🧬 Capítulo 16
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Paraíso dos tolos (16)
Haha, Kwak Soohwan soltou uma risada de bom humor.
Seokhwa não tinha nem forças para olhar para trás e encostou as costas no encosto da cadeira de rodas. Dava para carregá-lo nas costas, mas Kwak Soohwan, depois de armar aquele escarcéu, berrou mandando trazerem uma cadeira de rodas.
Durante o trajeto do terceiro subsolo até o quarto, várias pessoas do abrigo se interessaram, e a cada vez Kwak Soohwan alardeava que os desgraçados da polícia militar tinham deixado o doutor naquele estado.
Seokhwa esticou a mão para o painel de reconhecimento da porta do quarto. Fez apenas o gesto, a mão nem subia direito. Kwak Soohwan segurou seu braço e encostou a palma no painel. Só depois de fechar a porta e entrar é que ele ergueu Seokhwa nos braços e o deitou na cama.
— Aquele desgraçado do Yoo Jeonggyeong, eu não vou deixar barato, então não fica tão indignado.
Ele limpou com uma toalha úmida o rosto de Seokhwa, que já recuperara um pouco a cor em relação a quando o viu na sala de interrogatório.
O soro da verdade usado pela polícia militar era famoso por fazer até os de classe S despejarem tudo o que pensavam. Aplicar algo tão forte em Seokhwa — Yoo Jeonggyeong certamente tinha exagerado para conseguir resultados.
Se não fosse pelo comentário do doutor Kim de que Seokhwa não apareceu no laboratório, teria demorado ainda mais para buscá-lo. Nem o tenente-coronel Jang sabia que Seokhwa tinha sido levado pela polícia militar.
— Você não está achando que eu te denunciei, está?
Como Seokhwa o encarava fixamente com os olhos semicerrados, Kwak Soohwan afastou a toalha.
— Descansa um pouco.
Ainda assim, não saiu do quarto e permaneceu ali. Kwak Soohwan ficou observando Seokhwa piscar e, de vez em quando, aproximava dele uma garrafa de água com canudo.
— O que o Yoo Jeonggyeong perguntou?
— Só o mesmo que o tenente-general Lee Yeontae perguntou ontem.
Como recebeu soro da verdade, as palavras que saíssem da boca de Seokhwa seriam quase todas próximas da verdade.
Kwak Soohwan puxou a cadeira e se sentou mais perto dele. Como era uma droga que deixava a consciência nítida mas eliminava o autocontrole, ele não conseguiria adormecer facilmente até o efeito passar.
— Eu me pergunto se tudo o que você me disse ontem é mesmo verdade.
Seokhwa voltou a olhar para Kwak Soohwan com aquelas pupilas de cristal.
— Você vai me interrogar agora também?
O corpo é fraco, mas a força de vontade é impressionante. Kwak Soohwan se admirou sinceramente.
— Você disse claramente que não conseguiu ouvir o testamento do doutor Oh Yangseok até o fim por causa do disparo.
— Haa…
Quem o entregou à polícia militar certamente não era Kwak Soohwan. Yoo Jeonggyeong parecia ter complexo de inferioridade em relação ao Pelotão Invicto, e, se houvesse pretexto, queria amarrar Kwak Soohwan junto e mandá-lo para a solitária.
— Major Kwak Soohwan.
Ele já falava devagar normalmente, mas naquele dia, com a languidez somada, o tom deixava as pessoas com uma sensação estranha.
— Impressionante. A esta altura você ainda me trata por “major”?
Se ele era assim mesmo após a injeção, isso significava que Seokhwa não tinha grande incômodo com o tratamento informal dele.
— Então como devo te chamar?
— Como preferir. Pode falar informalmente também.
— Não quero.
— Eu estou dizendo que pode, por que não quer?
Seokhwa despejou as palavras sem sequer passar pelo pensamento.
— Porque eu não quero ficar próximo do major Kwak.
