Capítulo 80
↫─Matched with a Disaster Grade Esper ↫⚝↬ 80
No deserto desolado cheio de nada além de areia e rochas, o som alto das pás do helicóptero cortava o ar. Hexion pisou na terra que parecia ao mesmo tempo familiar e estrangeira. Não muito longe, ele podia ver penhascos imponentes que se estendiam até o céu.
Abaixo daqueles penhascos ficava a instalação onde ele uma vez confinou Zero Nine à beira da destruição. Olhando para a entrada, Hexion vestia um terno da mesma cor que trajava naquela época.
— Você está dizendo que Zero Nine foi para lá?
Elijah, que o contatara após um longo silêncio, falou com uma voz tingida pela privação de sono. Desde que Zero Nine desaparecera, parecia que ele não tivera um momento sequer para recuperar o fôlego.
— Enviei as informações de acesso à base que você solicitou para o seu relógio, mas tem certeza de que quer ir sozinho?
— É melhor eu ir sozinho.
O fato de Zero Nine ter deixado de lado seu relógio e desligado deliberadamente o smartphone que Hexion lhe dera era revelador. Zero Nine nunca quis que o centro o encontrasse. Ele queria que Hexion, seu guia, fosse procurá-lo.
Hexion ajustou o colarinho de seu paletó. Fazia tempo que ele não o via. Embora não esperasse ou tivesse esperanças de se encontrarem novamente em um restaurante requintado, ele também não antecipara que o local da reunião seria assim.
Suas desventuras sempre tinham um jeito de despertar seu interesse. O que eles conversariam ou que situação se desenrolaria lá embaixo era desconhecido. Era difícil dizer se era antecipação ou tensão que deixava sua boca seca. Com os lábios levemente rachados pelo ar árido, Hexion sorriu e então começou a caminhar em direção à entrada.
Buzz.
Graças à senha transferida para seu relógio por Elijah, Hexion desceu em segurança pelo elevador. Se o lugar ainda era mantido ou simplesmente desprovido de traços humanos, não estava claro.
Dentro da base subterrânea em que ele não pisava há eras, não havia calor. A luz fraca iluminando as sombras fazia seus olhos se estreitarem em vez de se aclimatarem. Hexion ouvia o som de seus passos ecoando nas paredes enquanto se movia.
Não houve necessidade de tentativa e erro. Era óbvio onde Zero Nine estaria, mesmo sem olhar. Movendo-se conforme Elijah o guiara naquele dia, Hexion vagou por um corredor comum até avistar uma porta ao longe. Uma gaiola frágil destinada a confinar uma calamidade capaz de destruir metade do mundo.
Beep.
Quando Hexion parou diante da porta, um sensor disparou e a porta pesada deslizou silenciosamente para o lado. Lá dentro, ele viu mesas e máquinas espalhadas e, no centro, uma cama de hospital solitária. O que Hexion buscava estava sentado naquela cama branca, lançando um olhar vago em sua direção.
— Esperou muito?
— Claro que não. Eu esperava que você notasse assim que eu ligasse, embora não achasse que viria tão rápido.
Embora sua voz estivesse calma, a condição de Zero Nine era evidentemente ruim. Suor frio encharcava suas bochechas pálidas, e o branco de seus olhos, manchado de vermelho com veias azuis ameaçando estourar, traía seu estado debilitado. Ao vê-lo assim, Hexion aproximou-se sem dizer uma palavra.
Um passo. Outro. O som continuou antes de parar abruptamente. No entanto, isso não foi por vontade de Hexion. Sua testa se franziu ao perceber que havia uma barreira invisível entre ele e Zero Nine, deixando cerca de cinco passos entre eles. Zero Nine escolhera não fazer contato com Hexion.
— Você não pretende continuar com esse jogo de gato e rato, pretende?
Com a observação de Hexion, Zero Nine riu, os cantos dos olhos suados se franzindo agradavelmente, apesar de seu tumulto interno estar evidente.
— Nunca foi um jogo de gato e rato, para começar.
Zero Nine inclinou a cabeça, seu cabelo castanho encharcado de suor bagunçado.
— Estou te dizendo, eu nunca fiz questão de jogar esse tipo de jogo.
— Então, o que você queria comigo?
Incapaz de combater a dor de cabeça crescente, Zero Nine levou a mão à cabeça. O olhar de Hexion deslocou-se para aquela mão.
— …Quando nos conhecemos, eu te provoquei por medo de não querer ser influenciado.
Afinal, você veio aqui em um helicóptero. Isso me disse que eu estava lidando com alguém completamente fora dos parâmetros normais, e eu desisti. — Zero Nine murmurou. Mesmo sozinho naquele imenso e estéril caixote de aço, o murmúrio baixo chegou claramente a Hexion. Ele respondeu.
— Zero Nine, eu não sou do tipo acostumado a deixar o que possuo em paz.
— Eu sei. É por isso que você se colocou em minhas mãos. Para que eu pudesse fazer uso de você tanto quanto você queria me usar.
— De fato.
Zero Nine parou brevemente, movendo os lábios sem emitir som.
— Muita gente tentou me controlar, mas ninguém nunca se entregou a mim, então… achei que aquilo bastava.
Zero Nine olhou para Hexion.
— Ponderei sozinho enquanto viajava.
— …
Ouvindo o comentário sereno de Zero Nine, Hexion franziu sutilmente as sobrancelhas. Seu estado parecia piorar a cada minuto. Raspando a unha do polegar contra a unha de outro dedo, Hexion revelou um sinal atípico de impaciência.
— Quando um guia e um esper têm uma alta taxa de compatibilidade, há uma atração inevitável. Como nossa razão, se preferir. Acho que é por isso que sou atraído por você.
— Zero Nine.
As palavras de Zero Nine saíram arrastadas, como se ele estivesse caindo no sono. Hexion pressionou a mão contra a parede invisível, tentando avançar. No entanto, ele ainda não conseguia prosseguir.
— Eu entendo, então dissipe essa coisa maldita.
— Eu ainda não terminei… De contar minha história.
Zero Nine piscou várias vezes, como se recuperasse o foco.
— Eventualmente, pensei que, se inevitavelmente temos que ser assim, nós poderíamos muito bem, sim… nós poderíamos muito bem cuidar um do outro.
Ele baixou a cabeça e então os leves tremores começaram. Sob seus pés, ou mais precisamente, por toda a enorme estrutura de aço enterrada no subsolo. Hexion reconheceu o que aquelas vibrações sinalizavam. Era o que acontecia quando Zero Nine atingia seu limite — o mesmo de quando se conheceram.
— Mas pensando um pouco mais, Hexion.
Zero Nine ergueu uma mão para tocar os lábios.
— Se eu realmente pensasse daquela forma naquela época, eu provavelmente não teria feito aquilo.
— Zero Nine.
Hexion chamou seu nome com uma intensidade ríspida. A preocupação em sua voz despertou algo dentro de Zero Nine. A única vez desde que o conhecera em que Hexion realmente soara daquela forma. Por fim, Zero Nine ergueu o queixo. Seus olhos lavanda brilhavam de forma perturbadora na penumbra.
— Se eu realmente não estivesse pensando em te usar, eu não teria me aproveitado de sua incoerência naquela época.
Fingindo que era para o bem de todos, raciocinando que, quando ele entrasse em surto, todos estariam em apuros. Embora a pressão tivesse forçado Hexion a esse estado de forma irracional, fora por vontade própria. Mesmo quando outros avançavam, Zero Nine escolhera conscientemente esse caminho. Ao ouvir a voz, Hexion soltou uma risada suave sem perceber.
— Para alguém trancafiado por quase toda a vida devido à ganância humana, um senso de retidão moral não combina com você.
Creak, clank, clunk.
O caixote de aço sob eles, sua prisão, começou a sacudir ainda mais violentamente. As luzes piscavam e era difícil ficar de pé. Hexion tinha certeza de que Zero Nine atingira seu limite. Ele esmurrou a barreira transparente.
Bang!
— A menos que queira morrer aqui sem motivo nenhum, desfaça isso agora!
Zero Nine sorriu.
— Mas conversar com outras pessoas me fez entender um pouco melhor, de alguma forma.
Os lábios de Zero Nine se curvaram em um sorriso. Um sorriso que era completamente inapropriado para a situação. Hexion sentiu um desconforto frio se espalhar por ele. As veias azuis que cobriam a pele de Zero Nine destacavam-se mais nitidamente e suas gengivas sangravam de onde ele cerrara os dentes, tornando-as vermelhas.
Thump, thump, thump!
Tudo tremia como em um grande terremoto. Os equipamentos ao redor caíram e se estilhaçaram. Hexion, parado no chão, foi forçado a cambalear. Ele não caiu, mas baixou-se sobre um joelho, rangendo os dentes.
Ele não sabia dizer o que causava aquela náusea. Era o chão que sacudia ou o fato de que Zero Nine parecia ter desistido? Hexion cerrou o punho. Um desastre por nome, mas um Esper delicado e frágil. Zero Nine.
Ele pensara que poderia controlá-lo. Não seria fácil, mas isso apenas o tornava mais confiante. Coisas fáceis nunca existiram em sua vida. Era por essa razão que Hexion prosperava em situações difíceis. Mas aquilo era algo que nem ele previra.
— Esse pouco de gentileza, tudo pode ser uma encenação.
Hexion só pôde observar enquanto a calamidade que ele tanto assumira estar em seu poder tentava desesperadamente escapar. Sangue escorria de arranhões feitos pelas unhas na parede invisível.
— Não.
Em meio ao caos do chão que tremia, Zero Nine murmurou algo.
— Eu nunca desejei que a gentileza nos prendesse.
Naquele momento, os olhos de Zero Nine tornaram-se escuros, além do vermelho, quase pretos.
— Eu não desejei.
Como uma declaração do fim, o frio em sua voz sussurrou.
Ah, o limite.
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Continua…
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↫─⚝ Tradução, revisão e Raws: Bella Cheng&Belladonna