• Capítulo 126
Capítulo 126
— Chegou o sorvete!
Depois da distribuição, era a hora do lanche. Assim que ouviram a palavra “sorvete”, as crianças pequenas correram. Por mais que lhes dissessem para fazer fila, não adiantava. Cercaram a pessoa que segurava o sorvete como se a sitiassem, cada uma estendendo as mãos. Algumas, com planejamento cuidadoso, até conseguiram pegar dois.
— Nossa, eles são incríveis, não são?
Enquanto ele ficava afastado observando a cena, uma voluntária que tinha se aproximado sem ser notada falou com Woo Hyunse. Ele não sabia se ela tinha recebido o sorvete em meio ao caos ou se o tinha recebido antes para dar às crianças, mas ela segurava dois. Ela lhe entregou um, então ele o pegou por ora.
— As crianças nunca te pedem para comprar coisas?
Enquanto Woo Gibbeum era abordada com frequência, as crianças não chegavam perto de Woo Hyunse. Mesmo ele parecendo gentil, suas orelhas inchadas como bolinhos e a cicatriz perto de seu pescoço pareciam evocar uma aversão instintiva. Ele mexeu na orelha, que tinha sido limpa de modo que não havia sinais de sangue, mas que ainda não estava totalmente desinchada, e respondeu apaticamente:
— Não.
A voluntária riu, dizendo que ele tinha sorte, e continuou falando. Woo Hyunse achava incômodo conversar, mas, como não tinha mais nada para fazer, permaneceu em silêncio.
— Quando você faz trabalho voluntário num orfanato, sempre tem uma ou duas crianças que são bem espertinhas. Na verdade, elas só são carentes de afeto, mas pode ser bem problemático para os voluntários.
— É mesmo?
— Especialmente aquele menino. O nome dele é Kwon Yuwon, e ele é como o chefe residente daqui. Ele é uma raposa. Já está usando os encantos dele. Cuidado você também. Se ele vier e pedir para você comprar alguma coisa, você pode acabar comprando sem nem perceber.
A voluntária apontou para uma das crianças do grupo. Era um menino bonito. Seus olhos puxados eram afiados e brilhantes. Mesmo naquele momento, ele estava agarrando a manga de um voluntário que parecia bastante ingênuo e implorando por sorvete. O voluntário, encantado por seu rosto fofo, entregou sua parte para a criança.
Mas Kwon Yuwon não comeu seu prêmio — em vez disso, correu com ele na mão até uma criança sentada num canto. A criança, que estava agachada desenhando no chão com o dedo, ergueu lentamente a cabeça ao chamado de Kwon Yuwon.
Bem nesse momento, alguém passou, bloqueando sua visão, então ele não conseguiu ver se a criança tinha recebido o sorvete ou recusado. Ele estava prestes a observar um pouco mais quando ouviu a risada forçada de Woo Jung-ryeol atrás de si, fazendo-o fazer uma careta e se virar.
Ele saiu do auditório e procurou um lugar quieto e isolado. Seguindo um cheiro perfumado que vinha de algum lugar, encontrou um banco coberto de glicínias atrás do prédio. Cachos de flores como cachos de uva pendiam dos galhos.
Como não havia ninguém por perto, esticou as pernas no banco e se sentou confortavelmente. Estava pensando em só matar o tempo até a hora de ir embora. Se fosse pego antes disso, não havia nada que pudesse fazer.
Cruzou as pernas e apoiou o cotovelo no banco, erguendo a cabeça. Os cachos de flores pendiam perto o bastante para tocar seu nariz. Estava prestes a estender a mão para colher um, tentado pela fragrância, quando sentiu uma pequena presença por perto. Baixou a mão e virou a cabeça.
Uma criança estava atrás da parede, espiando com apenas metade do rosto à mostra, parecendo hesitante. Seu rosto pálido, como uma flor de magnólia, parecia familiar de algum jeito.
Um instante depois, ele se lembrou de onde o tinha visto. Era a criança a quem o espertinho Kwon Yuwon tinha entregado seu prêmio.
