Capítulo 22
Saímos do restaurante e caminhamos juntos pela rua escura. Não havia estacionamento disponível e a rua era estreita demais para que um carro passasse, então tivemos que caminhar até a avenida onde o motorista estava esperando. A rua, que antes parecia um túnel quando eu caminhava sozinho, possuía um charme peculiar agora que eu estava com ele.
Apesar de seus esforços para diminuir a velocidade para acompanhar meu ritmo, ficávamos cada vez mais distantes: em parte porque seus passos eram muito largos e em parte porque meu ritmo já devagar estava ficando cada vez mais lento. Quando nos distanciávamos apenas alguns passos, ele parava imediatamente e esperava por mim.
— Ah…
Depois de um tempo, minhas pernas de repente fraquejaram e eu cambaleei. A sensação de embriaguez finalmente estava subindo, fazendo minha cabeça girar. Foram apenas dois copos.
Eu me sentei e abaixei a cabeça, gemendo baixinho, e então ele se aproximou e me ajudou a levantar. Ele facilmente me levantou, segurando meus braços. Instintivamente, coloquei os braços em volta do seu pescoço e soltei um gemido.
— Ahh, estou um pouco tonto, mas não estou bêbado.
— Sim. Você está bêbado.
Dizer que alguém está “bêbado” depois de apenas dois copos parece um exagero. Mas, considerando a situação, não era o momento nem o lugar para discutir isso. De qualquer forma, eu estava sendo carregado por ele, incapaz de controlar meu próprio corpo devido ao efeito do álcool.
Quando ele começou a andar, a tontura piorou. Fechei os olhos e apoiei minha testa em seu ombro. Balancei a cabeça e esfreguei a testa contra sua camisa enquanto a sonolência me dominava. Ele me disse enquanto eu estava tentando me manter acordado.
— Não se force. Se estiver com sono, durma.
— Mas preciso tomar um banho antes. Não estou cheirando bem.
Seu corpo cheirava a carne, assim como o meu. Dei uma risadinha, pensando que o cheiro era comum para mim, mas não combinava com ele.
— Não se preocupe, há alguém aqui que gosta de te dar banho.
— Ah, é verdade.
Acenei com a cabeça, concordando com ele. Ele certamente faria um trabalho melhor do que eu ao lavar meu corpo. Será que as facas vão continuar escondidas e eu ainda não vou poder ir sozinho ao banheiro…?
— Então, você vai me levar para casa, me dar um banho, trocar minhas roupas e me colocar para dormir?
— Isso mesmo.
— Faça isso, então. Você tem que acordar cedo amanhã também, não é? Vou acordar, tomar café da manhã com você, e depois…… não tenho nada para fazer. Eu deveria fazer algo, mas o que…?
— Faça o que você quiser fazer.
— Sabe, eu não sei o que quero. Pra mim, isso é o mais difícil. Tenho que ter algo que eu queira fazer… Oh, eu tenho.
Não era minha intenção, mas ao dizer isso, uma lista de coisas para fazer surgiu em minha cabeça.
— Não amanhã, talvez no sábado? Tenho algo que preciso fazer. Vou visitar Soohyun. Eu realmente fui hoje, mas ele estava doente e não consegui vê-lo. Mas a babá disse que ele é uma criança saudável, então provavelmente vai melhorar rápido. Até sábado, ele deve estar bem… Você quer vir comigo?
— Se você quiser.
— Sim, eu quero. Vamos lá juntos… Ah, no domingo, vamos fazer compras. Comprar roupas de inverno, presentes para Soohyun e um piano. Não posso ir sozinho. Eu posso escolher, mas você precisa pagar por eles.
Fala incessantemente. Era algo incomum para mim. Não estava fazendo isso por estar bêbedo: minha mente estava completamente clara. Meus lábios estavam congelando de frio, mas a pronúncia ainda era aceitável. Eu só estava de bom humor, por isso continuei agindo assim. Tudo porque havíamos nos reconciliado.
— Certo.
De repente, uma brisa fria atingiu a ponta do meu nariz, que começou a escorrer, atrapalhando minha fala. Eu me virei para enxugar o nariz e continuei minhas palavras que haviam sido interrompidas.
— Sou desempregado e não tenho dinheiro. Então, eu acho que também vou precisar usar seu cartão para pagar pelas aulas de piano.
— Aprenda comigo.
— ……. Você não sabe ensinar.
— Você está me provocando?
— Não é provocação. É a verdade. Você não é bom em ensinar, então, por favor, me arrume um professor. Você vai pagar pela aula, certo? E não reclame do preço das aulas, quando já me ofereceu um carro….
‘Não me importo se você comprar um carro amanhã com isso’. Essa foi a primeira coisa que ele me disse ao me dar um cartão. Naquela época, eu estava preocupado com a ideia de que um desempregado como eu poderia fazer tal coisa e que eu não sabia fazer nada. Estava rindo dessa lembrança quando ele falou.
— Não ficaria surpreso mesmo que você comprasse uma casa. Use o cartão como quiser.
— Uau, você está evoluindo.
— É tudo graças a alguém.
Eu nunca havia perguntado, mas sabia que ele era um executivo de uma grande empresa. Não era difícil adivinhar sua posição com base no título de “Presidente” que as pessoas usavam ao se referir a ele.
De repente, me senti curioso. Será que a razão pela qual ele havia deixado para trás uma vida tranquila e confortável também era por minha causa? Ele não havia começado a trabalhar na empresa por dinheiro: isso era evidente apenas pelo jeito que ele falava. Mas eu não sabia mais que isso. Ele nunca havia dito e eu não tinha interesse em perguntar.
Mas agora eu queria saber. Eu precisava saber e achei que era hora de perguntar. Porque tenho certeza de que ele me dará uma resposta sincera e genuína.
— O que mais posso te perguntar?
— Qualquer coisa.
Há muito tempo ele costumava ficar irritado com minhas perguntas, mas agora respondia ativamente, como se estivesse esperando por elas. E eu conseguia ler nas pequenas mudanças quando ele mostrava que ele estava arrependido de suas palavras anteriores.
— Realmente foi por minha causa?
— O que?
— Que você deixou para trás sua vida confortável e se tornou o presidente da empresa?
— Você não sabia?
— Eu estava meio desconfiado.
— Lembre-se disso: estou sendo sincero para mantê-lo ao meu lado e cuidar de você.
— Devo te agradecer?
— Você pode simplesmente ser um pouco mais fofo.
— … E quanto ao casamento?
Seu casamento foi o gatilho inicial. Ele estava realmente certo na época: não importa o que ele me dissesse, eu nunca teria aceitado. Não importa o que ele dissesse ou como dissesse, eu nunca teria entendido.
Agora, estou fazendo essa pergunta porque quero corrigir isso. Quero transformar a escolha, que na época soou para mim como traição, em um ato amor.
— O casamento também foi por minha causa?
Quero confirmar que, afinal, foi por amor.
— Me diga, foi por minha causa? Não havia realmente nenhum outro motivo?
Ele ficou em silêncio por um longo tempo. Eu continuei esperando.
— Sim.
Após uma longa espera, finalmente obtive a resposta que estava procurando.
— Eu achei que só poderia ter você ao meu lado dessa forma.
— …….
— Achei que era o melhor a se fazer.
Abandonar o familiar, mudar a forma de vida, tentar um casamento sem amor. Ele diz que todas as razões por trás dessas coisas foram por minha causa. Não foi para me abandonar, mas para me ter ao seu lado.
— … Entendo.
Por isso, agora, não vou mais questionar se suas ações foram corretas. Quero definir o nosso passado não como um erro, mas como uma lição.
— Bom trabalho por avançar tanto.
— Você também.
— Eu realmente não progredi. Na verdade, regredi bastante.
— Você fez um bom trabalho aguentando tudo isso.
Ele fez um grande esforço para me proteger. Suas palavras calmas tinham um calor reconfortante que penetrava profundamente no meu coração. Elas eram mais reconfortantes do que todas as palavras mais belas do mundo. Eu prendi a vontade de chorar e assoei o nariz sem motivo. Em seguida, comecei a recitar meus planos que vinham à mente de forma desorganizada com uma voz trêmula.
— Ah, bem… Já estamos quase no Natal, então é claro que devemos passar essa data juntos, certo? Com Soohyun também. Vou decorar a árvore com ele e Heewoon fará a comida. Vamos assistir a um filme juntos e depois dormir. Vamos fazer o mesmo no Ano Novo. Devemos passar um tempo juntos. E quando a primavera chegar, iremos para… ah, já sei, para o parque de diversões. Vamos levar Soohyun a um parque de diversões. Sabe, na verdade, nunca fui a um parque de diversões antes porque não tinha dinheiro e nem tinha ninguém para ir comigo. Mas agora tenho vocês dois e isso é maravilhoso.
— …….
— Que tal acampar no verão? Já vi isso na TV e parece muito divertido. Também gostaria de viajar para o exterior. Nunca estive em um avião antes e é um pouco assustador, mas gostaria de experimentar.
— Você pode fazer tudo que quiser.
— Sim, farei tudo o que quiser. Juntos. Porque quanto mais coisas fizermos juntos, mais próximos ficaremos e então vou poder dizer a ele quem eu sou… e então, um dia, viveremos juntos como uma família.
— …….
— Então teremos mais e mais dias bons… e, por fim, seremos felizes.
Parei de desejar infelicidade. Coloquei de lado meu ressentimento que estava atrapalhando o amor, recolhi as amarguras e preenchi o vazio com confiança. Comecei a pensar no futuro, não no passado, e recitei minhas expectativas, não meu desespero. E então…
— Acho que podemos.
O menor indício de felicidade que parecia tão distante se tornou tangível.
— Sim, vamos fazer isso.
Tudo estava bem.
Não, tudo estava bem era insuficiente.
Eu também estava muito feliz.
Mas sem ter a chance de executar esses planos, no dia seguinte, acabei ficando na cama por causa de um forte resfriado. Tosse, nariz escorrendo, febre… Enquanto minha mente começou a melhorar, meu corpo começou a causar problemas.
Eu estava atordoado, imaginando como meus planos podiam ter dado tão errado. Já ele,não foi trabalhar e passou o tempo todo ao meu lado.
— Não tenha pressa. Vou cuidar de tudo, então não precisa se preocupar com nada isso.
Era verdade. O que eu mais tinha era tempo e Joo Haewon tinha dinheiro de sobra. Se eu quisesse, poderia fazer acontecer. Pensar nisso me deixou tranquilo.
* * *
Quarta-feira, 1º de dezembro.
— Eu sei, haverá momentos em que tudo parecerá esmagador e difícil sem motivo, porque eu sou uma dessas pessoas. Alguém me disse uma vez que o mundo balança graças a uma brisa sem sentido e isso não é uma coisa ruim: é apenas o jeito que tem que ser. Acho que sou uma dessas pessoas, que se abala quando o vento sopra. Mas não importa o quanto você seja abalado: quando alguém te segura, você acaba parando. Então, acho que eventualmente vou ficar bem, já que há alguém para me segurar firme. Isso é suficiente. É o bastante.
Foi a minha última sessão de terapia.
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Continua….
Tradução Rize
Revisão MiMi
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