🧬 Capítulo 01
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Paraíso dos tolos (1)
No mesmo dia, Sehwa-ri, Ilha de Jeju, 17h.
— Anda logo!
O tenente-coronel Jang batia o pé no chão, impaciente.
A longa cicatriz que atravessava seu rosto ficava ainda mais saliente quando ele franzia a testa. O homem que caminhava com toda a calma atrás dele parava de vez em quando para amarrar de novo o cadarço do coturno, ou cruzava os braços para soltar o corpo entorpecido.
— Esse desgraçado, é sério! Não vai andar logo?! O doutor Pedra tá esperando.
Doutor ele era, mas doutor Pedra. Será que algum cabeça-dura tinha virado doutor?
O homem soltou uma risada boba e seguiu o tenente-coronel Jang, que ia à frente.
O som lento do cascalho se esmigalhando sob os coturnos, e às costas, o barulho das ondas que se aproximava e se afastava. Uns trezentos metros à frente via-se uma velha casa de sapê. O telhado, coberto por uma camada espessa de algo parecido com juncos e amarrado com rede, parecia uma cabeleira desgrenhada e ressecada.
Que alguém conseguisse viver em segurança numa casa tão precária numa época como aquela só era possível porque a Ilha de Jeju ainda era uma zona limpa.
— Doutor Pedra, sei lá o quê, que vida boa.
— O quê?
— Ah, é mesmo.
A cem metros da casa, o homem parou de repente, como quem se lembra de algo importante.
— O que foi agora?!
O tenente-coronel Jang virou-se com a cara toda amarrada.
[Kwak Soohwan]
Nos três caracteres do crachá pregado ao peito havia sangue seco espalhado, de modo que era difícil discernir as letras sem olhar com atenção.
— Banheiro.
Kwak Soohwan apertou com a mão à virilha pesada e mostrou-a, sorrindo de canto. De fato, estava tão tenso que logo precisaria tomar uma injeção de inibidor.
— Esse maluco desgraçado. Se não fosse ordem de cima, eu já tinha te jogado para ser comida daqueles aqueles bichos faz tempo.
— Acho que o tenente-coronel é que seria uma bocada só.
Kwak Soohwan fez menção de abrir e fechar a boca com um “nhac” e começou a voltar pelo caminho por onde tinha vindo.
— Ei! Seu desgraçado! É só mijar em qualquer canto desse juncal, por que tá procurando banheiro?! Volta aqui, moleque!
Kwak Soohwan, que tinha parado de novo, coçou a sobrancelha de leve. Exalando tédio por todos os poros, virou-se para o tenente-coronel Jang.
— Eu não faço esse tipo de coisa. Que história é essa de militar fazer escolta? Manda outro.
— Então quer voltar pra solitária? Hein?
O tenente-coronel Jang berrava, mas ficava de olho na reação de Kwak Soohwan.
Não havia lugar com disciplina mais rígida entre superior e subordinado do que o exército. Numa sociedade de patentes assim, era impensável um tenente-coronel medir as palavras diante de um major, mas ao lembrar das idiotices que Kwak Soohwan tinha aprontado uma semana antes — não, de todas as que já tinha aprontado até ali —, Jang escolheu dessa vez o caminho da conversa.
— Ei, mas ainda assim é melhor escoltar o doutor do que ir a campo, não é? Melhor ficar num laboratório quentinho com comida na hora certa do que num campo fedorento e coberto de sangue. Falando sério, se tivessem me pedido, eu aceitava sem pensar duas vezes. Olha aqui, major Kwak, você sabe que eu gosto de você, né? Foi por isso que eu te tirei dessa, uma semana depois de você invadir a zona proibida atrás de bebida e estragar aquele clima todo, não foi?
Já que o tenente-coronel Jang, mestre em ameaças, estava vindo com jeitinho, Kwak Soohwan percebeu que não tinha mais como escapar.
— Um mês.
— O quê?
— O tempo que eu ia ficar na solitária era um mês, então eu faço por um mês só.
O tenente-coronel Jang pensou que já era alguma coisa e fez sinal com a mão para que ele viesse.
Kwak Soohwan, ao contrário de pouco antes, começou a seguir Jang com passos leves e decididos. Não havia dúvida de que ele tinha visado aquilo desde o começo. Jang achava que era só um brutamontes com força, mas o sujeito tinha lá suas artimanhas.
— E aí, moleque, não vai mijar não?
— Faço nas calças, ora.
— E tem mais um favor.
— O quê?
— O trabalho não é só escoltar. Você tem que levar o doutor daqui pra Seul. Convencê-lo também é sua parte.
— O doutor Pedra, sei lá o quê, não quer ir pra Seul?
— Pelo que ouvi, parece que não.
— Então a gente desmaia ele e leva.
O tenente-coronel Jang tentou chutar a canela de Kwak Soohwan com a biqueira dura do coturno, mas ele foi mais rápido em puxar a perna para trás e desviar.
— Faz isso e você apodrece dez anos na solitária, ouviu?
O tenente-coronel Jang falou cerrando os dentes. Faltavam dez metros para a casa, e ele ergueu a voz.
— Doutor, viemos buscá-lo.
Kwak Soohwan cruzou os braços, curioso para ver que tipo de velho ranzinza apareceria. Contou dez segundos mentalmente e ninguém apareceu na varanda de madeira, que era perfeitamente visível. Por hábito, olhou ao redor: o único calçado à vista era um par de chinelos baratos.
O tenente-coronel Jang, que chamava o doutor com desespero, não teve escolha senão tirar os coturnos e abrir a porta do corpo principal da casa. Depois olhou para Kwak Soohwan e balançou a cabeça. Ao sinal do queixo indicando o anexo, Kwak Soohwan subiu direto para lá.
— Ei, ei! Não vai tirar o sapato?!
— É só limpar depois, pô.
— Seu desgraçado, você ia gostar se eu entrasse na sua casa com o sapato coberto de sangue coagulado?
Sem esconder a cara de irritação, Kwak Soohwan tirou os coturnos de qualquer jeito e subiu de novo na varanda.
— Eu não aguento. Moleque, e as meias, cadê? Já falta material de suprimento pra caramba, você não deixou num bar por aí, deixou?
Kwak Soohwan detestava lembrar dos pais, mas a bronca do tenente-coronel Jang o obrigou a evocar memórias antigas. Ignorando Jang, que continuava resmungando por causa de meras meias, vasculhou o anexo.
Fora a escrivaninha empilhada de livros, não havia praticamente nenhum sinal de vida. E não era só isso: sobre uma mesa comprida havia pedras enfileiradas com capricho, desde uma do tamanho de uma cabeça humana até outras do tamanho de uma unha. Só serviu para ele pensar “então é por isso que é doutor Pedra”, não deu nem vontade de olhar direito. Além disso, o piso aquecido sob os pés descalços fazia sentir como se estivesse atravessando um rio congelado.
Kwak Soohwan abriu a porta, saiu, espreguiçou-se e bocejou.
— Parece que o doutor Pedra, sei lá o quê, fugiu. Vamos embora também.
Nesse momento ouviu-se fracamente o som de cascalho sendo pisado. Quando Jang e Soohwan viraram a cabeça na direção do barulho, viram um homem se aproximando aos tropeços.
— Achamos ele ali.
À voz de Kwak Soohwan, o tenente-coronel Jang respondeu “É, lá vem ele”, e abriu um sorriso aliviado.
— Minhas meias.
O homem carregava algo comprido e pendurado em cada mão. Como era de se esperar, eram meias militares esticadas, cheias de alguma coisa.
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No mesmo dia, três horas antes. Praia de Sehwa, Ilha de Jeju, 14h.
Era a primeira vez na vida que Kwak Soohwan visitava Jeju.
Diziam que era a ilha das três abundâncias — muitas pedras, muito vento, muitas mulheres —, mas isso também era coisa do passado. Atualmente Jeju era uma zona segura reconhecida pelo Estado atual. O lugar onde se reuniam os que tinham dinheiro, os de alto cargo e os humanos e animais que precisavam de proteção estatal era justamente Jeju.
Caminhando pela praia de areia fina, Kwak Soohwan tirou a capa incômoda do uniforme e a pendurou no braço. Só se ouvia o som calmo das ondas, os cafés e restaurantes que outrora prosperavam à beira-mar tinham parado de funcionar há muito tempo.
Só que, na praia deserta, havia mais alguém observando Kwak Soohwan enquanto ele olhava o horizonte.
No rosto sem expressão não transparecia emoção alguma, mas o humor parecia razoavelmente incomodado. Ter um homem de uniforme militar naquela praia não era nada agradável.
Como não era terra sua, não dava para reclamar, então se concentrou apenas em achar as joias enterradas entre os grãos de areia. Estava agachado, remexendo a areia com um graveto, quando uma sombra negra o cobriu do alto da cabeça aos pés.
— O que você tá fazendo?
Mesmo com aquele tom ríspido, ele apenas piscou e continuou raspando a areia com o graveto.
— Nesse inverno todo, de chinelo? Você vai ficar com os dedos congelados e vão te amputar, sabia? Já vi uns caras assim, não conseguem nem andar direito.
Ele se deslocou de lado, agachado, e começou a cavar outra parte da areia.
— Esse cara é meio lerdo? Eu perguntei o que você tá fazendo.
Não tinha nenhuma boa lembrança de militares. Sabia a que perigos eles se expunham e como o trabalho deles era duro, mas detestava aquele uniforme militar com sangue seco grudado.
Kwak Soohwan estalou a língua ao observar o pateta que, sem dizer nada, só catava pedras na areia e as segurava na mão. Devia ser filho de algum figurão, e mandavam um sujeito desses sozinho para a praia.
Kwak Soohwan remexeu os bolsos e se lembrou de que tinha deixado as luvas no carro. Na falta de coisa melhor, tirou os coturnos e depois as próprias meias. Como tinham sido entregues naquela manhã, estavam relativamente limpas. Quando estendeu as meias ainda meio duras, o pateta ergueu a cabeça, intrigado.
— É pra calçar.
Como ele não parecia disposto a aceitar, Kwak Soohwan simplesmente as largou ao lado dele. Ainda assim, não houve reação nenhuma. Achando que não valia a pena insistir, começou a sair da praia chutando a areia. Então, de repente, o pateta de camisa fina e calça igualmente fina lhe veio à mente, e ele olhou para trás uma vez.
— Que idiota.
O pateta estava enchendo com as pedras que tinha juntado justamente as meias que ele dera.
Enquanto um sujeito daqueles recebia proteção, no continente havia gente que realmente precisava de proteção exposta ao perigo. Pensou em voltar e tomar as meias de volta, mas achou que ser lerdo não era crime e apenas atendeu ao rádio do tenente-coronel Jang.
Ao mesmo tempo, o homem que catava pedras se levantou. Encarando o militar que dali parecia do tamanho de um dedo indicador, abriu a boca.
— Por que está me tratando por você?
Tsc. Ele foi enchendo as meias de pedras, uma a uma, com capricho.
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[Em 202x, no fim da primavera, surge uma epidemia numa pequena cidade do interior da Europa.
No verão do mesmo ano, a epidemia se alastra rapidamente por toda a Europa, América do Norte e do Sul, Ásia, África e todos os continentes.
No fim do verão do mesmo ano, uma vacina é desenvolvida, mas o vírus sofre mutação.]
Junto ao som mecânico do teclado, legendas surgiram na tela. Em seguida, começou a se ouvir a voz suave de um locutor.
[Com a repetição do ciclo entre desenvolvimento de vacinas e mutação do vírus, em 202x, dois anos após o surgimento da epidemia, um terço da população mundial desapareceu. Um ano depois, um terço dessa população desapareceu novamente, e surgiram sucessivamente países que perderam as funções de governo. Com a segurança pública e as leis em ruínas e o caos instalado, foi declarado estado de emergência mundial, e sob a missão de preservar a humanidade realizou-se a integração dos Estados. O mundo, que estava dividido em cerca de duzentos países, agora conta com apenas três nações. A preservação da humanidade, a nova prosperidade da humanidade: essa é a nossa missão.]
— Por mais que o mundo tenha se integrado em três, na verdade ficou até mais nacionalista.
O tenente-coronel Jang, que ouvia aquela transmissão que saía da TV e dos alto-falantes várias vezes ao dia, resmungou. Durante o trajeto da casa de sapê em Jeju até o Centro Seguro da cidade de Jeju, o doutor os acompanhou mais docilmente do que se esperava.
— Doutor, como o senhor sabe, precisamos do senhor.
Ele era dócil, mas continuava sem dizer uma palavra sequer.
— Não é um doutor Pedra que a gente precisa, é? Ou ele vai ensinar a técnica de esmagar aqueles bichos com pedra?
O tenente-coronel Jang soltou um longo suspiro, agarrou o braço de Kwak Soohwan e o arrastou até a porta. Então o repreendeu em voz baixa.
— Você se vira e traz o doutor pra Seul. Eu tenho uma emergência em Suwon, preciso subir agora, entendeu?
Soltando o braço com brutalidade, Jang fez uma reverência ao doutor e saiu do quarto.
O Centro Seguro da cidade de Jeju era um hotel de primeira categoria reformado e transformado em casa segura. O carpete era o mesmo usado nos tempos de hotel, e ainda dava para sentir a maciez do tapete.
O doutor continuava descalço, e as meias cheias de pedras estavam sobre a mesa. Sentado na cadeira, ele tirava as pedras das meias e as separava de novo.
Kwak Soohwan também puxou a cadeira em frente e se jogou nela.
— Você é doutor mesmo? De verdade?
— …
— Doutor Pedra porque é bom em pedra? Então, o jeito de acabar com aqueles bichos tá nas pedras?
Ao encontrar uma pedra com um cristal brilhante encravado, o doutor a ergueu contra a luz fluorescente. Curiosamente, havia vidro dentro da pedra.
Kraas. Kwak Soohwan arrancou a pedra da mão dele e a atirou para um canto do quarto.
— Ser tratado como algo inferior a uma pedra não é lá muito agradável. Só consigo escapar da solitária se te levar pra Seul, então colabora um pouco.
O doutor foi buscar a pedra que Soohwan tinha jogado, pegou-a e tentou sair pela porta assim mesmo. Kwak Soohwan atravessou o quarto em passadas largas e bloqueou a porta com a mão.
— Aonde pensa que vai?
Sem vontade de usar força, o doutor suspirou baixinho e voltou ao seu lugar. Deixou o resto das pedras e guardou no bolso apenas a que tinha ido buscar, depois ficou imóvel, sentado.
Estaria respirando? Quantas vezes por minuto piscava? Kwak Soohwan encarava o doutor fixamente. Ao contrário dos pés descalços vermelhos de frio, o rosto era pálido. Um peso surgiu por reflexo em suas partes baixas, e a única coisa em que conseguiu pensar foi que, assim que chegasse a Seul, tomaria a injeção.
— Você é inteligente?
— Mais que você.
Por um instante Kwak Soohwan franziu a testa, mas logo riu, achando aquilo absurdo. Achava que era um retardado com o cérebro bom, mas o jeito de falar era perfeitamente normal.
— Formou-se em primeiro lugar na Academia Militar, mas por não se adaptar à burocracia causou vários incidentes, sofreu punições disciplinares e foi para a solitária repetidas vezes… A razão de ter que me levar a Seul é não ir para a solitária.
As palavras que se seguiram eram tão frescas que era como ouvir uma criança de seis anos falando com fluência de adulto.
— E eu não sou doutor Pedra. Sou pesquisador de vírus mutantes e de mutações.
Kwak Soohwan bateu palmas.
— Que ótimo, senhor pesquisador. Não tenho interesse nenhum no que você pesquisa, vamos logo pra Seul.
Com os olhos semicerrados, o doutor leu o crachá manchado de sangue no peito dele.
— Kwak… Soohwan?
— Pode me chamar de major Kwak, à vontade.
O doutor dobrou com cuidado as meias já esvaziadas e as estendeu para Kwak Soohwan.
— Obrigado pelas meias. Eu vou para Seul. Contanto que o major Kwak Soohwan não seja meu escolta.
Aquilo era o mesmo que mandá-lo de volta para a solitária.
Kwak Soohwan cruzou as pernas e apoiou o queixo na mesa. Pensou em realmente desmaiá-lo, mas, vendo aquela boca tão viva, seria com certeza mais problemático quando ele acordasse.
— Por quê?
— Você veio para me proteger, mas não parece nem um pouco interessado nesse trabalho.
— Isso mesmo, pra mim basta não ir pra aquela maldita solitária. O doutor não sabe o que é a solitária, né? Os desgraçados gritam feito loucos o dia inteiro e não deixam ninguém dormir, e tem larva empilhada em bolo maior que a sua cara. A graça de estourar isso também só dura no começo. Militar não tem direitos humanos nem lei? Aristóteles disse que só é um Estado estável aquele em que todos são iguais perante a lei. Mas talvez isso aqui seja um Estado pro doutor, pra gente não é, sabia?
O doutor encarava Kwak Soohwan, que tagarelava diante dele, do mesmo jeito.
Sob o uniforme desalinhado havia um corpo bem-definido, indicando que ele era mais físico do que cerebral, mas, vendo-o falar de direitos humanos e ainda puxar aforismos antigos, imaginou que talvez fosse alguém com complexo de inferioridade em relação à inteligência.
Com o desenvolvimento das vacinas, o vírus também sofreu mutações para sobreviver, e com a humanidade não foi diferente. Em meio a uma queda populacional descomunal, a humanidade também estava em processo de evolução para sobreviver.
Ainda que fossem pouquíssimos, nasciam mutantes com capacidades acima das humanas, especializados ou no corpo ou no cérebro. Talvez por não terem completado a evolução com perfeição, quando um lado era excepcional, o outro costumava ser inferior ao das pessoas comuns. O próprio doutor, por exemplo, ganhou cérebro em troca de uma resistência física no fundo do poço. Além disso, os mutantes costumavam apresentar uma forte obsessão por alguma coisa.
Ele nasceu e cresceu em Jeju, mas não era que nunca tivesse tentado ir para o continente. A única vez que saiu fora aos vinte anos, e naquela ocasião sofreu de enjoo e dor de cabeça a ponto de quase morrer. Depois disso, voltar a Jeju virou um terror. Por isso, só conseguiu retornar à ilha quando a mãe morreu, quando ele já tinha quase trinta anos, e até hoje não ousou sequer pensar em ir ao continente.
— Alguém que fala de direitos humanos, por que virou militar?
— Porque disseram que eu ia comer à vontade. Quando me inscrevi na Academia, tinha uns cem colegas de turma. Antigamente diziam que era um grupo de elite, sabia? Mas hoje os caras formados na Academia são só bucha de canhão. Em troca de comer à vontade, meus companheiros foram sumindo um por um. Aqueles mais de cem morreram todos, e agora, contando comigo, só sobraram quatro.
Kwak Soohwan, que abriu quatro dedos para mostrar, deslizou o olhar pelo rosto do doutor à sua frente. Diante daquele gesto desagradável, o doutor apenas piscou uma vez.
— Então obedece, doutor. Trancar um talento como eu na solitária é uma perda nacional, então você vem pra Seul comigo, tá?
Kwak Soohwan ergueu o canto da boca em um sorriso, mas não havia riso nos olhos. Se, como ele dizia, era um dos quatro sobreviventes entre inúmeros militares, mandá-lo para a solitária era o mesmo que perder força militar. O doutor não simpatizava com Kwak Soohwan, mas também não sentiu necessidade de continuar teimando.
— Está bem. Em troca, no caminho até Seul acho que preciso de anestesia para dormir.
Ha. Kwak Soohwan soltou uma risada seca.
— Medicamentos caros não existem pra que o doutor durma confortavelmente. De tanto catar pedra em Jeju e ser tratado como VIP, perdeu o senso de realidade?
— Eu sei. Mas estou pedindo porque posso morrer no caminho.
— Se não dormir no avião você morre, é? Então nem precisa chegar a anestesia geral, não é?
Kwak Soohwan fez um gesto com a mão virada para cima. Ao sinal de que se levantasse, o doutor obedeceu docilmente.
Kwak Soohwan agarrou o braço do doutor, arrastou-o até a parede e o encostou nela. Pressionou com força a mão grande contra o peito dele e abaixou a cabeça. Diante daquela posição, como se fosse baixar os lábios a qualquer momento, o doutor ergueu os olhos para ele com um olhar de desagrado.
— Segura a respiração.
— …A respiração?
— É, puxa bastante ar e segura.
Vendo Kwak Soohwan responder com leveza, como quem diz para ficar tranquilo, ele inspirou e prendeu o ar. Ao mesmo tempo, uma força imensa se concentrou na mão apoiada em seu peito, e assim que sentiu a pressão que parecia cortar-lhe a respiração, o doutor perdeu a consciência.
⊹₊˚ 🧬 ˚₊⊹
Continua….
🌈 Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Othello