Parte 06
Projection Vol. 5.6
O vizinho gentil apareceu justamente quando passava pouco das 7 horas da noite. Sejin, que olhava distraidamente para o elevador apoiado de costas na parede, ergueu a cabeça ao ouvir a voz vinda do lado. Tendo como cenário a porta automática que se fechava sem som, um homem que ele via pela primeira vez estava de pé ao lado de Sejin. Aquele homem vestia um terno de três peças impecável e tinha um rosto alinhado como o de um apresentador de TV. Quando Sejin fixou o olhar nele, ele ergueu o canto da boca com suavidade.
— Adotar gatos de rua anda na moda ultimamente? O que faz aqui?
O homem sorriu de canto, dizendo palavras incompreensíveis.
Diferente da aparência, por causa do tom de voz malicioso que de alguma forma cheirava a golpista, Sejin desviou o olhar em silêncio novamente. Era o tipo de pessoa que parecia que ia recomendar marketing multinível ou uma seita religiosa. Parecia melhor não dar corda.
Diante da atitude de recusar conversa consigo, o homem deu uma risadinha. E então, colocou na boca um nome capaz de atrair Sejin.
— Você terminou com o chefe de sala Cheon Seju? Bem, foi expulso por traição ou algo assim?
— …….
— Se for o caso, posso deixar você ficar na minha casa.
Diante das palavras lançadas de forma maliciosa pelo homem que sorria de canto, Sejin franziu a testa e ergueu a cabeça novamente. Olhos fixos examinaram o corpo inteiro do homem. Pensando bem, ele já tinha visto uma vez uma pessoa que morava na mesma unidade da cobertura. Foi na época em que foi arrastado à força para a casa de Cheon Seju no ano passado. Aquela pessoa tinha apertado o botão do 43º andar. Como este elevador só podia ser usado por quem morava na cobertura, este homem provavelmente seria a pessoa que morava no 42º andar. Ou mudou-se recentemente para o 43º andar.
Mas as pessoas sabem os nomes dos vizinhos mesmo morando em andares diferentes? Não parecia um apartamento tão transbordante de afeto. Além disso, até o título de chefe de sala… Sejin olhou para ele desconfiado e abriu a boca.
— Você conhece o Cheon Seju?
Sem perceber, a pergunta saiu com o final curto, informal. No instante em que Sejin, confuso com sua forma habitual de falar, tentou acrescentar o termo polido tardiamente.
— Ah… Falar informalmente no primeiro encontro.
Ha, o homem que soltou um breve suspiro logo sorriu abertamente e deu uma piscadela. Murmurou algo como — faz muito o meu tipo… — e disse.
— Conheço o Cheon Seju, claro. Trabalhamos juntos. Está esperando o chefe Cheon?
Com certeza parecia um homem fora do juízo perfeito. Sejin olhou com desconfiança para o homem que aceitava sua fala informal sem hesitação junto com a bobagem, e perguntou.
— …Vocês são próximos?
— Somos os mais próximos do mundo. O Seju me chama de irmão mais velho, você não ouviu falar de mim? Me chamo Chae Beomjun… Sou o irmão que o chefe Cheon mais respeita e ama.
— …….
Sejin semicerrou os olhos e examinou Chae Beomjun mais uma vez. O irmão que Cheon Seju mais respeita e ama? Desculpe, mas não parecia nem um pouco. Não parecia que Cheon Seju gostaria de um homem tão fútil e de conversa fiada. Como parecia uma mentira de qualquer forma, ele fechou a boca e não respondeu, e Chae Beomjun estalou a língua com gosto e sorriu.
— Não caiu nessa… Enfim, por que está aqui desse jeito? Parece mesmo que foi expulso, se não tiver para onde ir, quer subir junto? Tem muitos quartos vazios na minha casa. Tem muita coisa para comer também.
Ao ouvir que tinha muita coisa para comer, o estômago fez um som alto de ronco. Chae Beomjun soltou uma risada sonora. Aquele olhar que o observava achando-o fofo era extremamente pervertido. Sejin, com as bochechas coradas, fingiu não ouvir o som vindo de seu corpo e balançou a cabeça.
— Não posso. Tenho que esperar o Cheon Seju.
— O que vai fazer quando encontrá-lo?
— Não é da sua conta.
Diante da resposta firme de Sejin, Chae Beomjun se acomodou e sentou ao lado dele com um sorriso bobo. Sem se importar que o terno ficasse amassado, ele ergueu os joelhos exatamente como Sejin e apoiou o próprio rosto por cima deles. Como um homem muito maior do que ele estava fazendo aquilo, era de alguma forma ridículo. Parecia estar tentando parecer fofo. Quando Sejin tirou os olhos de Chae Beomjun com uma expressão de aversão, ele perguntou com uma voz lânguida.
— O que o chefe Cheon disse para você estar assim? O quê. É muita devoção, você realmente traiu ele?
— …….
Desde antes, são apenas histórias sem cabimento. Sejin olhou de relance para Chae Beomjun. O homem parecia saber vagamente sobre a relação entre ele e Cheon Seju. Embora fosse uma história quase próxima da ficção, de qualquer forma, não era de todo ruim que ele entendesse a si e a Cheon Seju como tendo esse tipo de relação.
Sejin, que não queria corrigir o mal-entendido dele e não queria falar sobre Cheon Seju com outra pessoa, não deu nenhuma resposta. Como ele não demonstrou grande reação, no fim Chae Beomjun deu de ombros e se levantou do lugar.
— Enfim, entendi. Se por acaso não tiver para onde ir, vá ficar na minha casa. É sempre bem-vindo. 42º andar. A senha é 10041004*.
Anjo, anjo; achou que era uma senha que não combinava de jeito nenhum, mas Sejin assentiu pensando em uma eventual necessidade. Se fosse antes, ele desconfiaria de que ele estava oferecendo gentileza por ter alguma segunda intenção e desdenharia ignorando, mas agora não mais. Cheon Seju o ajudou sem qualquer recompensa, e poderia ser que existisse outra pessoa parecida com ele no mundo.
Além disso, embora o homem chamado Chae Beomjun fosse um pouco malicioso e exalasse um ar descompromissado, não parecia alguém que faria mal a ele. O fato de ele ser conhecido de Cheon Seju também ajudou a diminuir a guarda, queira ou não.
Mesmo depois que Chae Beomjun desapareceu pegando o elevador, Sejin continuou sentado no mesmo lugar. Uma hora se passou daquela forma, e Sejin deparou-se com outro vizinho. Era o homem do 43º andar que ficou gravado na memória. O homem vestindo um terno bem alinhado, assim como o homem do 42º andar que desapareceu antes, entrava olhando para o celular e, ao ver Sejin encolhido no chão, abriu um sorriso largo.
— Olá. Boa noite.
— …Olá.
Diante das palavras de saudação comuns que o homem ofereceu, Sejin devolveu a saudação hesitando um pouco. A atmosfera que o homem do 43º andar exalava era realmente suave. Talvez por carregar um sorriso gentil e afetuoso a ponto de desarmar até uma criança, pareceu uma boa pessoa e, para ele, a linguagem polida saiu de forma natural.
Quando Sejin inclinou a cabeça para saudar, o homem inclinou a cabeça da mesma forma, sorriu e desapareceu pegando o elevador em silêncio. Confirmando o 43º andar que aparecia no painel, Sejin percebeu que todas as pessoas que moravam nas unidades da cobertura conheciam Cheon Seju.
Será que era um tipo de alojamento da empresa? Como já tinha visto Cheon Seju saudar o homem do 43º andar de forma muito cerimoniosa, teve esse pensamento. Como o homem do 42º andar também disse que trabalhava junto com Cheon Seju, parecia que esse conceito estava correto, queira ou não.
Então aquele homem também é um gângster? Não parecia nem um pouco, mas vendo a atitude de Cheon Seju, estava claro que ele era uma pessoa em uma posição mais alta do que ele. A diferença para os gângsteres insignificantes que via na Shinwsa Capital era grande. Parecia que os gângsteres de alguma forma se tornavam mais gentis e suaves à medida que o status aumentava. Sejin passou mais tempo fazendo essas reflexões inúteis. E finalmente, Cheon Seju apareceu na frente de Sejin trinta minutos após o homem do 43º andar desaparecer.
