Capítulo 214
Após abdicar do trono e escolher o caminho da aniquilação, Cesare ficou preso em um ciclo de punição interminável.
A ilusão repetitiva só se despedaçou quando Eileen apareceu. No momento em que ela o impediu de aceitar o acordo com o deus, ele entendeu tudo. Ela havia ficado presa no mesmo tormento, sofrendo ao lado dele.
Suas primeiras emoções foram desespero e raiva. Desespero porque ele falhou em protegê-la; raiva porque ele a arrastou para essa realidade horrível.
O deus a utilizara para criar uma ilusão perfeita capaz de enganá-lo, e ela sofrera terrivelmente por causa disso.
Mas esses sentimentos não duraram.
No momento em que a mulher por quem ansiava se tornou real diante dele, aquilo foi um milagre irônico e bonito.
Todo o tormento que suportou como descrente derreteu enquanto a observava. Eileen queria estar com ele, mesmo que isso significasse ser aniquilada. Ela destruiu seu plano egoísta pela sobrevivência dela, escolhendo em vez disso cair no inferno com ele.
Enfrentando seus olhos luminosos verde-dourados, Cesare não pôde recusar. Ele sabia que deveria mandá-la de volta e permanecer sozinho, mas seus lábios não se moviam. Ela o escolheu mais uma vez, não com a ingenuidade de uma garotinha, mas com uma convicção feroz e inabalável. Ela desistiu de tudo para segui-lo. Ele esteve preso nesse loop temporal por tanto tempo que achou ser imune às emoções. Mas quando a viu, um desejo simples e poderoso criou raízes em seu coração. O desejo de estarem juntos.
Foi Eileen quem plantou essa semente de desejo. Quando percebeu que ela havia florescido e o transformado, tudo já havia mudado. Ela era um deus para sua alma descrente, ele não tinha escolha senão obedecer. Eileen ofereceu a si mesma como preço para um novo acordo, e embora ela estivesse preparada para a aniquilação de sua existência, o deus os devolveu à realidade, exatamente ao momento da rebelião do homem.
O passado parecia uma lembrança distante e esmaecida, mas não demorou nada para se ajustar. O calor do corpo dela, a sensação dos seus lábios, a voz chamando o seu nome. Todas aquelas sensações eram provas de que haviam realmente retornado juntos.
— Não é um sonho, né…? É mesmo você Cesare…? — ela perguntou, ainda em seus braços.
A abraçou com mais força, percebendo que seu próprio corpo tremia levemente. Ele aceitou a escolha dela, mas não estava preparado para uma nova realidade. Um novo medo floresceu dentro do homem. Qual preço Eileen pagou? Mas ela não estava com medo. Em vez disso, sorriu, seus olhos verde-dourados cheios de um amor imutável que sempre o salvou.
Ele pegou sua mão. O deus os havia trazido de volta para impedir que o acordo de sobrevivência fracassasse. Mas não havia possibilidade de saírem ilesos. Ao pedir um novo acordo, Eileen necessariamente teria de pagar um preço.
Cesare puxou uma pequena adaga do casaco e cortou a própria palma. Sangue escorreu, então parou instantaneamente. O corpo dele ainda estava preso pela maldição do tempo fixo. Ele era imortal.
Em seguida, pegou a mão de Eileen e encostou a ponta da adaga em sua pele.
Ela não recuou. Não hesitou. Ele fez um pequeno corte em seu dedo. Uma única gota de sangue apareceu, então o ferimento cicatrizou instantaneamente. O corpo dela também estava agora eternamente fixo no tempo. Cesare engoliu uma risada amarga. Ele sabia o preço.
Um corpo com o tempo fixo não pode mudar. Ele jamais havia sido capaz de lhe dar um filho. E agora ela era igual a ele. O desejo dela tinha sido ficar “junto” dele. Fosse na aniquilação ou na sobrevivência. O deus havia realizado esse desejo da forma mais cruel possível.
De agora em diante, Cesare seria a única pessoa que permaneceria na vida dela. Ela seria incapaz de ter filhos, incapaz de compartilhar seu coração com um parente de sangue. Assistiria todos aqueles que amava, seus cavaleiros, o povo do império, morrerem ao seu redor. Ela havia sido amaldiçoada com uma eternidade na qual apenas ele poderia permanecer ao seu lado.
Cesare podia suportar isso. Contanto que a tivesse, ele aguentaria uma eternidade. Mas Eileen… ela sentiria a dor de cada perda. O sofrimento de nunca poder ter um filho.
— Eu me tornei igual a você, Cesare…? — perguntou, encarando o dedo perfeitamente cicatrizado.
Ela havia estudado medicina. Conhecia o corpo humano. Também havia observado a velocidade impossível com que os ferimentos dele cicatrizavam. A maior transformação que um corpo humano pode sofrer é a gravidez. Ela deve ter percebido imediatamente que esse era o preço.
Mas ela não mencionou a infertilidade. Em vez disso, seu rosto permaneceu sereno. Ele esperava que ela chorasse. Sabia o quanto ela queria um filho na ilusão. Mas ela não demonstrou tristeza. Simplesmente olhou para ele, seus olhos brilhavam.
— É um alívio, — disse ela. — que tenhamos nos tornado iguais… estou realmente aliviada.
Ela havia escolhido voluntariamente uma vida de sofrimento.
Mas, para ela…
Era como se Cesare a tivesse salvado mais uma vez.
Continua…
Tradução e Revisão: Elisa Erzet