Capítulo 10
Eu sabia que ela não tinha muita afeição por Lee Soo-ha, mas não conseguia acreditar que estava lidando com as coisas daquele jeito. Quero dizer, ele era filho dela. Eu também tinha a tendência de tratar as pessoas como objetos, então não era nada que eu não pudesse entender, mas…
— Você disse que não podia deixá-lo sozinho porque ele era muito instável.
— Encontrei alguém em quem posso confiar.
— Quem?
— Tem uma pessoa que está cuidando da minha casa há algum tempo, a assistente Jo. Ela é ótima. É leal, simpática e sabe ser discreta. Ela está pensando em se mudar para o Canadá devido ao emprego do marido. Achei que seria uma boa chance para enviá-lo.
— Eu me pergunto se Lee Soo-ha vai seguir suas ordens obedientemente se você falar com ele.
— É claro que ele vai. É melhor do que ficar desconfortável aqui. Vou pagar suas mensalidades, seu custo de vida e até sua moradia. Acha mesmo que ele poderia recusar?
— Acho que ele vai recusar.
— Como pode ter tanta certeza?
— Porque ele não parece nenhum pouco desconfortável agora.
— …….
Joo Hae-young estreitou os olhos diante do tom de voz baixo e me lançou um olhar questionador.
— Não sei como o garoto sente quanto a isso, mas parece que você não quer deixá-lo ir. Você já se afeiçoou a ele?
— Acho que sim.
Joo Hae-young riu, como se o comentário fosse inesperado.
— Isso é ridículo. Você?
— Sim, eu.
Naquele momento, a porta do quarto atrás de mim se abriu e Lee Soo-ha saiu para a sala de estar.
Tinha que ser agora…
Ela franziu a testa e olhou para trás. Ele estava com os olhos semicerrados, seu cabelo estava desgrenhado e parecia que ele ainda não tinha acordado. Minha camiseta era a única coisa que podia ser vista em seu corpo nu, seus braços e pernas estavam expostos e cheias de marcas da noite anterior.
— O que foi?
— …… água.
Lee Soo-ha respondeu inexpressivamente e se dirigiu para a cozinha. Joo Hae-young o seguiu com o olhar enquanto ele se afastava, bocejando como um fantasma. Ele nem havia percebido que tinha mais alguém na sala de estar.
Quando ele retornou à sala após limpar a garganta, reconheceu Joo Hae-young e se assustou.
— Ah……. Você está aqui.
Joo Hae-young deu um sorriso falso em resposta à saudação boba.
— Já faz algum tempo.
— Sim.
— …….
— …….
O clima entre eles não era nada agradável. Na verdade, o desconforto era nítido. Naturalmente, o olhar de Joo Hae-young para Lee Soo-ha era enervante. Durante todo o tempo que se olharam, Lee Soo-ha esfregou os olhos com os dedos.
— Volte para a cama e durma mais um pouco.
Toquei na bochecha dele e fiz um gesto em direção ao quarto. Como se mandasse ele esperar por mim. Obediente, Lee Soo-ha se arrastou para a direção indicada. O olhar aguçado de Joo Hae-young o seguiu até ele entrar no meu quarto sem hesitar. Depois que Lee Soo-ha se foi, seu olhar se voltou para mim.
Ela cruzou os braços e balançou a cabeça. Se você tem algo a dizer, diga.
Ela é tão perspicaz quanto eu. Não havia necessidade de perguntar. Ela se deu conta da situação.
Joo Hae-young tirou um cigarro de sua bolsa e o acendeu. Pude ver uma leve contração em sua mão quando ela apertou o isqueiro.
O silêncio se prolongou. A expressão de Joo Hae-young era fria.
Esperei pacientemente.
Somente depois de muito tempo, Joo Hae-young cuspiu sua voz acompanhada de um sopro de fumaça.
— Estou imaginando coisas ou você fez algo sem escrúpulos?
— Infelizmente, é a última opção.
— Haha. — Joo soltou uma risada curta, como se estivesse exultante. — Que tipo de piada é essa?
— Seria ótimo se fosse só uma piada.
