•.¸ ♫ Capítulo 07
7. Smorzando (Parte 1/5)
Smorzando: como que se apagando aos poucos
O bar inteiro estava tomado por aplausos. Sihu captou a expressão maravilhada de algumas pessoas. Havia nos seus perfis um ar de quem fora completamente arrebatado pela apresentação.
Os olhos negros se moveram na direção do homem que criara tudo aquilo. O homem que se curvava em cumprimento diante do piano — era Yejun.
Ele também parecia empolgado enquanto se inclinava e voltava a se endireitar. Talvez por ter se concentrado ao máximo na própria apresentação, seu olhar estava lânguido e suave.
Yejun virou a cabeça e trocou um olhar com Sihu. Um sorriso pareceu despontar em seus lábios, e logo ele se aproximou rapidamente do lugar onde Sihu estava sentado. Chegou a inclinar o tronco para encará-lo, o semblante radiante.
— E aí, o que achou?
Na pergunta carregada de expectativa transparecia o desejo de ser elogiado. Diante daquele jeito de expor as próprias emoções sem reservas, Sihu soltou um riso débil. Em seguida, em vez de responder com palavras, esticou a mão e afagou-lhe a cabeça.
Talvez surpreso com o contato repentino, Yejun arregalou os olhos. Foi só por um instante; logo murmurou “que bom” e ergueu os cantos da boca. Era um sorriso bonito, com covinhas que se formavam de um jeito agradável. Retirando a mão, Sihu usou aquele seu jeito peculiar de falar, impassível e vagaroso.
— Como está o corpo?
— O corpo?
— É.
Um riso passou depressa pelos olhos de Sihu.
— Você ficou choramingando que estava com febre. Estou perguntando como está agora.
— …Isso já faz um tempão.
O que havia nos cantos caídos dos olhos de Yejun era constrangimento. Na semana anterior, Yejun fora acometido de repente por uma febre alta e um resfriado. Quem cuidou dele, que gemia sem nem ir ao hospital, foi ninguém menos que Sihu.
Relembrando as vezes em que lhe dera o mingau colherada por colherada, Sihu balançou a cabeça. Nunca na vida havia cuidado de alguém com tamanho zelo só porque a pessoa dizia estar doente. Em outra situação, teria estendido algum dinheiro mandando ir ao médico. Aquela fora a primeira vez que se dera ao trabalho de mexer os próprios braços e pernas.
— No dia seguinte já melhorei. Eu não disse? Que ia ficar bom se dormisse.
— Será mesmo que foi por causa do sono? Deram mingau, deram remédio, botaram para dormir. Quem foi que fez tudo isso, hein?
— Sim, sim, tudo graças a você, hyung. Vou te servir pro resto da vida como o salvador da minha vida.
— Pela lábia, vejo que se curou de vez.
Enquanto conversavam, Sihu sentiu de repente que havia ficado bem mais próximo daquele garoto. Yejun se mostrava mais brincalhão do que antes, e ele próprio também estava usando um tom bem mais leve.
Um prazer sutil subiu pelo cotovelo e ressoou na concha da orelha. Sihu franziu levemente as sobrancelhas. Sinceramente, não esperava se divertir tanto assim com uma coisa tão banal.
Nesse meio-tempo, Yejun se sentou com naturalidade de frente para Sihu. Os clientes ao redor lançavam olhadelas ao rosto dele. Naqueles olhares havia simpatia pelo pianista que apresentara uma performance tão animada. Sihu deixou de lado a emoção que lhe coçava a orelha e puxou conversa.
— Deixa eu ao menos te dar um fraque de presente.
— Um fraque?
— É que logo você vai subir num grande palco, imagino. O pianista Yu Yejun.
Falando com serenidade, Sihu terminou de tomar o vinho que restava. Ao pousar a taça, os cantos da boca, curvados num arco, brilhavam agradavelmente úmidos.
— Vou te vestir com uma roupa dessas e me gabar um pouco. Dizendo que fui o primeiro a te descobrir.
— …Não imaginava que você tinha esse tipo de personalidade, de gostar de se gabar.
— Então é isso mesmo que você não sabia. Eu gosto de me gabar, exibir os outros é o meu passatempo.
— É mesmo? Então vou fazer sucesso o mais rápido possível. Pra você poder me exibir.
Na voz que ele sussurrava despontava um afeto intenso. Sihu pensou em acrescentar “mas não banque o namorado”, e desistiu. Não era a primeira nem a segunda vez que o garoto falava com aquele tom. Ficar traçando limites toda vez e deixar o clima pesado já não agradava a Sihu.
Em vez de repreendê-lo, ele espetou com o garfo, de uma só vez, um pedaço de carne e rúcula.
— Quer comer?
Assim que ele terminou de falar, Yejun abriu a boca. Diante dos lábios avermelhados e da língua que se via de leve, os olhos de Sihu se estreitaram. Sentindo um desejo que de repente começava a ferver, ele pôs a comida dentro da boca do outro.
Yejun juntou levemente os lábios e mordeu a ponta do garfo. Quando Sihu lhe lançou um olhar de “o que você está fazendo”, os olhos dele se curvaram como uma lua crescente. Havia naquele sorriso astuto de raposa uma malícia que não existia antes.
Uma tensão surgiu entre as sobrancelhas de Sihu. Ele pressionou o lábio inferior do outro com a ponta afiada do garfo. A textura firme e macia lembrava um gomo de tangerina bem descascado.
— Onde você aprendeu a sorrir desse jeito?
Os cantos dos olhos curvados e o sinal de pele fincado ali perto prenderam seu olhar por um bom tempo. Era um rosto que ele teria beijado ali mesmo, na hora, se não houvesse gente por perto.
— E como foi que eu sorri?
— Não quero explicar.
Mesmo diante daquela voz sem altos e baixos, Yejun não se atrapalhou. Pelo contrário, botou a língua para fora, como que se exibindo, e lambeu a ponta do garfo. Depois foi o primeiro a afastar o rosto e retrucou com suavidade.
— Eu bem que gostaria de ouvir a explicação.
Que folgado. A coisa da última vez parecia ter gerado uma intimidade profunda. Sem acreditar naquilo, Sihu o encarou fixamente com a testa franzida. Era um rosto tão carrancudo que outra pessoa, ao vê-lo, ficaria receosa achando que ele estava com raiva.
Yejun, porém, em vez de se acovardar, riu sem fazer som. O semblante que sorria de leve, satisfeito, era luminoso. Era uma reação que misturava afeto, familiaridade e gratidão por Sihu.
Vendo aquele jeito de sorrir e sorrir, contente, Sihu de algum modo se sentiu esvaziado. Soltou um suspiro e indicou a garrafa de vinho com um gesto dos olhos.
— Também quer beber disto?
As covinhas de Yejun se aprofundaram.
— Quero.
Nesse instante, o celular que Sihu guardara no bolso da calça vibrou. Pela vibração se repetir várias vezes, não parecia mensagem, e sim uma ligação de alguém.
— …Um instante.
Ele pediu licença brevemente e sacou o celular. No fundo, torcia para que fosse alguém sem muita importância. Queria aproveitar mais aquele momento de moleza, como quem imerge o corpo em água morna de banho.
O desejo de Sihu, contudo, logo se desfez. Nas costas da mão que segurava o celular, as veias saltaram, azuladas. Os cantos da boca, que traçavam um arco, pareceram descer lentamente, e logo ele se levantou.
Um olhar seguiu aquele rosto de Sihu. Yejun, sentado à frente, tinha uma expressão de “o que foi?”.
A presença de quem ligava era grande demais para que ele explicasse àquele olhar cheio de estranhamento. Como atender era prioridade, Sihu virou o corpo e saiu para fora. De algum modo, sentia uma fisgada na nuca, como se houvesse um espinho fincado ali, mas fez vista grossa em silêncio.
— Sim, atendendo.
Assim que saiu porta afora, ele levou o celular à orelha. Ao emitir uma voz calma e cortês, o interlocutor reagiu com um “ah, é você”.
— Sihu, onde você está agora?
O dono daquela voz grave e imponente era o pai. Diante do contato inesperado, os olhos sob os longos cílios se agitaram de leve. Em vez de responder de imediato, Sihu fitou por um instante o celular que segurava. No visor estava, sem dúvida, o nome “Pai”.
— Estou na rua.
— Ah, sim. E tem se cuidado bem?
Não era pessoa suficientemente afetuosa para trocarem telefonemas de cortesia tarde da noite. Claro que isso não significa que fosse daquele tipo patriarcal e violento que se vê em algum filme ou novela. O pai nunca havia levantado a mão para um filho, nem jamais proferira palavras ofensivas ou condutas próximas de maus-tratos.
Mas, se a questão era se ele era um pai carinhoso, isso tampouco. Ao menos para ele, o filho do meio. Sihu pigarreou e recompôs o ânimo que ameaçava ficar constrangido.
— Sim, tenho me cuidado bem. E o senhor?
— Eu, ora. Levo a vida como sempre.
— …Sim. Tem alguma tarefa para me passar? Ou algo que precisemos discutir?
— Rapaz, se fosse esse o caso, eu teria te chamado na empresa. Por que eu estaria ligando a esta hora?
— …
Então por que o senhor entrou em contato? A pergunta subiu até a garganta. Enquanto ele hesitava se a soltaria ou não, o pai falou primeiro.
— Vamos jantar juntos amanhã à noite. Só nós três: o Sihyeon, você e o pai.
Jantar os três? Diante da proposta inesperada, Sihu inclinou a cabeça de lado. Terá lido o coração confuso do filho? O pai estalou a língua.
— Tsc, tsc, por que esse silêncio? Que foi, acha que vou te passar algum serviço? Não é para isso que estou chamando, então venha tranquilo.
— …
— Sihu?
Ouvindo em silêncio, Sihu passou a mão que não segurava o celular pelo próprio pescoço. Então não é para me passar serviço. O que é, então, um jantarzinho aconchegante entre os três?
Por um lado o constrangimento aumentava; por outro, veio-lhe também o pensamento de que não era assim tão ruim. Pensando bem, deu-se conta de novo de que já fazia um bom tempo desde o último encontro familiar para uma refeição em caráter íntimo. Quando voltou a abrir a boca, Sihu emitiu, com certeza, uma voz mais branda do que a de antes.
— E a mãe, e o Doyeong?
— Sua mãe disse que vai a algum encontro. E o Doyeong, ora, tsc, vamos nos ver sem ele.
Por que cargas d’água estaria deixando de fora o caçula que tanto adora? A dúvida continuava sem se resolver, mas, em vez de seguir perguntando, Sihu assentiu com a cabeça. Teve o pressentimento de que só amanhã, comparecendo ao encontro, todas aquelas curiosidades se dissipariam.
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(Continua na parte 2)
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna