Capítulo 16
O passado é como uma chuva repentina.
*
Início de setembro.
Quando as feridas de minha automutilação no meio do verão estavam quase curadas, minha alta foi mencionada pela primeira vez.
As lembranças que me inundavam estavam se encaixando. O problema era que as lembranças ainda não haviam tomado forma definida. Pensar que eu havia recuperado todas as minhas lembranças era, na verdade, uma mentira ridícula. Quanto mais o tempo passava, mais eu percebia que haviam algumas lacunas não preenchidas.
De repente, uma memória acionava um interruptor e eu era atraído para ela, assistindo como um espectador. Os encontros com o passado geralmente me tiravam muito do sério e por que não deveriam? A maior parte dessas memórias eram ruins e miseráveis.
Era como uma chuva torrencial impossível de prever quando cairia. De vez em quando, eu entrava nos restos destroçados das minhas ilusões. Eu estava sentado em minha cama de hospital, olhando pela janela e, de repente, ficava confuso sobre o lugar em que estava. Às vezes, eu me perguntava se ainda estava preso no fundo daquele poço e se tudo o que aconteceu com o homem chamado Joo Hae-won era, na verdade, um produto das minhas ilusões. A boa notícia é que não voltei a me mutilar. Aquele não era um ambiente no qual eu pudesse fazer isso.
Minha alta do hospital foi adiada porque eu estava com dores insuportáveis em todos os lugares. A letargia tomava conta do meu corpo, a depressão ainda corroía meu coração e a confusão permanecia insistentemente em minha cabeça. Essas coisas teimosas e desagradáveis não me deixavam em paz.
Durante toda a minha hospitalização, ele ficou ao meu lado. Houve momentos em que ele foi obrigado a sair para trabalhar, mas, na maior parte do tempo, ele estava lá.
Nosso tempo, juntos, era sempre tranquilo. Quando recobrei o juízo, haviam coisas que eu tinha curiosidade em saber, mas não estava pronto para ouvi-las. Não perguntei a ele, porque ainda não estava em condições de entender suas circunstâncias e seus sentimentos.
Como se me entendesse, ele esperou pacientemente por uma oportunidade para explicar sem me pressionar. Não era como se nós dois fossemos falantes por natureza. O silêncio era natural para nós, pois era um elemento familiar de nosso relacionamento.
Em meio a isso, algo assim acontecia com frequência. Eu ficava olhando fixamente para o nada e, de repente, ele me chamava: ‘Lee Soo-ha!’
Sua voz era o meio que trazia minha consciência de volta à realidade.
Quando eu virava a cabeça lentamente, me deparava com a tensão em seu belo rosto, o que me fazia pensar qual era o propósito de seu chamado. Era para determinar se eu estava preso em uma ilusão ou na realidade.
Então, respondia ao seu chamado, tardiamente, assim: ‘Sim, Joo Hae-won?’
*
Em um dia de setembro, desenrolei as bandagens que comprimiam meus pulsos e tirei minhas roupas de paciente. Eu havia finalmente recebido alta daquele quarto de hospital.
Com aconselhamento e medicação intensa, meus transtornos delirantes e depressivos foram significativamente reduzidos. Entretanto, não fui declarado curado. O hospital recomendou que eu continuasse a frequentar as instalações para tratamentos adicionais. Além do tratamento psiquiátrico, os níveis de hormônio ômega também atingiram um nível baixo novamente, o que significa que foi necessário realizar ambos os tratamentos de maneira simultânea.
Acontece que os hormônios ômega não afetam apenas o cio. Meu psiquiatra acreditava que os níveis hormonais fora do normal podem ter desempenhado um papel relevante na minha depressão crônica. Meu clínico geral me alertou que, se não fosse tratado, eu poderia adquirir outros problemas hormonais e ele queria que eu continuasse o tratamento conforme recomendado pelo hospital.
Mas eu não queria. Eu estava cansado de hospitais, farto de remédios, sem paciência. Na verdade, achava até que o hospital estava me deixando mais doente. Então, expressei minha veemente rejeição ao convite para o tratamento hospitalar e, felizmente, ele não me forçou mais.
No dia em que recebi alta, estava chovendo. Era uma garoa fina.
