↫─☫ Episódio 196
𓆰𓆪 Episódio 196: Múltiplos Pensamentos 𓆰𓆪
Um longo silêncio se passou.
Lee Sayoung encarou sem expressão a mão estendida em sua direção. Uma mão endurecida por calos. Uma mão que um dia derretera com veneno, mas que não tinha sinais de recuperação. Os lábios secos perguntaram:
— Você consegue?
A resposta veio imediatamente.
— Vou conseguir.
— …
— Já falhei duas vezes. Mas eu… acredito que há algo a aprender com o fracasso.
— …
— Tenho certeza de que você também não quer que seus esforços tenham sido em vão, né?
— …
— Então me ajuda.
Lee Sayoung não respondeu. Mas dava para adivinhar o que ele estava pensando.
Aquela era uma pessoa que se agarrara ao mundo por uma terceira chance. Não iria querer desperdiçar aquela oportunidade que mal conseguira. Em silêncio, Lee Sayoung inclinou a cabeça. Não parecia ter intenção de pegar a mão, então Cha Eui Jae a recolheu sem jeito.
— Me responda só uma coisa.
— O quê?
— Naquele mundo, por que você acha que ele sentia dor?
— …
— Ele nunca me deu resposta. Nem no momento da morte…
O motivo de ele estar tão doente no segundo mundo. A mente de Cha Eui Jae trabalhou. Hong Yeseong já tinha dito antes. Que no primeiro mundo Cha Eui Jae era tão poderoso que, mesmo depois de usar o relógio, ele não quebrou.
Estranhamente, Cha Eui Jae sentiu que sabia a resposta. Não, ele sabia. Como se alguém tivesse gravado o conhecimento em sua mente, um fato que ele não sabia veio à tona. Ele abriu a boca sem perceber.
— Quando voltei o tempo no primeiro mundo, eu me tornei o eixo.
— …
— Uma pessoa que se torna o eixo fica presa a limitações até que o mundo anterior seja completamente aniquilado. A vida dela vai sendo consumida até o mundo ser destruído. Essa era a penalidade do relógio.
— …
— Ainda assim, por causa do meu poder, aguentei mais tempo… mas morreria assim que voltássemos. Pelo efeito rebote.
…Era isso?
— Ahá…
Lee Sayoung soltou um murmúrio baixo e baixou a cabeça. Cruzou os braços e murmurou:
— Então era isso que o Hong Yeseong quis dizer quando disse que consertou…
Hmm, acho que sim?
Cha Eui Jae relembrou os fragmentos dispersos que haviam surgido de repente. Memórias— algumas suas e outras não— estavam misturadas e embaralhadas. Lee Sayoung parecia prestes a dizer algo, então Cha Eui Jae ergueu apressado a mão para impedi-lo.
— Ei, ei! Espera, fica quieto um segundo.
Normalmente, se alguém se tornasse o eixo do mundo—
— …
Deveria haver algum tipo de pista, certo? Cha Eui Jae começou rapidamente a vasculhar as memórias. Infelizmente, a maioria parecia trivial, memórias bagunçadas que podiam ser descartadas.
Pensamentos sobre o cardápio do jantar, sobre como os gatos de rua eram fofos, a memória de curtir a música tocando na loja de conveniência, a bronca do Jung Bin e o sermão da Honeybee…
“Droga. Minha memória só serve para coisas inúteis. As importantes não vêm à mente.”
Frustrado, Cha Eui Jae bagunçou o cabelo. De quem eram aquelas memórias, afinal? Mas logo ajustou a mentalidade. Talvez não houvesse sentido em distinguir de quem eram as memórias.
“Elas são todas…”
São todas memórias de Cha Eui Jae.
Estranhamente, a música que ele nunca ouvira combinava com seu gosto, e o gato bocejando agachado no parapeito à beira da estrada também. Por que aquelas memórias só estavam surgindo agora?
Os fragmentos flutuando na superfície borraram como ondas quebrando. E, pouco depois, desapareceram, como se nunca tivessem surgido.
