↫─☫ Episódio 155
𓆰𓆪 Episódio 155: O Que Está Escondido nas Frestas 𓆰𓆪
Depois que o constrangimento e a vergonha diminuíram um pouco, a primeira coisa que lhe veio à mente foi culpa. Felizmente. Cha Eui Jae passou a mão distraidamente pelo cabelo.
‘“Tudo bem ter esse tipo de pensamento sobre alguém que não está bem?”
Não havia pensamento pior do que aquele. Cha Eui Jae esfregou a máscara com força. Mas a sensação daquele corpo firme se agarrando a ele ainda estava vívida.
Braços que envolveram sua cintura como se nunca mais fossem soltar, costas que subiam e desciam como se tentassem recuperar o fôlego, e aquela respiração, misturada com um soluço leve. Como ele poderia não acolher aquilo? Cha Eui Jae não sabia como rejeitar calor.
Especialmente se vinha de seu único sucesso.
— Ah, isso está me deixando louco!
Mas isso não é uma canalhice?
Ele estava bagunçando o cabelo freneticamente quando ouviu algo arrastando pelo piso de madeira. Cha Eui Jae enfiou a cabeça para fora da porta. Kkokko vinha andando, equilibrando uma bandeja de madeira na cabeça.
Sobre a bandeja havia duas xícaras de cerâmica cheias de sikhye, uma bebida tradicional coreana de arroz doce, e nem uma gota oscilou enquanto a galinha de cerâmica alcançava a soleira da porta.
“Isso é serviço de quarto nível conforto.”
Kkokko passou por cima da soleira e parou diante de Cha Eui Jae. Então revirou os olhinhos feito grãos de feijão para cima, olhando para ele. Cha Eui Jae pegou a bandeja e a colocou sobre a mesa, lembrando-se de agradecer a Kkokko.
— Obrigado.
— Cocó.
O peito liso de Kkokko se inflou com orgulho. Quando Cha Eui Jae olhou de novo para a bandeja, notou que uma das xícaras tinha “Para o Hong Yeseong” escrito. Ele sentiu um súbito impulso de invadir o território de Hong Yeseong por puro capricho, mas, já que estava ali pedindo ajuda, reprimiu o pensamento.
Cha Eui Jae pegou a xícara sem inscrição, mas não conseguiu se forçar a beber o sikhye.
“Esse olhar fixo… é constante…
Depois de terminar o serviço, Kkokko havia se enroscado na almofada e encarava Cha Eui Jae com seus olhos redondos e pretos. Era como se exigisse algo. O que mais ele queria? Cha Eui Jae olhou para Kkokko e então tentou puxar conversa.
— …O quê?
— Cocó.
Kkokko inclinou a cabeça. Cha Eui Jae conseguia lidar com quase qualquer tarefa, mas entender o que uma galinha de cerâmica dizia estava além dele, infelizmente. Com uma expressão confusa, ele ergueu a xícara e fingiu beber.
— …Você quer que eu beba isso?
— Cocó, cocó.
Kkokko balançou a cabeça vigorosamente e então a baixou, soltando um suspiro profundo. Uma galinha suspirando! E não um suspiro qualquer, mas um que lhe dava nos nervos.
“Essa coisa… não é só uma galinha, é?”
Pensando bem, havia algo bastante inteligente naqueles olhinhos de feijão. Cha Eui Jae encarou os olhos pretos e miúdos de Kkokko. Kkokko não desviou o olhar.
Justo quando uma disputa de encarada não intencional estava prestes a continuar, Hong Yeseong entrou no cômodo, balançando uma sacola plástica. Talvez fosse o agasalho verde, mas ele parecia ainda mais relaxado do que o normal.
— Já experimentou o sikhye?
— Não, ainda não.
— Experimenta! Eu mesmo fiz. Até o funcionário público reconheceu o sabor. Come nurungji também. Ah, quer que eu traga dongchimi também?
— Agradeço a intenção, mas podemos ir ao ponto principal?
— Vocês vão embora depois que terminarmos?
As sobrancelhas de Hong Yeseong caíram num arco triste.
— Eu estou entediado…
Cha Eui Jae o fuzilou por trás da máscara. Com um beicinho que rivalizava com o bico de Kkokko, Hong Yeseong endireitou a postura a contragosto. Então, enquanto quebrava um pedaço de nurungji, perguntou:
— Certo, certo. Então, já que você carregou o Lee Sayoung para cá, isso deve ser sobre ele, né?
— É. Ele acordou.
Os olhos de Hong Yeseong se iluminaram enquanto ele mastigava o nurungji.
— Que ótimo! Ele acordou antes do esperado.
— Mas tem um probleminha.
— Que problema?
— Você me disse que, como duas almas estão abrigadas em um só corpo, a gente devia deixá-las em paz até se estabilizarem. Que não havia nada a fazer além de esperar.
— Eu disse isso.
Cha Eui Jae brincou com a xícara e perguntou:
— Na hora, eu estava fora de mim demais para perguntar, mas o que exatamente você quis dizer com “estabilizar”?
Depois de pensar um pouco, Hong Yeseong virou seu sikhye e então pousou a xícara vazia com um tilintar.
— Bom… pensa como se fosse suco. Com o tempo, o que está dentro evapora, certo? E, se não houver estímulo externo, não vai balançar. É algo assim. Eu esperava que, se a gente esperasse até as almas se fundirem completamente, elas naturalmente se estabilizariam sozinhas.
— …Então ele acordou cedo demais?
— O quê?
Hong Yeseong piscou, parando no meio do movimento enquanto colocava um pedaço de nurungji na cabeça de Kkokko.
— Espera, pelo jeito que você está falando… não me diga que…
— Eles não se fundiram.
— Hã?
— O Lee Sayoung. Tem dois dele. Dentro.
— Como assim, sério?!
Os olhos de Hong Yeseong se arregalaram. Cha Eui Jae esfregou a testa e murmurou:
— Eu tenho certeza. É o mesmo cara que a gente viu no mundo arruinado. Mas não é só ele— o nosso Lee Sayoung também está lá…
— Isso é muito estranho… Duas almas com identidades próprias em um só corpo? Isso é… aaah.
Hong Yeseong, que vinha tagarelando como se estivesse possuído, de repente bocejou e estreitou os olhos. Suas pálpebras caíram como se fossem se fechar a qualquer segundo.
— Então… o que eu quero dizer… é… hmm.
Ele continuou bocejando e balançando a cabeça como uma galinha doente. Era perturbador ver alguém que vinha tagarelando sem parar prestes a cochilar de repente.
“O que está acontecendo com ele?”
Cha Eui Jae estendeu a mão para firmar os ombros oscilantes de Hong Yeseong.
— Ei, o que há com você?
— Hã? Ah… Sei lá.
Ele esfregou os olhos com as costas da mão, mas suas pálpebras caídas começaram a se fechar lentamente.
— Por que eu estou com tanto sono de repente…
— Que papo é esse? Ei!
— Hmm.
Com essa última palavra, Hong Yeseong desabou, ainda amparado pela mão de Cha Eui Jae. Pelos roncos suaves que vinham dele, parecia que realmente havia adormecido. Esse cara tinha narcolepsia* ou algo assim? Cha Eui Jae ficou perplexo. Ficando ansioso, sacudiu os ombros de Hong Yeseong com mais força.
— Ei, você vai simplesmente dormir sem explicar nada direito?
Mas uma voz falou de algum lugar que não a boca de Hong Yeseong.
— Eu respondo no lugar dele.
— O quê?
— Não se assuste, amigo. Eu só o fiz dormir um pouco. Só consigo intervir dessa forma.
Cha Eui Jae virou a cabeça lentamente, com um rangido. Kkokko estava ali sentado, encarando-o diretamente. Seu bico reluzente se moveu.
— Você lembra, né? Não podem existir duas pessoas iguais em um só mundo. Da mesma forma, esse cara e eu não podemos existir ao mesmo tempo. Isso é só um pequeno truque, mas não viola as regras do sistema. Enquanto você me perceber como Kkokko, funciona.
Kkokko estava falando!
Os olhos de Cha Eui Jae se arregalaram. Mesmo depois de esfregar os olhos, estava claro que a voz vinha do bico de Kkokko. E era uma voz familiar. Afinal, era a mesma voz com que ele estivera conversando momentos antes— a de Hong Yeseong! Padrões dourados começaram a girar rapidamente nos pequenos olhos pretos de Kkokko.
Eram os Olhos de Avaliação. Mas muito mais complexos e intrincados do que aqueles que ele conhecia.
— Você…
— Espera.
Kkokko ergueu uma de suas asas brancas.
— Eu sei que você tem muito a dizer e o que você vai dizer. Mas não me confunda com o artesão. Palavras têm poder, sabe? Pensar e dizer em voz alta são coisas diferentes.
— …
— O sistema já está observando o Lee Sayoung. Provavelmente está de olho neste lugar também.
De pé, sem jeito, Cha Eui Jae olhou para o teto. Kkokko continuou falando devagar.
— No momento em que a gente quebrar as regras, eu vou ser expulso antes de conseguir responder qualquer pergunta sua. Então vamos nos ajudar. É claro que não posso te contar muita coisa…
Cha Eui Jae engoliu as palavras que estava prestes a dizer. Então baixou a cabeça, agarrando a máscara. Aquele com quem ele estava falando agora era de fato o “Hong Yeseong” que ele havia encontrado no fim da Masmorra Memorial. E este tinha mais informação.
Hong Ye… não, Kkokko, bateu as asas e estalou os lábios.
— Aff, eu estava determinado a não me envolver desta vez… mas você tinha que me arrastar para fora, né? Você nunca age de forma previsível, o que te torna divertido de observar.
Kkokko inclinou a cabeça e começou a tagarelar.
— Aliás, amigo, o que você fez? Por que o Lee Sayoung está assim? Por que as almas não se fundiram? Esta é uma situação inesperada até para mim. Quer explicar?
— …Você.
— Sim, amigo?
Kkokko esticou o pescoço. Tremendo por um momento em silêncio, Cha Eui Jae de repente se lançou sobre Kkokko, agarrou-o e o sacudiu violentamente.
— Devolve o Kkokko, seu desgraçado maluco!
— Cocóóó!
Nas montanhas silenciosas, o cacarejo alto de um galo ecoou.
Vinte minutos depois, Cha Eui Jae ainda estava sentado na “casa do amor” de Hong Yeseong, mas quem estava sentado à sua frente agora era Kkokko.
Kkokko havia empilhado almofadas para ficar na altura dos olhos de Cha Eui Jae. O dono da casa, Hong Yeseong, estava encolhido ao lado deles, dormindo profundamente, ocasionalmente estalando os lábios. Cha Eui Jae havia tirado a máscara e a colocado ao seu lado, bebericando sikhye enquanto encarava Kkokko.
Kkokko, que vinha se alisando diligentemente com o bico, finalmente abriu a boca— ou melhor, o bico.
— O que poderia ter acordado o Lee Sayoung? Onde as coisas deram errado?
— Para de jogar perguntas e explica direito.
— Eu pensei sobre isso e, mesmo que nada tivesse sido feito, deve ter havido algum tipo de gatilho.
— …Que tipo de gatilho?
— Bom, algo que fizesse o Lee Sayoung arregalar os olhos. Tipo, por exemplo…
Kkokko inclinou a cabeça para frente e para trás, revirando os olhos.
— Um beijo, talvez?
— Cof.
Cha Eui Jae tossiu, cobrindo rapidamente a boca, e então desviou discretamente o olhar. Seus olhos já grandes ficaram ainda maiores. Kkokko inclinou a cabeça, curioso.
— O quê, você fez mesmo? Eu só estava jogando verde.
— …
— Uau…
Kkokko murmurou, cobrindo o bico com a asa. Seus olhos redondos se estreitaram em fendas.
— Ladrão.
Sentindo-se culpado, Cha Eui Jae gritou em protesto:
— Cala a boca!
— É por isso que ele acordou. Segundo o plano do Lee Sayoung do mundo arruinado, os dois deveriam se fundir sem perceber.
— Como você sabe desse plano?
— Bom…
Os pequenos olhos pretos se iluminaram de novo com o padrão intrincado dos Olhos de Avaliação.
— Porque fui eu que modifiquei aquele relógio. Para torná-lo utilizável de novo.
* * *
☰ ⌀ ⌀ ⌀ NOTA: ⌀ ⌀ ⌀ ☰
Narcolepsia, também chamada de sonolência diurna excessiva e incontrolável, é um distúrbio do sono que deixa as pessoas muito sonolentas durante o dia.
↫。。⛧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki
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