Capítulo 01
N/MiMi: MacGuffin é um recurso de enredo que coloca os personagens em movimento e conduz a história. Pode ser um objeto, ideia, pessoa ou até mesmo objetivo no qual os personagens perseguem ou que serve de força motriz para suas ações.
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Muitas vezes me pergunto…
As memórias de outras pessoas, como eram na sua forma inicial?
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O começo das minhas lembranças é apenas branco… assim como tudo que me cercava.
Teto branco, paredes brancas, cama branca, roupas brancas.
A única coisa que tinha cor era o meu corpo. Todo o resto era branco. O estranho é que o mesmo se aplicava à minha mente… era apenas um grande vazio, como se alguém a tivesse apagado a força.
Por muito tempo, desde que a minha cabeça começou a gravar as coisas, fiquei preso naquele vazio. Por isso veio a curiosidade. É o mesmo para outras pessoas? O início das lembranças são tão sem sentido e triviais como as minhas?
Minha pobre vida cotidiana se repetia de uma forma muito simples: três vezes ao dia pessoas vestindo roupas brancas, como eu, trazem comida e remédios. Eles me observam através de uma pequena janela retangular transparente que fica na porta até que eu termine minha comida e tome os remédios. Após comer, adormeço enquanto olho fixamente para a janela. Enfim, é assim que passo os dias.
Uma vez por semana, eu era arrastado para algum lugar, colocado em uma máquina e fotografado. Depois disso, encontrava um homem de jaleco branco que constantemente me fazia perguntas e persistia em induzir respostas. Nessas ocasiões, me sentia como uma criatura sendo dissecada. De qualquer forma, é difícil contar os detalhes da entrevista porque eu esquecia tudo quando acabava.
Havia apenas um meio de dar sentido à tediosa e mecânica rotina diária: os livros. O espaço quadrado no qual eu estava confinado estava sempre equipado com alguns livros, e estranhamente, embora eu não me lembre de ter aprendido nada, eu podia ler as palavras dos livros sem dificuldade e não era muito difícil para mim entender o que havia neles.
Em outras palavras, eu era como gado: uma criatura mantida em uma gaiola, manejada e nutrida.
Quem sou, onde estou, o que estão tentando fazer comigo, qual é o propósito do medicamento que me dão três vezes ao dia e o que papel ele desempenha no meu corpo… todas essas perguntas tinham uma vida útil curta. As perguntas eram como uma chama. Um dia, de repente, cintilavam em minha mente, agitando minha cabeça, só para serem extintas no momento seguinte.
Presumivelmente, o fôlego que expiro é uma respiração sem valor que seria extinta à força por alguém quando tiver cumprido seu propósito. Entretanto, eu não me senti frustrado. Ao contrário, me sentia com sorte por levar uma vida simples onde tudo o que tinha que fazer era comer, ler e dormir. Eu estava feliz nessa época em que não precisava pensar em nada.
Provavelmente eu viveria tranquilamente sozinho assim e morreria da mesma forma. Desapareceria no ar, não deixando nenhum vestígio no mundo. Não parecia tão ruim.
Até que esse dia chegou.
Não há outra maneira de expressá-lo. Foi um daqueles dias, que começou como qualquer outro.
Acordei de manhã e olhei pela janela sem expressão. O céu azul estava claro, sem uma única nuvem. As árvores brilhavam com a luz do sol e o canto suave dos pássaros era ouvido. O mundo além da janela estava perfeito. Então, pela primeira vez em muito tempo, senti vontade de dar um passeio.
O funcionário trouxe o café da manhã e os remédios na mesma hora de todos os dias. Quer eu gostasse ou não, era obrigado a tomar. Se não comesse, era forçado a me alimentar.
Depois do café da manhã, era hora de ler um livro, tirar uma soneca, acordar, almoçar, caminhar um pouco, voltar, tomar banho, jantar e dormir… confesso que mal conseguiria passar por um dia tão tedioso como esse. Como todos os outros. Eu sabia que seria um desses dias.
Mas não foi assim. Eu não sabia até este momento que esse seria o primeiro dia de uma rotina completamente diferente.
Aconteceu quando terminei o café da manhã, os remédios e abri o livro que tinha começado a ler ontem.
Não muito depois de sair com uma tigela vazia, o homem voltou e estendeu algo para mim. Quando olhei de perto, eram roupas.
Para quê?
Fiquei intrigado e inclinei a cabeça. Isso porque a cor e a forma das roupas eram totalmente desconhecidas.
