⋆。˚ ◉ Capítulo 03
Capítulo 3
MANSAENGJONG
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— Cha Seowoon, não está feliz em me ver?
— ……Estou.
A primeira pessoa com quem ele falou depois de meio mês foi Cahaya…… Sem querer, lembranças antigas vieram à tona. No primeiro dia do primeiro ano do ensino médio, tinha sido Cahaya quem falou primeiro também.
Ele tinha dado uma resposta capaz de constranger o cara, então não dava para adivinhar o que viria em seguida. O mais previsível provavelmente era uma pergunta sobre por que Cha Seowoon tinha sumido sem dizer nada.
— Vamos jantar.
Não era o que ele esperava, mas o cheiro de frango assado na churrasqueira elétrica ainda estava no ar, então soava plausível o bastante.
— Já comi.
— Então vamos fazer um lanche da madrugada.
— Estou de dieta.
— Ah, então você quer virar um esqueleto?
Comer junto provavelmente não era o ponto principal. Parecia mais com aquela ameaça de pai: “Tem muitos olhos aqui, então vamos conversar em casa.”
— A gente vai para lados diferentes de qualquer jeito. Vocês para o nordeste, eu para o sudeste.
Seowoon apontou para cada zona com o dedo.
— A gente também vai para o sudeste.
Cahaya respondeu, puxando a máscara de volta para cima. Ele deslizou de volta para a bainha a espada que não tinha uma gota de sangue sequer.
— Vice-líder, você está falando sério mesmo?
Kangsan, que de algum jeito já tinha fechado a distância, exibiu abertamente uma expressão magoada. Seowoon olhou para ele sem demonstrar nenhuma emoção em particular.
— Você tem passado bem?
— Não! Eu não passei nada bem. O que é isso tudo, com essa cara de coitado, hyung.
Kangsan, cuja cabeça era dois tamanhos maior que a de Seowoon, arrancou dele o saco de dormir e a mochila.
— Sei que você é forte, mas devolve as minhas coisas.
Seowoon falou num tom que dizia que ele não estava a fim de desperdiçar energia.
— Nem pensar. Isso aqui é refém.
— Eu já disse que vou para o sudeste. A base de vocês fica no nordeste.
— Você falou “de vocês”…? Vice-líder, vai ser assim mesmo?
Mais à frente, pessoas e os filhotes monstruosos ainda lutavam com força, e mesmo assim Kangsan encenava um melodrama inteiro agarrado à bagagem roubada. Pelo menos parecia um pouco mais fácil graças a Cahaya ter eliminado um deles.
— O que você quer de lanche da madrugada?
Cahaya, que parecia mergulhado em pensamentos, perguntou de repente. Depois de repassar a escolha do cardápio, começou a caminhar naturalmente na frente, como se assumisse que Seowoon o seguiria.
— ……Porra, por que eu tenho que……?
Foi uma voz que Cahaya não teria escutado. Só Kangsan, parado ao lado dele, bateu os pés no chão diante da reação fria de Seowoon.
— Seowoon hyung, eu imploro, larga essa raiva. A gente sabe que pisou na bola e refletiu muito. Sério mesmo. Todo mundo estava esperando você. Sem você, a nossa guilda virou uma bagunça total.
“E não virou um paraíso?”
Seowoon engoliu o sarcasmo de volta pela garganta.
— Vocês se virem sozinhos. Eu tenho a minha própria vida para viver, não tenho?
Seowoon marchou até Cahaya, que tinha parado de andar. Diante do olhar questionador que perguntava por que ele não estava seguindo, a irritação subiu. Tanto esse desgraçado quanto Kangsan não tinham a menor ideia de como a situação era séria, e era por isso que estavam agindo daquele jeito.
— Vai logo para o nordeste. Eu vou pelo meu próprio caminho, então não me sigam.
Então os olhos acima da máscara se dobraram em duas fendas compridas. Ele não sabia dizer se era um escárnio ou só um sorriso. A única coisa que o incomodava era a pinta embaixo do olho, aquela que estranhamente sempre mexeu com os nervos dele desde os tempos de escola. Não era perto de mamilo nem de genitália, e ainda assim, para Seowoon, aquela pinta tinha algo de sugestivo.