Uma veia saltou levemente no pescoço de Kwak Soohwan. O que acabara de sair era certamente sincero, e aquela sinceridade o irritou um pouco.
— Você disse que se alistou voluntariamente no exército, né?
— Disse.
Ele disse que se alistou no exército porque prometeram deixá-lo comer à vontade.
— Lá fora… as pessoas passam fome?
O olhar turvo já nem dava para saber para onde estava voltado.
— O doutor Seok nunca viu alguém que vive fora de Rainbow City, né? É verdade que passam fome e é devastador. Em troca, nós somos animais numa jaula. Tomando inibidor de libido, sem poder ter filhos à vontade, criados dentro da Rainbow City.
— Isso… é ideologia rebelde.
Seokhwa repetiu exatamente as palavras que Kwak Soohwan dissera.
— Na verdade, pra mim tanto faz. Prefiro ser um animal bem alimentado dentro do safári a ser um animal selvagem faminto.
Kwak Soohwan, com olhos brilhantes como os de um animal selvagem, dizia justamente o contrário de sua aparência. Alguém que nem parecia um animal criado em cativeiro sabia falar bem.
O soro da verdade redesenvolvido por Wonho tinha o efeito de também apagar trechos da memória à medida que o efeito passava. Quem recebia a droga não lembrava direito o que dizia nem conseguia recordar bem que perguntas recebeu. Por isso, quem comete algum crime e passava por interrogatório tremia de medo ao recobrar a consciência. Sabendo disso, Kwak Soohwan podia falar com um pouco mais de liberdade. Embora a fala de Seokhwa dizendo que não queria ficar próximo dele quase o tivesse deixado bastante ressentido.
— Disseram que fazem política de controle populacional para proteger os cidadãos com segurança. Foi o que me ensinaram no centro de aprendizagem de Jeju. Você sabe por que o doutor Oh e eu pesquisávamos mutações?
Seokhwa apenas movia a boca, com a cor de um cadáver.
— Na época, a cúpula disse que 30% das crianças que nascessem dali em diante deveriam ser mutantes com capacidades. E sem defeitos como os meus.
— Que defeito? A meus olhos o doutor Seok é bastante atraente. Ao menos na aparência.
— Major Kwak.
Seokhwa o chamou mais uma vez. Até então, sempre que ele perguntava algo sério, Kwak Soohwan desconversava ou tentava tratar com leveza.
— Quem matou o doutor Oh Yangseok não foi alguém de fora… foi?
— E quem você acha que foi?
Seokhwa ergueu o olhar turvo para o teto. Então Kwak Soohwan inclinou o corpo e sussurrou junto ao ouvido dele:
— De qualquer forma você não vai lembrar do que estamos conversando agora, mas eu queria que ao menos ficasse no seu inconsciente.
Ele agia como quem sussurra palavras doces a um amante, como quem revela um segredo que ninguém mais pode ouvir. Em seguida deslizou a mão pelo peito dele como numa carícia preliminar, e Seokhwa não conseguiu sequer afastar Kwak Soohwan, que o tocava daquele jeito insinuante. A mão fria segurou-lhe delicadamente a nuca e subiu pela clavícula como quem sente um perfume. Então ele voltou a sussurrar-lhe ao ouvido:
— Não cave mais o caso do assassinato do doutor Oh Yangseok. Não vai te trazer nada de bom.
— Por quê?
Kwak Soohwan beijou a testa de Seokhwa com um estalo e pressionou fundo.
— Se você continuar desconfiando e cavando, mesmo sem querer ficar próximo, vai acabar inevitavelmente enredado comigo.
E então sentiu os lábios encostados se moverem de novo, discretamente.
A Mother está sempre observando.
Ele sussurrou.
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Seokhwa se espreguiçou como quem solta o corpo entorpecido. Depois que o efeito passou, ele dormira por mais de meio dia, e a sensação de estômago vazio era descomunal. Tirou um cardigã do armário, vestiu-o e saiu do quarto. Como era madrugada, não cruzou com ninguém pelo corredor.