Ele não teria se importado com quem ia ou vinha, mas, ao ver os olhos grandes da criança, não conseguiu se obrigar a ser indiferente. Aqueles olhos, que pareciam que se encheriam de lágrimas no momento em que você o tocasse, despertaram o interesse do outro garoto.
— Olá.
Achando que ele poderia estar assustado, exibiu o sorriso mais gentil que conseguiu e o cumprimentou. A criança olhou para Woo Hyunse pelo canto do olho, depois saiu furtivamente de trás da parede. Seu olhar vagou perto de sua mão, e ele se perguntou o que ele estava olhando, só para perceber que era o tubo de sorvete que ele tinha trazido distraidamente porque não tinha onde jogar fora.
— Você quer comer isto?
Como ele não gostava de doces mesmo, ofereceu-o a ele, e a criança hesitou, remexendo-se. Mas então, como se tivesse se decidido, caminhou até ele com cautela. No entanto, não conseguiu abrir a embalagem e se atrapalhou. Olhou para Woo Hyunse uma vez, depois de volta para o sorvete, com o rosto desanimado.
— Me dá aqui.
Ele rasgou a embalagem, tirou a tampa e a colocou em sua mão. Só então a criança se sentou ao lado dele, balançou as pernas e pôs o sorvete na boca.
Depois de se concentrar em comer por um tempo, a criança de repente olhou para Woo Hyunse. Franziu a testa como se estivesse ponderando algo, então de repente lhe ofereceu o sorvete.
— Você quer que eu coma?
Ele não respondeu, apenas assentiu. Comovido por sua sinceridade, abriu a boca, mas, pouco antes de o sorvete alcançar seus lábios, a expressão da criança ficou séria. Seus lábios avermelhados também estavam ligeiramente entreabertos. Ele sentiu que a criança começaria a chorar se ele realmente desse uma mordida, então riu e endireitou as costas.
— Come tudo você.
A expressão sombria imediatamente se iluminou de novo. A criança foi mordiscando o sorvete. Sugou até a última gota e então se levantou para jogar a embalagem na lixeira.
Tendo baixado completamente a guarda com apenas um sorvete, a criança logo se enfiou no colo de Woo Hyunse. Como um cachorrinho encontrando uma almofada macia, remexeu o traseiro para se acomodar. Woo Hyunse, que de repente tinha se tornado uma cadeira, ficou surpreso, mas não afastou a criança friamente.
“Às vezes, há crianças que pedem para serem abraçadas. Mas, por favor, não as mimem, se possível. Se elas se acostumarem, será difícil para os próximos voluntários.”
Ele se lembrava vagamente do aviso que tinha recebido de um funcionário. Mas não se importou. O calor da criança aninhada em seus braços era tão morno como se tivesse absorvido o sol de maio. Como não havia ninguém olhando, Woo Hyunse pensou “Ah, que se dane” e envolveu o braço com firmeza em volta da cintura da criança para impedi-la de cair.
A criança, de bom humor, balançava as pernas, que não alcançavam o chão, e cantarolava uma canção. Curioso sobre que canção era, aguçou os ouvidos. Ele achou que seria uma canção infantil, mas era uma música antiga do passado.
Fly me to the moon.
Let me play among the stars…
Não era uma escolha de música bastante madura para uma criança cantar? O tom e o ritmo estavam quase completamente errados. Mas, ainda assim, ele cantava com dedicação, com um ciciar, com os dois dentes da frente faltando. Woo Hyunse enterrou a cabeça no pescoço da criança e sacudiu os ombros, rindo. Ele não tinha tido nada para rir ultimamente, mas, graças àquela criança, estava preenchendo o valor de um mês de risadas.
Depois de terminar a canção, a criança olhou de relance para Woo Hyunse com um olhar acanhado. Ele não disse nada, mas ele sabia que estava buscando elogios. Pigarreando, bateu palmas.
— Você canta muito bem.