De repente, Cahaya abaixou a cabeça até a altura de Seowoon.
— Você não sabia? A gente devorou o Sudeste.
O tom brincalhão trouxe de volta lembranças dos velhos tempos. Quando Cahaya se endireitou de novo, o olhar afiado de Seowoon subiu junto automaticamente.
— É, parabéns. Já que devorou o sudeste, você nem vai precisar de lanche da madrugada para se sentir cheio.
— Seowoon hyung, não faz assim, só escuta a gente um pouquinho. Se depois disso você ainda não conseguir superar, a gente não te impede, juro!
Foram eles que o empurraram para longe, e agora estavam agindo assim, então ele nem conseguiu dar um muxoxo. Mas se voltasse, morreria só de ser roçado pelos filhotes, e não havia garantia nenhuma de que não esbarraria em mutantes indo sozinho para o Sudeste.
— Vocês devoraram mesmo o Sudeste?
Quando Seowoon perguntou casualmente, Kangsan balançou a cabeça repetidas vezes.
— ……Beleza. Vamos, então.
“Esses desgraçados disseram que o destino deles é o Sudeste, então até que é conveniente. Ganhar proteção de graça enquanto caminho é bem bom. De qualquer forma, eu contribuí com a guilda e, acima de tudo, aqui a sobrevivência vem antes do orgulho.”
Seowoon terminou de justificar aquilo para si mesmo.
— E a sua espada?
Cahaya olhou para a bagagem que Kangsan carregava por ele, depois para as mãos vazias de Seowoon.
Seowoon ignorou a pergunta e começou a andar na frente. Cahaya não perguntou duas vezes, e só Kangsan continuou perguntando como ele tinha passado, fazendo até uma quantidade nada característica de aegyo. Caminhar os três juntos trouxe uma onda inútil de nostalgia que deixou o coração de Seowoon inquieto.
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Os dias de se amontoar numa lan house com os colegas, tomar um gole curioso de soju e depois vomitar, ser rotulado de traidor só porque as notas do simulado saíram boas, tudo passou como um rolo de lanterna mágica.
— Que porra é essa de traidor? Vocês nem estudaram, então por que estão enchendo o saco do Cha Seowoon por isso?
No instante em que Cahaya ficou do lado dele, os amigos em volta levantaram o dedo do meio para ele. Cahaya só pegou o próprio boletim depois de punir cada um daqueles dedos.
— Nossa, você foi bem mesmo,
O cara disse admirado, e então Cahaya soltou de repente:
— Eu não vou para a faculdade.
— Um desgraçado que tirou nota melhor que a minha diz que não vai para a faculdade. Ainda faltam mais de quatrocentos dias para o CSAT, sabia?
— É, mas eu sou pobre, então não dá.
Cahaya deu risadinhas enquanto ria. Curiosamente, ele tinha o hábito de cuspir coisas que deveriam ferir o próprio orgulho sem filtro nenhum.
— Vendi porque sou pobre.
Saindo dos pensamentos, Seowoon relatou tardiamente o paradeiro da espada.
Então Cahaya, um pouco à frente dele, pareceu dar risadinhas exatamente como naquele dia.
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Cahaya era como um alienígena que tinha caído bem no meio de Seul um belo dia.
O nome incomum contribuía, mas mais do que qualquer coisa era aquele rosto bonito inesquecível que atraía inúmeros olhares desde o dia da matrícula.
Como era um colégio lotado de garotos vindos dos mesmos ginásios, a primeira grande pergunta era de qual escola Cahaya tinha vindo.
As meninas especialmente ardiam de curiosidade e tentaram rastrear o ginásio dele, mas por um tempo não chegaram a lugar nenhum. Até Jo Jeongseon, que puxou amigos de outras regiões, não achou ninguém que reconhecesse o nome Cahaya.
Assistindo a todo o processo, Seowoon só conseguia admirar a rede de informações de Jo Jeongseon, que chegava até a Ilha de Jeju.
“Eu morava na Indonésia antes de vir para cá.”
A verdade que toda aquela investigação não conseguiu desenterrar veio direto da boca de Cahaya. Para todo o calor que tinham colocado naquilo, a resposta foi decepcionantemente banal.
No instante em que o primeiro mistério foi resolvido, foi como se um selo tivesse sido rompido e uma enxurrada de curiosidade se lançasse sobre Cahaya. Por sorte ou azar, ele parecia acostumado à atenção e não fazia questão nenhuma de manter qualquer ar de mistério.
Sempre que alguém perguntava sobre ele, respondia sem esconder nada, então Jo Jeongseon rapidamente perdeu o interesse. Mais precisamente, ele não tinha conseguido satisfazer as expectativas delas.
Mas talvez fosse porque a aparência dele era boa o bastante para plantar fantasias nos outros. Até os colegas da mesma sala nutriam uma admiração estranha por ele.
As pessoas achavam que ele podia estudar pela metade e ainda tirar notas boas na base do cérebro puro, que beber com noonas universitárias não era nada de mais para ele, e que a família dele tinha que ser absurdamente rica. Não demorou muito para esses boatos se fixarem com força.
Na realidade, Cahaya estudava duro, nunca tinha encostado em álcool e só ficava rodando em lan houses, e a família dele era pobre.
Então, em seguida, correu o boato de que ele devia ser filho ilegítimo de algum deputado da Assembleia Nacional ou de algum alto executivo. Chegaram até a acrescentar a história sem fundamento de que a mãe de Cahaya era uma atriz azarada que nunca tinha conseguido os holofotes. A prova conveniente era que ele tinha crescido na Indonésia porque era um filho ilegítimo que não devia ser visto.
Claro que Seowoon tinha certeza de que tudo aquilo era besteira. Cahaya morava com um homem indonésio que ele chamava de tio, não com os pais.
Na parte mais alta da ladeira do bairro ficava o prédio onde Cahaya morava, e a casa dele era meio enterrada no chão. Foi a primeira vez que Seowoon aprendeu que as pessoas chamavam aquilo de semi-subsolo.
O piso de linóleo estava descolando em alguns pontos, de modo que cada passo fazia um som de estalo, como galhinhos quebrando. Uma mesa esmaltada colorida pintada com flores ficava sempre estendida na sala. Sempre que Seowoon olhava para ela, sentia uma leve falta de ar. Parecia pequena demais para Cahaya e o tio dele, os dois homens bem grandes.
“Amigo bonito, fica para o jantar.”
“Amigo lindo, se dá bem com o meu Cahaya.”
“Amigo bacana, vou te dar um dinheirinho.”
O tio de Cahaya falava um coreano desajeitado e tinha perdido um molar de cima e um dente de baixo. Mesmo com o dinheiro curto, às vezes enfiava uma mesada na mão de Seowoon.
Seowoon sempre se sentia desconfortável nesses momentos. Recusar parecia ignorar a boa vontade, mas simplesmente aceitar fazia com que ele ficasse fixado nos dentes que faltavam.
No fim ele sempre pegava o dinheiro e, em silêncio, planejava juntar um pouco do próprio depois e pagar implantes para o Tio como forma de retribuir. Toda vez que conversava com o Tio, odiava como o olhar dele ficava sendo sugado para aqueles espaços vazios. Parecia espiar dentro de um túnel de pobreza que ele nunca tinha vivido.
— Cha Seowoon-ah, os dentes do meu tio te incomodam tanto assim?
— O quê?
— Toda vez que você fala com ele, as suas pupilas tremem que é uma loucura.
— Que porra você tá falando, desgraçado.
Da ladeira do bairro de Cahaya dava para ver o prédio de apartamentos altos onde Seowoon morava.
Na verdade a casa de Cahaya ficava mais alta, mas o que as pessoas admiravam de baixo para cima não era aquela ladeira. Era aquele apartamento que tinha acabado de bater um novo recorde de preço.
— Quer ir jantar lá em casa?
Seowoon perguntou de repente enquanto os dois desciam a ladeira íngreme juntos.
— Nah, o seu pai me odeia pra caralho.
— Ei, não é tão ruim assim.
O pai de Seowoon era um funcionário público de Grau 3, subdiretor no Ministério do Interior e Segurança.
Ele também era dono de alguns prédios em Gangnam, então os amigos às vezes perguntavam se o salário de um funcionário público de Grau 3 era mesmo tão alto assim. Seowoon sempre dava risada e deixava passar, mas a verdade é que vinha da herança de um avô que tinha construído tudo sozinho.
Ele estava prestes a dizer que a casa ficaria vazia naquele dia por causa de um encontro de casais, e então parou. A senhora da faxina ainda não tinha ido embora, então a visita de Cahaya naturalmente chegaria aos ouvidos do pai dele.
Seowoon não queria que Cahaya descobrisse que ele vivia observando o humor do pai. Talvez Cahaya já tivesse sacado isso.
— Se não vai vir, então vai logo. Para que se dar ao trabalho de me seguir até lá embaixo.
Quando estavam mais ou menos na metade da escada, Seowoon apontou de volta para cima.
— Esse bairro é perigoso pra caralho. Ontem um louco tava por aí mostrando o pau para as crianças.
— Eca. Porra, louco do caralho. Se ele tivesse esbarrado em mim, eu tinha acabado com ele.
Diante da alegação de que ele tinha seguido por preocupações, Seowoon escondeu de propósito o canto da boca que tentava se levantar.
— Deixa para lá, vai logo. Uma mão só basta para esmagar as bolas de um filho da puta desses.
— Vem cá, deixa eu lavar os lábios do Cha Seowoon.
Cahaya beliscou os lábios de Seowoon entre o polegar e o indicador. Depois esfregou para a frente e para trás como se estivesse lavando roupa.
— Seu louco desgraçado! Para com isso!
Quando Seowoon jogou um soco nele, Cahaya fez um som de dor e recuou. O cara, que tinha pulado alguns degraus para cima para se afastar, de repente abriu um sorriso.
— Ah, é verdade. A Jo Jeongseon faz a mesma coisa toda vez que olha para a sua cara.
— Faz o quê?
— Olha para você do jeito que você olha para os dentes do meu tio.
— Mas não está faltando nenhum dente meu?
— Todo mundo sabe que aquilo te incomoda. Assim como você não quer ver os dentes do meu tio, ela também não quer ver a sua cara.
— ……Por que não?
— Porque o Cha Seowoon é bonito pra caralho e isso estressa ela.
Cahaya subiu de leve os degraus que tinha descido.
— É, Namastê.
Seowoon sabia a diferença entre Índia e Indonésia, mas ainda assim provocou nas costas de Cahaya. Cahaya respondeu erguendo as duas mãos acima da cabeça e juntando as palmas como numa prece.
De qualquer forma, teria sido melhor se ele fosse tão irritante quanto era bonito, mas aquele desgraçado ainda tinha uma boa personalidade. Mesmo assim, ouvir de alguém que era de fato bonito que ele era bonito deixou uma sensação persistente de estar sendo zoado, que não passava fácil.
Mesmo assim, o caminho para casa pareceu mais leve que o normal, e ele não sabia dizer se era porque o pai não estava lá ou porque Cahaya tinha cuidado dele. Ou talvez fosse por causa do tio que confiava nele com tanta firmeza.
“Amigo muito gentil, obrigado por se dar bem com o meu Cahaya. Me liga se acontecer qualquer coisa com ele.”
A voz do Tio ecoava nos ouvidos dele.
Era possível receber uma confiança tão profunda assim do responsável por um amigo? Os únicos responsáveis que Seowoon conhecia eram os pais, e o pai dele vivia ocupado falando mal dele e demonizando os amigos dele.
“Eu confio só em você, amigo gentil.”
Seowoon ficou repassando na cabeça a imagem do tio de Cahaya segurando as mãos dele com os olhos brilhando.
Mesmo depois de repetir umas dez vezes não ficava chato, porque a cada vez fazia ele se sentir orgulhoso, como se tivesse se tornado alguma coisa.
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Nota:
[1] lavar os lábios também pode ser visto como chupar os lábios (em sentido beijo)
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♤ Nada contido se refere a realidade♧
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☪ Tradução, revisão e Raws: Belladonna & Othello