Chegando ao refeitório aberto 24 horas, Seokhwa olhou ao redor. Havia militares espalhados aqui e ali, comendo uma refeição noturna. Seokhwa também pegou um sanduíche do balcão. Era o sanduíche com hambúrguer de soja que Kwak Soohwan disse ser horroroso. Estava tirando o plástico e ia se sentar em qualquer lugar vago quando:
— Doutor!
Lee Chaeyoon, com uma cenoura na mão, acenou animada. Assim que Seokhwa se sentou com uma reverência, ela veio correndo até ele.
— O tenente-coronel disse que a polícia militar cometeu um abuso enorme com você. Não foi aquele desgraçado do Yoo Jeonggyeong?
— Você o conhece?
— E como. Aquele cara é um pervertido. Um desgraçado que se diverte torturando gente, mas morre de medo de ir a campo. Se um dia eu cruzar com ele em campo, eu mato.
Lee Chaeyoon cortou metade da cenoura e a mastigou. Doutor, espera um pouquinho. Dizendo isso, ela saltou por cima da mesa e saiu correndo para algum lugar. Ao olhar, viu que ela chegara à máquina de bebidas num instante e trouxe duas. Entregou um isotônico a Seokhwa e abriu o outro para si.
— Eu não trouxe dinheiro.
— Não, isso aqui eu tô pagando pro doutor. Depois de amanhã sai o salário.
— Obrigado.
Os funcionários do abrigo recebiam salário quatro vezes por ano, a cada três meses. Claro que os cidadãos que viviam nas zonas verde, azul e índigo também trabalhavam e recebiam salário. Eles fabricavam bens necessários à vida e suprimentos militares, mesmo com o mundo mudado, o valor da moeda continuava o mesmo.
Na Rainbow City também era preciso dinheiro para viver, e de vez em quando prendiam criminosos que fabricavam notas falsas. A solitária existia, mas os presídios comuns eram poucos. E, quando esses transbordavam de detentos, os criminosos eram expulsos da cidade ou executados. No caso das notas falsas, em geral a punição era severa, e até hoje ninguém tinha salvado a pele.
— Mas, doutor.
Lee Chaeyoon, que já tinha acabado a bebida e mastigava a cenoura, aproximou o rosto de repente. Mesmo sendo menor que ele, transbordava muito mais energia e vitalidade. Só de olhar para ela, era alguém tão revigorante que dava energia aos outros também.
— É verdade que você e o Kwak Soohwan estão tendo alguma coisa?
Só que o que ela acabara de dizer tirava as forças de qualquer um.
Seokhwa apenas piscou e engoliu a mordida do sanduíche. Antes, ele comia apenas para viver e nem prestava atenção no gosto, mas depois que Kwak Soohwan disse que era horroroso, começou a achar mesmo insosso. Pensando bem, foi também na outra noite que soube pela primeira vez que gosto tinha uma pedra. A saliva de uma pessoa era doce, e a pedra não tinha gosto.
— O que é “alguma coisa”?
— Ah, você sabe, aquilo.
Lee Chaeyoon fez com uma mão o sinal de “ok” e com a outra esticou o indicador, enfiando-o repetidamente no círculo. Seokhwa imitou exatamente o mesmo gesto.
— Isso, isso mesmo! Já correu o boato por todo o abrigo. Que você encontra o Kwak Soohwan escondido à noite. Dizem que você foi até o quarto dele? Ah, sério, aquele cara só tem a cara bonita, é péssimo, o doutor merece coisa melhor.
— Espalharam que eu estou namorando o major Kwak Soohwan?
— Namorar eu não sei, mas pelo menos, que vocês encostaram os corpos…
Será que aquilo saíra da boca de Yoo Jeonggyeong? Se o boato se espalhou porque, ao ser perguntado o que ele foi fazer no quarto de Kwak Soohwan, ele respondeu que foi beijar, não havia o que fazer.
