Capítulo 04
SCAN: Ignis Tales
Tradução: Riny
Revisão: Imperatriz
Capítulo 4
— Khalid.
Nox revirou o anexo como se o estivesse virando do avesso com as próprias mãos. Mas a criança não estava em lugar nenhum: nem no anexo, nem nos depósitos. Chegou a olhar nos estábulos, por garantia, e continuou sem encontrar nem um único fio de cabelo do menino.
Ficava mais agitado a cada instante que passava. E se a criança tivesse fugido para fora da propriedade? E se tivesse fugido e nunca conseguido voltar…?
Depois de vasculhar o anexo de ponta a ponta, seguiu para a residência principal. Se encontrasse o menino ali, só isso já seria uma graça.
Nox procurou em todos os quartos de hóspedes da residência principal, mas, ao anoitecer, ainda não o havia encontrado. Soltou um suspiro profundo e passou a mão pela testa, úmida de uma fina camada de suor.
— Onde diabos você foi parar, Khalid…?
Enquanto expirava, um fragmento pairava em sua mente.
Um lugar onde a criança poderia se esconder. Um lugar que a criança consideraria o mais seguro.
Nox percebeu que nunca verificara o próprio quarto.
Virou-se de imediato e correu até lá. Olhou em volta, mas a criança continuava sem aparecer. Mesmo assim, começou a vasculhar o quarto devagar, com cuidado, chamando o nome do menino da maneira mais gentil que pôde.
— Khalid…?
Não houve resposta.
— Khalid, sou eu. Nox.
Ao ouvir isso, escutou um soluço pequeno e abafado vindo de algum lugar próximo. Foi direto na direção do som. Vinha de dentro do guarda-roupa num canto do seu closet.
Para não assustar a criança, Nox abriu as portas do guarda-roupa devagar.
Lá dentro, um menino minúsculo estava encolhido sobre si mesmo.
Por um momento, Nox perdeu a capacidade de falar e só conseguiu encarar.
Os olhos ainda estavam inchados e vermelhos de tanto chorar, e, na semana em que Nox não o vira, ele definhara de forma alarmante. Sem perceber o que fazia, Nox o puxou para os braços. Khalid se enterrou no abraço como se esperasse exatamente por aquele momento.
— J-jovem, jovem mestre. **Hic**…
— Está tudo bem. Khalid. Estou aqui. Estou aqui.
Segurando a criança com firmeza, acariciou-o repetidas vezes, acalmando-o, chamando seu nome sem parar. Khalid ofegava em busca de ar e se apertava ainda mais contra seus braços. Era tão magro que parecia que seus ossos iam bater uns nos outros.
Sim. A criança se escondera dentro daquele guarda-roupa durante a semana inteira, esperando por ele.
Nox sentiu o calor se acumular no canto dos olhos. Era como se pudesse sentir, por inteiro, o terror que aquela criança devia ter suportado enquanto tremia no escuro dentro do guarda-roupa por todo aquele tempo.
— …Desculpe. Desculpe. Desculpe, Khalid.
— **Hic**… **ngh**…
Nox jurou para si mesmo que nunca mais, nunca mais, deixaria a criança ser separada dele.
Khalid nem conseguia chorar direito; continuava engolindo os soluços de volta. Nox o ergueu com cuidado e o deitou na cama, mas mesmo assim o menino se agarrou às suas roupas, tentando não deixá-lo se afastar.
— Está tudo bem. Não vou a lugar nenhum.
Nox se deitou ao lado dele e envolveu nos braços aquele corpinho frágil e consumido.
Nunca mais o deixaria sozinho.
Fez esse voto repetidas vezes.
Enquanto Nox mandava o curandeiro examinar o corpo emaciado de Khalid, sua mãe, Olga Rainerio, estava em seus aposentos recebendo de Maeta um relatório de tudo o que aconteceu.
Olhou para a xícara de chá que uma criada lhe servira e então desviou o olhar para o lado.
— E então?
— E-então a criança fugiu, e o Duque não fez nada além de beber.
— E Nox?
— O J-Jovem Mestre está mandando um curandeiro examinar a criança. Parece que julgou o tratamento necessário, já que Khalid ficou sem comer a semana inteira…
**Hah.**
Olga soltou um suspiro lento, como se o forçasse para fora de si. Com aquele único suspiro, Maeta se enrijeceu de imediato. Uma das criadas, percebendo o descontentamento da patroa, abriu a janela. Um ar morno entrou por ela. A brisa agitou de leve os cabelos ao lado do rosto de Olga e serpenteou suavemente pelo quarto.
— Primeiro meu marido, e agora meu filho também…
Murmurou para si mesma e ergueu a xícara. O chá estava morno na medida do seu gosto, e só isso pareceu acalmar, ainda que um pouco, a irritação que fervia em seu estômago. Olga olhou para a criada. No instante em que seus olhos se encontraram, a mulher baixou a cabeça em silêncio.
— **Tsc.** Vou observar por um tempo.
Sua voz era fria. Maeta curvou-se ainda mais na cintura, esforçando-se para não provocá-la mais.
A criada que abrira a janela sentou-se suavemente ao lado dela e sussurrou:
— O jovem mestre é inteligente. Tenho certeza de que ficará bem.
— Sim. Ele logo vai recobrar o juízo.
Diante da resposta de Olga, a criada assentiu e envolveu a mão de Olga com as duas mãos. Olga permitiu e então deu uma ordem a Maeta.
— Se acontecer qualquer coisa entre Nox e aquela criança de agora em diante, relate-me imediatamente.
— Sim, Vossa Graça.
Olga pousou a xícara.
Ao olhar para o chá vermelho lá dentro, quase no fim, pensou:
*Meu filho é uma criança inteligente. Então logo vai recobrar o juízo e parar de desperdiçar atenção com um criado desses.*
Mas, se não o fizesse…
Seus olhos se tornaram glacialmente frios.
A criada, notando o que Olga pensava, forçou um sorriso fraco.
*O Jovem Mestre realmente precisa recobrar o juízo logo,* pensou, ansiosa.
* * * * *
Foram necessários três meses inteiros para a criança se recuperar.
Nox cuidou de Khalid com atenção minuciosa até que ele estivesse bem o bastante para trabalhar direito de novo, e Khalid, como se retribuísse tamanha dedicação, se recuperou depressa e voltou a ficar de pé. Quando o menino estava totalmente restabelecido, já era pleno verão.
Khalid voltou aos seus deveres, na verdade, ainda mais saudável do que antes.
Aconteceu num dia em que uma chuva torrencial caía com tanta força que Nox nem pôde ir ao treino dos cavaleiros e ficou trancado no quarto o dia inteiro.
Havia muito o que estudar de qualquer forma, e, pela primeira vez em muito tempo, Nox se enterrou entre os livros e se concentrava na escrita.
**Clique.**
Uma xícara de chá foi pousada sobre a mesa à sua frente.
Quando Nox ergueu os olhos, Khalid estava ali com o bule na mão. Nox fez um leve movimento com os olhos, mandando-o deixar o bule. Khalid colocou o bule em outra mesa e então contornou a escrivaninha e se aproximou do seu lado.
Então Nox perguntou:
— Você sabe ler?
— Ah, não…
Khalid baixou a cabeça como se envergonhado, mas Nox não deu importância. Plebeus ocupados com a luta pela sobrevivência diária geralmente não sabiam ler.
Por isso fez um gesto para o menino se aproximar, pegou uma folha de pergaminho em branco e tomou a pena. Escreveu uma fileira de letras básicas, uma após a outra, e então disse:
— Vou ensiná-lo.
— …O quê?
— Você não quer aprender?
— Não, não. Eu quero!
Khalid assentiu com tanta força que chegava a ser frenético. Os cabelos loiros acinzentados balançaram como orelhas de filhote.
Sem pensar, Nox estendeu a mão e acariciou aqueles cabelos.
O rosto da criança ficou vermelho. Diante daquela reação, Nox se viu tocando também a orelha do menino, quase sem querer.
— Ah.
Khalid encolheu um pouco os ombros, com uma expressão que parecia incerta entre vergonha e cócegas.
Nox o olhou por um instante e então retirou a mão.
— Tinha algo em você.
— S-sim…
Não passava de uma desculpa.
A criança tocou a orelha avermelhada. Nox se lembrou da sensação que roçara a ponta de seus dedos. E olhou para aquele rosto tingido pela vergonha.
*Gosto da sensação de ser amado por esta criança.*
Era um pensamento egoísta.
O simples ato de deixar os sentimentos crescerem tanto quando nunca poderia aceitá-los…
Ridículo.
Um pai tolo. Uma mãe dominadora. Uma casa que parecia perfeita por fora, mas na verdade era tão oca quanto um cofre vazio. E, dentro daquela casa, uma criança como um novelo de lã macia, que o seguia por toda parte. Era insuportavelmente bom. Porque o fazia se sentir amado. Porque o fazia sentir, por um momento, que era alguém digno de ser amado.
Nox cortou o pensamento e voltou a falar.
— Isso se lê assim…
Apontando as letras uma a uma, ensinou ao menino como pronunciá-las.
Khalid aprendia bem; memorizava bem também. Seguia o movimento das pontas dos dedos de Nox com um foco desesperado.
Nox não sabia.
Não sabia que o olhar da criança estava fixo não nas letras, mas nos seus dedos. Que ele sentia orgulho do fato de que aquelas unhas bem aparadas eram algo que ele mesmo ajudara a criar. Nem sabia que o coração da criança havia crescido muito mais do que ele imaginava.
— Você é bom nisso.
— …Sim.
O menino se esforçou para não deixar essa verdade transparecer no rosto.
*Jovem Mestre, se soubesse o quanto gosto do senhor, provavelmente ficaria espantado.*
Às vezes queria dizer palavras assim em voz alta, só uma vez. Mas sabia.
Mesmo tão pequeno, entendia que era um amor que jamais seria correspondido.
Mas…
Não importava.
Se ao menos pudesse permanecer ao lado de Nox e vê-lo crescer, vê-lo se tornar um adulto maior do que ele próprio, então nada mais importava. Se ao menos pudesse ficar ao seu lado para sempre, servindo-o, então, mesmo que Nox nunca lhe devolvesse afeto…
Ou mesmo que…
Mesmo que ele se casasse com outra pessoa.
Mesmo assim, achava que conseguiria suportar.
Nox e Khalid passavam dias pacíficos juntos.
Ao contrário de como tratava os outros, Nox era gentil com Khalid, e Khalid se dedicava inteiramente a ele em troca.
Era uma temporada tão perfeita que poderia ter sido pintada.
Aquele maldito pai não deu as caras por muito tempo. A casa estava estável. Até o tempo, depois que as chuvas torrenciais passaram, estava claro e bom.
Mas então, um dia, como que para anunciar a desgraça, sua mãe, forte e inabalável, adoeceu.
* * * * *
Era o inverno em que ele tinha quinze anos.
Os galhos haviam secado, e o solo endurecera com o frio. O vento gelado que se esgueirava pela gola fazia todos se encolherem, e, numa estação assim, o súbito início da doença da mãe bastou para abalar a casa inteira.
— Fora!
**Crash!**
O vaso de flores que Olga arremessou raspou numa criada e se espatifou na parede. A criada gritou e desabou onde estava. Olga encarou o próprio braço, que tremia violentamente depois de arremessar um único vaso, e gritou de fúria.
(Continua)