Sempre usei roupas brancas simples. Isso era tudo o que me traziam. Mas dessa vez foi diferente. As roupas na minha frente eram calças azul-claro e um moletom preto.
Quando hesitei em usá-las por sentir uma sensação de rejeição, já que parecia diferente do que sempre costumava usar, o homem me incentivou com uma voz contundente.
— Apresse-se e coloque.
Eu, então, relutantemente coloquei as roupas que ele me deu. Por fim, fui conduzido para fora pelo cuidador. O lugar para onde me dirigi não era o calçadão em que costumava caminhar, mas para a frente. Para o portão principal do prédio.
A primeira coisa que vi foram dois carros pretos de aparência elegante. Posteriormente, homens grandes e um homem de jaleco branco apareceram na frente dos carros.
Estranhamente, os homens grandes pareciam todos iguais, como se tivessem sido arrancados de uma fotografia. O mesmo acontecia com as roupas que usavam. Eles estavam vestidos com ternos pretos, o que lhes dava uma sensação rígida e angular.
Cores estranhas, pessoas estranhas, atmosfera estranha.
Meus olhos rolavam descontroladamente. Senti os nervos que eu nem sabia que existiam começarem a esquentar.
Logo, o homem de preto à frente do grupo e o homem de jaleco branco apertam as mãos. Simultaneamente, a porta do carro se abriu. Não pensei em nada, mas meu corpo sentiu algo e deu um passo para trás por conta própria. Não havia explicação lógica para o sentimento avassalador de rejeição que senti naquele momento. A porta escancarada do carro parecia a boca de um monstro.
Mas não havia escapatória: minha tímida recusa não surtiu efeito e acabei sendo empurrado para dentro do carro.
O carro acelerou rapidamente para longe do prédio. Fiquei olhando o edifício que considerei como casa diminuir cada vez mais pela janela do carro. Estava sendo forçado a deixar o local onde morei durante muito tempo. Intuitivamente, eu sabia que nunca mais voltaria. Mas em nenhum momento me senti triste. Só estava um pouco nervoso.
No momento em que o prédio desapareceu completamente de vista, comecei a roer minhas unhas. O som de trituração parecia ser irritante, então um dos homens, que mais pareciam paredes, sentados ao meu lado, agarrou meus pulsos e os puxou para baixo. Quando minhas mãos foram seguradas, não tive escolha a não ser morder os lábios. O gosto ferroso de sangue gradualmente se espalhou em minha língua.
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A paisagem do lado de fora da janela mudava constantemente e, em algum momento, esqueci minha ansiedade. Observei a cena em movimento com a mente novamente vazia. A curiosidade da paisagem desconhecida parecia evaporar a ansiedade.
Infelizmente, meus olhos, que estavam acostumados com o cenário estático e incolor, não suportaram por muito tempo a paisagem colorida que mudava constantemente. Logo, minhas pálpebras começam a descer pesadamente devido ao cansaço e, eventualmente, adormeci sem perceber.
Deve ter passado muito tempo.
O ruído raso que zumbia tocava meus ouvidos e a leve vibração transmitida ao meu corpo subitamente cessaram. Assim, voltei à realidade.
O carro parou em frente a um muro alto que se erguia imponente e uma sólida porta de ferro que se encontrava no meio dele. O portão de ferro também era preto. Saí do carro e entrei, rodeado por estranhos.
Ao subir as escadas feitas de pedra, um grande jardim apareceu. No final do jardim, onde árvores abundantes e amplas planícies se harmonizavam lindamente, existia uma mansão.
Parei por um momento na entrada do Jardim e olhei para a mansão que enchia meu campo de visão. As paredes externas de madeira e concreto branco criavam uma sensação limpa e elegante. Tive a forte impressão de que a casa foi feita para ser exibida e não para ser habitada.
— Vamos, entre.
Não houve pausa para observar em volta. Fui arrastado direto para a mansão.
Era um interior espaçoso. A luz do sol entrava pelas grandes janelas que ocupavam todo um lado da parede, aquele brilho ofuscava meus olhos. E finalmente…
Eu o conheci.
Ele estava parado lá. Iluminado por aquela luz cintilante.
O homem, sentado no final da mesa, olhou fixamente para mim com seus lindos olhos claros. Por muito tempo, desde o momento em que entrei na sala, sem desviar o olhar nem por um segundo.
Era um olhar observador. Eu podia sentir a temperatura fria daqueles olhos. Talvez fosse o mesmo que olhar para os olhos de um réptil.
Apesar do olhar intensamente observador, não me senti desconfortável. Em vez disso, eu o observei da mesma forma.
Um homem. Ele parecia mais velho do que eu. A cor de seus olhos era brilhante sob a luz, e suas feições eram claras e nítidas, como se alguém as tivesse feito intencionalmente. Sua aparência não parecia pertencer à mesma raça que a minha. Não costumava interagir com outras pessoas, então não tinha um padrão para julgar sua aparência, mas eu sabia que ele possuía um nível raro de beleza. Entretanto, sua perfeição física me fez sentir uma estranha sensação de distância e não um sentimento de atração.
Depois de um tempo, o homem, que estava me observando persistentemente, de repente se levantou. Foi um movimento sutil, mas bastante intimidador devido ao seu grande corpo. No calor do momento, dei um passo para trás sem perceber.
Independentemente da minha reação cautelosa, o homem se aproximou de mim lentamente. Era um ritmo lento e firme, vagaroso, mas descuidado.
Conforme ele se aproximava, naturalmente ficava maior. Logo, traços profundos e delicados preencheram minha vista. Foi só quando o vi de frente que percebi. Minha mente preguiçosa não conseguiu captar, mas meu corpo notou imediatamente.
Foi uma sensação de rejeição, e……
E…
— …!
De repente, ele abaixou a cabeça e encontrou meu olhar. Nesse momento, um cheiro me atingiu como uma tonelada de tijolos: um aroma perfumado e doce, mas, de alguma forma, agressivo. Logo percebi ser o odor corporal daquele homem. Mas era estranho. Era como se eu já tivesse sentido esse cheiro antes. Mesmo que fosse a primeira vez que via o homem, era estranho.
Inclinei a cabeça e mergulhei no odor corporal acompanhado por uma estranha sensação de déjà-vu. Quanto mais eu me deixava envolver por aquele doce aroma, mais sentia que estava me apaixonando por ele. Senti meus nervos, que estavam tensos com a atmosfera, gradualmente relaxarem.
Então aconteceu. O homem tirou a mão do bolso e a estendeu para mim. Quando senti um calor fresco em minha pele, minha relutância em relação a ele criou uma barreira de espinhos.
Desviei a cabeça evitando o toque do homem. Mas não só isso. Como se isso não fosse suficiente, afastei sua mão com a parte de trás da minha. Então, me afastei surpreso. Em vez de ficar surpreso quando foi atacado, ele apenas olhou para mim com uma expressão calma no rosto.
De repente, comecei a escutar um som estranho. Era barulhento. Tampei minhas orelhas, e apenas direcionei os olhos para o homem. Sua boca ainda estava fechada. Mas seus olhos frios e profundos pareciam dizer muito para mim… o problema é que… não conseguia interpretá-los.
Eu me sentia cada vez mais desconfortável. Me sentia relutante ao olhar para o homem e estranho com a pequena troca de toques.
Quando minha relutância em relação a ele atingiu seu pico, não pude resistir e abri minha boca primeiro.
— Quem é você?
Ele riu da minha pergunta. Não sei como descrever essa risada. Devo dizer que foi… estranha? O riso parecia alegre e vaidoso… Era muito estranho.
— Quem você acha que eu sou?
Sua voz, assim como sua aparência, tinha um ar arrepiante. O que ele disse definitivamente não era uma resposta para a minha pergunta.
Eu não o respondi. Apenas mostrei a ele um olhar desconfiado. Então, ele perguntou novamente.
— Quem você pensa que eu sou?
— …
Eu nunca o havia visto antes. Não sabia dizer que tipo de pessoa ele era baseado em suas feições e vestimentas bonitas. Não acredito ser capaz de julgar os outros com base em sua aparência, quando nem sei meu próprio nome e idade.
Assim sendo, se eu tivesse que definir o que era aquele homem, seria….
— Um estranho.
Era isso.
Apenas um estranho. Alguém que não tem nada a ver comigo até agora.
Com a minha resposta, ele baixou o olhar e sorriu novamente.
Os longos cílios, cobertos pela luz, tremeram levemente. Era como o bater de asas de uma borboleta.
— Sim, claro. Vamos com isso.
Eram palavras incompreensíveis, como seu sorriso, que eu não sabia identificar qual era a sua intenção.
Com uma carranca, ele acrescentou.
— Vamos começar como estranhos.
— ….
— Saiba apenas que cabe a você decidir em quem eu me tornarei a partir daqui.
Aquelas palavras soaram como um conselho e, de certa forma, uma ameaça.
Esse foi meu primeiro encontro com ele, na minha memória.
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Continua…
Tradução: Rize
Revisão: MiMi
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