— Doutor, você sabe que tipo de cara é o Soohwan idiota? Quando vai a campo ele enlouquece, e às vezes ninguém sabe nem pra onde ele foi de tão descontrolado. Ele fica todo coberto de sangue e sai por aí matando Adam feito louco. Uma vez ele saiu sozinho pra caçar Adam por horas e a gente ficou esperando um tempão.
Pá! Entre Seokhwa e Lee Chaeyoon, que se encaravam, desceu uma mão grande segurando uma bebida.
— Falar mal dos outros pelas costas tem limite, né?
Kwak Soohwan estava com roupas comuns, e não pareciam ser de dotação militar. Vestindo uma camiseta comum de gola redonda e uma calça de alfaiataria, ele nem parecia militar. Ele se sentou ao lado sem pedir licença e puxou o ombro de Seokhwa, abraçando-o.
— Você nem imagina o quanto eu fiquei sem graça. Ele veio até o meu quarto dizendo que queria dormir comigo.
Quando ele encostou o nariz nos cabelos dele como quem sente o cheiro, o rosto sem expressão de Seokhwa se contorceu de leve. Lee Chaeyoon também abriu a boca de espanto, e alguns militares que assistiram ficaram igualmente atônitos.
— Ei, você não pegou algum ponto fraco do doutor, pegou?
— Que ponto fraco o quê. O doutor Seok não vai lembrar, mas ele disse isso claramente pro desgraçado do Yoo Jeonggyeong. Que tinha ido ao meu quarto pra transar comigo. Como é que você entrega assim um segredo nosso?
Seokhwa limpou com a mão os cabelos onde os lábios dele tinham tocado.
Por que ele estava mentindo assim? Seokhwa empurrou a mão de Kwak Soohwan que estava em seu ombro.
— Eu nunca disse que fui pra transar.
— Que modéstia.
Kwak Soohwan sorriu com malícia. Seokhwa não conseguia entender de jeito nenhum a psicologia dele. Qual seria a razão de ele agir assim diante das pessoas?
— Eu disse beijar.
Kwak Soohwan enrijeceu por um instante o rosto sorridente, e logo voltou a sorrir de canto.
— O que é isso aqui?
Toc, Kwak Soohwan passou o indicador pela testa dele. Seokhwa abriu a palma e esfregou a testa, mas não saiu nada.
— O quê?! A testa do doutor está amarelada! Isso também foi aquele desgraçado do Yoo Jeonggyeong, né?!
Ao apertar, parecia até doer um pouco. Ele tivera os cabelos puxados pela polícia militar, mas não tinha levado nenhum golpe na testa.
— Aquele desgraçado do Yoo Jeonggyeong bateu em você mesmo?
Kwak Soohwan pensou se o sujeito teria agredido Seokhwa antes de ele chegar. De qualquer forma, como já tinham aplicado o soro da verdade e ele não lembraria, ele podia ter maltratado o corpo dele à vontade. Até então ele o considerava um verme insignificante e o deixava em paz, mas começava a incomodar o fato de ele estar passando dos limites.
— Não.
Como Seokhwa respondeu com naturalidade, ele pensou que era por não lembrar, e ficou com gosto amargo na boca.
“ De qualquer forma ele não vai lembrar.”
— Isso aqui não foi o major Kwak Soohwan que fez?
— O quê? Kwak Soohwan, você!
Lee Chaeyoon se levantou de um salto, e Kwak Soohwan achou que a memória de Seokhwa estava confusa.
— Quem trouxe seu corpo inteiro pra cá fui eu, não joga isso em cima de mim.
— O major Kwak beijou a minha testa. Na hora eu achei que doía porque você apertou forte demais, mas acho que ficou roxo.
Ha, Kwak Soohwan soltou o ar numa risada curta.
Aquilo era… Era como se ele se lembrasse de tudo.
