Capítulo 95
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- Capítulo 95 - Canção de Xun nos Sonhos.
Carregando uma lanterna e caminhando à noite, a luz vermelha suave da lanterna de lótus iluminava apenas um palmo do chão sob seus pés. Xiahou Lian e Shen Jue andavam sem rumo e, de alguma forma, foram parar em uma trilha estreita de pedras. Havia paredes de barro dos dois lados, e ao longo do caminho estavam empilhados peneiros e varas de bambu. Shen Jue usava um lenço na cabeça e não conseguia ver bem o caminho, queria tirá-lo, mas também temia que as pessoas reconhecessem seu rosto. Com o governador perambulando pelo mercado noturno, logo se formaria uma multidão de curiosos. Ele andava com cautela pelo caminho irregular, até que pisou em um peneiro e cambaleou — Xiahou Lian segurou seu braço.
— Eu te puxo — disse Xiahou Lian. Sua mão deslizou até o pulso de Shen Jue e o guiou.
Os dois continuaram caminhando no escuro, sem dizer uma palavra durante todo o trajeto. Xiahou Lian estava calado desde que havia se encontrado com Tang Shiqi. Às vezes, ele sorria e explicava o que era alguma coisinha ao lado da estrada, mas Shen Jue podia ver nos olhos dele que sua mente estava distante. No fim das contas, eram velhos amigos e uma amizade não se rompe apenas com palavras. Shen Jue suspirou internamente. Não havia pensado bem naquilo; Xiahou Lian crescera em Garan e tinha muitos amigos lá. Talvez ele não devesse tê-lo envolvido nessa missão.
Shen Jue puxou sua mão de volta, e a mão de Xiahou Lian deslizou, caindo em sua palma. Ele notou que a mão de Xiahou Lian enrijeceu por um instante, mas ele não a soltou, deixou que Shen Jue a segurasse. A mão de Xiahou Lian, acostumada a empunhar sabres, era áspera como lixa de afiar lâminas. À medida que se aprofundavam mais na trilha, as pessoas foram sumindo. Os guardas do Depósito Oriental os seguiam de longe, de modo que apenas os dois permaneciam naquela viela silenciosa e estreita. E ainda assim não soltaram as mãos continuaram andando assim, devagar.
No silêncio, Shen Jue disse repentinamente:
— Os assuntos de Garan deveriam ser entregues a outro oficial-chefe.
— Não!
Xiahou Lian parou abruptamente e se virou. Shen Jue não teve tempo de parar e colidiu com ele. Xiahou Lian cambaleou para trás e, instintivamente, segurou a cintura de Shen Jue. Ainda segurava o mastro da lanterna, que pressionou a cintura de Shen Jue. A lanterna balançava descontroladamente na ponta do mastro, e a luz trêmula dançava sobre seus rostos. Separados apenas por uma fina camada de gaze preta, podiam ver os olhos um do outro.
O coração de Xiahou Lian deu um salto, e ele se afastou apressadamente, tentando disfarçar o embaraço.
— Você não se machucou, né? — perguntou, tentando soar calmo.
Shen Jue, instintivamente, queria dizer “não”, mas as palavras mudaram quando chegaram à sua boca:
— Está doendo.
— Hã? Onde dói? — Xiahou Lian olhou para os braços e o corpo dele. Era pleno inverno, e ambos usavam roupas grossas. Aquele esbarrão não tinha sido forte, então por que estaria machucado?
Shen Jue não teve tempo para pensar muito, então inventou qualquer coisa:
— Minha perna dói.
Arrependeu-se assim que terminou de falar; não havia batido a perna em nada, qualquer um perceberia a mentira na hora.
Xiahou Lian sorriu.
— Está cansado de andar? Vamos descansar um pouco, então.
Shen Jue assentiu. Xiahou Lian colocou a lanterna no chão e se agachou para massagear a perna dele. Baixou os olhos, concentrado no gesto, enquanto Shen Jue olhava para o topo da cabeça dele e dizia:
— Passar isso para outra pessoa será melhor para você e para o Depósito Oriental.