Enquanto isso, Lee Sayoung, que estivera em silêncio, de repente ergueu a cabeça e olhou para o ar vazio. Cha Eui Jae, ainda mexendo no cabelo, fez o mesmo. Uma rachadura fina e negra havia aparecido no ar. Lee Sayoung, inexpressivo, bateu levemente na bochecha com os dedos.
— Eu estava me perguntando quando você ia aparecer.
— Hã?
Naquele momento, a pequena rachadura se rasgou como as mandíbulas de uma cobra. Cha Eui Jae deu instintivamente um passo atrás e assumiu uma postura de luta. Logo, uma lâmina negra irrompeu do rasgo. O fio brilhava de forma estranha. Ele a reconheceu instantaneamente. Cha Eui Jae endireitou a postura e franziu o rosto.
— …Uma presa?
Era a Presa do Basilisco. A que ele cravara no próprio peito.
No instante seguinte, uma mão segurando o cabo da espada surgiu. Uma mão vermelha, com as veias saltadas. Os olhos de Cha Eui Jae se arregalaram.
“Aquele não é o Sayoung?”
Como se para confirmar seus pensamentos, uma voz fria ecoou pelo ar.
— Eu nunca disse que ia te esperar.
Um par de coturnos pretos e pernas longas rasgaram a fenda, e um sobretudo esvoaçou. Logo, um rosto pálido apareceu acima do rasgo.
Sayoung, que rasgara a fenda e estava no ar, aterrissou levemente no chão. Poeira branca subiu. Ele girou habilmente a espada, sacudindo o sangue e a gosma negra grudados nela. A ponta da lâmina reta apontou diretamente para a garganta de Lee Sayoung, à distância.
— O tempo acabou.
O que é isso?
— O que está acontecendo?
Cha Eui Jae olhou de um Lee Sayoung para o outro, incrédulo. Pelo que parecia, os dois tinham algum tipo de contrato ou acordo. Cha Eui Jae, no entanto, não sabia de nada.
Lee Sayoung ergueu as duas mãos e deu de ombros enquanto encarava Sayoung.
— Você é impaciente.
— Você é que quebrou o acordo primeiro…
Uma aura assassina surgiu de Sayoung. Lee Sayoung estalou os dedos. Nesse ritmo, os dois provavelmente acabariam numa briga séria. Droga, e não há tempo a perder. Cha Eui Jae interveio apressado entre os dois.
— Dá para explicar de um jeito que eu entenda? O que está acontecendo?
Ele olhou para Lee Sayoung, depois se virou para Sayoung e estremeceu.
A expressão de Sayoung não era diferente da última vez que Cha Eui Jae o vira. Sombria, o rosto de alguém familiarizado com a perda. Seus olhos estavam envoltos numa sombra escura. Seu olhar estava fixo atrás de Cha Eui Jae. Cha Eui Jae seguiu aquele olhar e se virou. Para onde os olhos de Sayoung estavam direcionados era…
— …
A figura de Lee Sayoung segurando Cha Eui Jae.
Ah, droga. Cha Eui Jae mordeu a língua. Pensando bem, as mãos de Sayoung estavam encharcadas de sangue. Havia algumas gotas de sangue respingadas no rosto dele também.
Cha Eui Jae cravara a Presa do Basilisco no próprio peito.
E agora, Sayoung segurava a Presa do Basilisco, com as mãos ensanguentadas.
— …
— Ah.
Sayoung, seguindo o olhar de Cha Eui Jae, soltou um suspiro curto. Acenou levemente a mão manchada de vermelho e curvou os lábios num sorriso.
— Alguém gentilmente me informou… que, para atravessar até aqui, eu só precisava usar esta espada.
— …
Um som de ranger veio dos dentes de alguém.
— Graças a isso, tive uma experiência bem desagradável… então, obrigado por isso.
— Não há de quê.
Lee Sayoung respondeu com indiferença. Cha Eui Jae olhou para o rosto de Sayoung. Seus olhos negros como breu, sem vida, estavam fixos no Cha Eui Jae morto. Droga. Cha Eui Jae deu um passo para o lado para bloquear sua visão e perguntou:
— Você está… bem?
— Como assim?
O tom era estranhamente seco, mas um homem culpado não podia ficar implicando. Cha Eui Jae olhou para Sayoung com cautela.
— Bom, sabe… aquilo.
— Hmm… Não entendo do que você está falando…
Um sorriso radiante apareceu em seu rosto. Ao mesmo tempo, alarmes soaram na cabeça de Cha Eui Jae.
— Com certeza estou melhor do que a pessoa que se esfaqueou. Eu só tirei a espada. Não é?
— Não, eu estou bem de verdade. Olha isso. Quer checar?
— Não precisa.
Uma resposta seca!
Cha Eui Jae ficou boquiaberto de incredulidade. Sayoung puxou Cha Eui Jae para ficar atrás dele, protetor.
Sayoung os observava com um olhar indiferente. Ele riu com zombaria.
— Aliás… você aguentou por tanto tempo. Mas no fim falhou, hein?
Lee Sayoung respondeu friamente.
— Você sabia que eu ia falhar. Eu também sabia.
— Haha… Foi por isso que eu te disse. Nem tente. Você vai falhar de qualquer jeito.
— Bom… O Cha Eui Jae tinha outra opinião. Ele disse que valia a pena tentar, mesmo que falhássemos.
Faíscas voaram. Os dois Lee Sayoungs voltaram a discutir.
Ah, sério. Cha Eui Jae suspirou brevemente e então respirou fundo. E…
— EI! Seus idiotas, dá para explicar direito?!
Ele gritou com toda a força que conseguiu reunir do fundo da barriga.
***
Pouco depois, os dois Lee Sayoungs se sentaram a uma curta distância um do outro, cada um num pedaço das ruínas desabadas.
Lee Sayoung estava sentado de braços cruzados e rosto inexpressivo, enquanto Sayoung apoiava o queixo na mão, parecendo emburrado. Entre eles, Cha Eui Jae andava agitado de um lado para o outro. Ele não parava de resmungar baixinho, movendo-se aqui e ali, antes de soltar de repente, frustrado:
— Ei… qual é o problema de vocês dois?
Depois de receber a explicação, Cha Eui Jae montou o contexto de como Sayoung havia arrancado a Presa do Basilisco cravada em seu corpo e rasgado o espaço para fazer sua intrusão.
Aparentemente, Sayoung vinha lidando com Lee Sayoung mexendo em seu corpo desde que acordara, três meses antes. Uma sensação de que o corpo não era inteiramente seu. Uma sensação de que parte dele havia sido roubada. Cha Eui Jae sentiu uma onda de irritação de novo.
“Se era assim, você devia ter me contado!”
De qualquer forma, Sayoung, que odiava perder o controle mais do que tudo, ficara obsessivamente perto de Cha Eui Jae. Por algum motivo, sempre que estava perto dele, o hóspede indesejado— Lee Sayoung— perdia seu poder. Cha Eui Jae de repente se lembrou de como Sayoung andara estranhamente grudento desde que acordara.
“…”
Cha Eui Jae pigarreou. Ahem, melhor não pensar muito nisso.
Enquanto mal mantinha aquele equilíbrio precário, Cha Eui Jae fugiu.
Por uma semana inteira!
Durante aquela semana sem Cha Eui Jae, Sayoung não teve escolha senão ter várias conversas com o intruso Lee Sayoung. E Lee Sayoung sussurrara persistentemente: O fim não pode ser impedido. É um desastre sem forma que virá. Já falhamos duas vezes. Mas há uma forma de salvar Cha Eui Jae. Você também quer salvá-lo, não quer? Me dê uma chance de convencê-lo.
Nesse ponto, Cha Eui Jae se inflamou de novo.
— Você acreditou nisso?
Sayoung, que apoiava o queixo na mão emburrado, torceu os lábios.
— Você acha que eu acreditei? Bobagem.
* * *
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki