🧬 Capítulo 10
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Paraíso dos tolos (10)
Esse era o desenrolar do atrito entre os dois pela manhã, e Seokhwa continuava frio enquanto Kwak Soohwan agia como sempre. Dentro do jipe, quem estava sobre brasas eram Yang Sanghoon, ao volante, e Lee Chaeyoon, no banco do carona.
Enquanto percorriam a estrada, viam-se em vários pontos equipes de recolhimento de Adam processando corpos e desinfetando os arredores. Para Seokhwa era uma paisagem estranha, ou melhor, que ele não via havia muito tempo. Na verdade, embora tivesse ficado em Jeju por razões inevitáveis, também havia nele o desejo de não voltar a Yeouido. O abrigo não era uma fortaleza perfeita. Ele poderia ser devorado desmaiado, sem sequer saber que os Adam tinham invadido. As pessoas o chamavam de pesquisador-chefe, mas ele não conseguia entregar resultados perfeitos de primeira.
Um dos motivos pelos quais ele não teve escolha senão ir para a Rainbow City foi a mãe.
A mãe não soube até o dia da morte, mas eles tinham dito que, se ele não fosse para o Abrigo de Yeouido, expulsariam toda a família de Jeju. Sob a alegação de que não eram cidadãos com direito a proteção.
Os chamados “de cima” viviam no luxo em lugares sem ameaça dos Adam. Mesmo dentro de Jeju, os que viviam em Udo eram justamente o grupo da classe mais alta da Rainbow City.
Os militares dentro daquele jipe eram, como Kwak Soohwan dissera, bucha de canhão. Seokhwa, que olhava para fora, voltou o olhar para dentro do jipe. Kwak Soohwan o encarava fixamente.
— Doutor Seok.
Como se esperasse o cruzar dos olhares, ele começou:
— Até onde você sabe sobre o doutor Oh Yangseok?
Lee Chaeyoon, que só observava o clima, olhou para trás pelo retrovisor. Queria uma conversa divertida, mas lá vinham eles com assunto sério de novo — e ficou só fumando com a janela aberta.
— Em que sentido você pergunta?
Seokhwa tirou alguns amendoins da mochila e mastigou.
— Você disse que pesquisou junto com Oh Yangseok. Fosse vírus mutante ou mutações.
— Ah! Eu odeio de verdade essa palavra “mutante”. Odeio mais que ser chamada de Bruce Lee!
Lee Chaeyoon gritou. Kwak Soohwan puxou até o fim a divisória que separava a frente do fundo do jipe. Mesmo com Lee Chaeyoon gritando alguma coisa, o isolamento acústico era bem razoável.
— É verdade que pesquisei junto com o doutor Oh Yangseok.
— O velho não tinha nada de particular?
Seokhwa mergulhou por um instante nos pensamentos e evocou Oh Yangseok.
Por mais que pensasse, ele era um pesquisador-chefe sem nada de excepcional, mas também era alguém com um certo lado sigiloso. Às vezes saía sem reportar nada à cúpula, e havia ocasiões em que estava absorto em algo no laboratório e se assustava terrivelmente com qualquer presença. Claro que, quando quem aparecia era Seokhwa, ele se tranquilizava.
— Por que está perguntando isso?
— Doutor Seok, você não tem interesse nenhum em religião?
Haa… Seokhwa, cansado, voltou a olhar pela janela. Era um jeito de dizer que ele falasse diretamente, sem rodeios. Afinal, o próprio Seokhwa, quando tinha algo a dizer, ia direto ao ponto.
Kwak Soohwan desligou o gravador de imagem instalado no centro do banco traseiro. Seokhwa também imaginou, em certa medida, a razão de ele ter bloqueado a câmera. Era porque ele diria algo sigiloso.
— Você sabe o que o doutor Oh Yangseok pesquisava, né?
— A vacina para o Adam de sétima geração.
— Duvido que ele tenha morrido por causa disso, mas o doutor Seok é inteligente. Não havia nada estranho entre as coisas que você trouxe da casa do doutor Oh Yangseok?
Seokhwa não entendia por que aquele homem cavava de repente tão fundo a respeito de Oh Yangseok.
— Os materiais que trouxe estavam em sua maioria rasgados ou manchados de sangue. Mas o que é essa história de religião?
Kwak Soohwan segurou o próprio ombro com uma das mãos e o girou, como quem diz que não era nada demais.
— Pensei em me converter a alguma religião também.
— …Não combina com você.
Ao murmúrio dele, Kwak Soohwan pegou alguns amendoins da mão dele. Jogou-os para cima, pegou-os com a boca e os triturou com algumas mastigadas.
— Jardim do Éden.
Kwak Soohwan soltou a palavra e observou Seokhwa com atenção. Os dados da Mother diziam que Seokhwa não tinha tendências rebeldes, mas com gente nunca se sabe, não é?
Encarando Kwak Soohwan, que sorria, Seokhwa evocou o diário de Oh Yangseok.
[Jardim do Éden. Fato surpreendente. A cúpula não deseja.]
Devia contar? De qualquer forma, era um material que estava em seu posto, então qualquer um poderia ler se quisesse. Além disso, esconder um material que possuía poderia atrair suspeitas indesejadas. A Rainbow City se mantinha sob controle rigoroso, e em troca garantia segurança.
— Há uma menção ao Jardim do Éden no diário do doutor Oh Yangseok.
— É mesmo?
Kwak Soohwan reagiu com surpresa.
— “Fato surpreendente. A cúpula não deseja.”
— O quê?
— O que estava escrito no diário é só isso. Fora isso não há mais nada.
O que era o Jardim do Éden, o que a cúpula não desejava, isso estava fora do seu interesse. Ele era apenas um pesquisador, e apenas pesquisava por um mundo melhor. Mas uma coisa era estranha: por mais que procurasse, não havia materiais claros de pesquisa de Oh Yangseok sobre a sétima vacina. Como não havia nem hipóteses nem registros de experimentos, Seokhwa foi até a casa de Oh Yangseok. Porque o doutor que ele conhecia não ficaria de braços cruzados diante de uma mutação do Adam.
“Poxa, parece que ele desligou. Mesmo com o major Kwak tudo bem, mas com o doutor a história é outra, não foi o que disseram?”
Seokhwa ainda lembrava vividamente daquela voz. Enfiou a mão no bolso do casaco e ficou remexendo a pedra.
Com a morte do doutor Oh Yangseok, ele, que estava em Jeju, veio para o Abrigo de Yeouido, e Kwak Soohwan, que tinha ido roubar bebida na zona 13, virou seu escolta em vez de ir para a solitária.
Dentro do abrigo não era preciso escolta e ainda assim Kwak Soohwan o seguia, e, de forma nada militar, demonstrara interesse no diário trazido da casa de Oh Yangseok. Ao ter mencionado primeiro o Jardim do Éden escrito no diário, era evidente que Kwak Soohwan também sabia de algo que ele desconhecia.
Talvez, como disse o doutor Kim, quem matou Oh Yangseok fosse ele?
— O major Kwak Soohwan não é mesmo a pessoa que assassinou o doutor Oh Yangseok?
Kwak Soohwan girou completamente o corpo de lado e olhou para Seokhwa. O som áspero do uniforme era sinistro. Ele estendeu a mão e arranhou a palma de Seokhwa com o indicador. Diante da sensação de cócegas, ele tentou fechar o punho, mas ele rolou um amendoim até seu pulso. Pegou-o com a mão e o enfiou na boca entreaberta de Seokhwa.
— Que conclusão você tirou pra chegar a esse ponto? Mas não fui eu. Vai saber, talvez tenha sido morto por rebeldes. Ou por um colega que o odiasse, ou então…
— Ou então a cúpula pode ter matado o doutor Oh Yangseok… porque ele fez algo que ela não desejava.
O amendoim ficou pastoso dentro da boca.
— Isso é uma declaração bem perigosa.
Ainda bem que estava desligado. Kwak Soohwan apontou para o gravador de imagem desligado.
Toc, toc. Lee Chaeyoon bateu na janelinha da divisória. Ela disse “Chegamos, viu?” apenas com o movimento dos lábios aos dois homens atrás. Kwak Soohwan religou o gravador. No instante em que ele estendeu o braço em sua direção, Seokhwa colou as costas no encosto. Não sabia por que sentiu aquilo como uma ameaça.
Clac. Kwak Soohwan abriu a porta e, aproximando o rosto, sorriu.
— Pode descer, doutor.
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Seokhwa observou devagar Lee Chaeyoon e Yang Sanghoon, que iam à frente. Depois concentrou a atenção também em Kwak Soohwan, ao seu lado. Os três militares não demonstravam tensão nenhuma, mesmo tendo entrado na zona vermelha. Embora fosse zona vermelha, um raio de um quilômetro ao redor do zoológico era tão seguro quanto uma zona verde. Mais surpreendente ainda era o aspecto interno. Ele achava que era zoológico apenas de nome, mas o lugar aonde chegaram era de fato um safári que funcionara como zoológico. Só que os recintos de feras estavam fechados, e apenas o prédio onde antes ficavam os primatas estava em uso.
— Doutor Seok, está tão animado assim?
Kwak Soohwan apontou para o rosto de Seokhwa. As bochechas dele estavam coradas, diferente do normal, o que o fazia parecer alguém empolgado a caminho de um passeio. Como era só efeito do calor excessivo do corpo, ele não respondeu nada. O tempo estava tão frio que o bafo saía e congelava.
— Animado? Doutor, eu também estou animada! Zoológico eu só vi em vídeo no abrigo, mas é impressionante, né? Antigamente dava pra ver leão e tigre de verdade. Nossa, eu queria enfrentar um tigre!
Ao contrário, Lee Chaeyoon pulava animada feito criança.
— Dizem que tigre é forte pra caramba. Mas eu devo ser mais forte. Doutor, você já viu de verdade? Dizem que as feras estão protegidas em Jeju.
Tigres e a maioria das feras eram espécies em risco de extinção e estavam protegidos pelo Estado integrado. Mas Seokhwa também nunca tinha visto uma fera pessoalmente.
— Não, eu também nunca vi.
— Eu também queria enfrentar uma.
Yang Sanghoon de repente estalou os lábios. O que se ganharia enfrentando uma fera? Ainda assim, era como ver crianças exibindo força. Seokhwa sorriu de um jeito quase imperceptível diante daquela ingenuidade.
— Não me diga que você acabou de sorrir.
— Sorri.
Seokhwa segurou as alças da mochila com a mão.
— Você já gargalhou pelo menos uma vez na vida?
— E o major Kwak?
— Devo ter, né? Eu rio bastante.
Sei lá, era difícil imaginar Kwak Soohwan gargalhando. A mochila nunca foi pesada, mas como não sentia mais o peso, achou que o remédio de reforço físico enfim fazia efeito e acelerou o passo, então o corpo cambaleou para trás. Kwak Soohwan também não esperava que Seokhwa fosse à frente e, surpreso, abraçou o corpo que veio parar nele. Na verdade, ele apenas tinha enganchado a mão na alça da mochila para aliviar o peso.
Seokhwa afastou a mão que envolvia sua cintura e entregou a mochila a ele.
Achou que ele fosse provocar dizendo algo como “não era você que ia carregar?”, mas Kwak Soohwan apenas pendurou-a num dos ombros.
— Obrigado.
— Se ficar cansado, avisa. Posso te carregar também.
— Ainda não chegou a esse ponto.
Como Seokhwa sentia muito calor, o lado de fora era melhor que o abrigo aquecido ou o jipe.
[Pavilhão dos Primatas]
Soltando o bafo branco, ele ergueu os olhos para o prédio ao qual chegaram. Era um pavilhão de primatas de porte não muito grande, de uns três andares. Quando Kwak Soohwan tocou a campainha, a pesada porta de ferro se abriu raspando no chão. Como não havia aquecimento no interior, também saía vapor branco da boca do militar que abriu.
— Sejam bem-vindos. Sou o capitão Kang Cheoloh, da unidade Caveira Branca.
Diante da continência impecável do capitão, Lee Chaeyoon disse que formalidade era desnecessária e fez um gesto com a mão.
— Vamos direto ao ponto. Recebeu as instruções do Abrigo de Yeouido, certo?
— Sim, major. Capturamos três Adam de sétima geração. Vou conduzi-los até lá.
O capitão foi à frente e, assim que todos entraram, a pesada porta de ferro se fechou de novo com firmeza.
Se havia Adam presos, seria de esperar ouvir os grunhidos característicos, mas o pavilhão estava silencioso. Ao contrário, só se ouvia o som cadenciado dos coturnos dos militares e, de vez em quando, um estrondo que fazia o prédio vibrar. Seokhwa já tinha visto Adam pessoalmente inúmeras vezes. Claro que não tanto quanto os militares que os enfrentavam, mas já passara dias inteiros observando o comportamento dos Adam com apenas um vidro à prova de balas de permeio.
— Por aqui.
O lugar aonde o capitão os conduziu parecia uma sala de controle. Havia um grande vidro na frente, e três pessoas — não, três Adam — estavam de pé numa sala estreita do outro lado. Todos olhavam para a parede.
— Por que eles estão assim?
Yang Sanghoon perguntou primeiro.
— Se não houver estímulo, eles não se movem nem um pouco. Chegam até a se sentar ou se deitar.
— Como?
Seokhwa perguntou, surpreso. O capitão viu o crachá de pesquisador no pescoço de Seokhwa e se pôs em posição de novo.
— Doutor, o senhor pode se assustar, então…
Ele ia dizer que ele se afastasse um pouco, mas Seokhwa se aproximou ainda mais. Como se conservassem energia, não se detectava movimento algum nos Adam.
Depois de observar por um bom tempo, Kwak Soohwan, que se aproximou ao lado dele, bateu no vidro com um estrondo! Seokhwa engoliu o ar. O vidro pareceu tremer, e ao mesmo tempo os três Adam, que estavam virados para a parede, se lançaram contra o vidro feito demônios. Seokhwa firmou as pernas para não recuar. Ele sabia que a força dos Adam não podia quebrar aquele vidro. Os Adam, com os capilares dos olhos todos rompidos, a boca escancarada, tentando atacar as pessoas, eram como um clamor silencioso. Como não vinha som nenhum, a sensação de realidade se afastava um pouco.
— O isolamento acústico… é assim tão bom?
— Isolamento? Ah, não. Quando capturamos esses aí, veio ordem de cima. Por isso cortamos a língua e as cordas vocais de todos.
O capitão sorriu abertamente. Cortaram a língua e as cordas vocais? Os uivos monstruosos dos Adam eram irritantes a ponto de dar nos nervos, mas até então nunca tinham cortado cordas vocais. Era preciso observá-los em seu estado natural, e Seokhwa não conseguia entender de forma alguma.
— Esses Adam também recuaram?
Lee Chaeyoon foi até o vidro e chegou a imitar os Adam batendo a testa contra ele.
— Isso eu também não sei bem… Nós apenas prendemos os que capturaram.
— Por acaso eles falaram alguma coisa?
— Falaram?
O capitão coçou a nuca, sem entender por que ele perguntava aquilo.
— A gente cortou a língua assim que os trouxe. E cortou bem.
— Doutor!
À voz de Lee Chaeyoon, Seokhwa estremeceu os ombros.
— Você quer saber se eles recuam ou não? Quer que eu entre lá e lute?
— Não. Não faça isso.
— Eu sou muito forte. Mesmo enfrentando aquilo, eu ganho.
— Não precisa.
O laboratório já dispunha de vírus do Adam de sétima geração em quantidade mais que suficiente. Ele só tinha vindo ver pessoalmente porque diziam que eles apresentavam comportamento anômalo. Às vezes se obtinha algo em campo que não se obtinha sentado no laboratório o tempo todo.
Pá!
Pá!!
Um dos Adam começou a bater a cabeça contra o vidro.
Pá!!! A testa se abriu e o vidro se manchou de sangue vermelho. E de novo, pá! Seokhwa cruzou o olhar com os olhos bizarramente brilhantes do Adam. O Adam que batia a cabeça torceu o pescoço de um jeito grotesco.
Haa. Quando ele soltou o ar, o vidro embaçou. Ele abriu e fechou a boca devagar, e, por incrível que pareça, parecia querer dizer alguma coisa. Seokhwa moveu depressa as pupilas e olhou para os outros Adam. Eles continuavam enfurecidos. Quando voltou a olhar para o Adam que abria e fechava a boca, ele repetia o mesmo movimento labial. E Seokhwa ia tentar imitar o formato da boca dele quando…
— Ugh!
Splash. Do fundo da garganta do Adam jorrou uma quantidade enorme de sangue. Como se alguém tivesse atirado tinta, sangue viscoso escorreu pelo vidro. O Adam, que parecia ter vomitado num instante todo o sangue do corpo, desabou no chão. Tum, tum, o coração de Seokhwa disparou dentro do peito.
— Aquele ali parece que já era.
Lee Chaeyoon apontou para o corpo esparramado no chão.
— Sim, assim que morrem nós descartamos. Doutor?
— …
— Doutor?
O capitão chamou repetidamente Seokhwa, que estava paralisado. Kwak Soohwan disse que ele podia parar de chamar e apenas media o tempo, caso Seokhwa fosse cair para trás. Mas, ao contrário do que se esperava, ele logo recuperou a calma e falou:
— Faz quanto tempo que esses Adam foram capturados?
— Uns quinze dias.
— E o local?
— Zona vermelha 13.
O período que um Adam conseguia resistir sem ingerir sangue ou vísceras era de cerca de três meses. Não se sabia com precisão, mas certamente havia os que sobreviviam por mais de alguns anos.
— Se não há mais nada a apurar, podemos descartar?
Como não se sabia quando algo poderia acontecer, jamais mantinham Adam presos por muito tempo.
— Descarte.
Kwak Soohwan respondeu no lugar de Seokhwa. Ele observou Seokhwa, agora lívido, como se nunca tivesse corado.
— Eva…
Seokhwa murmurou. Era a palavra que o Adam repetira.
⊹₊˚ 🧬 ˚₊⊹
Continua….
🌈 Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Othello