Capítulo 221
Koy espiava Ashley com o coração apertado. Não dava para saber o que ele estava pensando, então até falar alguma coisa era difícil. Enquanto Koy apenas observava, cauteloso, Ashley finalmente abriu a boca depois de um bom tempo.
— Você disse que passou dez anos tentando vir pra cá… desde aquela época?
A voz dele estava absurdamente calma. Diante daquele olhar tranquilo voltado para si, Koy engoliu em seco sem perceber e desviou o olhar. Só com essa reação, Ashley confirmou a resposta e voltou a ficar em silêncio.
‘Ash…’
A imagem de um garoto muito mais jovem, chamando seu nome enquanto sorria, surgiu diante dos seus olhos. O corpo pequeno e magro que sempre corria até ele e se aconchegava em seus braços, até mesmo os lábios que timidamente tocavam os seus.
‘Eu gosto de você, Ash.’
— Hah…
Um suspiro vazio escapou de seus lábios. Depois daquele som que mais parecia um suspiro de autodepreciação, Ashley voltou a falar.
— E daí?
O ar esfriou de repente. Sob o olhar de todos, Ashley virou a cabeça na direção de Koy. Quando seus olhares se encontraram, ele estreitou os olhos e torceu levemente os lábios, formando um sorriso frio.
— Quando eu mais precisei de você, você não estava lá.
Instantaneamente, o rosto de Koy perdeu toda a cor. Observando-o pálido, Ashley continuou lentamente, ainda com aquele sorriso zombeteiro.
— Quanto tempo você acha que eu esperei por você? Sozinho, sentado naquela estação de trem, esperando você chegar. Como você acha que eu me senti?
Ele soltou um risinho baixo. Claro, Ashley era o único que ria. Sacudindo os ombros em uma risada insuportável, ele perguntou com uma voz ainda cheia de sarcasmo.
— Você não acha que chegou tarde demais?
— Seu desgraçado…
— Ah—
Koy se apressou em segurar Ariel, que cerrava o punho e já ia se levantar, e rapidamente falou:
— O Ash tá certo. Eu vim até aqui porque eu quis. Isso não tem nada a ver com ele.
Respirou fundo e continuou:
— Não é responsabilidade do Ash, nem algo com que ele precise se preocupar.
Ariel olhou para Koy, incrédula, e então voltou o olhar para Ashley.
— Então quer dizer que, pra você, não significa nada o fato de o Koy ter passado todo esse tempo ainda gostando de você?
Diante das palavras de Ariel, Ashley continuou apenas encarando Koy, sem responder de imediato. Observando aqueles olhos vacilantes que o fitavam com ansiedade, ele finalmente falou, devagar:
— Eu já não disse? Se o Koy gosta de mim ou não… isso não importa.
O rosto de Koy empalideceu, e os olhos de Ariel pareceram soltar faíscas.
— Seu desgraçado teimoso!
— Ariel!
Koy gritou apressado, mas ela foi mais rápida. O punho da ex-campeã amadora de boxe acertou em cheio o queixo do ex-astro do hóquei no gelo do ensino médio. Ashley cambaleou violentamente. Koy levou a mão à boca, chocado, e Bill fechou o punho, murmurando um “yes” silencioso.
Mas o momento durou pouco. Os olhos de Ashley escureceram e feromônios começaram a transbordar de todo o seu corpo.
Ele se levantou de um salto. Uma veia saltou em sua testa, mas, ao encarar quem estava à sua frente com um olhar feroz, hesitou por um instante. Ariel era uma mulher. Koy era… Koy. Só restava uma opção.
— Ei, isso já é demais! Eu não fiz nada!
Vendo Ashley agarrar o taco de hóquei e avançar na sua direção, Bill gritou, pálido. Tentou se defender desesperadamente, mas a decisão de Ashley não mudou. No mesmo instante, Bill correu para sua única salvação.
— Koy, me salva!
Segurando Koy às pressas e se escondendo atrás dele, enfiando seu corpo grande nas costas dele, Bill gritou em desespero. Diante daquela reação repentina, Ashley mudou a direção do taco por um triz. O golpe cortou o ar com violência, passando por pouco. O vento fez os cabelos de Koy se agitarem levemente. Ashley puxou o taco de volta e, no mesmo movimento, estendeu a mão e agarrou Koy.
— Ah…
Koy, que tentou se segurar, acabou sendo puxado, cambaleando. Ashley o envolveu imediatamente, o rosto pálido enquanto o pressionava:
— Você tá bem? Se machucou?
— Tô… tô bem. Não precisa se preocupar.
Koy respondeu atordoado, assentindo, mas mesmo assim Ashley passou as mãos pelo corpo dele, verificando repetidamente. Só depois de confirmar que não havia nada errado, ele soltou um suspiro de alívio — e, ainda segurando Koy nos braços, avançou contra Bill:
— Seu idiota! O que você acha que está fazendo? Usando o Koy de escudo, você ficou maluco?