— E não é?
— Não.
— …….
— Estou falando sério.
Os cantos da boca de Joo Hae-young se contraiam. Após apagar o cigarro na mesa, Joo Hae-young se levantou e se aproximou de mim. Parada na minha frente, a uma distância de cerca de um passo, ela fez uma pausa e respirou fundo.
Agora é sua vez de atacar? Depois do que fiz, estava disposto a levar uma surra. Quando pensei em me curvar, sua mão voou para minha face, como esperado. Ela bateu com força suficiente para a minha cabeça recuar ligeiramente.
— Você deve ter acordado agora, então ainda deve estar sonhando. Vou lhe perguntar novamente. O que vocês estão fazendo?
— Estávamos dormindo…
Pam!
Antes que eu pudesse terminar, a mão de Joo Hae-young se agarrou à minha cara mais uma vez.
— Como pôde… seu desgraçado!
— Haha.
A única coisa que saiu diante da acusação amarga foi uma risada.
— Está rindo?
— Sim.
— Desgraçado.
Essa era uma palavra muito branda para xingar um bastardo sem consciência que havia comido seu sobrinho que era dez anos mais novo.
— Eu esperava filho da puta, canalha, seu lixo ou algo assim, mas você é mais branda do que eu esperava.
— Pelo menos você sabe que fez algo digno disso.
— Bem, não é uma coisa boa, mas acontece.
— Acontece? Você perdeu a cabeça? Não sabe quem ele é?
— Seria melhor se não soubesse. Sinto muito, mas eu sei.
— Como você pode tocar nessa criança mesmo sabendo disso? Você só pode estar completamente louco.
— Eu fiz isso porque eu podia.
— Seu…!
— Por que você está reagindo de forma tão ingênua? Isso não combina com você. Achei que soubesse que ele era um ômega.
Os olhos de Ju Hae-young se arregalaram como se ela tivesse surpresa.
— E é claro que você sabe que sou um alfa.
Alfa e ômega. Não há necessidade de explicar melhor: era um resultado natural que acabássemos dormindo juntos. Isso era bem fácil de entender. Mesmo que Joo Hae-young fosse uma beta, era impossível que ela não conhecesse essa fórmula.
— Você deveria ter pelo menos considerado a possibilidade de que isso pudesse acontecer.
— Hahaha… Então, é isso: você é um alfa e Soo-ha é um ômega. Essa é a razão dessa atitude maluca sua? É isso?
— Não explica tudo, mas o suficiente.
— Besteira. Você é meu irmão e Soo-ha é meu filho. Isso devia ser motivo o suficiente para você não fazer essa loucura!
De repente, como se um dique tivesse se rompido, Joo Hae-young gritou. O sangue em sua nuca e seus olhos esbugalhados eram mais interessantes do que assustadores. Será que eu já tinha visto Joo Hae-young tão emotiva assim antes?
— Eu deveria esperar que meu irmão fodesse meu filho? Isso é normal, seu bastardo? Você não é um animal, é um ser humano. Um ser humano não faria isso…!
— É bem possível.
— O quê?
— Os seres humanos são os melhores em fazer coisas sujas. Não há nada que não possamos fazer se quisermos, então eu o fiz. Sou um homem, não um animal.
— Não me venha com essa besteira.
— É lógica. Se está tentando discutir comigo sobre ética e moralidade ou o que quer que seja de mim, é melhor parar por aí.
Percebi que estava sendo excessivamente presunçoso. Mas o que posso dizer… não precisava me desculpar, não sentia remorso e não pretendia terminar meu relacionamento com Lee Soo-ha. Mas também sabia que isso não era algo do que se pudesse esperar compreensão e aceitação.
— Por que está falando isso com tanto orgulho? O que te faz pensar que pode fazer algo assim comigo? O que você está falando não faz o menor sentido!
— Conheço bem a sua personalidade, mas vamos ser honestos. Sei que você não o trata como seu filho, mas sente que tem de assumir a responsabilidade por ele. Ele é apenas um corpo estranho, desconfortável e irritante do qual você quer se livrar de alguma forma.