— Está com medo de que eu esteja sendo sentimental demais e perdendo a visão do todo, Jovem Mestre?
— Estou com medo de que você sofra.
— Há coisas que eu preciso encarar — Xiahou Lian se levantou e disse —. Não posso mais evitar ou fugir disso, e nem quero.
— Você precisa mesmo se torturar assim? — Shen Jue ainda não concordava.
— Jovem Mestre, eu te peço — Xiahou Lian o fitou e falou —: quero resolver pessoalmente a questão de Garan.
Shen Jue o encarou em silêncio e, por fim, suspirou.
— Se o seu shidi quiser se render e jurar lealdade, deixe-o entrar no Depósito Oriental. Mas se ele insistir em não…
— Então deixe que eu — Xiahou Lian lentamente fechou os punhos sob as mangas estreitas, como se usasse toda a sua força para pronunciar as palavras — o mate com as minhas próprias mãos.
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A luz da lua naquela noite era branca e fria, e a neve refletia seu brilho gélido no rosto de Baili Yuan — um rosto do tamanho da palma de uma mão, pálido como o de uma boneca de porcelana. Ela sorria, mas havia claramente uma aura de tristeza. Chi Yan a olhou de cima. Após um longo tempo, disse com muita seriedade:
— Baili, você tem algum desejo?
— Um desejo?
— Mn, posso te ajudar — disse Chi Yan.
— E se meu desejo for que você seja enterrado comigo? — murmurou Baili Yuan, com voz suave. — Ainda assim, você estaria disposto a realizá-lo?
Chi Yan hesitou.
Baili Yuan cerrou os punhos, e seus olhos foram gradualmente se enchendo de uma expressão cruel, enquanto dizia em voz baixa:
— Sabia… são todas mentiras!
— Eu posso levar suas cinzas comigo — disse Chi Yan de repente, tirando uma pequena bolsa da dobra de suas roupas. Ele despejou as três únicas moedas de cobre que havia dentro e a colocou no parapeito da janela para que Baili Yuan visse. — Vou usar isto para guardá-las.
Era uma bolsa muito velha, desgastada pelo uso. Havia sido azul-anil, mas com o tempo o tom desbotara, tornando-se azul-claro. Um pouco da ferocidade nos olhos de Baili Yuan se dissipou, e ela perguntou:
— Por que essa bolsa?
— Meu irmãozinho costurou para mim — disse Chi Yan. — Ele não me deu muitas coisas, e algumas eu acabei perdendo. Só sobrou essa bolsa.
Baili Yuan fixou o olhar na bolsa. Ela sempre soubera o quanto Chi Yan sentia falta do irmão gêmeo e, no fundo, não queria que suas próprias cinzas fossem guardadas naquilo que tinha sido feito por aquela pessoa. Com raiva, rangeu os dentes, virou-se e deu alguns pontapés fortes em uma árvore. Sua barriga doía ainda mais, e ela sentia o sangue escorrer pela coxa.
Ela chutou mais algumas vezes e parou, virando-se e gritando com Chi Yan:
— Você é idiota? Como é que uma bolsa tão pequena vai caber minhas cinzas?
Chi Yan ficou surpreso.
Baili Yuan queria ir embora, mas se sentia fraca. Esquecera de pôr um cachecol ao sair, e o vento cortante entrava pelo colarinho, congelando seu corpo de dentro para fora. A dor no estômago aumentava, e ela achava que não conseguiria mais ficar de pé. Um homem malvestido surgiu no canto da rua, saído da latrina. Ao ver Baili Yuan — com seu rosto branco e aparência frágil — seus olhos brilharam, e ele se aproximou cambaleando.
Baili Yuan franziu o cenho com nojo, enfiou a mão na roupa e segurou o punho de uma adaga escondida na cintura.