Bill, que até então observava aquela cena absurda com uma expressão incrédula, finalmente explodiu:
— E você queria que eu fizesse o quê? Ficasse esperando apanhar? Tem mais alguém aqui que pode me proteger além do Koy? O maluco aqui é você! Por que só vem pra cima de mim?!
— O Koy está grávido!
O grito de Ashley fez o silêncio cair imediatamente. Ariel arregalou os olhos em choque, e a raiva de Bill simplesmente evaporou. Os dois voltaram o olhar ao mesmo tempo para Koy, que estava enterrado nos braços de Ashley.
Quem falou primeiro foi Bill:
— Do que você tá falando? Como assim o Koy tá grávido?
—Não minta, seu maldito.
Nem Bill nem Ariel acreditaram. Mas, graças a isso, a fúria de Ashley acabou se acalmando. Seus olhos, aos poucos, voltaram ao habitual tom violeta, e os feromônios também diminuíram. Um leve sorriso surgiu em seus lábios, como se ele não conseguisse conter a alegria só de pensar nisso.
—O Koy está grávido. E, claro, o filho é meu.
Dessa vez, o olhar de Ariel se voltou para Koy. Diante daquele olhar que exigia uma confirmação, Koy acabou desviando os olhos. Essa reação, mais do que qualquer coisa, foi prova suficiente — e a raiva de Ariel explodiu.
—Seu lixo desgraçado, como você ousa engravidar o Koy?!
Ela quis dar um soco em Ashley mais uma vez, mas não pôde por causa de Koy. Por um instante, Bill encolheu os ombros, mas, em vez dele, Ariel bateu com o punho na mesa de madeira à sua frente. BAM! O som ecoou alto, e Ariel rangeu os dentes, encarando Ashley.
—Koy, sai da frente. Eu ainda preciso dar mais um soco nesse desgraçado.
—E-espera, Ariel, não faz isso, eu tô bem.
Koy tentou contê-la desesperadamente, mas não adiantou. Enquanto os dois se encaravam como se fossem se devorar com Koy no meio, Bill, ainda confuso, interveio:
—Que história é essa do Koy estar grávido? Ele não é beta?
—Fica quieto, Bill.
Sem desviar o olhar de Ashley, Ariel respondeu de forma cortante. Bill, sem alternativa, acabou se encolhendo de novo, enquanto Ariel avançava como se fosse atacar a qualquer momento:
—Então, o que você pretende fazer? Não me diga que vai engravidar o Koy e depois abandoná-lo?
Se fosse esse o caso, Ariel não ficaria parada. Ela usaria todos os meios possíveis para arrancar a fortuna daquele desgraçado e dar para Koy.
Foi quando Ashley finalmente abriu a boca, ainda com uma postura despreocupada:
—Tenho que assumir a responsabilidade. Afinal, eu transformei o Koy em um ômega.
— O quê?
— O que disse?
— Como é?
Koy, Ariel e até Bill gritaram juntos. Diante dos três, claramente confusos, Ashley estreitou os olhos e fitou Ariel.
—Você já sabia disso, não? Você disse que estava com ele quando o Koy entrou no cio.
Bill arregalou os olhos e olhou para Ariel. Mas, em vez de explicar a situação, ela respondeu ainda encarando Ashley, com uma expressão claramente irritada:
—Sim, eu já sabia. Mas o que você quer dizer com assumir a responsabilidade? O que o fato de o Koy ser um ômega tem a ver com você?
Diante da pergunta, Ashley respondeu com a mesma calma de sempre:
—Porque, provavelmente, ele sofreu uma mutação por causa dos meus feromônios.
Ele falava com convicção. A maioria das pessoas provavelmente pensaria o mesmo. Se Koy não tivesse conhecido Angel, ele também teria acreditado nisso sem dúvida.
Mas aquela suposição estava completamente errada. E Koy não era o único que sabia disso.
Ariel lançou um olhar de relance para Koy, e Koy também hesitou, passando a observar a situação com cautela. Sentindo que havia algo estranho no ar, Ashley franziu a testa. Por fim, até Bill percebeu aquela atmosfera esquisita.
—…O que foi?
Ashley falou em voz baixa. Pela primeira vez, uma leve tensão apareceu em seu rosto antes tão despreocupado, como se ele pressentisse que não iria gostar do que estava por vir. Ariel e Koy trocaram mais um olhar; quando Ariel assentiu, Koy engoliu em seco e, após respirar fundo e falou:
—Então… é que…
Com a voz levemente trêmula, ele começou com dificuldade:
—O fato de eu ter me tornado um ômega… não tem nada a ver com você.
As rugas na testa de Ashley se aprofundaram ainda mais. Koy hesitou, falando aos tropeços:
—Não foi uma mutação por causa dos seus feromônios… eu me manifestei normalmente. Quer dizer, eu sei que já passei bastante da idade, mas o que eu quero dizer é que…
—O Koy não é um ômega comum. Ele é um ômega dominante.
Ariel, que observava tudo, não conseguiu mais conter a frustração e interrompeu, soltando uma verdadeira bomba no meio da conversa.
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Continua….
Tradução: Ana Luiza
Revisão: Thaís