O mundo além da janela do carro passou rapidamente por mim. As coisas estavam ficando molhadas e as pessoas estavam se movimentando numa dinâmica que eu não presenciava há muito tempo. Foi uma mudança bem-vinda. Observei atentamente a paisagem embaçada.
Ele nunca tirava os olhos de mim. Eu podia sentir isso sem ver. Aquele olhar firme, penetrando através da minha pele e dos ossos, tentando ver dentro de mim. Isso não é de agora. Ele ficou assim durante todo o tempo em que estive no hospital: com aqueles olhos afiados fixos em mim.
A viagem de volta para casa foi silenciosa, como sempre, mas uma perturbação veio repentinamente.
Squeak!
O carro parou bruscamente. Fui jogado de um lado para o outro e quase bati minha cabeça na janela. Felizmente, ele me puxou rapidamente e evitou uma colisão, mas minha visão ficou embaçada e eu me senti tonto.
O motorista olhou para trás e se desculpou às pressas.
— Sinto muito, senhor. O carro que estava na minha frente entrou na pista de repente, então tive que frear…!
A paisagem chuvosa e apagada foi substituída por um céu azul sem nuvens e campos de cores brilhantes. Não era o cheiro de água que entrava pelas janelas ligeiramente abertas, mas o cheiro perfumado da grama varrida pelo vento.
Sim, era uma estação diferente.
O ambiente exuberante, os cheiros frescos e o fato de eu estar no meio de tudo isso me deram uma ideia da época do ano.
Foi no ano passado, talvez em maio.
***
Dentro do carro que se movia suavemente, ele estava ao volante. Sua camisa estava desabotoada, o colarinho solto para o lado, as mangas arregaçadas e sua expressão era tão relaxada quanto seu traje. Sua expressão era tão discreta quanto seu traje elegante. Pela boca levemente virada para cima e pelos dedos batendo de leve no volante, eu podia adivinhar vagamente como ele estava se sentindo.
Estava sentado no banco do passageiro ao lado dele.
O som de um piano permanecia em meus ouvidos. A fonte do som era o rádio. Escutei as notas suaves e fui atormentado por uma estranha sensação de desorientação. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo. Não sabia porque a música soava tão familiar quando, obviamente, era nova para mim. Felizmente, quando a música terminou, o mistério desapareceu.
Comecei a ver o mar. Estávamos em uma estrada costeira. Finalmente, fiquei curioso para onde estávamos indo. Ele me arrastou para fora de casa sem explicação. Eu não tinha o direito de recusar as ordens de meu mestre, então o segui obedientemente, como um escravo. Não me disseram para onde estávamos indo.
Eu havia acabado de sair das instalações e o mundo exterior ainda era muito estranho para mim. O homem que me comprou também parecia um estranho para mim. Não poderia ser diferente, afinal, eu nem sequer havia falado com ele por medo de ofender meu dono. Eu não podia o perguntar abertamente mesmo estando curioso.
No entanto, o dono, sentindo a corrente, generosamente deu ao cão a oportunidade de o perguntar casualmente.
— O que foi?
Fiquei aliviado por ele ser o primeiro a perguntar, mas, mesmo assim, hesitei por um longo tempo antes que as palavras saíssem de minha boca.
— Para onde estamos indo? Eu estava me perguntando…
Eu estava preocupado de que ele ficasse com raiva de mim por perguntar. Em vez disso, ele me deu uma resposta surpreendentemente clara.
— Para o oceano. Você disse querer vê-lo.
Balancei a cabeça, pensando se já havia dito isso. Então ele acrescentou uma breve explicação.
— Eu disse, embora tenha tecnicamente sido o médico.
Ah, tudo fazia sentido.
Na instalação, eu era entrevistado uma vez por semana por um homem de jaleco branco. Esquecia a maior parte do que foi dito, então não tinham como saber se era verdade ou não. Mas eu sabia que havia muitas coisas que eu tinha dito. Por que eu realmente tinha esse desejo? Quando você acha que não poderá sair de casa até o dia da sua morte, o mar parece tão distante… como uma fantasia. Acho que é por isso que eu queria ver esse lugar.
Mas mesmo assim, por quê? Eu me perguntava, sem entender. Por que ele sentia a necessidade de me mostrar essa bondade?
Fiquei olhando para ele, tentando entender suas intenções, mas não consegui ler sua gentileza.