— Doutor Seok, vamos conversar?
— Fala.
— Não aqui.
Kwak Soohwan agarrou o braço de Seokhwa e o ergueu. Com isso, o sanduíche que ele segurava caiu no chão. Ele tentou pegá-lo de novo, mas a força com que ele o puxava para fora do refeitório foi maior.
— Major Lee, come você isso aí.
— Vai à merda! Comida caída eu também não como! Ei! Pra onde você tá levando o doutor?!
— Não vem atrás.
Seokhwa queria comer mais o sanduíche e ficou profundamente irritado por ser arrastado à força.
O rosto de Kwak Soohwan, que até pouco antes sorria com leveza por hábito, ficou impassível. Depois de olhar o corredor, Kwak Soohwan abriu a porta da saída de emergência e empurrou Seokhwa para dentro.
Os pés se enrolaram e ele cambaleou, mas, como Kwak Soohwan o segurava firme, ele apenas foi empurrado contra a parede.
— Eu queria terminar o sanduíche.
— Isso eu te compro cem, mas primeiro me explica o que foi aquilo.
— Aquilo o quê?
— Você recebeu mesmo o soro da verdade?
— Recebi.
— E lembra do que aconteceu na polícia militar e do que eu disse?
— Lembro.
Foi logo depois do episódio do doutor Wonho. Junto com Oh Yangseok, Seokhwa passou a se injetar amobarbital em doses mínimas para criar tolerância ao soro da verdade. De qualquer forma, para alguém que fabricava remédios de reforço físico, fazer testes clínicos no próprio corpo era rotina. Por isso, quando Yoo Jeonggyeong disse que aplicaria o soro, ele não ficou tenso.
— Por que investigar o caso do doutor Oh Yangseok me põe em perigo?
Kwak Soohwan passou a mão para trás pelo cabelo.
— Doutor Seok, não sei se você tem tolerância ao soro da verdade ou o quê, mas não dê pistas disso à polícia militar.
— Por que você foi me resgatar ontem?
— Não é óbvio? Eu sou seu escolta.
— E por que apertou os lábios na minha testa?
— Foi o preço por ter te salvado.
— Se é escolta, por que precisa de preço?
Kwak Soohwan deu um passo atrás. Então segurou a porta da saída de emergência, abriu-a e soltou:
— Porque fiquei preocupado. Você é fraco demais.
Seokhwa não seguiu Kwak Soohwan, que o deixou na saída de emergência e foi embora, ficou ali parado.
Era um homem com acesso a documentos confidenciais de nível 1, que inesperadamente se preocupava com ele e, ainda assim, tinha algo de suspeito. Seokhwa ergueu o olhar para a câmera de vigilância com a luz piscando.
A Mother está observando. Aquilo talvez tenha sido outro aviso.
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— Seu amigo tolo. Por que não me contou? Por que só agora me faz lamentar?
Kwak Soohwan de vez em quando bebia com Oh Yangseok, e o doutor Oh podia ser chamado de encrenqueiro de mesa de bar, de tão ruim que era seu comportamento com bebida. Quando estava bem bêbado, sempre chorava e despejava a saudade do amigo que partiu. Sentado à margem do Rio Han, olhando as águas negras, Oh Yangseok esfregava o corpo em Kwak Soohwan enquanto choramingava.
— Velho, vamos entrar agora?
— Só mais um pouquinho.
— Eu vou indo, hein?
Quando Kwak Soohwan se levantou com a garrafa na mão, Oh Yangseok segurou seu braço.
— Se você for, como é que eu fico aqui sozinho com medo?
Ele queria sair, mas, mesmo sendo zona verde, tinha medo dos Adam, e por isso o levava junto. Kwak Soohwan suspirou e se sentou de novo na margem. Também era difícil ser frio com ele: Oh Yangseok era justamente quem o ajudou a se alistar no exército. Mesmo depois da formatura, quando foi designado para o abrigo de Ilsan, o velho, vez ou outra, ia visitá-lo. E, a cada vez, ele tinha de segurar o impulso de enfiar os dedos naqueles olhos que o fitavam com pena.