— Cai fora! O que você quer fazer?! — gritou A-Chu, surgindo do nada com uma vassoura, acertando o homem com força no rosto. Aquela mulher, quando brava, parecia uma fera, e até sua maquiagem sedutora ganhava um ar cortante.
O homem gritou de dor e saiu correndo. A-Chu largou a vassoura, levantou a barra da saia e correu até Baili Yuan, dizendo:
— Menina, eu te falei pra não vir pra frente da casa!
Baili Yuan a olhou com os olhos escuros e pesados, sem dizer nada. Virou-se de lado e viu Chi Yan ainda agachado no parapeito da janela, olhando fixamente para ela. Provavelmente ele também pensava em pular para impedir o canalha. Ambos eram idiotas, ela pensou. Suspirou e segurou a mão de Baili Yuan para levá-la de volta. De repente, notou o sangue no chão e perguntou, assustada:
— De quem é esse sangue?
— Meu — respondeu Baili Yuan.
Chi Yan também apontou para ela.
— Dela.
A-Chu agarrou os ombros de Baili Yuan, desesperada:
— O que houve com você? Onde está machucada?
— Minha barriga dói — disse Baili Yuan. — Acho que fui envenenada.
A-Chu ficou paralisada.
— Sua barriga dói? Está sangrando pela coxa?
Baili Yuan assentiu.
A-Chu entendeu e suspirou profundamente mais uma vez. De repente, ela compreendeu o que era criar uma criança. Olhou para Baili Yuan, a garota parecia doente, como uma pessoa de papel retirada da água: pálida, mole e sem forças. Segurou sua mão e a levou até os fundos da casa, não se esquecendo de instruir Chi Yan:
— Ferva uma tigela de água com açúcar mascavo.
— Água com açúcar mascavo cura veneno? — perguntou Baili Yuan.
A-Chu riu tanto que ficou sem fôlego.
— Sim, sim, não só cura veneno, como também conserva a beleza.
A-Chu a levou até seu próprio quarto, acendeu o cesto de carvão no cômodo e, em seguida, tirou de dentro do armário um pano menstrual. Baili Yuan pegou o pano, era uma tira longa de tecido vermelho, com peônias escarlates bordadas. Era forrado com algodão, então tinha um toque macio. Havia tiras finas e compridas de pano branco nas extremidades, mas ela não sabia para que serviam.
A-Chu ensinou, com as próprias mãos, como usá-lo, além de explicar sobre a menstruação. Baili Yuan ouviu tudo de maneira confusa, e A-Chu ajudou a prender o pano em seu corpo. Enquanto seus braços se curvavam ao redor dela, um leve perfume de rouge pairava no ar, envolvendo-a sutilmente. Baili Yuan pensou, distraída, onde já havia sentido aquele cheiro antes. Parecia estar em muitos lugares… As mulheres do prostíbulo Honglou[1] sempre gostavam desse tipo de pó de rosto.
A-Chu deu-lhe um aquecedor de mãos para aquecer a barriga. Ao segurá-lo, Baili Yuan de repente percebeu que não iria morrer. Na verdade, ela ficou um pouco decepcionada, como se, no fundo, sentisse que deveria ter morrido.
Suas calças de algodão estavam sujas, então A-Chu a fez sentar na cama entalhada e enrolou um edredom de algodão ao seu redor. O edredom também era vermelho. Ela sabia que bordeis gostavam de usar colchas vermelho-vivo; assim, quando os homens e as prostitutas iam para a cama, era como entrar em um quarto nupcial, criando uma alegria falsa.
A-Chu também se enfiou debaixo das cobertas e abraçou os joelhos, perguntando:
— Criança, você nem sabe o que é menstruação, sua mãe nunca te ensinou?
— Não — respondeu Baili Yuan, olhando para as flores no edredom —, minha mãe nunca falou comigo.
A-Chu perguntou, confusa:
— Por quê?
Baili Yuan disse:
— Quando eu era pequena, um adivinho foi até minha casa e disse que eu era a reencarnação de um espírito maligno, que um dia mataria meus pais. Eles ficaram com medo e me mandaram para as montanhas, para viver num convento. O adivinho disse que a aura budista do convento podia me reprimir e impedir que eu me tornasse um demônio.
— Eles acreditaram nas palavras de um adivinho? Quando eu era criança, um velho cego disse que eu seria imperatriz no futuro! — A-Chu olhou para Baili Yuan e perguntou com cautela: — Então você viveu esse tempo todo no convento?
— Mn. Aquele lugar é muito frio e neva todos os dias. Não há nada lá, só cresce um tipo de flor vermelha. Só havia duas ou três freiras muito velhas no convento, que até ofegavam quando andavam. Eu só podia brincar sozinha. Às vezes eu fazia bonecos de neve, dava nomes para eles e fingia que eram meus amigos de verdade.
— Você nunca voltou pra casa?
Baili Yuan respondeu:
— Voltei sim. Em todos os festivais e no Ano Novo, meu pai mandava alguém me buscar para voltar à mansão. As freiras diziam que eu tinha muitos irmãos e que devia tratá-los bem, só assim me deixariam ficar em casa. Um dia, fui ao campo nevado e capturei uma raposa da neve. Foi muito difícil pegá-la, armei muitas armadilhas na neve. Meus dedos congelaram até finalmente conseguir. Coloquei a raposa numa gaiola e levei para eles. No começo, ficaram felizes, mas a Quinta Irmã era travessa. Ela enfiou a mão na gaiola e foi mordida pela raposa. Meus pais disseram que eu era azarada, que machuquei minha irmã mais nova logo que voltei, e ainda por cima mataram a raposa da neve.
— Como eles podem ser assim?! — A-Chu se indignou, o rosto ficando vermelho de raiva. — Foi ela quem enfiou a mão na gaiola, o que isso tem a ver com você!
— Depois, eu fiz bolinhos de arroz glutinoso pra eles comerem, mas ninguém quis — continuou Baili Yuan, com o queixo apoiado nos joelhos. — Disseram que comer algo feito por um espírito maligno traria doença. Mas na verdade, os bolinhos estavam muito bons. Eu comi tudo sozinha e nunca fiquei doente.
Ela olhou para a frente, sem expressão, e disse em voz baixa:
— No ano em que eu tinha nove anos, a Segunda Irmã ficou com pena de mim e me chamou pra brincar com eles. Subiram numa montanha artificial, mas eu fiquei com medo e esperei lá embaixo. A Segunda Irmã esbarrou no Nono Irmão, e ele caiu bem do meu lado e morreu. Ela ficou com medo de ser punida pelos nossos pais, então colocou a culpa em mim. Eu disse que não tinha sido eu, que tinha sido ela, mas meus pais não acreditaram. Supliquei pros meus outros irmãos testemunharem, mas todos me ignoraram. Eles viram, eu sei que viram, mas ninguém falou por mim. Depois disso, meus pais nunca mais me deixaram voltar pra casa.
A-Chu ouviu tudo com o coração apertado, o rosto tenso de tristeza. Baili Yuan, no entanto, contava tudo com uma calma assustadora.
— Só fui entender depois… A Segunda Irmã é filha deles, mas eu não sou. Eu sou um espírito maligno, e espíritos malignos não têm irmãos. Por isso ninguém quis testemunhar por mim. Na verdade, meus pais deviam ter me matado. Se não gostavam de mim, deviam ter me matado logo. Por que me deixar viva? — Ela levantou o rosto e, inesperadamente, sorriu. — A-Chu-jiejie, você concorda?
— Bah, bah! Que bobagem é essa que você tá dizendo! — A-Chu a puxou para um abraço forte. — Eles é que estavam errados, não foi culpa sua! Seus irmãos eram só crianças, até vai, mas que tipo de pais fazem uma coisa dessas?! Nossa A-Yuan é maravilhosa, linda, tem um coração bom, sabe até pegar raposa e fazer bolinho de arroz! A-Yuan, faz uns bolinhos pra mim?
Baili Yuan se sentia sufocada pelo abraço apertado, com o cheiro de pó de arroz da roupa de A-Chu invadindo suas narinas. Tentou se soltar, mas A-Chu não deixou. Sem escolha, acabou murmurando um “sim”. A-Chu sorriu, a soltou e cutucou seu nariz, perguntando:
— E quanto a você e o Xiahou? Ele não é seu irmão de sangue, né?
Baili Yuan balançou a cabeça.
— Não. Eu o encontrei na neve. A mãe dele o rejeitou quando ele nasceu, e o pai o tratava como escravo, mandando nele o tempo todo. Ele é igual a mim… por isso reconheci ele como meu gege.
A-Chu tocou de leve sua bochecha. O rosto pequeno, branco como porcelana, parecia que podia se quebrar com um aperto. A-Chu sorriu, e seus olhos brilharam com uma luz muito suave.
— Na verdade, eu também não tenho família. Quando eu era bem pequena, meu pai ofendeu o portador do selo do Ministério dos Ritos na época, Wei De. Aí nossa casa foi saqueada pelo Depósito Oriental. Eu nem lembro como meus pais eram. Só lembro daqueles homens do Depósito com rostos ferozes. A-Yuan, se você não se importar… pode me reconhecer como sua jiejie.
Baili Yuan não respondeu de imediato e apenas murmurou:
— Mas eu sou uma pessoa ruim. Você não vai gostar de mim.
A-Chu deu uma risadinha e bateu palmas de leve:
— Que coincidência! Eu também sou!
Baili Yuan ficou surpresa.
— Quando eu tinha a sua idade, entrava em buraco de cachorro das casas alheias e subia nas árvores pra roubar jujubas — disse A-Chu, rindo. — E aí, irmãzinha má, você tem coragem de reconhecer essa irmãzona má como sua jiejie?
Baili Yuan ficou em silêncio por um longo tempo. A-Chu começou a se sentir sem graça. De repente, pensou que talvez tivesse exagerado. A-Yuan vestia-se como uma moça rica, devia ser de família importante. Como poderia aceitar uma prostituta sem liberdade como irmã? Mas ela era assim mesmo — dizia o que pensava. Sua mãe a repreendera muitas vezes por isso, mas ela nunca conseguia mudar. Mexeu nos próprios dedos, desconcertada, e tentou consertar:
— Ah, é… era só uma brincadeira…
— Jiejie — disse Baili Yuan de repente.
A-Chu ficou paralisada.
— Jiejie… — Baili Yuan se deita, adormecendo nos braços dela. — Você disse que eu podia te reconhecer como irmã, não foi? Pois agora eu concordo. Você vai ser minha jiejie de agora em diante.
A-Chu sente como se tivesse levado um soco no coração. As lágrimas escorrem por seu rosto. Ela as enxuga e responde com um “mn” bem firme. Depois de um tempo sentada, desce da cama descalça e corre até a porta, reclamando com raiva:
— Mas que droga, o que o Xiahou tá fazendo? Até agora não trouxe a água com açúcar mascavo!
Ao abrir a porta, dá de cara com Chi Yan, que acabava de chegar. Os dois se assustam. A-Chu o puxa para dentro às pressas, e Chi Yan coloca a tigela com água no kang e a leva até Baili Yuan. A-Chu reclama que o braseiro não está quente o suficiente e manda Chi Yan buscar carvão de neve na cozinha. Ele obedece e sai. Logo volta com um cesto e acrescenta mais carvão ao braseiro.
Baili Yuan está sentada na cama, testando a água com açúcar mascavo com um grampo de cabelo de prata — não havia veneno. Ela vira o rosto e observa os dois sentados diante do braseiro, aquecendo-se. A-Chu tagarelava sem parar. Aquela mulher tinha uma boca que não sossegava. Num momento falava sobre como a cafetina estava sendo boazinha com ela ultimamente e não a forçava a atender ninguém, e no seguinte, desabafava que não existia homem bom nesse mundo — embora o Chi Yan até que fosse, pena que era meio idiota.