E então aconteceu. De repente, sua mão passou sobre minha testa. O toque foi suave, cuidadoso e gentil enquanto ele empurrava para trás uma mecha de cabelo abaixo da minha testa.
— Vamos cortar um pouco. Me incomoda não poder ver bem o seu rosto.
Ele foi muito gentil.
O mais estranho foi como isso me fez sentir. Meu coração acelerou. Não era excitação; era mais como medo.
Com cuidado, perguntei novamente.
— … Por que você é tão gentil?
Deve ter soado como uma pergunta rude, mas ele não se ofendeu e apenas sorriu.
— Você acha que estou sendo gentil?
— Sim
— Que bom, porque é assim que eu devo parecer.
— …….
— Não importa o motivo. Eu estou fazendo isso porque quero.
— … Por que você quer fazer isso?
Perguntei novamente, sem estar convencido. Eu era apenas uma ferramenta para gerar uma criança e ele não precisava se esforçar tanto em algo que vai jogar fora quando não tiver mais uso.
Você não deveria estar fazendo isso.
Ele ficou em silêncio por um longo tempo. Eu podia ver a preocupação em seus olhos enquanto ele olhava para frente. Percebi que ele estava escolhendo as palavras com cuidado.
Mas não demorou muito para que ele me desse sua resposta.
— Para chamar sua atenção novamente.
Foi estranho.
Eu entendia as palavras, mas não conseguia dar sentido a elas, especialmente à palavra ‘novamente’.
De novo?
Fazia pouco mais de um mês que havíamos nos encontrado. Eu estava ocupado tentando me adaptar ao espaço do estranho e descobrir qual era o meu objetivo. Ele me deixava à vontade durante o dia, como se estivesse fazendo suas próprias coisas, e à noite cobiçava o meu corpo como se quisesse me lembrar da minha posição. Simples assim.
É claro que ele estava interessado. Afinal de contas, ele me comprou. Ele era meu dono e eu era sua propriedade, por isso sempre prestei atenção em seus e tentei entender o significado de suas ações. É algo que deveria ser feito quando se estava nessa posição.
Em outras palavras, ele não precisava se esforçar muito para ganhar minha atenção. Além disso, o advérbio “novamente” implicava repetição. Não se encaixava realmente entre mim e ele, pessoas que haviam acabado de se conhecer.
Quanto mais eu tentava entender isso, mais minhas dúvidas aumentavam. Cocei a cabeça e murmurei algo estúpido.
— É estranho…
Sim, é estranho.
Ele não parece ser esse tipo de pessoa.
— O quê?
Você não deveria estar fazendo isso comigo…
Você vai me jogar fora novamente de qualquer maneira…
Novamente…
… Novamente?
— ……!
Uma dor aguda me atravessou. O súbito ataque de dor parecia queimar algum circuito em meu cérebro. Em resposta, uma concentração inexplicável de pavor se infiltrou em mim.
Logo, comecei a roer as unhas, com os olhos arregalados de ansiedade. O clique, clique, clique de minhas unhas refletia meu estado de espírito rapidamente agitado.
— Pare.
Ele agarrou meu pulso e o puxou para baixo com força.
Levantei minha cabeça que estava abaixada. Percebi que sua expressão estava mais dura do que há pouco.
Vai…
Eu…
— Você vai me jogar fora…… de novo?
Cuspi as palavras que não haviam passado por meu cérebro ainda, com um olhar atordoado em meu rosto.
Naquele momento, uma rachadura apareceu em sua expressão.
— Se você vai me enganar dessa forma, deveria ter me deixado sem expectativas até o fim.
Seus olhos se arregalaram com a besteira que comentei; ele estava claramente agitado. A carapaça dura de sua natureza descontraída estava rachando e ele estava demonstrando uma emoção nua e crua através dela. Minha acusação havia atingido um nervo bruto em algum lugar de sua mente.
Fiquei muito feliz.
Um sorriso doentio passou por meus lábios. Movido pelo desejo de esmagá-lo ainda mais, abri minha boca e o chamei.
— Tio. — Disse.
Chrrr!
Ele pisou no freio e parou bruscamente. Seu olhar se chocou com o meu. Por um momento, vi uma emoção desconhecida no rosto desse homem difícil e intrigante. Em seguida, fui tomado pela sensação de que tudo estava desaparecendo e o chão estava desmoronando sob meus pés.
