Capítulo 1
An City, 18h.
O horizonte estava banhado por delicados tons de rosa e roxo, iluminado pelo belo brilho do sol poente.
Em um prédio comercial diante do pôr do sol, uma jovem de cabelos compridos levantou-se da cadeira e se espreguiçou preguiçosamente. Em seguida, desligou o computador, pronta para encerrar o expediente pontualmente.
Com a bolsa no ombro, ela tinha acabado de dar um único passo para fora do escritório quando ouviu os colegas começarem a conversar sobre o encontro do dia seguinte.
Alguém disse, animado: “Todo mundo tem que ir, todo mundo mesmo.”
Uma colega olhou ao redor e comentou: “Só Yi Yi e Xiao-Meng[1] não estão aqui. Vou avisá-las, então.”
“Tudo bem, obrigada por fazer isso!”
Eles conferiram quem estava presente, anotaram quem faltava e se prepararam para avisar essas pessoas quando chegassem em casa.
Mas ninguém se lembrou de que ainda tinham uma colega chamada Lu Zhi Wei. Era como se ela jamais tivesse existido naquele mundo.
—— Mesmo que tivesse acabado de sair pela porta.
Lu Zhi Wei caminhou com passos rápidos e leves, ignorando completamente a conversa no escritório.
Não fazia diferença se se lembravam dela ou não.
Se não se lembrassem, ela economizaria uma boa quantia e ainda teria um dia de descanso sem ninguém para incomodá-la.
Embora tivesse muitos dias assim, que humilde escrava corporativa desprezaria um tempo livre para descansar sem ser incomodada?
Ao pensar nisso, seus passos ficaram ainda mais leves.
Sair do trabalho pontualmente e ter bastante tempo para descansar: a felicidade de uma escrava corporativa era assim tão simples!
Ela voltou para casa de trem, comeu e tomou banho antes de começar a arrumar a casa. Para sua surpresa, encontrou um cupom de desconto de uma churrascaria.
O dia seguinte era o último em que poderia usá-lo. Também seria fim de semana, e ela não precisaria trabalhar.
Segurando o cupom, sentiu como se Deus estivesse recompensando-a por uma semana inteira de trabalho árduo.
Então, como poderia recusar?
Plano de ir ao Shopping Xinghe e comer churrasco no sábado: iniciado!
……
O sábado estava agradável, com céu limpo e uma brisa gostosa. Era o auge do outono, e os raios de sol que chegavam até o chão eram mornos e reconfortantes. A previsão era de que o bom tempo durasse o dia inteiro.
Lu Zhi Wei estava sentada sozinha no canto mais afastado da churrascaria. O lugar não estava cheio, mas também não estava vazio. Havia funcionários mais do que suficientes para atender à quantidade de clientes.
Mesmo assim, Lu Zhi Wei foi esquecida duas vezes. Apesar de ter feito o pedido mais cedo, sua comida chegou até depois da de uma mesa de clientes que havia entrado por último.
Lu Zhi Wei manteve uma boa atitude, sem demonstrar impaciência ou irritação. Para ela, desde que a comida chegasse, estava tudo bem. Não adiantava se estressar por causa da rapidez ou da demora.
—— Afinal, sua existência era tão transparente.
O bife marinado no mel foi cortado em tiras, e a carne chiou de maneira tentadora assim que foi colocada na grelha.
O ar se encheu com o aroma da carne assando. O cheiro chegou às narinas de Lu Zhi Wei e abriu seu apetite. Ela estava prestes a pegar os hashis e começar a comer quando ouviu um “bzzzt”. Uma notificação apareceu no celular, que começou a tocar sem parar.
Ao desbloqueá-lo, ela deu uma olhada. Era o grupo da turma do ensino médio, onde conversavam sobre o jantar anual de confraternização. O representante da turma responsável pela organização já havia enviado mensagens privadas a cada pessoa, planejando quantos poderiam comparecer e lembrando a todos, com entusiasmo, que não se esquecessem da data.
Enquanto mastigava a carne, Lu Zhi Wei olhou para a conversa com uma expressão vazia. Nem precisava abrir o grupo para saber que, com certeza, não estava incluída nos planos. Afinal, ela seria esquecida, sem dúvida.
Era uma história tão antiga quanto o tempo, repetida todos os anos. Aquele era seu poder especial.
—— Invisibilidade.
Era tão invisível que as pessoas costumavam se esquecer dela. Se alguém conseguiria ou não se lembrar de sua existência dependia puramente da sorte.
Se estivesse no campo de visão periférico de alguém, as pessoas ao menos conseguiriam enxergá-la. Mas, às vezes, mesmo que estivesse bem ali, no canto do olho de alguém, ela quase podia ouvir sua existência invisível gritando: *Eu consigo! Vou fazer os céus saberem que me recuso a perder!*
E, então, ela continuava tão invisível quanto o ar. O mundo inteiro a tratava daquela maneira, até mesmo seus pais.
Mas aquilo não era inteiramente ruim. Pelo menos, ela não precisava se preocupar em acumular histórias constrangedoras. Pelo menos, não precisava se envolver em situações sociais desnecessárias, mas que ainda assim exigiam sua presença. Pelo menos, não precisava temer que seus dias de folga fossem ocupados.
O mais importante era que podia economizar dinheiro.
Para uma humilde escrava corporativa, sem dinheiro e que só podia contar consigo mesma, o melhor era, naturalmente, economizar o máximo possível.
Somando o encontro organizado pelos colegas ao reencontro da turma do ensino médio, ela já havia conseguido economizar todo aquele dinheiro!
Ao pensar nisso, suas sobrancelhas se ergueram ligeiramente de felicidade. Ela pousou o celular e continuou comendo a carne grelhada.
E lembrou o garçom, pela terceira vez, de reabastecer seu chá.
……
Lu Zhi Wei comprou um sorvete de casquinha e caminhou pelo shopping enquanto o comia. Parecia solitária ao passar roçando os ombros nas pessoas sorridentes e alegres que caminhavam por ali.
Mas ninguém a notaria. Sua constituição estranha e o próprio ar praticamente a engoliam, fazendo com que parecesse insignificante, como se nunca tivesse existido.
Na verdade, ela estava bastante satisfeita com aquilo. Não precisava se preocupar com ninguém. Era quase como se fosse ela quem tivesse isolado o mundo, e não o contrário.
Enquanto caminhava, parou diante de uma relojoaria e inclinou a cabeça para observar a pessoa no anúncio.
Meng Lian Yu, uma atriz mundialmente famosa, era sua atriz favorita. Também era seu sonho.
Lu Zhi Wei já havia trabalhado como atriz por um breve período. Naquela época, sonhava em ficar sob os holofotes brilhantes como Meng Lian Yu, sendo observada e querida pelas pessoas.
Mesmo que a luz que incidisse sobre ela fosse apenas um pequeno raio.
Mas ficou provado que tudo não passava de uma ilusão criada por ela mesma. Não podia mudar a realidade e tinha ainda menos poder para mudar aquele mundo. Só lhe restava voltar à sua vida monótona e sem graça.
O sorvete de morango derreteu em sua língua enquanto ela pensava nos antigos sonhos. De repente, sentiu um frio incomum, como se seus braços e pernas estivessem cheios de ar gelado, o que a fez sair de seus pensamentos.
Ela abaixou a cabeça para olhar a casquinha. Era outono; deveria comer menos coisas daquele tipo. Pensando bem, também já estava na hora de comprar lã e se preparar para tricotar os suéteres e cachecóis de que precisaria no inverno.
Tricotar as próprias roupas sairia mais barato do que comprá-las, e ela também não tinha habilidades manuais nada ruins.
Comprou o que precisava e deixou o shopping, caminhando em direção ao ponto de ônibus.
Embora tivesse passado a vida inteira sendo escandalosamente transparente, felizmente, quando se tratava de segurança no trânsito, nunca havia sido verdadeiramente “invisível”.
Mas não sabia se algum dia poderia acontecer um acidente. Caminhava com os olhos fixos no celular, registrando suas despesas em um aplicativo de controle financeiro.
Ela havia comprado a lã durante uma promoção da loja: leve duas, pague uma. Mais uma vez, conseguira economizar dinheiro.
Tirou uma moeda para pagar a passagem do ônibus, sentindo que sua sorte naquele dia estava muito boa. Na verdade, com seu jeito otimista, todos os dias pareciam bons.
Mesmo que o mundo não pudesse vê-la, mesmo que fosse tão invisível quanto o ar, desde que pudesse viver com saúde e amar a si mesma, sua vida ainda poderia ser plena.
Mas ninguém consegue escapar do ditado “quanto maior a alegria, maior a tristeza[2]” ao longo da vida.
No segundo anterior, ela ainda estava feliz. No instante seguinte, tinha acabado de chegar à beira do semáforo quando alguém esbarrou nela com força.