— E aí, o Abrigo de Yeouido é suportável?
— Tanto faz onde for. Se o doutor Oh não me chamasse assim, seria mais agradável. Vamos parar de beber?
Havia lágrimas cheias nos olhos enrugados. Alguém que normalmente só dava risadas bonachonas chorava sempre que se embebedava.
— Meu pecado é grande. Sendo grande o pecado, mereço morrer, é claro.
Oh Yangseok cambaleou ao se levantar. Como fora torturado durante o interrogatório junto com Wonho, mancava de uma perna nos dias frios.
— Tenho muito o que lhe pedir desculpas também, major Kwak.
— Graças a você eu virei cidadão da Rainbow City e posso comer à vontade, por quê?
Quem veio procurá-lo depois que os pais e o irmão morreram foi outro intermediário da Rainbow City. Soube depois que era alguém enviado com o dinheiro do doutor Oh Yangseok.
— Se você não tivesse entrado no exército, como estaria vivendo agora?
Provavelmente teria se juntado aos rebeldes. Por mais que conseguisse sobreviver saqueando mercados sozinho, naquela época devastada era preciso ter onde se apoiar.
— Velho, você quer ouvir um “obrigado”?
— Não, não é isso. É só que eu…
— Então para de me chamar assim em separado. Ultimamente tem muita gente da cúpula de olho em você.
Oh Yangseok engoliu o uísque forte em três goles.
— Como se eu não soubesse. Como não sei o que vai ser de mim, já deixei até um testamento.
— Com essa idade, é bom deixar mesmo.
Isso é verdade, disse ele, e riu alto, contrariando o choro de antes.
— Como é que você não puxou nada dos seus pais? Aqueles dois eram tão afetuosos.
A razão pela qual Oh Yangseok tinha encontrado Kwak Soohwan era haver um elo com os pais dele. Os pais de Kwak Soohwan eram pesquisadores do abrigo, do mesmo setor que o doutor Oh Yangseok.
— Não fala dos meus pais na minha frente.
Kwak Soohwan tomou o uísque das mãos de Oh Yangseok e esvaziou o resto.
— Vamos entrar. Seu ranho congelou no bigode.
Ele agarrou com brutalidade Oh Yangseok, que mancava, e voltou ao abrigo, e cerca de um mês depois disso, Oh Yangseok foi encontrado assassinado no setor de pesquisa.
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Drr, drr, Kwak Soohwan girava o cubo, encaixando as cores.
Diante dele havia um militar com a braçadeira de águia e platina verde. O tenente-coronel Cha, da polícia militar, estava em posição de sentido impecável e visivelmente tenso.
— Fala.
Kwak Soohwan perguntou girando o cubo.
— Não tenho o que dizer.
— Como não tem? Um desgraçado que se diz major da polícia militar pega o pesquisador-chefe e aplica soro da verdade nele? Quem ordenou a investigação do pesquisador-chefe?
— O tenente-general Lee Yeontae instruiu apenas uma investigação leve, mas o major Yoo Jeonggyeong, por excesso de lealdade, ugh!
Pá, o cubo arremessado bateu na testa do tenente-coronel Cha. Em seguida apareceu sangue, e ele, sem sequer poder limpá-lo, voltou à posição de sentido.
— Peço desculpas. Vou transferir o major Yoo Jeonggyeong para a filial de Gwacheon.
O tenente-coronel Cha então pegou o cubo caído no chão e se aproximou da mesa onde Kwak Soohwan estava sentado.
— E quem rebaixou o nível do doutor Seokhwa para confidencial?
— Isso nós também não sabemos.
— Restaura como estava. Por causa disso ele ficou desconfiado à toa.
— Sim.
Ele não olhou para o tenente-coronel Cha, que continuava plantado ali, e voltou a girar o cubo.
