Capítulo 03
↫─Matched with a Disaster Grade Esper ↫⚝↬ 03
— Foi cerca de dois anos depois do início da guerra quando eles começaram a controlar espers à beira de um surto com drogas e a jogá-los no acampamento das forças Aliadas.
— Ah, sim, está correto.
Elijah zombou. Não importa o quão diferentes os espers parecessem dos humanos, eles ainda tinham aparência humana. Por isso, nem mesmo Elijah conseguia esconder seu nojo por “aquela estratégia insana”.
Argus carregava espers drogados em caças e os lançava diretamente no acampamento inimigo. Assim que o efeito das drogas passava, os espers entravam em surto completo, e o acampamento Aliado era obliterado em um instante.
— Em resposta aos métodos distorcidos de Argus, o conceito de “guias” foi descoberto.
— Provavelmente foi um dos soldados tentando conter um esper em surto que acabou se revelando um guia.
— Ainda bem que os Aliados os descobriram primeiro.
O contato feito para conter o esper funcionou como “guia”. O primeiro caso de um esper se acalmando de um estado de surto foi rapidamente classificado, e todos que tiveram contato com aquele esper foram minuciosamente investigados.
Assim, o primeiro guia foi encontrado.
— Eles trabalharam duro.
— Por favor, não coloque dessa forma.
Elijah parecia severo. Quer ele quisesse ou não, fatos eram fatos. Havia muitos espers de ataque, mas apenas um guia descoberto. Hexion sentiu um alívio genuíno por não ter sido o primeiro guia. Depois disso, os Aliados procuraram desesperadamente em suas fileiras por outros guias. E foi um ano depois que o próprio Hexion foi descoberto.
— Naquela época, guias como eu…
Havia muito poucos em comparação ao número de espers. Mas guerra é guerra. Não há espaço para dizer que não se pode fazer algo. Sempre que Argus liberava um esper, um guia era enviado atrás deles. Era exaustivo tentar conter e fazer contato com aqueles que avançavam como loucos.
Enquanto Hexion relembrava brevemente, Elijah o observava de perto.
— Ainda assim, você é uma espécie de “lenda”, não é?
— Não me chame assim, pelo amor de Deus.
— Durante a guerra, você atraiu cinco espers inimigos para uma caverna que desabou, contendo todos eles e retornando em dez dias…
— Não fale sobre isso. Foi um pesadelo maldito.
Hexion fez uma careta abertamente. Ele não estava genuinamente chateado, mas sim tentando encerrar a conversa. Elijah ficou em silêncio, mas então notou seu smartphone tocando e atendeu.
— Ah, os tranquilizantes passaram?
— Onde ele está? A-13? Entendido.
— Não deve ser muito difícil.
— Sério?
Elijah desligou e olhou para Hexion. Hexion ficou feliz que aquela conversa chata pudesse finalmente terminar. Elijah o conduziu através de outra porta de segurança, por um corredor subterrâneo. Hexion o seguia em um ritmo tranquilo. Elijah falava enquanto caminhavam.
— Como mencionei, ele está cooperativo até agora.
— Certo…
Caminhando pelo corredor, Hexion percebia o quão meticulosamente aquela instalação subterrânea era mantida. Elijah parou em uma porta com a etiqueta A-13. Não parecia muito diferente das portas anteriores. Ainda tratando a pessoa atrás dela como uma bomba humana prestes a explodir. Aquela atitude não havia mudado nem um pouco.
— Você vai entrar sozinho. Tenha uma conversa adequada. Espero que vocês dois se deem bem.
— Mesmo que não nos demos, seremos trancados juntos na mesma instalação de qualquer maneira.
— Ainda assim, educação não custa nada.
Elijah sorriu amplamente, como um concierge de hotel, e abriu a porta com um cartão magnético. A porta deslizou com um zumbido, revelando a pessoa sentada lá dentro.
Zero Nine. Conhecido como o nono desastre. A sala vazia estava preenchida com sua presença.
Tum, tum.
Assim que Hexion entrou, a porta se fechou pesadamente atrás dele. Seus olhares se encontraram. Nenhum dos dois falou primeiro. Olhos lavanda e olhos cinza-escuros se fixaram intensamente um no outro. A luz amarela acima banhava a ambos.
— Sinto como se estivesse enjoado.
— Espers ficam mareados?
Hexion perguntou sem malícia. Zero Nine sorriu levemente, unindo as mãos sobre os joelhos.
— Então, você é o novo guia, hein?
— Isso mesmo. Sem escolha no assunto.
— Nunca tive muita escolha na minha vida de qualquer maneira.
— Bem, isso é uma sorte. Significa que você pode suportar isso também.
— Ah, o guia. Esta é a minha primeira vez experimentando isso…
Zero Nine olhou fixamente para os olhos cinzentos que se estreitavam. Pelo menos ele se lembrava do beijo. Seria solitário se apenas um deles guardasse aquela memória. Hexion deu alguns passos para mais perto.
— Não sabia que um toque poderia ser tão intenso.
— Os outros guias não ajudaram muito, ajudaram?
— Só pareceu um pouco ruim, só isso.
Zero Nine falou de forma um tanto ríspida. Hexion lembrou-se das palavras de Elijah sobre como Zero Nine parecia calmo. Ele podia agir com calma, mas sua personalidade não condizia exatamente. Era um pressentimento, o tipo que um soldado tem ao avaliar alguém que precisa gerenciar.
— Beijos não são algo diário, são? Apenas antes de eu entrar em surto?
— Não precisa ser um beijo.
Hexion inclinou-se, erguendo gentilmente o queixo de Zero Nine com um toque leve.
— Mesmo um simples toque pode guiar.
As unhas de Hexion traçaram lentamente a linha da mandíbula de Zero Nine, esfregando levemente a articulação do maxilar. Seu polegar deslizou para cima, roçando o lóbulo da orelha, enquanto seu dedo médio pressionava a cavidade atrás da orelha. Um suave “Ah” escapou dos lábios de Zero Nine.
— … Se o meu humor ficar tão bom por causa do seu guia, ficarei feliz em retribuir o favor.
— Ora, ora.
— Você guiou outros Espers?
Após um momento, Zero Nine acrescentou.
— Quantos?
— Muitos para contar.
Hexion acariciou gentilmente a parte de trás da cabeça de Zero Nine, seus dedos longos e fortes passando habilmente por seu cabelo. Zero Nine sentiu-se como um gato sendo acariciado.
— Mas eu sou o único com quem você está lidando agora, certo?
— Você ouviu?
— Ouvi por acaso.
Hexion pensou na voz áspera e fraturada que Zero Nine tinha momentos atrás, durante seu surto. Fingindo estar calmo, hein? Era divertido. Ele estava acostumado com espers tentando cair nas graças de seus guias.
— Você é bom em fingir ser todo doce e submisso.
Zero Nine ficou brevemente surpreso.
— … Isso transparece?
— Sim.
Os lábios de Zero Nine se curvaram em um sorriso lento. Um de seus olhos ainda não se fechava adequadamente. Hexion sentiu-se atraído por aquele olho, enquanto as palavras ligeiramente ríspidas soavam nos ouvidos de Hexion.
— Então, você não gosta do tipo doce e submisso, gosta?
Uma sombra caiu sobre o rosto de Zero Nine. A luz do teto não conseguia alcançá-lo totalmente, deixando um ar de resignação ao seu redor, como alguém que não esperava nada. Hexion não achou o comentário provocativo. Embora o sorriso e o tom fossem de deboche, ele não viu nenhum significado profundo além da própria pergunta.
— Não é ruim, na verdade.
Zero Nine mudou seu sorriso. Era um sorriso bem trabalhado e limpo, com lábios levemente curvados e olhos que se dobravam suavemente. Mas Hexion achou que o sorriso anterior, quase travesso, era melhor.
— Nesse caso, continuarei com a atuação.
Se isso te agrada, eu continuarei. Ele parecia acostumado a se ajustar completamente aos outros. Tendo lidado com espers selvagens e incontroláveis, Hexion achou esse comportamento complacente inesperadamente cansativo.
— Por quanto tempo?
— Enquanto você estiver por perto.
Hexion tinha uma vaga noção de onde vinha a resignação de Zero Nine. Ele pertencia ao Estado há muito tempo, e ainda era o mesmo agora. Hexion não zombou dele. Ele não podia. Servir ao Estado como um guia-soldado já era ruim o suficiente; ele não conseguia imaginar o quanto pior era para Zero Nine.
— Acha que consegue manter isso?
— Não tenho certeza.
Zero Nine respondeu vagamente, sem traço de fé. Ele estivera nas mãos de Argus por mais de uma década, e agora estava nas da América. Arrastado por eles, forçado a estar nas mãos de um guia que não desejava. Confiança não era algo que ele pudesse se dar ao luxo de ter. Hexion falou com convicção.
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Continua…
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↫─⚝ Tradução, revisão e Raws: Bella Cheng&Belladonna