Joo Hae-young mordeu o lábio, incapaz de argumentar. Ela sabia que negar isso só a faria parecer ridícula, por isso manteve a boca fechada.
— O que você quer de mim? Você diz que ele é meu sobrinho quando nem mesmo o trata como um filho. Provavelmente não o trouxe aqui esperando que eu agisse como um tio em primeiro lugar.
— E por isso você pode tocá-lo? É isso que vai fazer?
— Eu lhe disse que não considero Lee Sooha como um sobrinho. Não é que isso seja ultrajante para os meus padrões. É só que, nesse caso, é perfeitamente normal.
— Então o que diabos é Soo-ha para você? Como você considera essa criança?
— Ele é apenas…
Minha língua, que estava se movendo suavemente, endureceu por um momento.
— …….
Não conseguia pensar nas palavras certas. Se não era meu sobrinho, então o que Lee Soo-ha significava para mim? Eu realmente não tinha pensado profundamente nisso, então era difícil definir isso naquele momento.
De qualquer forma, isso não importava. O importante era que eu não queria ser forçado a terminar esse relacionamento.
— De qualquer forma, deixe-o em paz.
— Seu desgraçado! Se eu não soubesse, eu ainda o deixaria com você! — Joo Hae-young gritou de volta.
— Não daria no mesmo para você levá-lo para o exterior ou deixá-lo comigo? Vamos escolher a opção mais confortável para os dois. Entregue-o para mim e continue com sua vida. Não há necessidade de complicar as coisas.
— Joo Haewon. Sua irmã pode não ter consciência, mas a mente dela continua intacta. Não me importo com ética ou moral, mas não aja como se isso fosse algo normal. Tenha o mínimo de senso!
— Ah, sim. Me desculpe.
— Ouça, não importa o que eu pense do Soo-ha, ele é meu filho e você é meu irmão. Alfa? Ômega? Nada disso importa. Vá se foder, Joo Hae-won. Nenhuma das suas desculpas vale nada, porque você é tão merda quanto uma besta que tocou no próprio sobrinho.
A postura de Joo Hae-young era firme. Cada palavra que ela cuspiu com raiva estava realmente correta. Não importa o que eu dissesse, não ia funcionar. Balancei a cabeça em sinal de concordância.
— Vou levar Soo-ha embora imediatamente, você entendeu?
Ela me afastou com os braços e começou a andar em direção ao quarto, mas eu a agarrei pelo braço.
— O que está fazendo, vai me soltar ou não?
— Talvez você ainda não tenha percebido, mas foi sexo e não um estupro.
— Ótimo. Isso importa agora?
— Ele não vai querer ir com você e você não pode forçá-lo a ir se ele não quiser. Só estou sendo minimamente agradável com você para você não perder seu tempo.
A resposta de Joo Hae-young à minha gentileza foi, infelizmente, uma zombaria.
— E se ele disser que vai? Você o deixaria ir embora gentilmente?
— Claro que sim. Não tenho intenção de forçá-lo a nada.
— Então você está dizendo que devemos deixar tudo como está?
— Eu não vou abandoná-lo, então, por que se preocupar?
Neste momento, Joo Hae-young não tinha nem a força física, nem o direito legal de forçar Lee Soo-ha a sair. Enquanto eu continuasse firme, ela teria que admitir que não havia como tirá-lo desta casa agora.
Joo Hae-young cerrou os dentes em frustração.
— Muito bem, então você pode persuadi-lo a ir.
— Eu não quero.
— Você vai ter que fazer isso porque, como você disse, não há nada que uma pessoa não possa fazer se ela realmente quiser. Você acha mesmo que eu vou deixar você continuar fazendo algo tão sujo?
Infelizmente, esse não é o tipo de ameaça que funciona.
— Entendo. Boa sorte com isso.
Ao ler a zombaria em minha voz, os olhos de Joo Hae-young se estreitaram. Seu olhar era como uma arma.
— Me solta.
Joo Hae-young sacudiu o braço com força.
Obedientemente, retirei a mão.
— Eu estou te avisando. Tire a criança daqui o mais rápido possível. Será melhor para você, melhor para mim e melhor para ele se acabarmos com isso discretamente.