A porta do saguão privativo se abriu e Cheon Seju, com o rosto consumido pelo cansaço, apareceu tirando o boné. Hoje ele também usava roupas casuais inteiramente pretas, e trazia até luvas finas nas mãos. Sejin, com a cabeça bem esticada ao lado da coluna, examinou minuciosamente o corpo inteiro de Cheon Seju, a quem encontrava após duas semanas. Era um olhar que carregava a preocupação se havia algum lugar ferido ou se ele havia feito as refeições direito nesse tempo.
— …….
E Cheon Seju parou antes de chamar o elevador ao descobrir Sejin escondido atrás da coluna. O espaço entre suas sobrancelhas se franziu com descontentamento e a linha dos lábios subiu torta. Os olhos negros se dirigiram a Sejin, que estava sentado entre os sacos de lixo. Em seguida, ele deu uma risada curta, como se achasse aquilo um absurdo, e virou a cabeça chamando o elevador como alguém que não viu nada. Só então Sejin levantou-se tardiamente do lugar e se aproximou dele.
— Cheon Seju…
Apesar da voz que não passava de frágil, Cheon Seju não reagiu. A linha do maxilar dele, que estava de pé olhando apenas para a frente como alguém que não ouvia nada, parecia mais afiada do que o normal. Sejin não conseguiu esconder a mágoa ao ver Cheon Seju um tanto abatido. Hesitando enquanto mordia os lábios com força, Sejin sussurrou baixo.
— Você devia ter se alimentado direito…
Diante do conselho preocupado, Cheon Seju soltou um suspiro curto e cruzou os braços. A intenção de não conversar era evidente. Ele aguentou aquelas duas semanas com muita dificuldade para não reverter a decisão que tomou com tanto custo, mas no instante em que viu Sejin com o rosto melancólico, seu coração fez menção de se afrouxar. Cheon Seju trancou a determinação que se afrouxava mantendo a boca bem fechada.
— Eu não comi nada desde de manhã.
Como ele não respondeu, Sejin murmurou falando o que queria. O momento em que confirmou que Sejin havia saído de casa foi por volta das 8 horas da manhã. Diante da afirmação de que ele não havia comido nada desde aquela hora, uma voz alta quase escapou na mesma hora. Um cara que comia dez tigelas de arroz por dia passar fome, era impossível não se preocupar. No entanto, Cheon Seju resistiu mantendo a força na linha dos lábios desta vez também.
Ele não queria transformar todo o esforço feito até agora em fumaça. Sejin tinha que deixar o seu lado.
— …….
Como ele não respondeu, Sejin abaixou bem a cabeça e olhou para a ponta dos pés de Cheon Seju. Na verdade, ele queria argumentar se não era maldade expulsá-lo assim por ter mentido uma única vez, mas não tinha forças para gritar por estar com fome.
No fim, enquanto estava abatido e sem forças, o elevador chegou e a porta se abriu. Observando a figura de Cheon Seju que entrou ali e apertou o 41º andar, Sejin informou tardiamente o seu paradeiro para ele.
— Eu vou estar no 42º andar, então…
Se houver algum problema, me procure lá; foi antes de Sejin terminar a fala daquela forma. Cheon Seju agarrou a porta que se fechava. Quando a mão cheia de cicatrizes se enfiou entre as portas do elevador, a porta se abriu novamente emitindo um sinal sonoro de bi, bi. Sejin ergueu os olhos assustado.
Cheon Seju, que estava sem expressão até o momento anterior, encarava Sejin com o rosto enfurecido. Ele perguntou com uma voz gélida.
— O que você disse agora?
— …Que vou estar no 42º andar…
Ele conseguia fingir que não ouvia as palavras que se preocupavam com ele e as palavras que o faziam se preocupar, mas Chae Beomjun ele não podia deixar passar. Cheon Seju ergueu o canto dos olhos ferozmente e perguntou de volta.
— Por que você iria para aquela casa?
A reação foi violenta. Sejin fechou a boca um pouco confuso. Não conseguia adivinhar em qual parte Cheon Seju estava sentindo raiva. Será que ele estava com raiva pelo fato de ter sido expulso de casa e, sem ter vergonha na cara, tentar depender de alguém que ele conhecia, ou então.
— Você encontrou aquele desgraçado do Chae Beomjun?
— …Sim.
Chae Beomjun, acho que o nome era algo assim. Será que a relação com ele não era boa? Sejin assentiu observando a reação de Cheon Seju.
Sejin nunca tinha visto Cheon Seju demonstrar raiva de verdade. Como se o sangue estivesse subindo à cabeça, ele passou a mão pelo cabelo, soltou um suspiro, moveu os passos com irritação e saiu do elevador. Ele olhava de baixo para os dois olhos de Sejin, que estava mais alto do que ele, mas o olhar era assassino. Olhando fixamente para Sejin com um rosto que parecia que ia enlouquecer de verdade, ele perguntou de repente.
— O que aquele filho da puta disse?
— …Disse que se eu não tivesse para onde ir, ele me acolheria para dormir. Ele me disse a senha antes de ir.
Sejin respondeu docilmente. Diante daquelas palavras, Cheon Seju deu uma risada curta, fechou os olhos firmemente e os abriu. Deu para ver a língua se movendo lentamente dentro da boca. Diante disso, Sejin pressentiu ironicamente que a oportunidade havia chegado em meio à crise. Os lindos olhos castanhos brilharam. O Cheon Seju odeia muito aquele senhor do 42º andar. Assim que percebeu esse fato, uma voz cheia de vida fluiu de Sejin.
— Você me expulsou. Por isso vou ficar naquela casa. A pessoa parecia muito boa. Disse que tem muitos quartos e muita comida, e falou para ir e ficar sem cerimônia. A pessoa parecia extremamente bondosa?
E como esperado, Cheon Seju alterou a voz grandemente diante daquelas palavras.
— Kwon Sejin. Por que você não tem nenhum olho para julgar as pessoas? O Chae Beomjun parece bondoso? Que conversa sem cabimento é essa. Você sabe o que acontece se entrar naquela casa? Sem saber com que intenção aquele desgraçado te deu a senha, você diz que a pessoa parece boa? Pense um pouco! Por que você acha que aquele desgraçado quer te arrastar para dentro de casa!
Sejin olhou fixamente para Cheon Seju, que o censurava asperamente. De alguma forma, seu coração bateu forte. Aos olhos de Sejin, a figura dele parecia justamente a de alguém que sentia raiva por não querer entregá-lo para a pessoa de quem não gostava. Será que isso é apenas uma ilusão minha? Sejin, que pensou assim, perguntou com cuidado escondendo o coração ansioso.
— Você… Não gosta que eu entre na casa daquela pessoa?
— E você acha que eu gostaria?
Cheon Seju, que perguntou de volta passando a mão pelo cabelo como se estivesse sufocado, calou-se subitamente. Parecia ter percebido tardiamente que havia agido de forma excessivamente emocional. Como percebeu que aquilo era a resposta correta por causa daquela atitude, Sejin cavou sem perder a brecha.
— Mas você me expulsou. Eu não tenho para onde ir. Além disso, se eu estiver no 42º andar, posso ficar em um lugar próximo de você, por isso vou ficar na casa daquele senhor. Ele disse que me acolhe de graça, não tenho motivo para recusar. Não preciso gastar dinheiro à parte…
A voz de Sejin que falava assim estava extremamente triunfante, diferente de três minutos atrás.
— Já que estamos aqui, podemos subir juntos.
Sejin disse aquilo com o rosto descarado e virou o corpo. Recolheu os seus sacos de lixo que estavam jogados no chão e apertou o botão de subir para abrir a porta do elevador. Sejin passou por Cheon Seju, que estava parado abruptamente, e se acomodou lá dentro. Em seguida, chamou-o após apertar o botão do 42º andar.
— Cheon Seju, não vai subir?
— …….
O coração batia forte, tum-tum, tum-tum. Cheon Seju observou Sejin com um olhar complexo, com o espaço entre as sobrancelhas distorcido. Sejin previu que ele iria segurá-lo. Essa era a jogada que ele lançou à sua maneira. Se realmente acontecesse assim, parecia que seria um fato que provaria que Cheon Seju não o via apenas como uma mera criança.
E aquela jogada desajeitada funcionou perfeitamente.
Movendo os passos com o rosto endurecido, ele deu as costas para Sejin. Cheon Seju, que ficou de pé olhando para o painel do elevador, apertou o botão que ia para o 42º andar sem hesitação para cancelar, e configurou o destino para o 41º andar novamente. A porta se fechou e o elevador começou a subir em direção a casa.
Sejin percebeu que este momento era o ponto de inflexão da relação deles. Agora Cheon Seju nunca mais conseguiria abandoná-lo.
— Entre.
O toque da mão que empurrava as costas era frio. Cheon Seju parecia não estar de bom humor pelo fato de as coisas não terem saído conforme seu desejo. Embora houvesse palavras que ele queria perguntar sem falta, Sejin fez o melhor para não contrariar os nervos de Cheon Seju por enquanto.
Tirou os sapatos, organizou-os lindamente, entrou no quarto e desfez as malas. Como não gostava da aparência suja, aguentou a fome com força, tomou um banho e, ao sair, Cheon Seju não foi visto. Vendo que a luz da sala também não estava acesa, indicando que ele havia entrado no quarto, Sejin cozinhou e comeu cinco pacotes de lámen escondido na cozinha.
Se dependesse de sua vontade, em vez de algo assim, queria cozinhar e servir uma mesa farta para Cheon Seju. No entanto, com a intuição de que não deveria mexer com ele hoje, Sejin conteve a ambição com força.
Depois disso, pensando se não havia acumulado poeira mesmo sendo uma casa que esvaziou de manhã, limpou a casa com diligência. Sejin andava de um lado para o outro na sala segurando um pano de limpeza, olhando de relance para a porta do quarto de Cheon Seju. Era para ver se conseguia ver o rosto dele mais uma vez por acaso. No entanto, aquela porta não se abriu, e Sejin acabou tendo que dormir no sofá da sala tarde da noite.
Quando acordou na manhã seguinte, havia mais uma coberta sobre o corpo. Cheon Seju havia trazido a sua e o cobrido ao sair de casa de madrugada. Sejin, com as bochechas coradas de vermelho, enterrou o rosto na coberta que deve ter estado em contato com a pele de Cheon Seju e sentiu o cheiro dele. O odor corporal suave dele que se sentia vagamente enlouquecia a pessoa desde a manhã. Fazer isso era realmente jogo sujo. Depois de expulsar a pessoa só por demonstrar um pouco que gostava dele, agir de forma tão gentil assim era realmente uma maldade que Cheon Seju deveria saber…
Sejin levantou-se do lugar sem conseguir esconder o coração que, embora ansioso, estava magoado. Como não sabia quando ele voltaria, não podia ficar sentado com aquele rosto bobo. Ele organizou a cama, entrou no banheiro e se lavou perfeitamente. Com o visual arrumado, foi para a cozinha e começou a preparação da refeição. Pensando se ele voltaria depois de ir treinar, preparou o shake de proteína que ele tomaria e montou a mesa do café da manhã que ele mesmo comeria.
No entanto, mesmo limpando todas as tigelas e dando 9 horas da manhã, Cheon Seju não apareceu. Sejin mexeu no celular que não tinha uma única mensagem com o rosto amuado e, após tomar o shake preparado para ele de uma vez só, organizou a cozinha. Depois disso, não havia outra coisa a fazer a não ser limpar. Sejin pegou a escada que estava guardada no quarto extra e limpou toda a parte superior da janela frontal da sala, que tinha o pé-direito alto. Quase não havia poeira, mas ver que ficou brilhando após limpar trouxe um alívio.
Depois de fazer isso, o sol já estava no meio do céu. Sejin foi para a cozinha novamente e montou a mesa do almoço. Refogou levemente cebolinha, alho, pimenta em pó e camarão no óleo, jogou água até cobrir e abriu cinco pacotes de lámen. Quando o macarrão estava metade cozido, colocou duas embalagens de sundubu, e a água ficou na medida exata. Sejin devorou o lámen de sundubu onde estava sentado e, após misturar mais duas tigelas de arroz ali, terminou a refeição.
Para fazer um pouco de digestão, foi ao mercado próximo fazer compras e, no caminho de volta, comprou sorvete e comeu. Trouxe um embalado para Cheon Seju também, mas não havia previsão de quando poderia entregar. O sorvete comprado para ele foi guardado com cuidado na geladeira.
Depois disso, não tinha o que fazer. Pensando em tentar estudar, sentou-se na escrivaninha e abriu o livro, mas longe de saber a resposta, não conseguia entender nem a pergunta. Parecia que havia se tornado analfabeto por ter deixado de lado por alguns meses. Sejin tentou ler algumas frases em inglês, mas desistiu, apoiou a bochecha na escrivaninha e soltou um suspiro. Parecia ter se tornado um bobo idiota. Um ser inanimado que não sabe fazer outra coisa a não ser esperar por Cheon Seju em casa…
No entanto, a coisa mais importante para ele agora era Cheon Seju. Fosse estudo ou qualquer outra coisa, o mais importante para Sejin era o que Cheon Seju estava pensando e que sentimento ele tinha em relação a si. Então, vamos nos esforçar para parecer um pouco melhor para Cheon Seju. Sejin tomou essa resolução e ergueu o corpo. O lugar para onde ele finalmente se dirigiu foi a sala onde Cheon Seju treinava.
Ele já tinha ouvido dizer que os aparelhos de academia, exceto a esteira, eram perigosos e que não deveria mexer. Sejin pensou que bastaria usar sem perigo, por isso procurou na internet como usar os aparelhos de academia. No entanto, após ver alguns vídeos de pernas quebrando ao usar o aparelho de leg press, Sejin desistiu na mesma hora da ideia de treinar. Seria melhor vender esses aparelhos perigosos; alimentou até o pensamento de aconselhar Cheon Seju dessa forma.
No fim, o que Sejin escolheu foi a esteira, mas mesmo subindo nela e correndo o quanto podia, não era tão cansativo. Sejin, após mais pesquisas, descobriu que havia uma grande diferença entre empurrar o chão com os pés e correr sobre uma superfície que se move, e decidiu apenas fazer cooper.
No entanto, a época era o final de janeiro, quando uma onda de frio repentina chegou, e havia um motivo para Cheon Seju ter coberto com mais uma camada de coberta. Assim que saiu do saguão do apartamento, um vento cortante que parecia que ia arrancar a orelha passou por Sejin. Sejin, que vestia uma jaqueta acolchoada, percebeu que havia feito uma escolha errada, mas não voltou para casa de propósito. Achava que, se pegasse um resfriado treinando em um clima desses, poderia usar a desculpa de estar doente para fazer birra com Cheon Seju desta vez.
No entanto, mesmo começando a corrida desenfreada naquele dia e voltando após ver a Ponte Olímpica, o corpo estava intacto. Apenas estava com mais fome do que o normal. Sejin culpou o corpo saudável sem necessidade e preparou o jantar. Preparou duas porções por não saber quando Cheon Seju viria, e o esperou indefinidamente.
Dando 9 horas, 10 horas da noite, Cheon Seju não abriu a porta e entrou. Sejin ficou sentado em frente à mesa de jantar com o rosto melancólico e, finalmente, quando o relógio marcou 11 horas, ergueu os palitos sozinho. Normalmente, nos dramas, a comida preparada para o marido que se atrasa para voltar para casa acaba sendo jogada fora no fim, mas uma coisa dessas não aconteceu no apartamento 4100. Sejin apenas devorou até a porção de Cheon Seju, bateu na barriga cheia e dormiu tristonho na cama dele.
O ato de Sejin esperar por Cheon Seju continuou por vários dias. Só depois que virou fevereiro Sejin percebeu que Cheon Seju tinha uma inclinação para a evasão. Da outra vez também foi assim. Como não podia expulsá-lo de casa e não podia encarar o problema, ele escolheu novamente o método de evitar o lugar.
Se vai ficar vagando por aí deixando uma casa perfeitamente arrumada, era melhor me expulsar… Com o coração magoado, achou que Cheon Seju era realmente tolo, mas por outro lado, Sejin pensou que era por isso que gostava de Cheon Seju. Não expulsá-lo para o chão frio da rua até em uma situação dessas era algo extremamente típico de Cheon Seju.
Sejin aguentou firme com o pensamento de que não podia se afastar ainda mais de um Cheon Seju assim. Como apagou o aplicativo e não podia espionar as redes sociais de Kang Doyun, apenas passava o tempo treinando e esperando que Cheon Seju voltasse.
Assim, o dia em que ele viu o rosto de Cheon Seju novamente foi o dia em que completou exatamente três semanas desde que voltou para casa após meio dia de fuga.
Aquele dia, por algum motivo, foi de sorte desde a manhã. Quebrou o ovo para fazer ovo frito e saíram duas gemas, e superou a barreira dos 10 minutos de prancha que parecia impossível de ultrapassar. O ensopado de peixe jogi também ficou realmente delicioso, e antes mesmo que o ensopado esfriasse, Cheon Seju chegou.
Sejin, que estava sentado à mesa engolindo em seco esperando apenas que ele voltasse, virou a cabeça ao sentir a presença de alguém em um determinado momento. Viu a luz se acender do outro lado do corredor. Naquele momento, o coração bateu tão rápido. Ele sentiu algo parecido com uma tontura e levantou-se do lugar. Sem conseguir esperar aquele curto tempo até ele entrar, foi para a entrada quase correndo e viu Cheon Seju, que havia tirado os sapatos, entrando.
— …….
Quando os olhos se cruzaram, ele franziu levemente a testa e olhou para Sejin de baixo. O significado de saia da frente era claro, mas sem se importar com isso, Sejin o recebeu sem sequer tentar esconder a voz animada.
— Você veio?
— …….
Ele desviou o olhar sem responder e passou por Sejin deixando a entrada. Sem ficar magoado com aquela atitude, Sejin o seguiu por trás. Tinha a certeza de que Cheon Seju ignoraria sua saudação, mas não ignoraria sua mesa de refeição.
Assim que passou pelo corredor e chegou à cozinha, Cheon Seju parou abruptamente. Uma mesa de refeição arrumada estava montada sobre a bancada da cozinha americana. A panela tampada e os acompanhamentos distribuídos nas vasilhas. O arroz ainda não havia sido servido, mas os pratos individuais e os talheres estavam dispostos em dois conjuntos. Cheon Seju, que percebeu aquilo, estendeu a linha dos lábios com insatisfação e olhou para ele de baixo.
— Você não jantou, não é? Vá se lavar rápido e saia.
Encarando aquele olhar, Sejin disse aquilo como se não fosse nada. Já fazia um bom tempo que o aviso de entrada do carro não tocava, por causa de algum artifício que Cheon Seju usou. Como deve ter sido intencional da parte dele, Cheon Seju também saberia desse fato e, então, teria percebido que ele o esperou obstinadamente apesar de não haver o aviso de entrada do carro. Se soubesse até ali, Cheon Seju não poderia ignorar aquela mesa de refeição de jeito nenhum. Sejin teve certeza, e a previsão estava correta.
— …Espere.
Cheon Seju, que disse aquilo soltando um suspiro curto, entrou no próprio quarto. Vendo-o pegar a roupa no closet e se dirigir ao banheiro da sala, Sejin fechou o punho com o coração alegre.
Como a preparação da refeição estava toda concluída, Sejin apenas colocou a panela levemente resfriada de volta no fogão de indução e correu para o próprio quarto. Entrou no banheiro, lavou o rosto perfeitamente, trocou a roupa que havia espirrado água e voltou para o seu lugar na cozinha. Enquanto esperava segurando a colher de arroz, logo ouviu o som de Cheon Seju abrindo a porta do banheiro. O coração batia como se fosse explodir, mas fingindo não ter esperado, serviu o arroz com o rosto indiferente. Enquanto isso, Cheon Seju abriu a porta da geladeira, pegou água mineral e se acomodou sentando no lado oposto de Sejin.
Diante da sensação de finalmente retornar à rotina, parecia que as lágrimas iam cair de Sejin. Só agora percebeu o quanto considerava precioso esse momento de jantar que não era grande coisa.
— Vou comer bem.
— Sim.
Cheon Seju ergueu os palitos. O cansaço estava estampado no rosto. Sejin não conseguiu esconder a mágoa ao ver o rosto abatido dele após algumas semanas. O corte de peso já tinha acontecido quando o viu após duas semanas de ser expulso de casa, mas agora estava pior do que naquela época. Parecia não ter feito as refeições direito por não haver ninguém que cuidasse dele direito. Dizem que sair de casa é sofrimento, mas como o fato de Cheon Seju sair de casa foi para evitá-lo, tudo parecia culpa sua.
No entanto, mesmo assim, Sejin não disse a Cheon Seju — prefiro que você fique aqui, eu saio. Em vez disso, quanto mais o coração ficava magoado, mais crescia apenas a ambição de fazer com que Cheon Seju voltasse para si sem falta.
— …Por acaso, você continuou montando a mesa assim o tempo todo?
O momento em que Cheon Seju lançou essa pergunta foi por volta de quando Sejin, que recuperou o apetite, limpou a quarta tigela de arroz. Ele, que terminou a refeição primeiro, segurava a garrafa de água fechada na mão e fechava e abria o punho como se estivesse exercitando. Sejin olhou fixamente para as costas da mão de Cheon Seju, que estava com a pele descascada, cruzou o olhar com ele e assentiu.
— Sim.
— …….
Diante daquela resposta concisa, Cheon Seju franziu a testa como se estivesse com dor de cabeça. Em seguida, soltou um suspiro pequeno, massageou a têmpora e disse.
— Não faça isso daqui para a frente. Como estou ocupado e não posso voltar com frequência, resolva a refeição você mesmo sozinho.
Sejin ouviu as palavras dele calmamente. Cheon Seju parecia achar essa situação desconfortável. Dizer que estava ocupado e não podia voltar com frequência provavelmente era uma desculpa.
Desculpe, mas Sejin não tinha intenção de fazer conforme ele mandava. Se fizesse conforme Cheon Seju mandava, veria o rosto dele cerca de dez vezes nos próximos dez anos. Isso era realmente um absurdo. Sejin, que pousou os talheres, cruzou o olhar com Cheon Seju. Olhando para os olhos submersos dele, disse.
— Eu montei a mesa do jantar todos os dias durante as três semanas em que você esteve ausente. De manhã também preparei o shake que você tomaria, e continuei organizando o quarto. Esperei por você fazendo isso.
— …Kwon Sejin.
— Mesmo que você não volte por um mês daqui para a frente, vou continuar fazendo a mesma coisa. Mesmo que diga que não vem por um ano, vou montar a mesa do jantar todos os dias.
— Não faça isso.
— Cheon Seju.
Sejin dirigiu o olhar para Cheon Seju fixamente. Gravando o rosto de que sentia saudades nos olhos, pensou que não queria se afastar dele agora.
Quando sentia saudades da mãe, suportava aquele tempo trazendo à mente a lembrança de Cheon Seju abraçando-o. Mas quando sentia saudades de Cheon Seju, não havia outro método. Por isso, Sejin apenas vinha fazendo o que podia fazer enquanto esperava por ele, que voltaria a qualquer momento.
— Tenho algo que quero muito te perguntar. Me responda apenas isso.
Aquela espera foi algo que começou desde o dia em que Cheon Seju acolheu Sejin de volta em casa. Havia algo que queria muito perguntar a ele desde aquele dia, e só agora Sejin pôde lançar a pergunta para ele.
Olhos parecidos com esferas de vidro se dirigiram a Cheon Seju. Sejin olhou para ele com olhos cheios de puro anseio. Seu peito estava apreensivo com o medo de ele sair de casa novamente. Surgiu a impaciência de que precisava ouvir a resposta dele antes que Cheon Seju desaparecesse para algum lugar novamente. Sejin engoliu a saliva seca e, tenso, perguntou a ele.
— Você odeia aquela pessoa?
Cheon Seju não entendeu a pergunta de imediato. Era natural. Como Sejin estava falando da história de três semanas atrás, para Cheon Seju, que passou por eventos cheios de altos e baixos lá fora diferente dele que continuou em casa, era um assunto que não dava para acompanhar de uma vez. Por isso, Cheon Seju só pôde entender aquelas palavras depois que Sejin deu a explicação sobre — aquela pessoa.
— Estou falando do homem do 42º andar.
— O Chae Beomjun?
Diante da menção ao 42º andar, Cheon Seju rebateu ferozmente. Diante daquela reação afiada, Sejin percebeu que havia acertado em cheio. Naquele dia, a reação que Cheon Seju demonstrou em relação àquele homem foi realmente incomum. Queria perguntar o tempo todo desde que entrou em casa, mas como Cheon Seju não voltou, ficou apenas pensando sozinho e finalmente a oportunidade chegou.
— Sim. Naquele dia, quando eu disse que ia para o 42º andar, você ficou com raiva.
— …….
Tinha sido assim? Cheon Seju apoiou as costas na cadeira e franziu o canto dos olhos. Não queria muito falar sobre o Chae Beomjun. No entanto, Sejin estava sentado com o rosto inocente esperando a resposta. Vendo aquela expressão parecida com a de uma criança que não sabe de nada, o suspiro veio. Parecia necessário informar o que quer que fosse. Ele segurou a garrafa de água como se estivesse imerso em pensamentos por um instante, e logo ergueu a cabeça, olhou para Sejin e disse.
— É um cara totalmente lixo. Então, se encontrar esse homem da próxima vez, não o cumprimente.
Não queria explicar detalhadamente que tipo de criatura Chae Beomjun era. É que não queria manter uma conversa sobre temas sexuais com Sejin. E pensou que, se falasse assim, Sejin entenderia.
No entanto, como se não estivesse satisfeito com a resposta concisa de Cheon Seju, Sejin perguntou a ele novamente.
— Que tipo de pessoa ele é para ser um lixo?
— Você não precisa saber. Apenas saiba disso.
— …….
O olhar fixo de Sejin atingiu Cheon Seju, que balançava a cabeça indicando que não havia mais o que explicar. A conversa não podia continuar desse jeito. Para extrair uma reação significativa de Cheon Seju, Sejin pensou com cuidado e logo respondeu dando de ombros.
— É que você odeia ele, não é? Na verdade, perguntei pensando em apenas ficar naquela casa se for expulso novamente no futuro, mas ouvindo sua explicação, acho que posso fazer isso. Para mim, foi uma pessoa muito gentil.
Diante daquela resposta calma, Cheon Seju sentiu instantaneamente o sangue subir à cabeça. O quê? Ele, que perguntou de volta erguendo os olhos, mastigou as palavras de Sejin e deu uma risada curta. Gentil? Acha que pode ficar naquela casa? Pensou que o filho da puta do Chae Beomjun havia seduzido a criança perfeitamente.
Pensando bem, Chae Beomjun era esse tipo de cara. Como a aparência externa era perfeitamente alinhada, as crianças que não sabiam de nada tendiam a pensar facilmente que ele era uma boa pessoa. Cheon Seju também foi uma das — crianças — daquela época.
Ao lembrar da traição que sentiu naquele dia, até hoje o estômago revirava e o calor subia na nuca. Provavelmente porque o sentimento de mágoa permanecia até agora. De qualquer forma, Cheon Seju não aguentou naquele dia e bateu em Chae Beomjun, que se agarrava a ele novamente, e os dois brigaram feio trocando golpes. Como no dia seguinte foi chamado por Shin Kyoyeon, ouviu palavras insultuosas e levou tapas na bochecha lado a lado, fazer as pazes com Chae Beomjun era algo que ele nem sequer havia pensado.
Assim, os boatos sobre ele que passou a ter acesso após a relação com Chae Beomjun se romper foram coisas que Cheon Seju nem sequer imaginava. O fato de o número de parceiros que ele encontrou até agora passar de centenas, ou o fato de que se fosse a um determinado clube nos dias de folga encontraria Chae Beomjun sem falta; Cheon Seju chegou a sentir vergonha pelo fato de ter seguido como um irmão mais velho uma criatura extremamente promíscua e com comportamento digno de um gigolô.
O incidente que teve com ele não seria exagero dizer que se tornou o motivo decisivo para Cheon Seju ficar orbitando a organização por fora. Se Chae Beomjun fosse uma boa pessoa como ele pensava, não teria desconfiado tanto dos outros, mas como aquilo ficou como um trauma, por um tempo Cheon Seju repeliu os que se aproximavam dele e, nesse processo, houve desavenças com Baek Seonghwan também.
De qualquer forma, por ser uma criatura acostumada a enganar o outro e se camuflar dessa forma, era compreensível que Sejin pensasse que ele era gentil. Mas, independente disso, o fato de Sejin ignorar o seu aviso era algo que justificava a alteração de humor de Cheon Seju.
— Não ouse ir para o 42º andar. Grave o que a pessoa está dizendo quando ela fala.
Diante das palavras de Cheon Seju que lançavam uma ameaça, Sejin soltou um som de desdém pelo nariz. Sejin, que pousou os palitos cedo por alguma razão, parecia não ter mais intenção de se alimentar. Olhando para Cheon Seju com o rosto amuado, disse descaradamente.
— Se você não me expulsar, isso não vai acontecer. Mas como você continua agindo assim sem explicar o motivo, eu acabo ficando curioso sobre aquela pessoa, o que eu faço?
— Curioso com o quê?
Diante da atitude natural de Sejin, Cheon Seju acabou alterando a voz com irritação. Ele, que passou a mão pelo cabelo e soltou um suspiro, encarou Sejin. Não queria chegar a esse ponto da conversa, mas sentiu a necessidade de dar um conselho adequado para Kwon Sejin, que não conhecia a realidade do mundo. Cheon Seju escolheu as palavras lentamente e selecionou o termo adequado.
— Aquele homem… É uma criatura que não consegue sossegar assim que vê crianças como você. Não está tentando te ajudar, está apenas querendo mexer com você… Está jogando charme, por isso, por mais gentil que ele seja, não olhe para ele. Entendeu o que quero dizer?
No entanto, diante daquela explicação, por alguma razão, pareceu que um sorriso se espalhou pelos lábios de Sejin. Como ele ergueu a mão imediatamente e cobriu a boca, não era certo, mas Cheon Seju achou ter visto o canto da boca subir de forma travessa.
Logo Sejin pigarreou e cruzou o olhar com Cheon Seju. Com os cílios longos flutuando e balançando, Sejin perguntou enquanto olhava fixamente para Cheon Seju.
— O que é esse charme? Você está dizendo que aquele senhor quer transar comigo, é isso?
— …….
A palavra charme que Cheon Seju escolheu com dificuldade perdeu o significado instantaneamente diante da expressão explícita transar. Será que este garoto enlouqueceu? Ele piscou os olhos e fechou a boca. No entanto, diferente dele que estava tomado pelo absurdo, a atitude de Sejin era triunfante. De alguma forma, pareceu até que ele esperou por esse assunto. Como se aquilo não fosse uma ilusão, logo Sejin apoiou as duas mãos na mesa e inclinou o corpo. O rosto lindo se aproximou e, exalando um cheiro doce de xampu, Sejin perguntou a ele.
— Por que você não quer que eu transe com aquele homem? Cheon Seju. Você sabe de uma coisa? As outras pessoas não se importam com o que uma mera — empregada doméstica — faz por aí. Não se importam com quem um garoto que não tem uma gota de sangue misturada dorme por aí.
— O quê?
Pensou se estava ouvindo direito agora. Cheon Seju olhou distraidamente para Sejin, que cobrava o motivo do nada. Se achar que os olhos parecidos com esferas de vidro brilhavam era uma ilusão? Sejin parecia de alguma forma animado como alguém que descobriu a evidência decisiva de um caso não resolvido.
— Mas por que você ficou com tanta raiva? Se você me expulsou, por que mudou de atitude imediatamente ao ouvir que eu ia para o 42º andar e me acolheu em casa? Você não gostou que eu fosse para o 42º andar? Não gostou que eu estivesse com aquele homem? Significa que você não queria que eu transasse com aquela pessoa, não é? Então por que não queria? Já parou para pensar no motivo disso?
Parecia que uma bomba de pontos de interrogação havia sido lançada. Cheon Seju não conseguiu responder imediatamente às perguntas que Sejin despejava e fechou a boca. Em seguida, compreendeu o significado da pergunta que Sejin lançava e franziu o canto dos olhos. Ele, que soltou um suspiro como se achasse aquilo um absurdo, passou a mão pelo cabelo lentamente.
Não valeu a pena o esforço de manter distância dormindo e comendo no escritório. Apesar de não ver o rosto dele por três semanas, Kwon Sejin estava falando como se o encontro com Chae Beomjun tivesse sido ontem. Cheon Seju olhou para ele firmemente e abriu a boca.
— Motivo? O que haveria de ser? Eu te observo desde que você era deste tamanho, então porra, como eu não ficaria com raiva vendo a criancinha que eu protegia dizer que vai para o lado de um gigolô canalha que parece que vai gastar a cabeça do pau até sumir?
À medida que falava, a raiva ia subindo. Diante da pergunta de Cheon Seju, que na parte final quase chegou a alterar a voz, Sejin, no entanto, inclinou a cabeça com serenidade e apontou.
— Olha só. Você está com raiva de novo.
— Garoto, pense bem. Se você estivesse no meu lugar, haveria como não ficar com raiva?
O suspiro veio por si só. Cheon Seju, que ficou com o estômago sufocado, abriu a garrafa de água e engoliu a água mineral que havia ficado morna de uma vez só. Para ele, Sejin respondeu com o rosto normal.
— Eu ficaria com raiva. Porque gosto de você.
— …Este garoto enlouqueceu de vez.
Cheon Seju, que ficou com a fala travada por um instante, murmurou logo com a voz endurecida. Estava realmente prestes a enlouquecer. Sempre que Sejin vinha desse jeito, Cheon Seju sentia o estômago sufocado a ponto de parecer que ia girar. Não conseguia entender por que ele não compreendia o seu coração. Sabendo implicitamente que se agisse desse jeito ele não teria escolha a não ser repeli-lo, a raiva estava prestes a surgir em relação a Sejin, que continuava passando dos limites. No entanto, antes que ele ficasse com raiva de verdade, Sejin falou primeiro.
— Mas por que você fica com raiva? Por acaso você trocou as minhas fraldas, ou me carregou nas costas para eu crescer? Você disse para eu apenas trabalhar bem em casa. Disse que eu sou a empregada doméstica. Apesar disso, a questão é por que você fica com tanta raiva assim.
— Não, pense bem! É uma situação em que até um amigo ficaria com raiva, não é óbvio? Você é…!
— O que eu sou, então? Não sou seu amigo. Também não sou sua família.
Sejin estava induzindo a resposta definida com uma atitude realmente descarada. Era a sensação de conversar com a parede. Cheon Seju engoliu a fúria que subia por dentro, fechou os olhos firmemente e os abriu. Confortando a si mesmo para não se exaltar, respirou fundo e disse com uma voz bem mais calma.
— Eu sou o seu protetor. Mas você diz que vai morar de favor sem sequer investigar direito quem é o outro, sem medo; é normal eu não ficar com raiva? Kwon Sejin, eu sei que você é burro, mas pense um pouco.
— Eu já sou adulto. Não preciso da sua proteção. E o que tem de mais nisso? Eu entrei nesta casa sem saber direito que tipo de pessoa você era. Mas você era uma boa pessoa. Aquela pessoa também pode ser assim.
— …….
Ficou pasmo com a resposta de Sejin. Diante da forma de falar que realmente deixava a pessoa sem palavras, Cheon Seju fechou os olhos com os punhos fechados nas duas mãos. Sentia que, à medida que a conversa avançava, estava sendo arrastado por Sejin. O motivo era claro. Enquanto Cheon Seju não conseguia se situar sozinho, Sejin tinha certeza em seu pensamento. Como tentava convencer alguém que achava que já sabia a resposta, era natural que a conversa não fizesse sentido.
No fim, Cheon Seju balançou a cabeça negativamente e se levantou do lugar. Não queria mais se deixar envolver. Não queria dar margem para Sejin. Entrou em casa sem necessidade. Tinha passado em casa por estar preocupado se Sejin estava passando bem, mas parecia que teria sido suficiente mesmo se voltasse após um ano. Cheon Seju arrependeu-se da escolha de antes e virou o corpo. No entanto, antes de ele deixar a cozinha, o ato de Sejin se levantar do lugar e agarrar o seu pulso foi primeiro.
— Não vá. Eu errei.
Sempre que gritava sem pudor, sua voz perdia a força ao flutuar perto do ouvido alheio. Cheon Seju suspirou brevemente e virou a cabeça. No entanto, ao contrário do que pensava, de que ele estaria com uma expressão chorosa, Sejin apenas o olhava com o rosto sério.
O rosto de Sejin, que não via de perto há muito tempo, não parecia muito diferente de quando ele havia deixado a casa. Sua aparência era saudável, e seu rosto continuava tão bonito que era capaz de aparecer em seus sonhos. Contudo, o olhar de Sejin era diferente de antes. Havia uma emoção pesada no fundo de suas pupilas castanhas e transparentes. Cheon Seju sentiu vontade de fugir ao encarar aqueles olhos.
Se soubesse quem ele realmente era, Sejin nunca mais o olharia com aqueles olhos. Esse era o verdadeiro ápice do medo que Cheon Seju carregava. No entanto, ele ainda não conseguia ter certeza do que estava na base desse medo. Se era porque estimava Sejin com um sentimento familiar e não queria perdê-lo, ou se…
— Responda só isso…
Sejin segurou com força o pulso de Cheon Seju, que havia virado a cabeça para desviar o olhar. Como se não quisesse soltá-lo de jeito nenhum, ele sussurrou enquanto o segurava com as duas mãos como se fosse uma corda de salvação.
— Naquela época… por que você tentou me beijar?
Sejin se lembrava perfeitamente.
No inverno passado, Cheon Seju recebia seu toque com o olhar calmamente baixo. Sejin lembrava do momento em que, de repente, ele ergueu os olhos para encará-lo e lhe deu um olhar intenso, como se estivesse lambendo seu rosto. E, finalmente, Sejin não esqueceu por um único momento o instante em que ele fixou os olhos em seus lábios e sua respiração quente os tocou.
Por um tempo, pensou que era um delírio seu ou por causa do álcool, mas, pensando bem agora, parecia que não era isso.
— Você fugiu naquela época também, não foi?
Como se estivesse acordando de um sonho, Cheon Seju de repente recobrou os sentidos, disse para Sejin não entrar no quarto e desapareceu. Pensando bem agora, Cheon Seju havia fugido naquela época também. Assim como agora, evitando algo que o angustiava.
— …
Diante das palavras de Sejin, Cheon Seju permaneceu em silêncio. Ele respirava calmamente, olhando apenas para o chão, e só abriu a boca depois de muito tempo.
— …Eu estava bêbado e cometi um erro.
Mentira.
Sejin repetiu mentalmente e puxou o pulso de Cheon Seju. Viu o rosto dele, que se virou sem resistência. O homem que sempre foi seguro e calmo começou a parecer tão fraco a partir de certo momento. Sejin acariciou o pulso dele, que antes apertava com força, e deu um passo em direção a Cheon Seju.
O início da mudança era claro. Foi a partir do dia em que Sejin teve seus sentimentos descobertos por Cheon Seju. Desde então, Cheon Seju começou a temer algo e a fraquejar. Sejin não desgostava disso. Ele gostava da rachadura naquele homem sólido, onde pensava que não haveria espaço para ele entrar.
— Então beba comigo.
Como se estivesse fazendo manha, Sejin puxou o braço de Cheon Seju. Erguendo a mão dele, sussurrou enquanto beijava as costas de sua mão, que estava com a pele um pouco descascada.
— Cometa um erro comigo…
Eu já sou adulto agora. Diante das palavras que Sejin soltou como uma confissão, Cheon Seju mordeu os lábios de leve e o encarou. Um olhar intenso percorreu o rosto de Sejin. Os olhos delicados que transmitiam sensibilidade pelas sombras projetadas pelos longos cílios, e a pequena pinta avermelhada que havia se assentado logo abaixo.
Cheon Seju relembrou a memória do dia que Sejin mencionou. O cheiro de Sejin sentido bem à sua frente e a respiração pequena e fina como a de uma criança. Pensando bem, embora não houvesse grande diferença no tamanho do corpo de Sejin entre aquela época e agora, a sensação era nitidamente diferente.
Neste momento, Sejin, que estava diante de seus olhos, emanava um calor ardente. Ele havia crescido e se tornado um homem, e o olhava com um olhar cheio de um desejo intenso, como se fosse devorar Cheon Seju imediatamente. Era de tirar o fôlego. Ele engoliu a rejeição que subia até a garganta e virou a cabeça.
— …Está com medo?
A voz que tocou seu ouvido após um breve silêncio foi extremamente cautelosa. Era afetuosa e gentil. Cheon Seju sentiu que aquele sentimento alcançava até mesmo a sua imensa ansiedade envolta em confusão.
Estar ao lado de Sejin era tão confortável que ele queria esquecer tudo repetidamente. Continuava cometendo erros. Por isso havia ficado longe de casa. Porque não queria ser abalado por Sejin.
Mas, depois de voltar para Sejin desse jeito, a única coisa que pensava era que queria ficar ao lado dele para sempre. Não queria deixá-lo sozinho.
Cheon Seju o empurrou com um lamento. Sua cabeça estava confusa. O que tinha que fazer e o que queria fazer eram tão diferentes que a discrepância lhe causava dor de cabeça.
— Vá dormir.
Falando com firmeza, ele empurrou Sejin e se virou. Suas costas mostravam um aspecto que não exibia uma única brecha, como um castelo sólido novamente, mas Sejin agora parecia saber o que havia no interior de Cheon Seju, onde ele não tinha conseguido espiar.
— Eu não vou a lugar nenhum, Cheon Seju.
Com a declaração de Sejin, ele, que estava abrindo a porta, hesitou. Mantendo o olhar fixo no homem que virava a cabeça lentamente para olhá-lo, Sejin falou mais uma vez.
— Eu prometo.
Cheon Seju encarou Sejin por um longo tempo com uma expressão de quem havia sido pego de surpresa. O silêncio continuou e, em algum momento, ele desapareceu junto com o som da porta se fechando.
Forgive(2)
A rotina dos dois parecia ter voltado ao que era antes, à primeira vista. Desde que Cheon Seju retornou, Sejin não o perseguia mais com pressa, e Cheon Seju também não deixava a casa vazia para evitar a situação. No entanto, como Cheon Seju estava extremamente ocupado, tornou-se raro eles fazerem as refeições juntos como de costume. Isso porque ele havia ficado encarregado da Shinsa Capital novamente.
Vira-lata
[Que horas você vem?
17:52]
Bzzz. Ao ver a mensagem que chegou com a vibração, Cheon Seju engoliu um suspiro. Passando a mão pelo cabelo com irritação, ele olhou para as dezenas de documentos de empréstimo que estavam em cima da mesa. Ainda havia uma montanha de coisas para verificar.
Havia uma história inacreditável por trás do motivo de ele ter voltado a agir como o presidente da Shinsa Capital. O entregador Yoon Heesu, que foi confinado por Shin Kyoyeon; a situação do empréstimo revelada enquanto investigavam o histórico dele trouxe Cheon Seju até aqui. Ao contrário do que pensava, de que ele morreria em pouco tempo, Shin Kyoyeon parecia ter gostado bastante de Yoon Heesu.
Em janeiro, Shin Kyoyeon ordenou que a equipe de eliminação investigasse o histórico de Yoon Heesu. Com isso, a equipe de eliminação refez desde as relações familiares de Yoon Heesu até os vestígios de como ele havia vivido até agora, e descobriu o fato de que ele tinha pais que haviam saído de casa. Junto a isso, ao revirarem os registros financeiros, também encontraram vestígios de um empréstimo que Yoon Heesu pegou assim que completou vinte anos, e esse era exatamente o problema. A empresa de crédito onde ele pegou o empréstimo era ninguém menos que a Shinsa Capital, e a data desse empréstimo era posterior ao dia em que Yoon Heesu já havia ficado preso na casa de Shin Kyoyeon.
Ao saber desse fato, Chai Bumjun foi procurar Cheon Seju com um sorriso radiante e informou que o representante ficou extremamente irritado ao saber que algo tão inacreditável estava acontecendo em sua empresa, e Cheon Seju foi à Shinsa Capital naquele mesmo dia para encurralar e pressionar Kim Donggil.
O processo foi simples. Um membro da organização, que estava prestes a perder todos os seus bens fazendo transações de criptomoedas seguindo Kim Donggil, forjou os documentos de empréstimo de Yoon Heesu que haviam sido guardados anteriormente e desviou o valor principal.
Kim Donggil foi levado a Shin Kyoyeon pelo crime de não gerenciar adequadamente o membro subordinado da organização e passou por momentos terríveis, e aquela vaga foi ocupada novamente por Cheon Seju. Desta vez, não era apenas agir como um presidente de fachada. Shin Kyoyeon perguntou a Cheon Seju, que havia cursado medicina, se ele era bom em matemática, e o fez conferir todos os documentos de empréstimo com os históricos de saque do valor principal do empréstimo.
[17:53 Vou atrasar hoje. Coma primeiro.]
Cheon Seju enviou a resposta para Sejin e tirou um cigarro para fumar. “Desgraçado do caralho”. Xingou Shin Kyoyeon mentalmente e pegou os documentos novamente. No entanto, talvez por estar sentado no mesmo lugar desde a manhã, ele não conseguia se concentrar de jeito nenhum. No final, suspirando e se levantando do lugar, ele se aproximou da janela, abriu-a e se acomodou diante dela.
Não eram nem seis horas, mas o sol já estava se pondo. Cheon Seju olhou para o céu tingido de vermelho e ponderou vagamente sobre a voz que ecoava em seus ouvidos.
— Eu não vou a lugar nenhum, Cheon Seju. Eu prometo.
Mesmo sem saber de nada, Sejin disse aquilo. Cheon Seju baixou os olhos enquanto lembrava timidamente de como era a expressão de Sejin ao falar daquele jeito.
“Sério? Vai fazer isso por mim?”. Se pudesse voltar àquele momento, queria perguntar isso. Mas, sempre que essa pergunta surgia, a água ensanguentada que molhava suas mãos também vinha à mente. O momento em que cortou urgentemente a artéria aorta de Han Jonghyun antes mesmo de receber ordens de Shin Kyoyeon, temendo que ele revelasse o fato de ter se encontrado com ele, grudou em sua mente e não saía. Depois disso, o peito que estava quente esfriava cruelmente, e o que restava era apenas a familiar aversão a si mesmo.
Não importa o quanto pensasse, não achava que Sejin seria capaz de aceitá-lo sendo assim. Quando o olhar de Sejin encarando Kim Donggil com repulsa no funeral e sua voz afiada cheia de rancor vinham à mente, ele passava a apagar os pensamentos sobre Sejin como se estivesse conformado.
O motivo de ele não passar mais tempo longe de casa era porque não queria fazer Sejin esperar. Kwon Sejin era um rapaz com um gênio teimoso. Como ele era do tipo que tentava avançar com ainda mais força se fosse empurrado, ele estava voltando para casa certinho, pensando que era melhor dar espaço e não reagir a ele para resolver a situação.
No entanto, ultimamente estava difícil até fazer isso porque o trabalho havia ficado corrido. Como a conferência dos casos de empréstimo cujo pagamento estava em andamento havia terminado em janeiro, pensou que não haveria motivo para estar ocupado, mas isso aconteceu porque, há alguns dias, Shin Kyoyeon deu a ordem de incluir também os casos cujos pagamentos foram concluídos no relatório de histórico. Por causa disso, Cheon Seju estava procurando todos os recibos desde a época em que a Shinsa Capital era uma empresa de pequeno porte muito pequena.
— Chefe. Trouxe o jantar.
— …Ah.
Enquanto resfriava a cabeça por um momento, ouviu a voz de Moon Sunhyuk vindo de lá. Cheon Seju apagou o cigarro esfregando-o no cinzeiro colocado na janela e voltou para o seu lugar. Em cima da mesa do escritório reorganizado, estava a marmita de arroz com enguia que ele havia embalado. Cheon Seju se sentou e, interrompendo o ato de abrir a embalagem, olhou para Sunhyuk, que estava encarando um ponto da mesa.
— O que está fazendo?
— …Ainda está com ele?
Seguindo o olhar dele, viu a tela do seu celular onde uma nova mensagem havia chegado. Sunhyuk perguntou ao ver o nome de salvamento familiar. Cheon Seju franziu a testa, virou o celular de cabeça para baixo e balançou a cabeça.
— Acabou acontecendo.
— Até quando… Não é nada.
Sunhyuk, que continuava a falar com o corpo rigidamente tenso, balançou a cabeça ao sentir o olhar fixo de Cheon Seju. Cheon Seju também sabia que ele não via a presença de Sejin com bons olhos. No entanto, não queria explicar sobre Sejin para Sunhyuk em uma situação onde ele próprio não conseguia encontrar um rumo. Como era uma privacidade que não precisava convencer ninguém desde o início, Cheon Seju fingiu não ouvir as palavras dele e lhe entregou uma das marmitas cuja tampa havia aberto.
— Coma e vá embora. Eu vou organizar as coisas por conta própria antes de sair.
— Vou esperar.
— …Faça como quiser.
Essa atitude cega de Sunhyuk era um fardo, mas agora até esse fardo era familiar. Cheon Seju deu de ombros e começou a comer sem dizer nada. Talvez por ter ficado sentado o dia inteiro, a comida não entrava muito. Ele mal conseguiu esvaziar metade do arroz com enguia e afastou a marmita.
Mal fechou a tampa, Sunhyuk, que se levantou do lugar ao ouvir aquele som, se aproximou de sua mesa. Suas mãos grandes recolheram o lixo e o limparam. Cheon Seju olhou fixamente para Sunhyuk, que agia como um servo, e lhe perguntou.
— Por que você faz este trabalho?
A angústia que havia começado há muito tempo continuava até agora. Não era como se Cheon Seju estivesse apenas parado naquele lugar, entregue à aversão a si mesmo. Ele também estava pensando muito para colocar um fim a essa aflição. Diante de sua pergunta, Sunhyuk piscou os olhos e, logo em seguida, endireitou a postura para responder.
— É porque foi a única coisa que aprendi.
— …
Diante do olhar fixo que parecia pedir uma explicação, Moon Sunhyuk corou levemente as bochechas, parecendo envergonhado. Trabalhavam juntos há alguns anos, mas era a primeira vez que Cheon Seju lançava uma pergunta como essa para Sunhyuk primeiro. Como havia muitos casos em que agiam juntos, houve fatos que souberam um sobre o outro por acaso, mas Cheon Seju nunca havia tido uma curiosidade profunda sobre Moon Sunhyuk até agora.
— Quando eu era jovem, morava em uma favela e, como era difícil ganhar a vida, andava roubando carteiras até que fui pego em flagrante pelo irmão Junghwan. Enquanto apanhava terrivelmente do irmão, consegui contra-atacar um golpe a duras penas, e o irmão achou isso louvável, me levou para um estabelecimento e me deu de comer até eu ficar cheio.
Era uma história comum. Alguém que reconheceu Moon Sunhyuk, que não tinha posses nem estudos, o atraiu para a organização. Cheon Seju balançou a cabeça enquanto ouvia a história dele. De certa forma, a situação de Moon Sunhyuk e a sua podiam ser consideradas semelhantes. Já que Sunhyuk, que estava prestes a morrer de fome imediatamente, também não deve ter tido o direito de escolha. Ele entrou para a organização em um momento de pobreza onde sequer podia sonhar com um futuro diferente, teve a chance de encher a barriga e não a deixou escapar.
— Nunca se arrependeu?
— Nunca.
Diante da pergunta feita com o queixo apoiado na mesa, Sunhyuk balançou a cabeça como se não fosse nada. Moon Sunhyuk realizou muitos trabalhos junto com Cheon Seju. Embora Haeung, Jinyoung e Yoon Chuljoo estivessem juntos no momento em que executavam os golpes, eles não costumavam frequentar muito a sala de trabalho. O único que podia estar junto quando Cheon Seju torturava pessoas e removia órgãos era Sunhyuk. Como ele nunca se arrependeu sequer uma vez, sendo que também cometeu aqueles atos cruéis e desumanos?
— Como você consegue ser assim?
As pupilas escuras, como se estivessem imersas na escuridão, se direcionaram a Sunhyuk. Olhando para Cheon Seju daquele jeito, Sunhyuk lamentou internamente. Era de novo. O homem que nunca havia se abalado firmemente até agora estava prestes a mostrar uma rachadura diante de Sunhyuk novamente.
Sunhyuk sabia quem era a existência que havia causado a rachadura nele. Aquela criança que estava na casa de Cheon Seju, aquela criança estava abalando o homem que era como uma fortaleza obstinada. Sunhyuk engoliu o sentimento de desprezo que subia e abriu a boca.
— O senhor se arrepende?
Diante de Sunhyuk, que devolveu a pergunta, Cheon Seju hesitou por um momento. Deixando de lado o fato de ele não ter respondido à sua pergunta, um sentimento de cautela brotou em um instante ao perceber que Sunhyuk não veria com bons olhos o fato de ele estar abalado emocionalmente.
As pupilas que oscilavam se acalmaram friamente e a indiferença encobriu seu rosto gradualmente. Era um problema porque sua calmaria se perturbava bastando pensar em Kwon Sejin. Sendo que as coisas que aprendeu enquanto levava facadas de Suk Yoonhyung eram coisas como essa… Não permitir que os subordinados percebessem seus pontos fracos…
Parecia que ele havia esquecido esse fato importante por tempo demais. Cheon Seju, que percebeu seu descuido, logo ergueu os cantos dos lábios como se não fosse nada e respondeu.
— O que você vai fazer sabendo disso?
— …Acho que o senhor não vai se arrepender. Não há ninguém que combine tanto com esse lugar quanto o senhor.
E ele sentiu que seus ombros ficaram pesados com a reação que retornou. A voz de Sunhyuk estava cheia de certeza. Pensando bem, Moon Sunhyuk foi assim desde o primeiro momento em que se encontraram. Enquanto os outros rapazes desconfiavam e ficavam em guarda contra ele, que havia afastado Sunhyuk e ocupado o lugar mais alto da equipe de eliminação, Moon Sunhyuk foi o único que curvou a cintura e o reverenciou desde o primeiro dia em que viu Cheon Seju.
Houve muitos momentos em que isso serviu de apoio, mas não hoje. Ele não era uma pessoa tão fria quanto Sunhyuk pensava. Apenas estava se esforçando para ser assim.
Moon Sunhyuk queria o Cheon Seju que era exatamente o oposto do que Sejin conhecia. Como as duas pessoas que podiam ser consideradas as mais próximas de sua casa e de seu trabalho desenhavam Cheon Seju de maneiras diferentes, esse também era o motivo pelo qual ele não tinha escolha a não ser hesitar.
Cheon Seju não respondeu às palavras de Sunhyuk e virou a cabeça. Entendendo sua recusa como uma ordem para ir embora, Sunhyuk deixou a frente da mesa e se acomodou na entrada do escritório. Era uma posição onde podia correr e ajudá-lo sempre que Cheon Seju chamasse.
Parecia que estava sufocando. Cheon Seju massageou a testa onde uma leve dor de cabeça avançava e fixou o olhar novamente em direção aos documentos acumulados como uma montanha.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna