Capítulo 69
↫─Matched with a Disaster Grade Esper ↫⚝↬ 69
Zero Nine virou-se para o lado, por um momento sem saber que alguém havia falado com ele. Mas ali, na loja de donuts de madrugada, eram apenas ele e o idoso. Percebendo tardiamente que o velho estava de fato se dirigindo a ele, Zero Nine esfregou desajeitadamente a nuca e respondeu com um sorriso tímido.
— Não é minha primeira vez na cidade, mas é minha primeira vez aqui.
— Estou nesta rua há dez anos e nunca te vi antes, então pensei em perguntar.
O velho falou de maneira tranquila. Era curioso como alguém aparentemente sem nada podia parecer tão à vontade. Depois de dar cerca de três mordidas em seu donut, ele bebericou seu café quente. Inconscientemente, Zero Nine o imitou, bebendo seu café agora morno. O homem exalou um hálito quente e, sem precisar ser solicitado, começou a falar.
— As pessoas podem pensar que os sem-teto não fazem nada o dia todo, mas eu tenho minha própria rotina, sabe.
Zero Nine, tendo raramente conversado com alguém que não estivesse conectado ao centro, não sabia como responder, então apenas ouviu, o que acabou sendo exatamente o que o velho queria. Afinal, os mais velhos muitas vezes ansiavam por jovens dispostos a ouvir suas histórias.
— Eu acordo por volta das quatro da manhã. A dois quarteirões daqui, há uma entrada de metrô onde eu durmo.
O velho deu outra mordida no donut, mastigando devagar.
— Por volta das quatro e dez, os varredores chegam com suas vassouras verdes para nos enxotar, nós, os sem-teto. Se você não quiser ser atingido por uma vassoura, tem que se levantar rápido.
Zero Nine mexeu distraidamente em seu copo de papel antes de responder.
— Isso parece cruel.
Na verdade, ele apenas disse isso porque não tinha nada mais apropriado para dizer. No entanto, o velho pareceu satisfeito com sua resposta e sorveu seu café.
— Bem, esse é o trabalho deles. É assim que o mundo gira.
— É mesmo?
Zero Nine olhou fixamente para seu copo de café. Seu rosto, refletido na superfície marrom escura, parecia o de uma criança perdida. O velho esvaziou metade de seu café antes de pousar o copo. Enfiando o último pedaço de donut na boca, ele limpou o açúcar dos dedos.
— Você se mudou para cá?
— Não, não é isso.
— Não é exatamente uma cidade para se viajar, então.
— Não estou aqui de férias. Apenas sou arrastado para lugares como este por alguém que conheço, de vez em quando.
— Para onde foi essa pessoa então, deixando você sozinho?
Zero Nine sorriu, as sobrancelhas franzindo.
— Eu escapei dela.
— Tiveram uma briga, foi?
A pergunta fez Zero Nine pensar por um tempo antes de responder.
— …Eu nem tenho certeza se sou alguém que pode brigar com ela.
Zero Nine inadvertidamente revelou seus verdadeiros sentimentos. Havia um poder misterioso em conversar com um estranho em uma loja desconhecida dentro de uma rua estrangeira. Especialmente porque ele sabia que a outra pessoa era alguém provavelmente sem noção sobre Hexion, e que provavelmente nunca teve laços com nada disso.
Ele soltou uma breve risada diante dos pensamentos que expôs. O velho pareceu ponderar profundamente ao ouvi-los, acariciando sua barba desgrenhada. Finalmente, quando seu café agora frio fora quase esquecido, ele falou novamente.
— Você ficou com raiva?
— Eu explodi, sim.
— Então, você ficou com raiva, mas não pôde realmente ter uma briga com ela, entendo.
O velho estalou a língua.
— Posso não ter ouvido tudo, mas não parece ser um relacionamento particularmente bom.
Zero Nine olhou para ele.
— É mesmo?
— Sim. Você ficou com raiva, mas nenhuma briga real ocorreu. Alguns podem dizer que a outra pessoa tem a mente aberta, mas eu vejo de forma diferente.
Zero Nine não disse nada, esperando que o velho continuasse. O velho organizou seus pensamentos antes de levantar um dedo. Zero Nine focou naquele dedo áspero e calejado.
— As brigas podem parecer ruins a princípio, mas são um daqueles fenômenos naturais nos relacionamentos. Se a outra pessoa nunca revida, geralmente uma de duas coisas está acontecendo.
— Como o quê?
— Ou ela não tem nenhuma expectativa sobre você pela qual valha a pena lutar, ou ela não está disposta a mudar sua própria opinião.
Zero Nine silenciou diante da sabedoria. Interpretando seu silêncio, o velho cantarolou, como alguém procurando uma meia velha em uma gaveta empoeirada.
— No pior dos casos, podem ser as duas coisas.
Zero Nine sorriu amargamente. Parecia que sua situação se encaixava naquele pior cenário. Ele sabia que Hexion o considerava especial à sua própria maneira. No entanto, isso não denotava necessariamente um sentimento genuíno.
Zero Nine percebeu de repente que Hexion não depositava expectativas nele como Zero Nine. Se havia alguma expectativa, era em relação ao desastre, não a ele. Não importaria quem fosse, desde que fosse o desastre. Mais uma vez, sentiu-se preso ao laboratório do qual pensara ter escapado. Embora achasse que havia partido, acabou descobrindo que ainda estava dentro da gaiola chamada Hexion.
— Se for o pior cenário, o que posso fazer? — Zero Nine perguntou a este velho sem-teto que nada tinha. O velho sorveu seu café, apenas metade terminado.
— Você vai embora.
— Ir embora?
— Por que ficar preso a um relacionamento assim?
— …E se eu não puder ir embora?
— Hmm, isso é complicado.
O velho começou a recolher seus pertences ao lado da cadeira.
— Ainda assim, meu conselho como alguém mais velho seria simples.
Com um grunhido, ele içou suas coisas nos ombros e se levantou.
— Mantenha certa distância.
— Isso soa muito como ir embora.
— Semelhante, suponho. Mas veja bem, às vezes o espaço é exatamente o que um relacionamento precisa para prosperar.
— Um relacionamento que é melhor quando vocês se veem menos?
— Precisamente. Agora devo ir remexer em uma lixeira de parque ou duas. Foi bom conversar com você, rapaz.
— Oh, sim.
O velho despediu-se do funcionário da loja de donuts e partiu. A conversa levara tempo suficiente para que as ruas externas estivessem agora mais movimentadas com carros e pessoas. Zero Nine permaneceu sentado, bebericando seu café agora frio, antes de finalmente se levantar. Se até um sem-teto tinha coisas a fazer, parecia tolo de sua parte ficar sentado ociosamente. Depois de limpar a bandeja deixada pelo velho junto com seu próprio copo, ele aproximou-se do balcão.
— Eu pagarei pelo café na próxima vez que estiver aqui.
— Pelo que sei, poucas pessoas dizem isso e voltam, mas você parece genuíno. Vou confiar em você desta vez — o funcionário brincou, e Zero Nine prometeu timidamente voltar antes de sair. A cidade estava fervilhando com os trabalhadores matinais. Zero Nine escaneou os arredores e começou a caminhar sem rumo. Embora o velho tivesse mencionado um parque por perto, ele não sentia vontade particular de retornar ao hotel.
Enquanto passeava pela estrada principal, ele descobriu um beco. Dentro do beco encardido erguiam-se vilas degradadas, e parecia o tipo de lugar onde alguém poderia facilmente se perder. Depois de coçar a cabeça, Zero Nine decidiu sem hesitação aventurar-se por aquele caminho. Sem nenhum plano em mente, continuou pelos becos sinuosos até que um espaço aberto apareceu.
No centro deste lote havia uma velha cesta de basquete. O som rítmico de uma bola de basquete chamou sua atenção. Um grupo de meninos, de cerca de doze anos, passava a bola ativamente entre si. Embora fossem três, o número ímpar não os impedia de pegar e driblar a bola com entusiasmo. Desconhecendo as regras do basquete, Zero Nine instalou-se em um banco próximo, observando as crianças se debatendo de brincadeira.
Thud!
— Ah cara!
O mais alto dos meninos roubou a bola de seu amigo e a arremessou, mas em vez de marcar, a bola atingiu o aro e ricocheteou. As outras crianças soltaram gritos de lamentação enquanto corriam para pegar a bola do rebote. Ela quicou até onde Zero Nine estava sentado e parou aos seus pés. Enquanto as crianças perseguiam a bola, hesitaram ao avistar Zero Nine.
Hum, Zero Nine coçou a bochecha antes de pegar a bola e jogá-la de volta. Rapidamente, o menino mais alto agarrou a bola. Os outros meninos, não mais interessados, desviaram o olhar. No entanto, o menino segurando a bola piscou e gritou.
— Senhor!
Hum, ser chamado de “senhor”. Zero Nine pensou sobre o título enquanto o menino alto o chamava novamente.
— Senhor! Você sabe jogar basquete?
Que criança amigável.
— Não, não sei.
— Isso é perfeito. Nós também não somos exatamente especialistas.
— Vocês pareciam estar indo bem, no entanto.
— Você não assiste basquete na TV?
— Não, nunca assisti realmente.
— O quê? Você nem tem TV em casa?
— Bem, acho que talvez tivéssemos uma.
— Você poderia, por favor, se juntar a nós para formarmos times iguais?
— Eu seria de alguma utilidade?
— Você é alto, então será bom em alguma coisa. Meu irmão disse que basquete é tudo uma questão de altura.
Encontrando-se em um pequeno impasse, Zero Nine levantou-se de seu assento. Enquanto caminhava até o menino alto, o menino mais novo exclamou maravilhado.
— Você é tão alto quanto um jogador de basquete!
— Talvez seja apenas você que ainda não cresceu.
— Pode ser, não é?
O menino respondeu casualmente e gritou para seus amigos.
— Ei! Vamos adicionar este senhor no nosso jogo!
— Ele sabe jogar?
— Não, não sabe!
— Está tudo bem então!
Zero Nine riu, divertido. Parecia que nenhum deles conhecia realmente as regras.
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Continua…
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↫─⚝ Tradução, revisão e Raws: Bella Cheng&Belladonna