Chi Yan esquentava a parte da frente da roupa, ainda úmida, e dava para ver que ele não prestava atenção em nenhuma palavra. Baili Yuan terminou a bebida, com a barriga aquecida, deitou-se e se embrulhou no edredom vermelho vivo de A-Chu, os olhos ainda voltados para fora.
A-Chu estava tirando a maquiagem, então agora ela só podia ver Chi Yan.
O rosto dele havia sido modificado com maquiagem, mas os olhos e as sobrancelhas continuavam os mesmos. Eram muito marcantes, mas seu corpo tinha um ar de tolice e ele sempre parecia obediente, como se qualquer um pudesse pisar nele. Assim, toda a crueldade nos olhos sumia, restando apenas uma serenidade fria e distante.
Elas, na verdade, já haviam se encontrado há muito tempo.
Quando ela ainda era apenas uma garotinha comum, desejando todos os dias que o Ano Novo chegasse logo para poder voltar para casa, ela o viu naquela casa enorme. Naquela época, dormia num quarto sem braseiro, enquanto as criadas e velhas da casa jogavam madiao e riam embriagadas no cômodo ao lado. Ela se encolhia, tremendo sob os gritos bêbados e palavrões que atravessavam as paredes finas. Lembrava que também estava enrolada num edredom de algodão, como agora — mas aquele edredom era rígido, frio como ferro, e por mais que se apertasse nele, nenhum calor saía. Restava apenas abraçar os próprios joelhos, contar carneirinhos e torcer para dormir logo; só dormindo, o frio desapareceria.
Foi nesse estado meio dormente que ouviu o som de um xun, lento e suave como o vento no céu noturno. Ela despertou na hora, mas a música continuou pairando no ar, e ela não conseguiu mais dormir. Ficou muito tempo olhando o teto escuro do quarto até decidir se levantar, com roupas finas e pés descalços. Primeiro, deitou-se no chão para ouvir se havia algum barulho vindo do outro quarto — tinha medo de que as velhas bêbadas entrassem de repente. Depois, vestiu um casaco forrado, subiu num banco, abriu a janela e pulou para fora.
O som do xun flutuava no céu silencioso, frio e solitário como os flocos de neve do Norte. Ela seguia aquela melodia com os pés gelados, sem se importar. No luar, os corredores serpenteavam à frente, brancos como prata. Cada passo sobre o chão duro parecia ser guiado pelo som do xun, como se ele a levasse para um mundo de fantasmas.
Ela o encontrou, finalmente, em um jardim.
Era um rapaz, entre a juventude e o fim da adolescência. Usava uma capa branco-acinzentada, mas ela não sabia se era essa a cor original ou se tinha desbotado com o tempo. Ele estava sentado à beira do lago, tocando o xun, e a luz da lua descia sobre seus ombros. Era como um fantasma vindo com o luar, e parecia que, ao amanhecer, ele se evaporaria junto com ele.
Ela se escondeu atrás de uma coluna, agachada, esfregando as mãos para se aquecer, ouvindo. Achava que talvez fosse um sonho, então não ousava se mover, nem dizer nada, com medo de que, ao fazer barulho, o fantasma sumisse. O som etéreo do xun era como luar desolado, espalhando-se pelo jardim esverdeado e branco. Envolveu todo o seu corpo. Ela própria se tornou uma sombra verde-clara na luz da lua, um bolinho encolhido, como um pequeno animalzinho. E ouviu. Ouviu com todo o coração.
Aquele som gelado do xun, junto com os pensamentos dela, viraram pequenas efêmeras que voavam muito alto, muito longe.
E, de repente, ela estava chorando.
As lágrimas escorriam silenciosas pelas bochechas, pingando sobre o dorso de suas mãos frias.
Pensou: Encontrei alguém igual a mim. Alguém tão solitário quanto eu.
Notas do tradutor:
[1]: As mulheres do prostíbulo Honglou: Bordel da Torre vermelha