Capítulo 269 - Extra 43
Sugar Baby
— Você brinca com as crianças, é gentil comigo… Se você não fosse uma boa pessoa, eu nunca teria me apaixonado por você. É verdade.
— Alfas não sentem culpa, Koy.
Ashley finalmente não conseguiu mais se conter e disse algo que guardava dentro de si há muito tempo.
— Meu pai matou o ômega que me deu à luz e depois se suicidou. Se você soubesse o quão cruel Dominique Miller foi com ele, nunca diria uma coisa dessas.
Além disso, o próprio Ashley não era diferente. Não foi ele quem destruiu o próprio cérebro apenas para conseguir ficar com Koy? E, enquanto fazia isso, sequer se importou com o sofrimento que causaria a ele.
Não. Na verdade, ele até pensou que era melhor assim.
Quanto pior fosse, menos você conseguiria me abandonar.
— E você é um ômega. Mesmo sendo um ômega, e se seus filhos acabarem ficando obcecados por você? Nunca pensou nessa possibilidade?
— Eu vou tomar cuidado.
— Você não deveria precisar tomar cuidado. É senso comum que nem os animais fazem esse tipo de coisa.
— Então vamos ensinar isso a eles. Certo?
Mesmo diante do tom agressivo, Koy não desistiu. Olhando para o rosto contorcido de Ashley, continuou tentando calmamente convencê-lo. Foi Ashley quem acabou perdendo as forças primeiro diante daquela determinação inabalável. Ele ergueu as duas mãos, mas logo as deixou cair sem energia e respondeu com irritação:
— Eu apenas falhei em controlar a situação. Não precisa dar um significado tão grande a isso.
— Mas aconteceu.
Koy acariciou a própria barriga com cuidado e continuou:
— Este bebê é um presente, Ash. Então vamos recebê-lo como algo precioso, tá?
Ashley encarou o rosto suplicante dele com uma sensação de desespero. Por causa dos danos cerebrais que já haviam ocorrido, algo assim poderia voltar a acontecer no futuro. Mas, se Koy continuasse sendo tão teimoso, ele também não poderia obrigá-lo a subir numa mesa de cirurgia.
— Haah… — suspirou profundamente.
Por fim, Ashley cobriu o rosto com as duas mãos e desabou no sofá. Koy sentou-se ao lado dele. Vendo-o inclinado para a frente, com as pernas afastadas e os cotovelos apoiados nas coxas, apenas acariciou seus ombros e o observou com uma expressão preocupada, sem conseguir dizer nada.
“…”
Ao ouvir Ashley murmurar algo com o rosto ainda escondido entre as mãos, Koy perguntou apressadamente o que houve. Sem afastar as mãos do rosto, Ashley respondeu:
— Desta vez eu vou fazer a cirurgia de qualquer jeito. Nunca mais vou passar por uma situação miserável dessas.
A voz dele estava tão abatida que Koy só conseguiu responder:
— Tá bom…
Naquela época, ainda havia esperança. Ashley acreditava que, depois da cirurgia, esse tipo de incidente nunca mais aconteceria. Por isso, cancelou o procedimento de Koy e marcou o seu próprio. Tudo parecia estar correndo bem. Ele acreditava que não haveria mais nenhum imprevisto. Mas a realidade foi diferente.
— A cirurgia é difícil.
Ao ver a expressão constrangida do médico, o rosto de Ashley perdeu a cor novamente. Mais uma vez, aquela maldita característica genética estava atrapalhando. Os alfas dominantes tinham uma resistência extremamente alta a medicamentos. Isso diminuía muito as chances de dependência química, mas, em contrapartida, tornava a anestesia muito mais difícil.
Os medicamentos especiais desenvolvidos para eles poderiam causar efeitos imprevisíveis em Ashley, cujo cérebro já havia sofrido danos parciais. Havia até a possibilidade de a anestesia simplesmente não funcionar. Diante dos inúmeros riscos envolvidos, o médico relutava em realizar a cirurgia. Ashley chegou a sentir como se tivesse sido amaldiçoado por Deus.
Vou acabar enlouquecendo.
Ele fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás.
Talvez isso seja uma punição.
Não conseguia pensar de outra forma. Esse era o resultado de ter destruído a si mesmo para conseguir ficar com Koy. E, se era esse o preço, Ashley não tinha escolha a não ser aceitá-lo. Porque, para ter Koy ao seu lado, ele sempre esteve disposto a pagar qualquer preço. Mesmo que aquilo fosse uma verdadeira desgraça.
Ao ouvir a notícia desagradável, Koy ficou abalado, mas tentou de todas as formas confortar Ashley.
— Vai ficar tudo bem, Ash. Eu posso tomar anticoncepcionais, podemos usar preservativos… existem várias maneiras de evitar isso. E talvez surjam novos medicamentos também, certo?
Koy pegou a mão de Ashley e a colocou sobre a própria barriga.
— Não se preocupe. Este bebê vai se parecer metade com você e metade comigo.
Mas, em vez de se sentir confortado, Ashley franziu ainda mais o rosto.
— Não. Já temos três crianças parecidas comigo. Eu quero uma criança que se pareça inteiramente com você.
Ele quase acrescentou que já estava farto de ver rostos iguais ao seu, mas conseguiu se conter. Ainda assim, seu tom frio estava carregado de aversão. Koy se apressou em corrigir:
— Tudo bem. Então uma criança parecida comigo.
Ashley ficou observando o rosto dele por alguns instantes. Por fim, acalmou-se, estendeu os braços e o puxou para um abraço. Quando o beijou, sentiu que parte da irritação, da frustração e da raiva que carregava no peito diminuía um pouco.
Isso. Desta vez vai ser diferente.
Enquanto acariciava o corpo de Koy, pensou:
Já é o quarto filho, não é? Desta vez ele vai se parecer com Koy. Três crianças parecidas comigo já são suficientes. Estatisticamente falando, desta vez vale a pena acreditar.
Talvez tudo isso estivesse acontecendo justamente porque uma criança parecida com Koy estivesse prestes a nascer. Com o passar do tempo, essa esperança se transformou quase em certeza. Quanto mais a data do parto se aproximava, mais Ashley acreditava nisso.
Desta vez, com certeza, será uma criança parecida com Koy.
Não importava se fosse menino ou menina.
Desde que não se pareça comigo, já basta.
E então, finalmente, nasceu a criança que ele tanto aguardava… Mas milagres realmente não existiam. Ao ver o irritante cabelo loiro-platinado do bebê, o coração de Ashley esfriou completamente.
Alguns anos se passaram e Koy deu à luz a mais dois filhos. Somente quando o caçula, que finalmente se parecia com Koy, nasceu, Ashley pôde enfim se sentir aliviado. E, diante deles, parecia que finalmente só restaria a felicidade…
Ou assim ele esperava.
***
Koy ficou parado, apenas com a boca aberta, olhando para dentro do closet, sem encontrar palavras. Mesmo tendo lido inúmeros livros sobre crianças, ele não sabia o que dizer numa situação como aquela.
— É… E-eu… é…
Finalmente conseguiu abrir a boca, mas não formou uma frase direito. Pálido, apenas gaguejava sem parar. As três crianças, por outro lado, lançaram apenas um olhar distraído para o pai e voltaram a brincar como se nada tivesse acontecido.
De certa forma, era uma cena comum. Crianças se interessarem pelos objetos dos adultos e espalharem as coisas pela casa era algo perfeitamente normal. O problema era que aqueles objetos tinham sido comprados para a diversão secreta de duas pessoas — ou, mais precisamente, para a diversão particular de Ashley.
— E-esperem! Esperem um pouco, crianças!
Ao ver Grayson tirando de uma caixa um daqueles itens assustadores, Koy soltou um grito e correu para impedi-lo. Arrancou rapidamente o objeto das mãos do filho. Era uma meia-calça de renda que Ashley havia comprado alguns dias antes.
— O-o que vocês estão fazendo aqui? Por que estão brincando aqui dentro?
Escondendo a meia atrás das costas às pressas, Koy disparou as perguntas uma atrás da outra. Sentada sobre um dos vestidos qipao de Koy e encostando outro contra o peito, Stacey respondeu:
— Porque o papai tem muitas coisas interessantes.
Assim que Stacey terminou de falar, Grayson pegou outra peça e exclamou, surpreso:
— Olha! Tem um buraco enorme aqui!
Sem qualquer cerimônia, ele enfiou a cabeça pelo buraco e depois a retirou, caindo na gargalhada. Ao ver aquilo, Koy prendeu a respiração. Ele não teve coragem de explicar que aquele buraco não era para a cabeça, mas para outra parte mais pra baixo do corpo. E não acabou por aí. Koy estendeu a mão desajeitadamente para recuperar a peça, mas Stacey foi mais rápida e lançou uma pergunta afiada:
— Que estranho. Todas essas roupas têm buracos.
— Aqui também tem um! Será que é assim que veste? — disse Grayson.
Desta vez, ao ver Grayson tentando enfiar a cabeça por um buraco que ficava na região da virilha da roupa, Koy quase soltou um grito.
— Espera! Espera, espera, espera!
Em pânico, Koy agarrou as crianças, repetindo as mesmas palavras várias vezes tentando contê-las.
— Vocês não podem brincar aqui! Também não podem espalhar as coisas desse jeito. Vão para a sala de brinquedos e…
— Olha só isso, Grayson!
De repente, Stacey gritou. Koy virou a cabeça por reflexo e levou um susto. Chase estava usando um prendedor de cabelo em formato de cereja e vestia um uniforme de líder de torcida de Koy. Aquilo também havia sido comprado por Ashley há muito tempo.
É claro que o uniforme era absurdamente grande para uma criança, mas, mesmo assim, combinava incrivelmente bem com ele. As bochechas infladas e coradas de raiva só o deixavam ainda mais adorável. Sem perceber, Koy soltou um suspiro de admiração.
Ao notar sua reação, Stacey ergueu o queixo com uma expressão triunfante e perguntou ao irmão mais novo:
— Não ficou perfeito?
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Continua….
Tradução: Ana Luiza
Revisão: Thaís