Capítulo 212
Um vazio negro o cercava. Cesare estava sozinho, olhando para o relógio de bolso de platina em sua mão. O ponteiro marcava sete horas. Ele o soltou. O relógio flutuou na escuridão, despedaçando-se em milhões de partículas de luz. À medida que a luz se dispersava, flores desabrochavam do nada. Lírios brancos, com seus botões surgindo e suas pétalas se abrindo, preenchiam o espaço, transformando o vazio em um campo perfumado. Cesare permanecia no centro, uma figura marcante em um mundo de branco puro; seus cabelos negros e olhos vermelhos contrastavam intensamente com os lírios.
Eileen queria correr até ele, mas não conseguia. Ela flutuava no ar, separada dele por uma barreira invisível. Era como se uma parede desconhecida os mantivesse afastados. Enquanto lutava contra essa barreira, uma brisa suave percorreu os lírios. Ela se transformou num vento furioso, ameaçando arrancar as frágeis flores pela raiz. Cesare permaneceu firme diante da tempestade, seus olhos secos, sem mais derramar lágrimas.
— Traga Eileen Elrod de volta a vida, — exigiu ele de Deus.
Esse era seu único desejo, aquele pelo qual havia pago com incontáveis mortes, as dele e as dela. Ele havia superado as sete provações e agora estava ali para reivindicar sua recompensa. Deus não teve escolha a não ser responder.
Uma tempestade explodiu. O jardim de lírios desmoronou; as flores delicadas finalmente foram arrancadas de suas raízes pelo vento. Lírios voaram por toda parte enquanto Cesare caía. Eileen estendeu a mão para ele, mas as flores em queda obscureciam sua visão. Ela avançou com dificuldade através das pétalas giratórias, desesperada para alcançá-lo.
— Cesare! — gritou repetidas vezes, mas ele não a via. Continuava caindo sem fim, rodeado por flores.
— Cesare Traon Karl Erzet.
Uma voz retumbou — a voz do deus.
Eileen estremeceu, dominada por um terror que parecia perfurar sua própria alma. Ela sentiu a ira crua na voz do deus, a ira de uma divindade forçada a cumprir uma promessa feita a um mortal que quebrara todas as regras.
Um sorriso se espalhou pelo rosto de Cesare. Ele estava prestes a aceitar o acordo. Ela não podia permitir que isso acontecesse.
— Não! — gritou.
Mas continuava sendo inútil. Sua voz não conseguia alcançá-lo.
Porém, havia outro ser capaz de ouvi-la.
Eileen atravessou os lírios e rezou, suas palavras sendo uma súplica a todos os deuses.
— Por favor, perdoem Cesare!
A distância entre eles parecia um abismo. Ela estendeu a mão com todas as suas forças.
— Eu preciso do Cesare! Se ele não estiver aqui, eu não posso viver! Se eu morrer, o acordo…
As palavras saíram atropeladas, uma confusão de pensamentos.
— O acordo não vai ser válido, certo…?!
Ela não conseguiria viver em um mundo sem ele. Ele era a razão de sua existência.
— Se não vai… devolvê-lo para mim… então… então simplesmente… deixem que eu seja igual… igual ao Cesare!
Ela implorou a Deus que apagasse sua existência, que a permitisse desaparecer sem deixar vestígios, que lhe concedesse o mesmo destino do homem.
Justo quando Cesare abria a boca para aceitar o acordo, uma brisa suave tocou sua face.
Era um sussurro, carregando todas as orações que ela havia feito ao longo da vida.
[Cuide de Cesare.]
[Que somente a glória esteja com ele.]
[Por favor, não deixe que ele se machuque.]
[Que Cesare possa voltar em segurança.]
As orações de uma jovem garota, misturadas às súplicas desesperadas de hoje, giravam ao redor do homem como uma canção.
Assim como a música de piano dele. A brisa a empurrou gentilmente para frente. Era um toque leve, mas foi o suficiente. Finalmente o alcançou.
— Cesare! — ela chorou, envolvendo os braços ao redor dele.
Seus olhos vermelhos se arregalaram de surpresa. A cor deles tornou-se mais viva, mais nítida.
Ele estava prestes a falar, mas as palavras que saíram não foram uma aceitação do acordo.
— …Eileen? — perguntou, como se precisasse confirmar sua existência.
Ela assentiu, lágrimas escorrendo pelo rosto, emocionada demais para conseguir falar.
— …Não, você não pode… o acordo… você não pode fazer isso…
Com uma mão, ela o apertou com força; com a outra, cobria desesperadamente sua boca.
Ele lentamente afastou a mão dela, segurando com firmeza. Fitou seus olhos encharcados de lágrimas. Um longo silêncio passou entre os dois. Então ele sussurrou:
— Por que você veio até aqui?
As palavras a atingiram como um golpe. Ela finalmente percebeu que aquele era o Cesare, o marido que a havia deixado para trás para se tornar uma imperatriz fantasma.
Ela golpeou o seu peito com o punho, o som ecoando de forma aguda naquele espaço silencioso.
— Por quê?! Por que você fez isso…?! Se ia me deixar para trás…!
A queda interminável dos dois começou a desacelerar. As flores que giravam ao redor deles pararam. O próprio tempo parecia ter pausado.
Eles flutuavam no ar, suspensos em um jardim de lírios, olhando um para o outro. Por um longo tempo, ele apenas a encarou.
Então estendeu a mão cuidadosamente e tocou sua bochecha, como se precisasse confirmar que ela era real.
Com os dedos, enxugou suas lágrimas, fascinado pela única estrela existente em seu céu.
— Eileen…
O coração doeu ao ouvir seu nome nos lábios dele. Pensou que já estivesse além da dor. Mas ainda era agonizante.
Ela envolveu o rosto dele com as mãos, um gesto que o homem costumava usar para confortá-la, então falou suavemente:
— Eu vi tudo.
Os olhos dele escureceram. Ele sabia exatamente do que ela estava falando.
— Eu vi tudo… tudo o que você fez por mim.
— …Você… — sussurrou o homem, colocando a mão sobre a dela. — Você viu tudo aquilo… e mesmo assim me seguiu até aqui?
Ele havia cometido coisas terríveis. Mas agora ela compreendia o amor dele.
Um amor que jamais teria conseguido entender sem testemunhar tudo.
— Foi você quem me salvou primeiro — insistiu ela, tentando impedir que sua voz tremesse. — Você deu… tudo para me trazer de volta à vida, então… então… — havia tantas coisas que queria dizer. — Eu… eu também te amo Cesare… eu quero ficar com você…
Vida.
Morte.
Até mesmo a aniquilação da própria existência, não importava. Ela só queria estar ao lado dele. Esse era seu único desejo.
Continua…
Tradução e Revisão: Elisa Erzet