Capítulo 01
❖ Capítulo 01 – Cross the yellow line
A consulta continuou por mais 20 minutos depois disso. A Dra. Bell era alguém com quem se conversava com facilidade. Aquela forma de diálogo, onde as perguntas se sucediam naturalmente, era uma experiência inédita para Alex com qualquer pessoa que não fosse Nathan. De repente, Alex se lembrou de que Nathan sempre tentava entender os “porquês”. Ele teve um lampejo de que o jeito de Nathan — que às vezes parecia questioná-lo de forma incisiva, quase como um interrogatório — talvez fosse, na verdade, a maneira dele tentar compreendê-lo.
O fato de ter desabafado não mudou as coisas de imediato. No entanto, sua mente ficou um pouco mais clara. Ele não conseguiria fazer algo agora, mas, assim que organizasse seus pensamentos, queria falar com Nathan mais uma vez. Se não fosse possível pessoalmente, sentiu que tinha coisas que queria dizer nem que fosse pelo método antigo de escrever uma carta.
Ao cair da noite, a chuva começou a cair novamente. Ele viu pessoas, já exaustas de tanta chuva, caminhando pelas ruas sem sequer usar guarda-chuvas. Era uma cena muito comum em Londres. Misturando-se a elas, Alex retornou à sede. Lá dentro, outros membros da equipe de investigação seguiam com seus respectivos casos atribuídos. Sua equipe não estava à vista.
Foi então que o telefone tocou. Havia algumas chamadas perdidas na tela. No identificador de chamadas, surgiu o nome Anna Lionel.
— Veterano, temos um problema sério!
— O que aconteceu?
A voz de Anna parecia muito assustada. Ele pôde ouvir um “merda” abafado, como um xingamento escapando.
— Amy Wynings desapareceu. Disseram que ela escapou enquanto um dos membros da equipe saiu para comprar mantimentos. E foi pela janela do segundo andar!
Alex visualizou a estrutura da casa. O quintal dos fundos era de terra com grama seca e não era tão alto. Era uma situação possível.
— Localizaram o paradeiro dela?
Alex saiu rapidamente da sede de investigação e desceu para o local onde se registrava o uso de veículos temporários.
— Receberam uma ligação dizendo que a mãe da Wynings havia falecido. Parece que ela não conseguiu se acalmar após ouvir a Clara ao telefone e escapou nesse intervalo. Isso aconteceu há duas horas. Como ela levou a carteira, rastreamos o histórico do cartão e ela comprou uma passagem de trem para Londres. Partiu às 15:30, com chegada em Paddington.
Após registrar a retirada do veículo, Alex pegou as chaves e desceu ao subsolo. Ao verificar o relógio de pulso, eram 17:10. Ele entrou em um Ford preto descaracterizado e deu a partida. De Slough até Paddington leva-se 40 minutos. Já fazia um bom tempo que ela deveria ter chegado.
— Ela deve ter chegado e saído faz tempo. Enviou reforço para a casa da família da Wynings?
— Sim. Disseram que ela ainda não apareceu em casa. A casa fica na região de Clapham Junction. Pelo tempo, ela já deveria ter chegado, mas o fato de não ter aparecido…
— E o Matthew?
— Ele está verificando as imagens do circuito interno na estação de trem. Eu e o sargento estamos na casa de um amigo da Wynings que acabou de ligar. Ela disse que foi ameaçada por um homem. Na verdade, a mãe da Wynings está perfeitamente bem. Ela disse que o rosto dele não estava visível por causa de um capuz, mas que ele era alto. Provavelmente é Patrick Shore. Felizmente, o amigo da Wynings lembrou o número da placa do carro e estamos rastreando agora.
— O sargento deve ter pedido reforços adicionais. Eu vou para a casa da Wynings.
— Cuidado, veterano!
Enquanto dirigia em direção a Clapham Junction, Alex ligou para Matthew. Após alguns toques pelo alto-falante Bluetooth, Matthew atendeu.
— Alex, recebeu o aviso?
— Sim. Verificou as imagens?
— Verifiquei. Não é nada bom. Uma pessoa parecida com o suspeito foi captada pela câmera. Não dá para ver o rosto, mas conseguimos o vídeo de uma pessoa de terno seguindo a Wynings. Parece que ele a seguiu quando ela pegou um táxi fora da estação.
— Merda. Foi uma isca. E a placa do táxi?
— Não consegui ver o número inteiro, mas entrei em contato com a empresa de táxi para consultar. Ah, retornaram. Espera.
Após apertar o botão de espera, Alex aumentou um pouco mais a velocidade. Ligando a sirene, ele cortou pelo acostamento e seguiu o mais rápido possível para Clapham Junction. O fato de tentarem se aproximar novamente de Amy Wynings agora, um mês após tê-la escondido, significava que ela era um elemento de risco para eles. Por que logo agora? Por quê?
Alex pensou no que havia mudado. Havia uma coisa. Sarah Oates. Tudo estourou depois que ele ouviu falar de Sarah Oates por Amy Wynings e começou a investigar sobre ela.
Não havia vestígios de que a própria Amy Wynings tivesse recebido doses de Perrin, e como ela não estava envolvida nos experimentos, não seria esse tipo de ocultação. E se Amy tivesse alguma informação que nem ela mesma sabia? E se isso estivesse relacionado a Sarah Oates, que trabalhava na empresa farmacêutica?
— Alex, está ouvindo? Conseguimos contato com o motorista que levou a Amy Wynings. Ele disse que ela desceu na região de Whitechapel há 10 minutos.
Alex observou a estrada. O carro estava prestes a passar pela ponte Lambeth Bridge. Whitechapel era na direção oposta. Ele teria que atravessar a ponte e dar a volta por cima. Ele conseguiria chegar mais rápido do que Matthew, que teria que partir de Paddington. Ao ouvir o nome da região, Whitechapel, algo lhe veio à mente. O Hospital Real ficava lá. O lugar onde Nathan trabalhava.
— Ela está tentando ir ao hospital. Porque lá existe alguém em quem ela sente que pode confiar.
No momento em que disse as palavras “alguém em quem pode confiar”, seu coração doeu.
— Ela foi ao hospital para ver o Nathan. Como estou mais perto, vou para lá primeiro. Nos encontramos lá.
— Entendido. Vou solicitar viaturas de apoio para a área imediatamente. Eu também irei o mais rápido possível.
— Temos que pegá-lo hoje, sem falta.
— Cuidado, Alex. É sério.
— Vejo você daqui a pouco. Cuidado você também.
Ele dirigiu o carro mais rápido do que o habitual. Graças aos carros que abriram passagem, Alex entrou no hospital em cerca de 20 minutos, antes dos 30 minutos que levaria em média. Uma equipe fardada que patrulhava as proximidades já estava reunida.
Correndo até a recepção, Alex mostrou a foto de Amy e perguntou primeiro:
— Você viu esta mulher?
— Não.
— Por favor, olhe mais uma vez. Se por acaso a vir, por favor, ligue para este número imediatamente.
Após mostrar seu distintivo e entregar o cartão, Alex deu instruções aos policiais. Ele enviou a foto de Amy e o retrato falado do suspeito para todos, ordenando que fizessem uma busca minuciosa em todo o perímetro do hospital. Pediu a um membro da equipe técnica para verificar as câmeras de segurança do hospital, caso algo acontecesse. Voltando à recepção, Alex fez mais uma pergunta.
— O Dr. Nathan White veio hoje?
— Não, ele está de folga até hoje.
Vir para um hospital com muita gente foi a escolha certa. Se ela tivesse escolhido propositalmente um lugar com multidões, não haveria razão para se esconder em outra parte do hospital. Portanto, Amy não havia vindo para cá.
Se ela mudou o destino para cá em vez de ir direto para casa, havia a possibilidade de que Amy também tivesse percebido que estava sendo perseguida. Se ela escolheu este lugar mesmo ouvindo que sua mãe havia falecido, era certo. No entanto, ela não apareceu no hospital.
Então, era uma de duas opções: ou ela foi capturada no caminho, ou mudou o destino no meio do trajeto.
A possibilidade de Amy ter sido capturada também não podia ser ignorada. Se o suspeito de terno que perseguia Amy fosse o responsável por deixar as vítimas naquele estado, algo terrível poderia estar acontecendo agora. E se, por acaso, Amy estivesse fugindo, era possível que ela tivesse ido para Shoreditch High Street, onde ficava a casa de Nathan.
Dizendo para avisarem pelo rádio se ouvissem qualquer novidade, Alex entrou no carro. Se Amy aparecesse em alguma delegacia local, ele seria avisado imediatamente.
Se, mesmo ouvindo que algo aconteceu com sua mãe, ela não confiou na polícia e optou por fugir, Amy parecia ser do tipo que confiava mais na pessoa de quem dependia do que na polícia. Além disso, Nathan tinha um histórico de tê-la salvado. Alex decidiu seguir sua intuição.
De Whitechapel até Shoreditch era uma distância que não levava 20 minutos a pé. Após pedir que uma viatura o seguisse para dar apoio, Alex desceu do carro quando começaram a surgir becos estreitos onde a entrada de veículos era difícil. Embora a região tivesse se tornado relativamente deserta após o caso dos testadores beta, Shoreditch, onde Brick Lane ficava perto, tinha um movimento moderado de pessoas. Seria difícil cometer um crime em um lugar assim de imediato.
— John, Leonard, espalhem-se pela Buxton Street e Hanbury Street, respectivamente. Se acharem que é perigoso, peçam apoio imediatamente, não tentem seguir sozinhos se for arriscado. Eu vou subir pela Cheshire Street.
— Sim, senhor.
Após dar as ordens aos policiais que o acompanhavam, Alex começou a correr. Alex era quem corria melhor dentro do departamento de polícia. Ele conseguia reduzir o tempo pela metade em comparação aos outros. Mesmo que estivesse um pouco mais lento por estar usando sapatos sociais, ele ainda era rápido.
Movendo suas longas pernas com passadas largas, Alex aumentava gradualmente a velocidade. Ele mostrava a foto de Amy para cada pessoa que cruzava seu caminho. Entre elas, por sorte, encontrou três estudantes universitários que achavam ter visto alguém de costas parecido com Amy. Disseram que se lembravam porque era estranho vê-la correndo ansiosa, vestida como se tivesse saído às pressas.
“Por favor, por favor, esteja viva.”
O suor encharcou suas costas em um instante. Como nos tempos em que jogava futebol, ele correu com toda a sua força. Becos surgiam e desapareciam ao seu lado, um após o outro, em flashes. Vendo-o correr em uma velocidade absurda, as pessoas olhavam assustadas e abriam caminho.
No momento em que entrou na Chilton Street, que não era tão longe da casa de Nathan, Alex ouviu um grito. O tom agudo que subiu era familiar.
— Saia de perto!
Ele apoiou a mão na parede para mudar de direção. O som vinha de apenas um quarteirão atrás. Ele dobrou a esquina. Não havia ninguém na área residencial pouco movimentada. Lá, havia uma mulher cujos cabelos presos no alto estavam sendo agarrados e um homem com um porte físico que a dominava completamente.
Era o homem de terno com o rosto quase idêntico ao do retrato falado. O porte físico era muito melhor do que parecia na tela de baixa qualidade. A altura era parecida com a de Alex, mas o corpo era muito robusto. Aquele tipo de físico era, muitas vezes, mais ameaçador do que um corpo apenas musculoso.
— Polícia, pare!
Ao gritar alto, o homem virou o rosto para a direção de Alex. Ele viu um rosto contorcido de forma feroz. Aproveitando aquele breve intervalo, Amy se debateu. Então, levantou o joelho e atingiu com força a região entre as pernas do homem.
— Porra!
Um xingamento baixo foi ouvido e o homem soltou o cabelo dela. Gritando, Amy começou a correr na direção de Alex.
Apesar de ter sido um golpe que certamente foi doloroso, o homem recobrou os sentidos em poucos segundos. Ele seguiu imediatamente atrás de Amy, que corria. Como seu rosto havia sido completamente exposto, ele parecia ter decidido que deveria acabar com aquilo ali mesmo. O homem tirou uma faca da cintura. A lâmina, que parecia ser uma faca militar, estava assustadoramente afiada.
Em um curtíssimo espaço de tempo, Alex tomou uma decisão. Não havia tempo para tirar a arma de choque, montar o cartucho e mirar os dardos eletrônicos. A distância entre Amy e o suspeito era muito curta. Também não havia garantia de que conseguiria acertar o suspeito naquele instante fugaz com o dardo, que só podia ser usado uma vez.
Tendo chegado a uma conclusão, Alex impulsionou-se contra o chão. A velocidade do homem era muito superior à de Amy. Antes que ela pudesse alcançá-lo, no momento em que os longos cabelos esvoaçantes dela estavam prestes a ser agarrados pela mão do homem…
Alex lançou-se contra o homem, empurrando o chão como se desse um salto. Ele atingiu o homem com força com o ombro, como se estivesse disputando uma jogada carregando todo o peso do corpo.
Um impacto pesado atingiu seu ombro e ambos caíram no chão. Eles rolaram uma vez. Mesmo durante a luta corporal, o homem não soltou a faca. A força dele era extraordinária.
Pelo movimento e pelo equipamento, havia uma alta probabilidade de ele ser um ex-militar. Se Alex relaxasse um pouco, certamente seria dominado, então não havia brecha para pegar a arma de choque. Após rolarem algumas vezes, eles caíram na estrada.
Alex, que subiu por cima, atingiu o pulso do homem com força usando o cotovelo. Com um “seu desgraçado!”, ele deixou a faca cair. A faca ricocheteou no chão. Atrás, ele ouviu a voz soluçante de Amy. Continuando a pressionar o pulso do homem, Alex gritou para Amy:
— Amy, fuja! O lugar para onde estava indo é por aqui perto, não é? Vá depressa e ligue para a polícia imediatamente!
— M-m-mas…!
— Você ficar aqui não ajuda em nada!
Ao gritar de forma feroz, Amy assentiu chorando. Enxugando as lágrimas com as mãos trêmulas, ela contornou os dois e começou a correr. Em uma situação onde a maioria das pessoas desabaria de medo, ela estava percebendo a situação rapidamente.
— Você está, porra, muito, folgado!
O homem não perdeu a oportunidade enquanto Alex falava com Amy. No breve momento em que sua força vacilou, ele empurrou Alex para o lado oposto. Batendo a nuca no chão de cimento, Alex foi estrangulado. Ele engasgou, perdendo o fôlego. O sangue subiu rapidamente para o rosto e a pressão intraocular aumentou. Alex levantou os braços e empurrou o rosto do homem. No momento em que a força que apertava seu pescoço aumentou, ele pressionou as órbitas oculares do homem com os polegares.
— Aaagh!
Com um gemido de dor, o homem recuou o corpo por um momento. As mãos que apertavam seu pescoço se soltaram. O oxigênio entrou bruscamente nos pulmões, provocando uma crise de tosse. Tossindo, ele empurrou o chão com as pernas para se afastar do homem. As palmas das mãos que apoiavam no chão já estavam todas esfoladas e cheias de feridas.
— O apoio já está espalhado pelos arredores. Você não vai conseguir fugir.
Ao sussurrar com a voz rouca, o homem abriu um dos olhos semicerrados. Ele viu um sorriso sinistro formar-se no canto da boca dele. No momento em que viu aquilo, um calafrio percorreu sua espinha. O olhar de Alex e o do homem dirigiram-se simultaneamente para a faca militar caída logo ao lado. Droga! Com os olhos arregalados, Alex estendeu a mão para a faca.
No entanto, o homem foi mais rápido. Ele pressionou Alex com o corpo e agarrou a faca. Ouviu-se o som do metal raspando no chão de pedra e o punho do homem atingiu o rosto de Alex em cheio. Sua nuca bateu com força no chão.
Ele sentiu o sangue jorrar dentro do nariz. Um impacto entorpecedor subiu, seguido por um gosto metálico. Instintivamente, ele levantou as mãos e segurou o braço do homem. A lâmina, que visava atingir sua garganta, descia cada vez mais. Ele tentou impedi-lo com todas as suas forças, mas foi sendo vencido aos poucos. Quando conseguiu empurrar o braço passando pelo coração até o abdômen, sua força acabou. Isso porque o colete à prova de facadas que ele usava durante o serviço cobria até aquela área.
Foi exatamente nesse momento que a lâmina perfurou Alex.
*Puk.*
Com um som abafado, o metal frio rasgou a carne. Ele sentiu como se estivesse sendo esfaqueado de baixo para cima. Alex olhou para baixo. Não conseguia ver a lâmina. Apenas a mão imensa que empurrava a faca brutalmente entrou em sua visão.
A faca cravou-se na parte inferior do abdômen, onde o colete não cobria. Naquele instante, ele não sentiu nada. Alex, cambaleando, segurou o pulso do homem para impedir que ele enfiasse a faca ainda mais fundo nas entranhas. No entanto, ela deve ter sido cravada realmente fundo, pois apenas alguns segundos depois, uma sensação intensa de como se seu abdômen estivesse se contraindo por dentro subiu com força.
“Ah, merda.”
Começando pelos lábios, seu corpo inteiro tremia violentamente. Um suspiro pesado foi expelido. Nem sequer um gemido de dor conseguia sair. Alex aguentou como pôde a sensação de que a força estava deixando seu corpo em um instante. Ele tentou se lembrar do que havia aprendido no treinamento, mas hoje era a primeira vez que era esfaqueado de verdade.
— Matar um lixo como você não é nada antes de ir embora.
O homem sussurrou sem tirar o sorriso sinistro do rosto. Aproximando o corpo, ele enterrou a faca ainda mais fundo. O cheiro metálico de sangue foi sentido de algum lugar. A força deixou as mãos que seguravam o pulso do homem. O homem se levantou. Segurando o cabo da faca, ele sorriu ao encontrar o olhar de Alex.
— Adeus.
Lá dentro, a lâmina foi levemente torcida. O homem retirou a faca que havia revirado o abdômen. Os dedos que se moviam trêmulos para impedir aquilo de cair suavemente. Alex, com os olhos abertos, gravou o rosto do homem o máximo que pôde.
Os pensamentos voltavam lentamente para sua mente que havia ficado branca. Até a casa de Nathan, era uma distância que o homem ainda poderia alcançar, não importa o quão rápido Amy corresse. Mesmo que o apoio chegasse, o homem teria tempo para cometer o ato.
“Não posso deixá-lo ir assim.”
Esse pensamento preencheu sua mente. Como ele havia retirado a faca, uma estancagem adequada seria impossível. Enquanto isso, o homem se levantou. Após limpar o sangue da lâmina nas roupas de Alex, que estava caído, ele guardou a faca. O sapato dele deu um chute leve no rosto de Alex e ele ficou parado à cabeceira, olhando para baixo.
— Isso é mais divertido do que simplesmente matar.
O salto do sapato pressionou sua bochecha com mais força do que antes. Emitindo sons fracos de tosse, Alex baixou a mão e pressionou a barriga. A menos que estivesse em uma operação especial, ele não podia carregar uma arma de fogo. A única arma que possuía era a de choque.
Ele não conseguia saber qual órgão interno a lâmina havia perfurado. Uma dor ardente começou a se espalhar gradualmente, de modo que era difícil chegar a qualquer conclusão além de que doía absurdamente. Com a mão trêmula, Alex tirou a arma de choque da cintura. O homem estava prestes a se mover rapidamente na direção em que Amy havia corrido, deixando-o para trás.
O mais sensato seria não se mexer. Se ele se movesse um pouco que fosse, a hemorragia seria incontrolável. Ele deveria ficar parado estancando o sangue conforme aprendeu. Mas, se fizesse isso, Amy poderia morrer. Proteger os cidadãos era o óbvio, e Amy era…
“Porque ele disse que Amy é alguém importante para o Nathan…”
Não podia deixá-lo ir. Ele se levantou usando toda a força de sua alma nas pernas que haviam perdido o vigor. Uma sensação de que morreria ali mesmo o invadiu. Alex o seguiu cambaleando, como se fosse cair. Ao ouvir o som de passos atrás de si, o homem parou e virou o corpo.
— Ora.
Como se o elogiasse, o homem sorriu e tirou a faca. No entanto, antes que ele pudesse brandir a lâmina, Alex desabou primeiro. Ele simplesmente não conseguia mais colocar força nas pernas. O suor frio escorria pela testa e molhava seus olhos.
Sentando-se diante de Alex, que caiu a seus pés, o homem tirou a faca. Então, ele agarrou Alex pelos cabelos. Com o rosto pálido devido à perda de sangue, Alex levantou as pálpebras. A força continuava a esvair-se.
— Pela sua persistência, vou te matar de uma vez.