Uma forte dor de cabeça me atingiu novamente. Como se fosse a deixa, a dor foi muito mais intensa dessa vez.
— Ah, ah…!
Gemi e agarrei minha cabeça. Estava doendo. Doía tanto que eu queria arrancá-la e, se eu não conseguisse, preferia arrebentar minha cabeça.
Bati minha cabeça contra a janela do carro. BANG! BANG!
— Lee Soo-ha!
Uma mão áspera e estendida envolveu minha testa acompanhada de um grito desesperado. Lutei para escapar de suas mãos. Nossos corpos se enroscaram enquanto eu tentava me machucar e ele tentava me impedir. Finalmente, eu estava preso a ele. Prendendo-me em seus braços, enquanto me imobilizava, ele sussurrou.
— Acalme-se, ok? Se acalme.
— Está doendo…
— Eu cometi um erro…
Eu não conseguia entender uma palavra do que ele estava dizendo. Também não fazia ideia o que ele tinha feito de errado e meus olhos atordoados estavam ficando molhados. O mar distante além da janela do carro também parecia embaçado.
Eu inventei um monte de besteiras novamente.
— Eu quero… quero que ele seja infeliz. Quero que Joo Hae-won seja… quero que meu tio seja…….
Eu nem sabia o que estava dizendo. Não eram palavras saídas da minha cabeça. Era uma linguagem do coração.
— Meu tio é um filho da puta. Isso mesmo… eu escolhi pensar assim…
Houve um estalo, um ranger de dentes e, em seguida, uma mão grande e musculosa cobriu meus olhos, escurecendo minha visão.
Ele ordenou em uma voz vigorosa.
— Não pense em nada. Tire tudo de sua cabeça agora.
— …….
— Deixe tudo vazio, Lee Soo-ha.
Devo fazer o que ele manda. Sou uma ferramenta. Esse é o meu valor para ele. Nada mais. Eu não sou necessário.
Felizmente, a dor não identificável queimou os pensamentos em minha cabeça. Finalmente, eles desapareceram, como se tivessem feito seu trabalho.
À medida que a dor diminuiu, minha respiração ficou mais lenta e meu coração, que batia como se fosse explodir, ficou mais devagar.
Quando a atmosfera frenética do desastre diminuiu, sua voz calma e refinada me deu outra ordem.
— Não entenda mal. Estou te tratando bem para tornar as coisas mais confortáveis. Isso é o que eu sei. Não há nada pelo que esperar. Não seja presunçoso. Você só precisa aceitar com calma o que eu lhe der e abrir suas pernas sem pensar muito.
— …….
— Isso é o que você vale. Está entendendo?
— …….
No momento seguinte, sua mão estava levantando minha blusa com força.
— Abra as pernas. Vou foder você como uma besta.
Em um movimento rápido, minhas roupas foram arrancadas e eu estava em cima dele. Seu pênis afundou em meu buraco desprotegido. Fiquei mais aliviado, mesmo quando chorei e gemi com a dor de minha carne sendo rasgada e minhas paredes internas sendo forçadas a se separar.
***
— … Lee Soo-ha.
— …….
— Lee Soo-ha!
A chamada urgente me trouxe de volta à realidade. Pisquei os olhos. As lembrança de maio desapareceram e a realidade de um setembro chuvoso me envolveu.
Levantei minha cabeça para olhar para ele. O homem em carne e osso estava na minha frente me observando com olhos atentos, se perguntando se eu havia perdido o juízo novamente.
Pisquei algumas vezes e depois abri a boca.
— Eu …
— …….
— Estou bem, Joo Hae-won.
Sua expressão fria relaxou.
Fiquei me perguntando:
Se eu o tivesse chamado de outra forma, se o tivesse chamado de tio ou CEO em vez de Joo Hae-won, como seria seu rosto agora?
Será que ele teria se desesperado?
Estaria sofrendo?
Irritado?
… Não. Você teria engolido todos esses sentimentos e casualmente sintonizado em meu ritmo maluco, como sempre.
Pela primeira vez, senti uma sensação de alívio ao olhar para ele.
Ele é doce.
Contra ele, todas minhas investidas não surtiam efeito.
Desde então, tenho sido assombrado pelas vívidas imagens posteriores e pelos duros ecos do passado que encontrei inesperadamente.
***
Continua….