— O que foi? Sai.
— Sim, ficarei de prontidão.
O tenente-coronel Cha fez continência, abriu a porta e saiu.
[Zona Violeta 21]
Era uma área militar de acesso proibido a civis, a cerca de uma hora de Yeouido.
Chamavam-na de área militar, mas só Kwak Soohwan e alguns militares por ele designados podiam entrar. Como já fazia tempo que a região estava árida demais para se viver, usá-la assim não causava problemas.
Depois de completar o cubo num instante, Kwak Soohwan se levantou da cadeira rangente.
Diziam que aquele prédio já tinha sido uma escola de ensino médio, mas não havia uma única janela intacta, e, como chovia pouco e o sangue não fora lavado direito, as paredes estavam cobertas de manchas. Quando Kwak Soohwan saiu do cômodo que antes foi a sala do diretor, o tenente-coronel Cha o seguiu.
Sobre a porta central, coberta por teias de aranha densas, pendia torto o lema da escola. Nem as letras se viam direito por causa das teias, e não era obra de uma aranha só: várias pareciam ter conectado suas teias formando uma grande rede. Ainda assim, a presa ali mal daria para saciar uma delas.
Como era de esperar, uma aranha tentava amarrar com teia a outra ao lado para devorá-la. Vendo aquilo, o tenente-coronel Cha pendurou na teia um besouro morto, caído de barriga para cima no chão. Devia ser um adulto que não sobreviveu ao inverno e morreu havia bastante tempo.
— …A vida começa na universidade.
— O quê?
— É o lema da escola ali.
O tenente-coronel Cha tinha conseguido ler as letras escondidas pelas teias.
— Que universidade o quê. A vida começa pela comida.
— Em cada época e em cada lugar deve haver algo que se considere mais importante.
— E hoje?
Kwak Soohwan sacou a arma do coldre. Quando o cano se voltou para ele, o tenente-coronel Cha se perguntou se não teria falado demais e fechou a boca. Ao puxar o gatilho, ouviu-se um “pfum” e o som da bala se cravando em algo. Ao olhar para trás, assustado, viu um Adam praticamente morto de fome caído no chão.
— Se deve sobreviver.
Kwak Soohwan enfiou de novo a pistola no coldre.
— Palavras justíssimas.
O tenente-coronel Cha escondeu como pôde o fato de estar com medo e sorriu. Antes de entrar no jipe estacionado em frente ao portão, ele falou primeiro:
— O senhor vai direto para o Abrigo de Yeouido?
Kwak Soohwan entrou no jipe sem responder e deu a partida. Que ele fosse o primeiro colocado na formatura da Academia Militar da Rainbow City era coisa que todo militar sabia. Só que, hoje, com todas as loucuras que ele aprontava, aquele título tinha perdido um pouco o brilho. Oh Yangseok não soube até o dia da morte, mas Kwak Soohwan era originalmente da polícia militar do exército. Só depois de ser mandado a campo é que carregou o nome de Pelotão Invicto.
Kwak Soohwan abriu a janela pela metade.
— Não transfira aquele desgraçado pra Gwacheon.
— Como?
— Eu quero atormentá-lo por muito tempo até me satisfazer.
— Entendido.
— Espera, dê um passo pro lado.
O tenente-coronel Cha achou que ele fosse manobrar o jipe e se afastou, mas Kwak Soohwan não deu sinal de partir. Ao contrário, desceu do jipe. Ele se curvou e apanhou algo caído no chão. Deu um “hum” com um sorriso satisfeito e entrou de novo no jipe.
— Fui.
Pisou no acelerador e começou a sair do pátio. O tenente-coronel Cha só abriu a porta do seu jipe quando o carro dele já tinha sumido de vista. Por que diabos ele tinha catado aquilo — e um longo suspiro de brinde.
⊹₊˚ 🧬 ˚₊⊹
Continua no volume 2
🌈 Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Othello