Só então a criança sorriu largo e torceu o corpo. Assim que ele soltou o braço, a criança se remexeu e se sentou de frente para Woo Hyunse dessa vez. Então, estendeu a mão com cautela em direção à sua orelha. Sua mão delicada, como uma folha de primavera, roçou a parte com o curativo.
— Isto dói muito?
— …
Por um momento, ele esqueceu o que dizer e olhou para a criança. Ele estava simplesmente perguntando sobre sua orelha inchada, mas, para Woo Hyunse, soou como uma pergunta com um significado mais profundo por trás. A mãozinha quente da criança parecia acariciar mais do que apenas o ferimento em sua orelha.
— Não. Não dói nada.
— Sério?
— Sério.
Ao ouvir a confirmação, a criança sorriu radiante. Não escondeu o fato de que estava sem os dentes da frente. Uma brisa soprou entre os dois. Flores cor de lilás caíram como chuva sobre seu cabelo preto e seus pequenos ombros. A criança balançou a cabeça e, dessa vez, as pétalas pousaram na mão, na coxa e nos tênis de Woo Hyunse.
Woo Hyunse não gostava particularmente de crianças. Elas choravam e choramingavam por qualquer coisinha, e eram barulhentas. Mas essa criança era diferente. Era como um animalzinho pequeno, jovem e frágil. Um que ainda não tinha deixado o abraço da mãe.
Seus olhos eram claros como um riacho, e cada ação era cautelosa e encantadora. O jeito como acariciou sua orelha, o jeito como mexia os pés no ritmo da canção.
Ele poderia adotar uma criança assim como irmão mais novo.
Ou até como filho.
— Você quer ser meu filho?
Claro, era uma sugestão ridícula. Era uma pergunta repentina, vinda do nada, mas, mesmo que ele achasse que era uma piada, ele não poderia empurrar essa criança adorável para debaixo da sombra de Woo Jung-ryeol. Já bastava ele e Woo Gibbeum passarem pelo inferno.
A criança piscou os olhos grandes lentamente. Um instante depois, baixou a cabeça e então, pouco depois, a balançou. Foi uma escolha sábia.
Ouvindo passos correndo em sua direção, Woo Hyunse voltou o olhar primeiro. A criança que a voluntária tinha chamado de espertinha estava olhando para o banco, ofegante. A criança sentada em seu colo se sobressaltou e desceu rapidamente. Lamentando o calor que tinha desaparecido de repente, Woo Hyunse cerrou o punho por um momento e então o soltou.
— Onde você estava? Eu estava procurando você!
— Você estava me procurando?
— Estava. Eu ia te dar um lanche, mas não te achava…
Kwon Yuwon segurou a mão de Kwon Siyul com força e o puxou para si. Escondeu-o atrás das costas e fuzilou Woo Hyunse com olhos desafiadores. Parecia exatamente um gato selvagem com o pelo eriçado.
— Eu te falei para não falar com estranhos.
— Ele é legal… Ele até me deu sorvete.
— Você não pode confiar em adultos. Vamos. Vamos entrar.
Kwon Yuwon puxou a criança hesitante. Antes de deixar o banco, a criança olhou para trás. Quando seus olhos encontraram os de Woo Hyunse, ele sorriu, sua boca formando uma meia-lua. Aquele sorriso radiante era tão brilhante quanto as rosas que cresciam densas na cerca e tão encantador quanto as hortênsias em plena floração.
— …
As flores de glicínia caíram como uma chuva na brisa. Depois de afastar o cabelo desgrenhado, a criança não estava em lugar nenhum.
Só Woo Hyunse ficou sozinho. Logo sacudiu a calça e se levantou. Antes de deixar o banco, olhou para trás por um momento, assim como a criança tinha feito. Os cachos de flores cor de lilás dançavam suavemente, espalhando uma fragrância que se parecia com a criança.
Woo Hyunse inalou o cheiro fundo em seus pulmões. Era um cheiro que parecia que permaneceria em sua memória por muito tempo.
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Fim da História Extra ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna