Episódio 55
Ele o tirou e conferiu a tela, apenas para encontrar um número desconhecido. Ele se sentiu um bobo por brevemente alimentar a esperança vã de que pudesse ser Chahyun.
Em meio a seus pensamentos atormentados, Yeonwoo não queria lidar com ligações de spam, então colocou o celular de volta no bolso.
— É verdade. Mas o que você decidiu sobre as sobremesas? A gente teve uma reunião da última vez e quase finalizou o cardápio.
Durante uma pausa no movimento, o atendente perguntou, aparentemente curioso.
— Surgiu algo complicado, então parece que o acordo de fornecimento vai ser cancelado.
— Meu Deus. De repente? Por quê?
— Tem mais coisas para se preocupar do que eu pensava. É complicado de explicar.
— Que pena. Pense em todo o tempo que você investiu nisso.
— Eu sei. Como eu não sei muito de sobremesas, não é fácil acrescentar nem um item ao cardápio.
O atendente hesitou por um instante antes de falar.
— Mas eu acho mesmo que o Neobel precisa de mais sobremesas.
— Hmm. Será que eu deveria tentar fazer confeitaria eu mesmo, então?
— Hein? Você, chefe? Isso parece meio difícil….
Yeonwoo concordou. Café era pelo menos uma bebida que ele apreciava com regularidade, então não era intimidador se aproximar, mas ele carecia de confiança em confeitaria. Ele não queria simplesmente colocar bolos medíocres para vender, mas os lugares deliciosos já tinham vendas altas e não estavam ansiosos para fornecer a outras lojas.
Justamente quando ele com sorte encontrou um lugar de quem receber entregas, parecia que eles tinham outras intenções desde o começo….
Yeonwoo pensou em Jeongho e engoliu um suspiro amargo.
[Me desculpe por ter aparecido naquele dia sem permissão. Se você se sentir melhor, por favor me contate depois.]
Depois que eles se separaram no terraço naquele dia, Jeongho o contatou mais uma vez, mas Yeonwoo não respondeu. Não era uma relação em que ele pudesse simplesmente “se sentir melhor”, e ele não estava em situação de ter uma conversa longa sobre esse assunto naquele momento.
Na verdade, a entrega de sobremesas não era tão urgente. O maior problema para Yeonwoo era o que fazer com a criança que havia aparecido de repente.
Yeonwoo se sentiu frustrado com sua situação, tendo que esperar sem fim que Chahyun chegasse a alguma conclusão.
Ele deveria simplesmente se livrar? O pensamento, escondido fundo em seu subconsciente, de repente surgiu. Afinal, mesmo que a criança viesse ao mundo assim, ela não seria bem-vinda, e não era como se Yeonwoo estivesse em posição de criá-la sem dificuldade.
Mais do que tudo, Chahyun tinha alguém com quem ia se casar. A menos que ele mudasse de ideia, a criança que Yeonwoo teria seria ilegítima.
Yeonwoo sabia melhor que ninguém as carências que aquele rótulo imperfeito desde o nascimento traria. Ele absolutamente não queria dar isso à criança.
Parecia que se livrar era a melhor opção, afinal.
Mas, apesar de ter a alternativa mais realista, ele achou difícil decidir de bom grado por causa da repulsa instintiva que surgiu.
— Vocês aceitam pedidos em grupo aqui? Eu quero levar nove bebidas.
— Sim, aceitamos. Quais bebidas você gostaria?
Mesmo em meio a seus pensamentos atormentados, clientes continuaram a entrar no café. Ele não cometeu mais erros com as bebidas como antes, mas não pôde deixar de se sentir mentalmente nebuloso o dia inteiro por causa do que havia acontecido no hospital.
Sempre que tinha um momento, ele repetia sem fim as mesmas preocupações, como um hamster numa roda, sobre como persuadir Chahyun, como criar a criança se a tivesse, e assim por diante.
No caminho para casa do trabalho, Yeonwoo estava no metrô, encarando pela janela enquanto repetia os mesmos pensamentos do dia.
Naquele momento, ele sentiu uma vibração dentro do bolso. Ele vinha recebendo propagandas inúteis de seguro e ligações de spam a tarde toda, então tirou o celular com a intenção de encerrar a chamada. Mas, desta vez, quem ligava era sua mãe.
Ver a palavra “Mãe” fez seu peito se apertar reflexivamente. Cedo ou tarde, sua mãe também descobriria sobre a gravidez….
Yeonwoo se forçou a espantar o desânimo e atendeu o telefone.
— Mãe?
— Yeonwoo…!
Mas a voz dela não soava bem. O cenho de Yeonwoo se franziu diante da respiração ofegante e da voz rachada que vinham pelo alto-falante.
— O que houve? O que aconteceu?
Esquecendo que estava no metrô, Yeonwoo elevou a voz.
— Yeonwoo, o seu pai…! O seu pai.
— Você encontrou o pai? Onde?
Ele instintivamente soube que algo havia acontecido com seu pai.
Outra dívida de jogo? Ou violência? Pressentimentos ominosos correram por sua cabeça.
— Não é que a gente encontrou ele, mas, ai meu Deus. O que fazer, o que está acontecendo?
A voz trêmula de sua mãe ficou cada vez menos nítida, a ponto de ser difícil de entender.
— O que é? O que é? Você está me assustando….
— O seu pai sofreu um acidente.
— …Acidente?
— Vo, você precisa vir rápido, Yeonwoo.