Não me ocorreu que aquela raiva acalorada fosse baseada no amor materno ou no apego ao seu filho. Era mais como uma rejeição visceral de um relacionamento deformado que desafiava o bom senso. Parecia não haver espaço para tolerância. Naquele momento, eu não passava de uma besta, um verme nojento, para Joo Hae-young.
Quando as ameaças não foram suficientes, ela me deu um soco no ombro com o punho e saiu da casa com sua bolsa.
Bam!
O som da porta da frente se fechando foi alto, como se buscasse representar sua raiva.
Um peso colossal deslizou dos meus ombros quando a protagonista da tempestade saiu.
Meus músculos relaxaram, e uma sensação de cansaço me invadiu. Eu estava extremamente tenso. Enquanto me sentava no sofá, esfregando o pescoço rígido, Lee Soo-ha saiu cautelosamente.
— Ela já foi?
Acenei levemente com a cabeça.
— Por enquanto.
— … Sinto muito.
— Pelo quê?
— Por ter te causado problemas.
Lee Soo-ha deve ter ouvido a conversa entre Joo Hae-young e eu.
Por mais insensível que eu fosse, não estava em condições de voltar a dormir.
— Fizemos isso juntos. Não é algo pelo qual você deva sentir muito.
— Mas…
— Além disso, ela estava pensando em mandá-lo para estudar no exterior.
Com um gesto de meu queixo, apontei para a pasta sobre a mesa. O olhar de Soo-ha seguiu o meu até a pasta.
— Dê uma olhada nisso se estiver interessado.
O olhar de Lee Soo-ha se deteve brevemente no documento. Ele não parecia estar interessado.
Eu sabia disso.
Isso não foi inesperado. O que eu não esperava era sentir uma sensação de alívio. Franzi a testa, intrigado com o alívio inesperado.
Levantei-me, pensando que precisava de algo para me animar: um café ou um cigarro. Ao mesmo tempo, Lee Soo-ha falou.
— Se eu disser que quero ir embora, você vai simplesmente me deixar ir?
Era uma voz baixa e rouca. Eu não sabia dizer se ele estava simplesmente embriagado com o sono ou se havia uma intenção emocional.
— Você está mesmo disposto a ir?
— Não.
A resposta, dada sem a menor hesitação, foi firme, como se minha pergunta anterior fosse irrelevante.
— Está bem, então.
— Mas e se eu dissesse que vou?
— Por que você está me perguntando sobre algo que não vai acontecer? Por que quer ouvir o que eu tenho a dizer?
Não sou fã desse tipo de diálogo do tipo interrogatório. Quando lhe perguntei diretamente sobre suas intenções, ele baixou o olhar. Depois sorriu amargamente e se afastou.
— Eu não quero ir por causa do Sr. Joo Haewon.
Naquele momento, percebi claramente a natureza de seus sentimentos por mim.
Aquelas palavras eram quase uma confissão. Mas, em vez de ficar feliz com isso, fiquei confuso.
Quando me perguntei se gostava dele ou não, a resposta era definitivamente a primeira. Quanto mais simples a pergunta, mais simples é a resposta. Eu gosto da Lee Soo-ha. Não tenho o hobby de ficar com pessoas de quem não gosto. Mas se os sentimentos dele são os mesmos que os meus… bem, eu não sei…
Na verdade, a natureza e o peso de nossos sentimentos são diferentes.
Para mim, que acredito em aproveitar as coisas a ponto de me arrepender quando elas terminam, os sentimentos de Lee Soo-ha pareciam um fardo mais pesado do que o necessário.
— E daí? Você queria que eu implorasse para não ir, certo? Lamento, mas não vou fazer isso, Lee Soo-ha.
Quando eu disse friamente, a expressão de Lee Soo-ha se enrijeceu.
De repente, ele ficou irritado.
Era típico de Lee Soo-ha colocar suas próprias expectativas desse lado e depois fazer birra sozinho, mostrando seu desapontamento gritante por não ser atendido.
— Você sabe qual é a melhor maneira de evitar a decepção?
— … Não esperar nada.
— Isso mesmo.
Não quero que nada seja mais importante para mim do que eu mesmo. Minha prioridade sempre foi eu mesmo e me sinto confortável com isso.
— É sua escolha estudar no exterior ou não. Faça o que quiser. Eu não vou impedi-lo.
Provavelmente é melhor continuar assim. Sem mais desgaste emocional. Assim não haverá um motivo para ficar triste quando acabar e para não se machucar, não importa como termine.
***
Uma semana se passou desde a visita surpresa de Joo Hae-young.
Nada havia mudado quanto a determinação de Lee Sooha. Entretanto, os materiais de estudo que ela havia deixado sobre a mesa desapareceram repentinamente um dia.
E eu o deixei em paz. Não interferi.
O lembrete direto sobre não esperar nada de mim causou uma mudança sutil em seu comportamento. Ele ficou menos falante e se recusou a fazer contato visual comigo. O mau-humor em sua expressão foi ficando cada vez mais profundo, e a série de mudanças parecia ser direcionada a mim. Era como se ele estivesse ressentido por eu não retribuir seus sentimentos e atender às suas expectativas.
Eu sabia o que Lee Soo-ha queria de mim. Era amor. Era um desejo de penetrar profundamente no meu coração, de ocupar o centro do palco, de me dominar.
Tudo o que eu podia dar a Lee Soo-ha era afeto. Apenas o suficiente para liberar meu desejo reprimido e terminar de forma limpa quando me cansar dele.
Em meio a essa sutil batalha, não tive notícias de Joo Hae-young por dias.
— Então… quem é ele?
Depois de me reunir com Kwon Woo-kyung para falar sobre um investimento, saímos para tomar um drinque. Eu estava precisando de um estímulo e a bebida veio na hora certa.
Kwon Woo-Kyung, que estava estranhamente quieto e observando todos os meus movimentos, começou a rir quando esvaziei a garrafa de whisky.
— Ele?
— Ah, não aja como se não soubesse. Você sabe, aquele ômega de antes.
O ômega que ele se referia, claro, era Lee Soo-ha. Era um assunto desagradável. Especialmente porque Lee Soo-ha estava me irritando.
Mastiguei meu lanche e respondi com indiferença.
— Não é ninguém.
— Ninguém?
Kwon Woo-Kyung retrucou, enchendo novamente meu copo.
— Você não está dormindo com um zé-ninguém.
— Por que acha que eu dormi com ele?
— Então você não dormiu?
Não, eu dormi.
Quando franzi a testa sem responder, o cara me pegou e deu uma risadinha.
— Está vendo? Eu pude ver o quão ansioso você estava para jogá-lo na cama e comê-lo. A pergunta é: por que você está sendo tão discreto?
— Eu?
— Sim, você.
Eu ri da convicção de Kwon Woo-Kyung.
Eu realmente não havia pensado em comê-lo, mas acabei fazendo, então não posso culpar seu julgamento.
— Mesmo que o garoto seja delicado, ainda assim é um homem. Você nunca dormiu como um homem, não é? “Eu nem gosto de ômegas” e, agora, olha só pra você.
— Eu sei.
— Você não acha que ele pode ser especial, já que te levou a fazer algo que normalmente não faria?
— Só porque dormimos juntos não significa que ele é especial.
— Oh, acabei de sentir o cheiro de um bad-boy.
Kwon Woo-Kyung estalou os dedos e disse com uma risada.
— Ah! Ei, me empresta ele.
Ele levou o copo à boca e fez uma pausa.
Em um instante uma sensação de desagrado percorreu todo o meu corpo.
— Deve ser interessante e exuberante o suficiente para querer tocá-lo. Então se ele não é nada de especial, deixe-me prová-lo também.
— …….
— Não estou apenas pedindo emprestado. Que tal uma troca? Você come o meu e eu como o seu. Vamos fazer swing uma vez.
Ele piscou um olho, abriu os braços e fez uma mímica de dança. Foi um ato besta que me fez sentir um merda.
Eu fiz uma careta.
— O quê? Você não gosta da ideia?
— Pare com isso. Você já passou dos limites o suficiente.
Em resposta à minha advertência, Kwon Woo-Kyung colocou a palma da mão sobre a boca.
— Oh, meu Deus! Eu ousei tocar na porra do temperamento de Joo Haewon. Eu me pergunto se disse algo tão impróprio assim?
— Okay, vá em frente, continue.
Fixei meus olhos afiados em sua língua. Compreendendo a ameaça implícita de que seria difícil trabalhar sem uma, ele encolheu os ombros e estendeu a mão.
— Tudo bem. Eu fui maldoso. Mas para alguém que disse que não era ninguém, sua reação talvez tenha sido transparente demais.
Eu estava agitado. Estava claramente ofendido. Se eu tivesse olhado, reagido puramente ao meu humor, o teria agarrado pelos cabelos, em vez de continuar com o copo na mão. Eu o teria derrubado na mesa e o deixado impossibilitado de falar. Às vezes, eu gostava de usar a violência como forma de descarregar minha frustração, mas isso ficou no passado, quando eu era apenas um adolescente. Agora não. Sei que o bem que advém do fato de sujar minhas mãos tem vida curta e vem com um resultado desagradável.
— A propósito, você tem verificado com muita frequência o seu relógio, não é?
Franzi a testa com seu comentário zombeteiro.
— Você levou aquele garoto para casa, não foi? É por isso que quer voltar para lá o mais rápido possível. Se alguém te dissesse que ele não era ninguém, apesar de tudo isso, você acreditaria?
Essa língua maldita. O que era ainda mais irritante era que eu não podia negar.
Quando cheguei em casa depois da minha bebedeira infrutífera, já passava da meia-noite. Soo-ha não tinha ido para a cama até aquela hora e estava sentado no sofá da sala, assistindo à TV.
— Bem vindo de volta.
A saudação direta me incomodou hoje. Após a saudação, Lee Soo-ha voltou sua atenção para a TV.
Eu não estava bêbado, mas meus nervos estavam afrouxados pelo álcool. Eu me esparramei no sofá e fiquei olhando para o programa que ele estava assistindo.
Era um programa de assuntos atuais bastante famoso. Em letras pequenas no canto superior esquerdo, o tópico era os direitos humanos dos ômegas, um tópico que normalmente só assistiria se estivesse entediado. O apresentador estava expondo os traficantes de seres humanos que sequestravam ômegas que não tinham para onde ir e os vendiam para alfas ricos. Ao ouvi-lo, não havia nada de particularmente surpreendente nisso.
A tela então mudou para um professor universitário, que começou a divagar sobre as razões pelas quais os ômegas estão sendo traficados.
『Como todos sabem, os ômegas, são os aqueles que melhor satisfazem as necessidades sexuais e reprodutivas dos alfas naturalmente fortes. Portanto, há muitos alfas que desejam ômegas. O problema é que a demanda é principalmente de natureza instrumental, como escravidão sexual ou barriga de aluguel. Acho que precisamos nos concentrar no motivo do surgimento dessa demanda anormal. Acho que ela se origina de uma antiga aversão social aos ômegas, em que geralmente os vemos como escravos sexuais de alfas ou como procuradores de alfas. Há um ditado famoso que diz: “Um ômega só tem duas opções: ou nasce rico, ou nasce prostituta.”』
A explicação do especialista foi precisa, nua e crua. Não pude deixar de dar uma olhada no rosto de Lee Soo-ha.
『Os alfas, por outro lado, são tratados como uma elite: superiores em todos os sentidos. De fato, os indicadores mostram que os alfas têm uma probabilidade consideravelmente maior de avançar seu status social e na alta sociedade do que os betas e os ômegas. O status social desses dois gêneros é diametralmente oposto, sendo os alfas os maiores beneficiários da discriminação e os ômegas as maiores vítimas da mesma. Em suma, podemos dizer que os alfas de status elevado relutam em ter ômegas de status baixo como parceiros públicos e há uma forte tendência quanto a isso.』
Novamente, foi uma análise válida.