O homem não hesitou. Assim que terminou de falar, a lâmina seguiu em direção ao pescoço. Com a força muscular cedendo, Alex fez uma expressão facial estranha e deu um solavanco com os ombros. No momento em que a ponta da lâmina estava prestes a perfurar a pele, Alex se moveu. Mirando abaixo do tornozelo levemente exposto do homem, ele apertou o botão da arma de choque.
O som das faíscas ecoou, *papatat*. Segurando com força o cabo amarelo onde estava escrito o número X26, Alex não tirou o dedo do botão.
— Aaagh! — Com um gemido curto, o corpo do homem desabou. O homem se contorceu, tremendo. Segurando o tornozelo dele, Alex respirava com dificuldade. Ele sentia vividamente o sangue deixando seu corpo. Uma tontura subiu.
Mesmo sentindo que a força estava desaparecendo gradualmente, Alex rastejou pelo chão às apalpadelas. Alguém com um porte físico robusto tinha a possibilidade de se recuperar do choque.
Após tirar as algemas, Alex segurou o pulso do homem. Vendo-o se contorcer por reflexo, Alex abriu a boca.
— Você está preso em flagrante pelo sequestro de Amy Wynings. Você tem o direito de permanecer em silêncio e…
Ele sentiu o sangue que manchava a camisa branca encharcar o tecido e vazar para fora. Seu corpo ficou tão frio que ele tremia. Ao sentir o homem caído se mexer, Alex soltou um longo suspiro e algemou o pulso esquerdo do suspeito.
— Qualquer declaração feita sem exercer o seu direito ao silêncio poderá ser usada como prova de culpa no tribunal…
…e pode.
As últimas palavras foram fracas como uma luz se apagando. Conseguindo apenas erguer o tronco cambaleante, ele prendeu a outra parte da algema em sua própria mão.
Não restava mais força. Sentiu um calafrio. Ele caiu lentamente no chão. Ele precisava chamar pelo rádio e estancar o ferimento, mas não tinha mais energia para mover as mãos.
Prevendo que o homem pudesse acordar nesse meio tempo, Alex deu mais um choque na perna dele com o Taser. Sentiu os músculos dele reagirem com convulsões. Pensamentos sobre abuso de autoridade ou algo do tipo rondaram sua mente sem sentido e desapareceram. Que se dane. Minha barriga foi perfurada.
O corpo inteiro ficou sem forças. Alex deitou-se ao lado do homem, olhando fixamente para o céu escuro. Ele pressionou com força a palma da mão que conseguiu levar, com esforço, para cima do abdômen. As pequenas gotas de chuva que caíam incessantemente começaram a cair sobre seu rosto. O sangue que borbulhava, molhando seus dedos e escapando, parecia quase quente em comparação.
Havia uma razão pela qual ele quis se tornar detetive.
Ele pensou que, se se tornasse a pessoa que Nathan queria ser, talvez ele pudesse gostar um pouco mais dele; pensou que talvez ajudasse a encontrar seu pai; e queria ajudar as pessoas. Caso Nathan estivesse em apuros novamente, ele poderia ajudá-lo e, mesmo que não estivesse… ele queria ajudar alguém que estivesse na mesma situação que ele e Nathan.
No entanto, às vezes, quando descia às profundezas de sua consciência, Alex pensava que talvez houvesse mais um motivo oculto.
Nunca pensou que fosse tão infeliz a ponto de ter que morrer.
Mas também não pensava que fosse feliz o suficiente para não ter que morrer.
“Eu, por acaso, não queria morrer desta forma?”
Diante do que poderia ser o último momento de sua vida, Alex ponderou se o último motivo pelo qual escolheu ser detetive não seria por este exato momento. Suas pálpebras ficaram pesadas. Sua consciência, como areia na mão, escorreu suavemente e submergiu na escuridão profunda.
“Você queria morrer, Alex?”
A voz em sua mente perguntou. Alex observou calmamente os dias do passado que passavam diante de seus olhos agora obscurecidos. Houve momentos em que ele foi feliz, certamente. Na infância, o piquenique em família onde segurava a mão de seu pai, e todos os pequenos dias do passado em que conheceu Nathan… os pequenos momentos na delegacia que Matthew o fez rir…
A resposta não veio.
Seus lábios, que se entreabriram como se fossem dizer algo, esfriaram e ficaram brancos. Seus olhos se fecharam.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki, Othello&Belladonna