⛧°. ⋆༺♱༻⋆. °⛧
Foi uma queda acidental. Foi assim que a polícia explicou a Yeonwoo, que havia acabado de chegar ao necrotério numa vila em Anseong.
Sua mãe estava encostada na parede, mal se apoiando, chorando. Quando Yeonwoo entrou, ela correu até ele, o agarrou e derramou lágrimas.
O que eu vou fazer sobre o seu pai. Como isso pôde acontecer….
Sua mãe murmurava assim com pronúncia destroçada. Yeonwoo amparou sua mãe e a sentou numa cadeira, então se aproximou da polícia com calma.
— Senhor Hong Yeonwoo?
— Sim.
— Qual é a sua relação com o senhor Hong Jae-hoon?
— …Eu sou filho dele.
— O senhor precisa identificar o corpo pessoalmente. Nós já o identificamos, mas precisamos de confirmação da família enlutada como questão de procedimento.
— ……
— Ah, o corpo está só levemente danificado.
Yeonwoo assentiu. Estranhamente, as vozes da polícia e de sua mãe não soavam reais. Até aquele espaço frio chamado necrotério, tudo parecia uma ilusão, como um mundo virtual que alguém havia criado.
Depois de respirar fundo, ele sentiu um zumbido vibrante que fazia seus ouvidos apitarem, como quando ele ia fundo numa piscina.
— De acordo com a nossa investigação, o senhor Hong Jae-hoon teve uma discussão com o senhor Lee Geunhyung por dinheiro num antro de jogo ilegal em Heejeong-gu. Conforme a briga escalou, o senhor Hong Jae-hoon fugiu para uma montanha próxima, e presume-se que ele perdeu o apoio num penhasco devido à baixa visibilidade à noite, resultando numa queda acidental.
A polícia leu o relatório que havia desdobrado de forma protocolar.
— É provável que ele tenha escorregado enquanto andava embriagado. Todos no antro de jogo estavam embriagados, mas todos têm álibis sólidos para o horário estimado da morte do senhor Hong Jae-hoon, então a possibilidade de homicídio é baixa.
— ……
No fim, foi outro antro de jogo. Ele causou tanta dívida e atormentou pessoas. Ele não atendia as ligações da esposa e do filho e fugiu, só para jogar de novo.
Yeonwoo achou o fervor do pai por jogo repugnante.
— De qualquer forma, o senhor gostaria de ver o corpo agora?
— Sim.
Ele ficou de pé diante do corpo coberto com um lençol branco no necrotério. O atendente ao seu lado baixou o lençol com cuidado.
Então ele viu seu pai, sua cor virada cinza. Seu rosto, que ele não via havia muito tempo, tinha muito mais rugas.
— …É o pai.
Yeonwoo murmurou atordoado. E esticou a mão e o cobriu com o lençol branco de novo.
Seu pai havia morrido de repente, mas, estranhamente, ele não sentiu nada. Mesmo no momento em que confirmou seu rosto, tudo o que fez foi procurar mudanças em relação a antes e pensar que ele havia envelhecido.
— O senhor vai cremá-lo depois do funeral?
— …Sim.
Por algum motivo, Yeonwoo respondeu devagar, sentindo uma onda tardia de emoção.
Antes de deixar o necrotério, a polícia entregou a Yeonwoo um saco plástico transparente.
— Estes são os pertences que o senhor Hong Jae-hoon tinha consigo quando o corpo foi encontrado.
Dentro do saco estavam o celular de seu pai, um cartão de crédito suspenso, um bilhete de loteria e um envelope branco velho.
Yeonwoo o pegou. O envelope branco com sujeira nele chamou sua atenção primeiro. Definitivamente parecia familiar.
Ele o tirou do saco plástico e o examinou de perto. Os caracteres chineses “洪演佑” estavam escritos de forma tênue no fundo do envelope.
— ……
Hong Yeonwoo. Era seu próprio nome, escrito por ele. Assim que viu os caracteres chineses desajeitados, ele lembrou vividamente do dia em que escreveu as letras naquele envelope. Era uma memória da qual ele nem tinha consciência.
Cerca de vinte anos antes, seu pai, que havia dado a Yeonwoo seu nome, um dia trouxe um lápis e lhe mostrou como escrever Hong Yeonwoo em caracteres chineses. Ele disse que ele deveria conseguir escrever o próprio nome em caracteres chineses.
O ano em que Yeonwoo fez onze anos. Assim que sua esposa morreu de doença, seu pai imediatamente registrou o casamento com sua amante, sua mãe. Só então Yeonwoo pôde remover o rótulo de ilegítimo.
E no primeiro feriado que as três famílias passaram na casa dos parentes maternos, Yeonwoo juntou o dinheiro de Ano-Novo que recebeu e o colocou nesse envelope. Então, escreveu seu nome em caracteres chineses, que havia aprendido com seu pai, no canto do envelope.
“Yeonwoo. O que você vai fazer se continuar deixando cair o dinheiro de Ano-Novo que a vovó e a tia te deram? Guarde em segurança.”
“Dá aqui. Se você deixar com o papai, eu devolvo cem vezes mais quando você crescer.”
Diante daquelas palavras, Yeonwoo entregou o envelope cheio de dinheiro ao pai, já que era incômodo carregá-lo por todo o feriado. Aquele envelope havia voltado a ele quase vinte anos depois.
Yeonwoo conferiu com cuidado dentro do envelope. Vinte e cinco mil wons. Era uma moeda antiga que era difícil de encontrar agora. Era a mesma quantia que Yeonwoo havia recebido na época.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna