Capítulo 03
SCAN: Ignis Tales
Tradução: Riny
Revisão: Imperatriz
Capítulo 3
Ao ouvir mencionarem a mãe, Doran soltou um suspiro baixo e ressentido. Era o tipo de homem que a temia tanto que não conseguia desobedecer nem às mais pequenas palavras saída de sua boca.
E, ainda assim, apesar disso, continuava demonstrando um interesse desagradável por Khalid.
Nox sabia exatamente quão imundos eram os gostos do pai, e por isso se esforçava ainda mais para protegê-lo.
Antes do casamento, seu pai fora o tipo de lixo que se aproveitava de crianças de quinze anos ou menos. Depois de casar, a mãe, por ser de sangue imperial, considerou aquela conduta abaixo do desprezo e, literalmente, passou a mantê-lo sob um controle brutal. Por causa disso, Nox pensava que o pai ao menos reprimira aquela inclinação repugnante depois do casamento.
Mas, assim que Khalid entrou na casa, ele voltou a cobiçá-lo a cada oportunidade.
Nox o cortou sem rodeios:
— Já estamos de saída.
— Você ousa me olhar de cima também, igualzinho à sua mãe…
Não se deu ao trabalho de ouvir o resto.
Aquele homem, atado de ponta a ponta por um ódio de si mesmo, jamais tentará mudar. Apenas ficava onde estava, ocupado em saciar seus desejos carnais.
— Jovem Mestre…
— Shh. Está tudo bem.
Nox falou como se o acalmasse. Puxou Khalid de leve pelos ombros e voltou a andar. Não esqueceu de acertar o passo com o da criança.
As orelhas de Khalid ficaram vermelhas sem que ele percebesse, e Nox percebeu muito bem.
Um leve sorriso tocou seus lábios.
Às vezes, a ideia de que talvez fosse o primeiro amor de uma criança o deixava silenciosamente feliz.
E, ao mesmo tempo, o fazia pensar em como era lamentável que a criança viesse a gostar de alguém como ele.
Porque, no fim das contas, ele também não passava de um nobre imundo com o sangue do pai nas veias.
Nox não queria que aquela criança lhe entregasse o coração.
Só queria cuidar dela.
Jamais nutriria o tipo de desejo imundo que o pai nutria.
Jurava isso a si mesmo repetidas vezes.
E assim, quando o treino da manhã terminava e eles voltavam, Khalid cuidava de suas roupas com aquelas mãozinhas.
Khalid sempre desabotoava as roupas de Nox com dedos trêmulos, como se estivesse perpetuamente tenso. Nox o observava por um instante, depois suspirava com uma risada baixa e tirava a própria roupa.
— D-desculpe.
— Tudo bem. Vá buscar água para o banho.
— Sim… sim, senhor!
Então a criança saía correndo para encher a banheira. Nox tirava devagar o resto das roupas, pendurava-as onde fosse conveniente e vestia o roupão que Khalid deixara separado para ele.
Depois seguia para o banho.
Quando entrava, encontrava a criança ali, testando a temperatura da água que acabara de preparar.
— Vá descansar um pouco também.
— Hã? M-mas e o serviço de acompanhar o seu banho?
Diante disso, Nox arqueou uma sobrancelha.
Nunca, nem uma vez, mandou a criança acompanhar o seu banho.
— E onde exatamente você ouviu isso?
— E-eu ouvi os adultos conversando outro dia, e disseram que, se quiser ganhar favores, acompanhar o banho de alguém é o natural…
Em vez de tirar o roupão, Nox cruzou os braços e o encarou. Pelo tom do que haviam dito, o tipo de “acompanhar o banho” a que se referiam provavelmente não era nada inocente.
— Você sabe de que tipo de acompanhamento eles estavam falando?
— Hã? Não é só ajudar o senhor a se banhar?
Diante disso, Nox soltou um sopro de incredulidade e deu uma risada vazia.
— Não. Vá descansar. Posso me lavar sozinho.
— M-mas…
**Tsc.**
Lançou ao menino um olhar de leve repreensão, e Khalid se levantou do lugar com o ânimo visivelmente abatido. Nox achou difícil ver a criança tão desanimada e, no fim, acariciou-lhe gentilmente os cabelos.
— Vou chamá-lo de novo na hora da refeição, então não se preocupe.
Então, só assim, o rosto da criança se iluminou de imediato.
— Sim… sim, senhor!
— Muito bem.
A relação entre os dois era pacífica.
A criança fazia bem o trabalho, apesar daquelas mãozinhas, e Nox nunca exigia de Khalid nada que fosse irrazoável. Tudo entre eles parecia em seu devido equilíbrio, sem um único problema que o perturbasse.
Talvez fosse por causa dessa paz que Nox baixou a guarda por algum tempo.
Então, um dia, quando precisou deixar a propriedade para um compromisso familiar do lado da mãe, aconteceu algo que ele não esperava.
Os parentes maternos eram conhecidos por serem exigentes, e Khalid ainda era pequeno e meio desajeitado. Era difícil levá-lo junto.
— Seu único trabalho serão serviços avulsos.
— Sim, senhor.
— Não chegue perto do quarto do meu pai.
— Sim, senhor.
— Já conversei com Maeta. Você será designado para o anexo, então só precisará limpar.
— Entendido, Jovem Mestre.
Khalid compreendia muito bem a ansiedade do jovem mestre. Por isso sorriu mais radiante que o normal, tentando tranquilizá-lo.
— Vou fazer tudo o que o senhor mandou. Então, por favor, não se preocupe.
Nox forçou os cantos da boca para cima num sorriso. Khalid assentiu, e, com isso, Nox partiu para a propriedade da família da mãe.
Para alguns, era apenas uma semana.
Para eles, era uma semana longa demais.
Nox deveria ter levado a criança consigo naquele momento.
Mesmo enquanto comparecia às festas na propriedade da família da mãe, Nox não parava de pensar nele. Providenciou para que o menino ficasse no anexo, então não deveria haver motivo para que cruzasse com o pai.
E o pai também andava de cabeça baixa por causa dos avisos da mãe, então Nox pensou que não haveria problema real.
Mas, por algum motivo, não conseguia afastar a inquietação em seu peito.
Uma ansiedade estranha continuava a espetar seu coração.
— Por que está tão distraído?
— Ah… peço desculpas.
A mãe deixou claro que o desagradava vê-lo naquele estado, e Nox endireitou as costas e se obrigou a se concentrar.
Sim. As chances de aquele tolo covarde e sem espinha ousar desobedecer às ordens da mãe e tentar alguma coisa eram baixas.
Continuou sussurrando para si mesmo que estava tudo bem, vezes sem conta, tentando acalmar o tumulto dentro de si.
E então aquela longa semana terminou.
Quando Nox finalmente voltou para casa depois do evento familiar, percebeu que havia algo errado.
— Onde está Khalid?
Diante disso, a chefe das criadas, Maeta, fez uma reverência com uma expressão de absoluta vergonha.
— Bem… Khalid desapareceu.
Ela nem conseguia erguer a cabeça enquanto lançava a Nox um olhar nervoso. A testa dele se franziu de imediato. Maeta sabia muito bem o quanto ele prezava Khalid.
— Eu lhe disse explicitamente para não tirar os olhos dele.
— Bem, é que… da última vez que verifiquei, ele estava, com certeza, no anexo.
Maeta ofereceu a desculpa, e Nox ficou parado, de testa franzida, pensando.
A criança estava no anexo e depois sumiu sem deixar rastro?
Olhou friamente para Maeta.
Tinha certeza de que ela estava escondendo algo dele.
Ela hesitou, vacilando sob seu olhar, e por fim confessou:
— Na verdade… assim que o senhor e Sua Graça deixaram a propriedade, Sua Graça, o Duque, mandou chamar Khalid.
— O quê?
Seu coração despencou.
Não esperava que o pai fosse tão descarado.
Não… será que realmente não esperava?
No instante em que ouviu aquelas palavras, Nox saiu correndo em direção ao quarto do pai.
— Jovem Mestre! Jovem Mestre!
Ouviu Maeta chamando atrás de si, mas não deu atenção. Esquecendo todas as regras de etiqueta da nobreza, disparou pelo corredor e chegou ao aposento do pai. As roupas e os cabelos haviam se desarranjado com a pressa.
Tomou fôlego uma vez e então escancarou a porta sem bater.
Um forte cheiro de álcool o atingiu de imediato.
— Agora trata o próprio pai como se não fosse nada! Abrindo a porta sem permissão?
— Onde está a criança?
— A criança? De que criança você está falando?
— Perguntei onde está Khalid.
— Khalid?
Seus olhos embriagados e turvos ficaram vagos por um instante enquanto pensava.
Então ele bateu as mãos uma na outra.
— Ah, aquela coisinha bonita e insolente!
— O que o senhor fez com ele?
Diante disso, Doran explodiu numa gargalhada.
Então, sem aviso, arremessou ao chão a garrafa que tinha na mão.
**Crash!**
O estilhaçar alto ecoou pelo quarto, mas Nox nem sequer piscou. Apenas encarou Doran. Doran, ofegante, encontrou os olhos do filho que o fuzilava.
O filho se parecia demais com sua esposa.
Aquele cabelo negro de brilho esverdeado.
Aqueles olhos verde-escuros.
E até o olhar que o fitava com desprezo explícito.
Doran Rainerio não suportava aquilo.
Então começou a apontar o dedo para ele e a gritar:
— Você mostra mais respeito a um criado de baixa extração do que ao próprio pai!
— Nunca fiz isso.
Nox mentiu com calma.
E aquela mentira levou o pai a um frenesi ainda maior. Sem sequer reparar nos cacos de vidro sob os pés, avançou a passos largos até parar bem diante de Nox.
Como Nox ainda era jovem, a altura dos olhos do pai ainda parecia razoavelmente elevada.
Mas era só isso.
Nos olhos erguidos em sua direção, não havia nada além de frieza, congelada como pingentes de gelo.
— Perguntei o que o senhor fez com ele.
— Não consegui fazer nada. Nada! O desgraçadinho não ficava quieto!
Ergueu um braço e falou como se lamentasse alguma injustiça.
Marcas nítidas de dentes de criança ainda eram visíveis em seu antebraço.
— Ousou ferir o corpo de um nobre. Devia ser arrastado de volta agora mesmo e castigado. Mas o pestinha fugiu rápido demais. Não faço ideia de onde esteja se escondendo!
— …
O desprezo nos olhos de Nox se aprofundou.
O pai não suportou.
— Fora! Fora da minha vista! Eu disse para tirar esses malditos olhos de cima de mim!
Cambaleou de volta à cama e desabou sobre ela.
Nox olhou por um longo momento para aquela cena patética e então bateu a porta atrás de si e seguiu em direção ao anexo.
Ao menos a criança parecia ter escapado das mãos do pai.
Mas não tinha como saber para onde ele havia corrido.
(Continua)