoon-young lindamente desafiou as expectativas de Dojin. Enquanto os olhos de Dojin se arregalavam, Yoon-young virou as costas abruptamente, como se não quisesse mais falar.
— Você não ia entrar?
Deixando a porta aberta, Yoon-young entrou no quarto. Dojin o seguiu rapidamente, perguntando maravilhado.
— Sayoon-nim, você fala que nem um frequentador de igreja. É castidade pré-casamento ou algo assim?
Os vigorosos Alfas que Dojin havia visto estavam todos desesperados para namorar ou aproveitar o máximo de Ômegas possível. Dojin não era muito diferente, encontrando casualmente parceiros com quem tivesse afinidade no momento.
Ele nunca havia estado num relacionamento sério; aquilo era um fardo para alguém em sua situação.
Por isso, Dojin era sempre perseguido por comentários de que era um bonitão e que também era um caça-níquel¹.
— Por que você está tão curioso? De qualquer forma, vai largar o emprego logo.
Yoon-young se dirigiu à cama, sentou-se na beirada e, em seguida, se levantou de novo. Em seguida. Incapaz de encontrar um lugar para pousar o olhar, ele vagou pelo quarto. Varreu a estante com os dedos longos e brancos, folheou um caderno na escrivaninha sem propósito e, por fim, encostou o corpo perto da janela. Ele parecia desajeitado por estar sozinho com Dojin num espaço confinado.
— Tenho pelo menos três meses antes de poder largar. Você disse que ficaria aqui o verão todo. Minha condição é que eu fique por esse período.
— …Por que você quer ficar aqui?
— Como?
— Você passou por aquilo ontem.
Encostado na janela, Yoon-young baixou os olhos. Seu cabelo castanho deslizou sobre a testa. Uma sombra solitária caiu sobre seu nariz.
— Foi submetido a algo horrível por minha causa e ainda quer ficar aqui?
— Por que isso é culpa sua, Sayoon-nim?
— Porque eu saí de casa… Fui eu que sugeri irmos ao mercadinho.
A voz de Yoon-young estava cada vez mais rouca. Dojin podia ver seus longos cílios caindo de maneira lastimável. Apesar de estar junto a uma janela iluminada pelo sol, a cena ao redor de Yoon-young era desoladora.
— Desculpe. Você se machucou por causa da minha teimosia.
Depois do pedido de desculpas grave, Yoon-young mordeu os lábios e olhou para a bochecha machucada de Dojin. Ele nem conseguia manter contato visual direito e desviou o olhar.
Dojin ficou sem palavras diante da visão da culpa evidente de Yoon-young. Ele havia trazido à tona o assunto pesado primeiro e até se desculpado, fazendo com que Dojin, que vinha deliberadamente escolhendo apenas assuntos leves, se sentisse envergonhado.
Embora as ações de Yoon-young tivessem sido o estopim, o incidente do dia anterior era, de fato, um problema entre adultos. Dojin também havia ultrapassado os limites e Seokju era só um psicopata.
Sua decisão de mantê-lo à distância vacilou. Ao menos naquele momento, Dojin queria ser sincero com Yoon-young. Parecia grosseiro tratar de forma tão morna um garoto que era tão atencioso com ele.
— Você está sozinho neste interior entediante, é claro que pode sair de casa. O que há de errado nisso? Não é como se você estivesse fazendo bagunça ou algo ruim. Quem tem culpa é…
“Aquele filho da puta, Kim Seokju.” Dojin engoliu o palavrão e sorriu abertamente.
— É aquele cara que estava te tratando tão mal, Sayoon-nim. Pode soar engraçado vindo de alguém que faz trabalho braçal como eu, mas geralmente, quem dá o soco é sempre o errado.
Diante das palavras calmas de Dojin, Yoon-young ergueu a cabeça. Ele encarou Dojin como se não pudesse entender, então franziu a testa e perguntou:
— Então você não tem medo de mim? Viu o que eu fiz com aquelas pessoas ontem.
— Hã… Tenho um pouco de medo. Mas não a ponto de não conseguir fazer meu trabalho.
Insatisfeito com a resposta de Dojin, a boca de Yoon-young abria e fechava. Ele passou a mão pelo cabelo nervosamente, disparando como se acreditasse que era certo Dojin odiá-lo.
— Você nunca ouviu falar de um Alfa Dominante. Não sabe o que eu posso fazer nem o que acontece quando você está ao meu lado. Minha família não é um lugar em que se possa pisar facilmente como você pensa. Meu pai pode agir, sem pensar duas vezes…
Yoon-young fechou a boca de vez. Mas Dojin conseguia adivinhar mais ou menos o que ele estava prestes a dizer. A julgar pelo que o Gerente Park fez, matar alguém, provavelmente, não seria uma tarefa difícil para eles.
Dojin pensou por um momento. Era difícil saber todas as razões pelas quais Yoon-young estava agindo daquela forma, mas parecia que o garoto tinha medo de que ele se machucasse ou morresse. Era algo com que o próprio Dojin havia se preocupado o suficiente, então ele conseguia entender a atitude de Yoon-young.
— Você é um estudante muito bom, Sayoon-nim.
Então, Dojin decidiu tranquilizar a mente de Yoon-young. Se desse uma razão plausível para que ele não precisasse se preocupar, o garoto provavelmente se sentiria aliviado.
— Eu não sou bom. Já me chamaram de pirralho inúmeras vezes. E também não quero ser uma boa pessoa.
— Nem eu. Sayoon-nim, não fiquei ao seu lado por algum propósito grandioso. Só estou ficando porque disseram que iam me pagar bem. — O tom de Dojin era infinitamente leve. Ao ouvir suas palavras, Yoon-young piscou. — Disseram que iam me pagar o dobro. E prometeram depositar minha diária todos os dias. Se eu só aguentar e trabalhar por três meses, poderei descansar por alguns anos. É por isso que estou fazendo isso. Não se preocupe com os outros. Não há nada mais fútil.
Enquanto falava com uma risada, sua voz desprovida de qualquer peso, a expressão de Yoon-young foi relaxando gradualmente. Era estranho. Estava longe de estar desapontado; pelo contrário, o garoto parecia aliviado, como se tivesse entendido tudo.
— …Você tem razão em tudo, moço.
— Entendeu? Então, não se preocupe comigo.
— Não é como se eu estivesse particularmente preocupado.
Só então Yoon-young se afastou da janela. Seus ombros, que estavam tensos e rígidos como os de um estudante sendo repreendido, relaxaram um pouco.
— Sinceramente, eu estava me perguntando por que diabos você estava ficando aqui, moço. Quando eu ajo como fiz ontem, as pessoas geralmente ficam com medo e largam. As criadas também foram embora. Mas agora eu entendo. Minha mãe também dizia que nada é tão importante quanto dinheiro.
Ele havia dito aquilo para descontrair o humor de Yoon-young, mas a concordância excessivamente entusiasmada fez Dojin se sentir desconfortável.
“Isso não é… o tipo de coisa que costuma decepcionar as pessoas?”
Era o que ele queria, então devia ser algo bom. No entanto, um canto de seu coração se sentiu estranhamente perturbado. Pensar que havia se deixado influenciar por outra pessoa, de forma nada característica, só para se sentir decepcionado por essa pessoa ter aceitado suas palavras tão facilmente. Ele se sentia um estranho para si mesmo.
No entanto, Dojin reconheceu e aceitou seus próprios sentimentos contraditórios. Como ambos queriam manter uma distância adequada, era melhor assim. “Tudo está bem quando termina bem.”
— É um alívio que você não esteja ficando num lugar como este por algum senso de dever equivocado, moço.
Yoon-young murmurou para si mesmo e caminhou até a escrivaninha. Dojin franzia a testa desconfortavelmente, tentando avaliar se aquele era um resultado bom ou ruim, quando Yoon-young pegou um joystick² branco e o estendeu abruptamente para ele.
— Vamos jogar videogame. Todos os homens aqui são ruins de jogo, por isso, eu não tinha ninguém pra jogar.
Dojin, lentamente, pegou o joystick que fora enfiado à sua frente. Ele encarou o pedaço frio de plástico, que não continha calor algum, enquanto Yoon-young passava por ele e saía do quarto.
“Nossa. Que estranho.”
Ao ouvir os passos que se dirigiam à sala logo à direita do quarto, Dojin percebeu que, em vez de se sentir mais leve, seu coração havia ficado ainda mais pesado.
𑣲⋆ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Flower
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¹Caça-níquel: é uma máquina de jogos que funciona por meio do uso de moedas e que paga um prêmio, seja com moedas ou voucher (bilhetes de prêmios). No sentido amoroso se refere a alguém que dá pequenas doses de atenção ou afeto de vez em quando, fazendo a outra pessoa continuar esperando pela próxima “recompensa”.
²Joystick: é um dispositivo usado para controlar os movimentos em jogos, máquinas ou veículos. Geralmente tem uma alavanca e botões para executar ações, basicamente é como um controle.
Aviso: Todos os fatos, personagens e situações retratados nesta obra são inteiramente fictícios. Não contendo nenhuma relação com fatos reais.
𖹭ּ ֶָ֢. Gostou do capítulo? Apoie a autora na plataforma oficial para demonstrar o seu carinho!
Para melhor entendimento da história:
》…《 Flashback
「…」 TV ou matérias na internet
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