Meu pai também. A insistência dele em se casar com uma mulher alfa com uma chance relativamente baixa de sucesso, em vez de uma ômega que pudesse carregar a semente de um alfa em seu ventre, era puramente devido à sua dignidade. Ele não poderia ter uma ômega, que seria menosprezada pela sociedade como sua esposa ou mãe de seus filhos.
『Se você observar as estatísticas oficiais, verá que o número de ômegas é significativamente menor do que o dos outros gêneros. Esse desequilíbrio extremo levou a uma escassez de ômegas, o que, por sua vez, levou ao surgimento de comerciantes que mercantilizam e vendem os ômegas, já que estão tão escassos.』
A imagem, então, mudou para uma entrevista com uma vítima de tráfico humano.
『Eles disseram que iriam me apresentar a um bom emprego, então eu os segui e, depois de cerca de duas horas no carro, chegamos a um prédio antigo. Disseram que era um hospital, então, eu confiei. Mas assim que entrei, a atitude deles mudou. Me agarraram e me trancaram em um quarto e, a partir de então, só me deram comida e remédios três vezes por dia.』
— Eu já fui apresentado a eles.
Lee Sooha, que estava olhando para a tela em silêncio, murmurou.
— É um tipo de fábrica. Eles disseram que pagariam 300.000 won por dia para trabalhar lá. Eles lhe dão um quarto e três boas refeições por dia. O trabalho é fácil: tudo o que tem que fazer é ficar quieto.
É um estratagema óbvio, mas também é uma boa isca para alguém como Lee Soo-ha, que vivia na pobreza. Os traficantes de pessoas têm uma capacidade incrível de sentir o cheiro da miséria e ele era um alvo perfeito em mais de um aspecto.
— Eu estava pensando em ir.
— O quê?
— Disseram que pagam bem, então achei que não passaria fome.
— Que bom que você não aceitou.
Quando se está em um lugar como esse, é difícil sair dele por conta própria. Se tiver sorte, você é vendido para o cara certo, mas geralmente é para um bordel.
— Mas agora que olho para isso, não parece tão ruim.
É assim que você se sente quando assiste a um vídeo de uma vítima de tráfico chorando de dor? Foi uma declaração tão ridícula que me fez ficar sóbrio em um instante.
— Do que você está falando?
— Quanto mais assisto ao vídeo, mais eu percebo que não teria me importado de entrar lá, viver como gado e ser vendido para alguém como Joo Haewon.
— Mas que merda é essa.
— É muito mais simples. Dar o meu corpo, e dar à luz a um bebê… Eu não esperaria nada de um relacionamento como esse. Seria apenas uma ferramenta. Você cuidaria de mim porque pagou pelo meu corpo e, se eu desaparecesse, seria um desperdício. Bem, é claro que eu ficaria preocupado com o fato de ser jogado fora no futuro, quando não tiver mais serventia, mas… Acho que você está certo: se não esperasse nada, não ficaria desapontado.
— …….
— Ah, bem, e não precisa se preocupar com o fato de sermos tio e sobrinho.
Acrescentando uma risada autodepreciativa no final, Lee Soo-ha olhou de volta para mim.
— Vi minha mãe hoje. Ela quer que eu vá para o Canadá, caso contrário, terá que me internar em um hospital psiquiátrico. Quando perguntei a ela por que tinha que fazer isso, ela disse que sou louco, que tenho feito coisas sujas com meu tio. Ah, e eles vão me operar. É uma histerectomia. Ela disse que, com isso e inibidores, eu poderei viver como uma pessoa normal.
— Então sua conclusão é?
— Bem, ainda estou pensando.
— O quê?
— Não sei se prefiro estar no Canadá ou em um hospital psiquiátrico.
— Achei que você tinha dito que não iria.
— Mas acho que vou ter que ir de qualquer maneira, porque meu tio não tem muito apego por mim.
Tio. De repente, senti uma sensação de rejeição por aquele título bem-intencionado.
Esse simples título revirou meu estômago, e ele continuou, com os lábios curvados em um sorriso inofensivo.