Seu corpo foi lançado para o lado, e sua bolsa de lona caiu no chão. Um estrondo ressoou——
Nem mesmo um show seria tão barulhento quanto o som que sua cabeça produziu.
Uma criança passou correndo apressada.
Ela parou e coçou a cabeça, sentindo como se tivesse esbarrado em alguma coisa. Sem se virar para olhar, voltou a correr.
Deixou Lu Zhi Wei ali, com o rosto contorcido de dor.
A multidão avançava, e os pedestres passavam por ela sem sequer olhar em sua direção por mais de um segundo. Nem chegariam a pensar nela ou se perguntar se estava bem.
Só ela sabia que aquilo doía feito o inferno!
Ela tinha medo da dor desde pequena.
Uma dorzinha que outra pessoa mal sentiria era amplificada várias vezes quando se tratava dela, atacando seu sistema nervoso sem piedade. Era como se incontáveis pregos perfurassem seu corpo inteiro sem parar. Doía tanto que ela queria vomitar sangue e morrer ali mesmo!
O coração de Lu Zhi Wei ardia de raiva, enquanto lágrimas se acumulavam nos cantos de seus olhos.
Crianças malcriadas eram realmente detestáveis demais!
Eram a desgraça do mundo! As inimigas de toda a galáxia!!!
【Zzt zzt—— Zzt zzt——】
【Notificação do sistema: acesso realizado com sucesso.】
Uma voz desconhecida interrompeu seus pensamentos, e sua mão tremeu levemente.
*Agora há pouco…… Será que ouvi alguma coisa?*
【Notificação do sistema: download dos dados concluído.】
Aquela voz eletrônica soou novamente, como se estivesse isolada do mundo, impossível de ser acessada ou capturada.
Era ficção científica demais para parecer verdade.
O rosto de Lu Zhi Wei se encheu de dúvida, mas, antes que pudesse pensar melhor no assunto, uma grande quantidade de memórias desconhecidas invadiu sua mente. Era como uma história, com começo e fim, protagonista e personagens secundários, mas ela não fazia parte dela.
Quanto aos protagonistas, ela os conhecia. Eram um par de novos talentos populares e atraentes que haviam entrado no mundo da atuação naquele ano—— Sang Wan Ci e Qiu Luo.
Ela foi obrigada a assistir à vida de Sang Wan Ci e Qiu Luo até o fim, quase como se estivesse vendo uma série de televisão, e não sabia o que sentir.
Naquele momento, não sabia se deveria fazer uma expressão fofoqueira de “meu Deus, as duas são mesmo um casal” ou uma expressão chocada de “que diabos está acontecendo?”.
Nesse instante, aquela voz soou novamente.
【Notificação do sistema: a aura do protagonista masculino foi conectada.】
Masculino, mascu… o quê???
Ela ficou completamente pasma. Então, ouviu uma voz feminina clara, suave e madura flutuando junto ao seu ouvido: “Você está bem?”
Uma brisa de outono passou, enquanto uma fragrância elegante e fresca enchia o ar, envolvendo Lu Zhi Wei delicadamente.
Ela ergueu a cabeça devagar e vislumbrou um par de olhos tão belos quanto as estrelas. A pessoa à sua frente usava uma máscara preta e um boné, evidentemente tentando esconder o rosto.
Mas, considerando apenas a metade do rosto que estava à mostra, ela já era incrivelmente bonita. A uma distância tão curta, Lu Zhi Wei conseguiu reconhecê-la imediatamente.
—— Sang Wan Ci.
Seu rosto estava profundamente gravado na memória de Lu Zhi Wei, simplesmente porque era bonito demais.
Ela era uma beldade esguia e etérea, de porte extraordinário. Nem mesmo o sol mais belo ou a lua mais sagrada poderiam se comparar à sua beleza.
A uma distância tão curta, sua beleza era ainda mais impressionante. Ninguém ousaria sequer editar uma selfie para ficar daquele jeito, mas ela havia nascido com um rosto assim!
Sang Wan Ci não percebeu que seu disfarce havia sido descoberto. Ela se inclinou e estendeu a mão para pegar a bolsa de lona que Lu Zhi Wei deixara cair. Seus longos cabelos deslizaram pelo ombro esguio enquanto se abaixava, quase como se estivesse gravando um comercial de xampu.
Lu Zhi Wei ainda estava atordoada.
Sang Wan Ci lhe entregou a bolsa. Ela finalmente a pegou, ainda olhando para baixo. Sem querer, viu uma pinta nas costas da mão direita de Sang Wan Ci.
Era minúscula, situada perto do polegar. Naquela mão clara e delicada, não parecia nem um pouco deslocada.
Sang Wan Ci a lembrou gentilmente: “Sua testa está toda vermelha. Quando chegar em casa, lembre-se de passar algum remédio.”
Lu Zhi Wei piscou mecanicamente quando, de repente, ouviu a voz fria e robótica emitir uma ordem dentro de sua mente——
【Missão emitida: diga à protagonista feminina, Sang Wan Ci: “Eu gosto de você”.
【Limite de tempo: cinco segundos.
【Cinco, quatro……】
Espere, missão? Que missão?
Que diabos era aquela coisa?!
Por que ela diria de repente “Eu gosto de você” para Sang Wan Ci sem motivo algum?!
O cérebro de Lu Zhi Wei virou uma bagunça, e ela sentiu como se estivesse sufocando durante aqueles cinco segundos.
Quando o último segundo terminou, uma corrente elétrica subiu de seus pés e rapidamente envolveu seu corpo inteiro. Ela sentiu tudo ficar dormente. Suas pernas fraquejaram, e ela caiu para a frente, na direção dos braços de Sang Wan Ci——
Sang Wan Ci rapidamente estendeu os braços para segurá-la.
Lu Zhi Wei sentia tanta dor que não conseguia falar. Só conseguiu se acalmar depois de algum tempo e ergueu os olhos.
Sang Wan Ci permaneceu em silêncio.
O clima havia ficado estranho.
“Você……”
Sang Wan Ci olhou para a pessoa em seus braços. Ela havia caído sobre si de repente e a segurava com força, recusando-se a soltá-la……
Seus belos olhos se estreitaram enquanto chegava a uma conclusão.
“Está tentando aplicar um golpe[3]?”
Lu Zhi Wei: “???”
Que tipo de conclusão era aquela?
*Essa criança só levou um choque elétrico, só isso!*
Sang Wan Ci achou que ela estava tramando algo de propósito e, por isso, deu um passo para trás.
Sem o apoio dela, as pernas de Lu Zhi Wei fraquejaram novamente, como se fosse se ajoelhar diante de Sang Wan Ci.
No último instante, ela se obrigou a se apoiar em uma perna.
E, então, fez uma reverência apoiando apenas um joelho no chão diante de Sang Wan Ci.
Como se estivesse pedindo alguém em casamento.
Sang Wan Ci: “……”
Lu Zhi Wei: “……”
Os olhares das duas se cruzaram.
O clima não era apenas tenso, mas também constrangedor.
O constrangimento que Lu Zhi Wei sentiu naquele exato instante compensava tudo o que havia acumulado nos últimos dez anos, de uma só vez.
Pior ainda: não tinha como explicar por que havia caído de repente nos braços de Sang Wan Ci, pois nem sequer sabia de onde vinha aquele choque elétrico.
O simples fato de não ter gritado de dor já era uma grande conquista para ela!
Ela massageou as pernas, que pareciam gelatina, e começou a pensar em uma desculpa quando a maldita voz em sua mente falou novamente.
【Notificação do sistema: o administrador A5 foi conectado com sucesso. Desejamos uma feliz cooperação.】
Então, uma voz masculina soou.
【Administrador do sistema A5 a seu inteiro dispor. Pode simplesmente me chamar de Lao Wu[4].】
Lao Wu estava folheando os arquivos na sala de controle quando ergueu os olhos preguiçosamente para a tela e congelou. Então, disse: 【…… Ora, ora.】
【Parece que cheguei em uma hora ruim?】
Notas de rodapé
[1] 小梦 — Uma maneira mais familiar de se dirigir a alguém, colocando 小 (xiǎo), que significa “pequeno”, antes do nome. Normalmente, usa-se o sobrenome ou o último caractere do nome da pessoa.
[2] 乐极生悲 — A expressão significa, na verdade, algo mais próximo de “quando se chega ao auge da felicidade, a tristeza vem em seguida”. Ainda assim, “o que sobe também desce” é uma boa expressão equivalente neste contexto.
[3] 碰瓷 — Esta expressão é interessante. Sua tradução literal é “tocar em porcelana”, mas é usada para situações em que alguém finge sofrer um acidente e se machucar para extorquir dinheiro da vítima.
[4] 老伍 — A tradução literal é “velho cinco”, mas trata-se de uma forma mais casual de chamar alguém. Pode significar que esse homem é o quinto filho da família, o quinto administrador, entre outras possibilidades. O nome foi mantido em pinyin, pois será assim que ele será chamado daqui em diante.