— Não é que eu esteja particularmente ressentido. Me desculpe por estar um pouco atrasado em compreender o assunto.
— Do que está falando?
— Sou um ômega.
— …….
— Se não fosse um ômega, meu tio não teria prestado atenção em mim.
— Então você não se importaria comigo se eu não fosse um alfa?
— Claro que sim. — a resposta saiu sem pensar duas vezes, cheia de convicção. — Acho que eu teria gostado mesmo se meu tio não fosse um alfa.
Essa convicção e resignação rapidamente corroeram minha arrogância e presunção.
— Então está indo embora porque eu não te valorizo ou algo assim?
— Bem, isso é um pouco diferente. Se você está bem sem mim, acho que o melhor é eu ir embora. Você não precisa ter problemas desnecessários por um cara que não significa nada.
— Haaa…
Fechei os olhos e inclinei minha cabeça para trás contra a dor de cabeça latejante. Uma risada semelhante a um suspiro escapou de meus lábios entreabertos.
— Estou indo embora…
Não acredito que eu estava tão convencido de que ele não iria, e que apenas algumas palavras de Joo Hae-young o fizeram mudar de ideia tão facilmente.
Vou embora. Vou para o Canadá ou para um hospital psiquiátrico.
Vai desaparecer diante dos meus olhos. Agora você vem e faz o que quiser…
Os nervos que haviam sido afrouxados pelo álcool de repente se tornaram tão afiados quanto uma faca pontiaguda.
Passei a mão pelos cabelos e endireitei a cabeça. Então encarei Lee Soo-ha com um olhar penetrante.
Eu disse que o deixaria fazer o que quiser. Disse que não iria impedi-lo, que não me importava. Mas o que eu realmente queria dizer a ele era “Você não vai a lugar nenhum”.
Eu não iria te segurar se você quisesse ir embora, certo? Não. Foi uma arrogância que só foi possível porque eu tinha certeza de que ele não iria embora. Na verdade, só agora estou percebendo que não estou nem perto de estar pronto para deixá-lo ir.
Eu não tinha a intenção de enviar Lee Soo-ha para lugar nenhum. A vontade de dar um soco na cara de Kwon Woo-kyung, que sugeriu que deveríamos trocar de parceiros por uma noite, foi mais pungente do que qualquer outra emoção que senti recentemente. Isso me fez perceber o quanto eu estava obcecado e possessivo com Lee Soo-ha.
Tenho que admitir que, às vezes, os olhos de outras pessoas são mais precisos. Kwon Woo-kyung viu isso corretamente. Que ele é especial para mim.
Foi estranho. Quando ele esperava amor da minha parte, eu me afastei, mas quando ele se resignou e disse que não esperava nada de mim, eu senti uma sensação de irritabilidade.
— Não vou deixar você ir embora, seja para o Canadá ou para um hospital psiquiátrico. Nem pense em ir.
Lee Soo-ha balançou a cabeça, atônito, talvez se perguntando porque eu mudei de ideia tão de repente.
— Por quê?
— Porque preciso de você.
Esse não é um motivo suficiente para segurá-lo?
— Por que você precisa de mim?
Lee Soo-ha exigiu um motivo mais específico para conclusão. Eu sabia o que ele queria ouvir.
— Porque você acha?
— ……
— Não quero que você vá. Eu não quero te compartilhar com ninguém. Quero que você apenas fique comigo tranquilamente, mas porque?
Os olhos mortos, sem brilho e cheios de resignação do menino, começam a brilhar com vida.
— Eu acho que…
Lee Soo-ha abriu a boca, com os olhos focando claramente em mim pela primeira vez em muito tempo.
— Acho que Joo Haewon está apaixonado por mim.
Agarrei a parte de trás da cabeça de Lee Soo-ha e o puxei para mais perto. Sussurrei antes que nossos lábios se tocassem.
— Então que seja assim.
Se obsessão e possessividade também eram formas de amar, eu tinha que admitir. Se o amor era o que eu precisava para tê-lo, eu não tinha escolha. Eu só poderia amá-lo.
°
°
Continua…
Tradução: Rize
Revisão: MiMi
* * *