Capítulo 162
Koy ficou tão surpreso que quase deixou o celular cair. Depois de dois meses sem ouvir aquela voz, ele não conseguiu conter o coração disparado e puxou o ar às pressas.
— A-alô.
— Sim.
Quando finalmente conseguiu emitir algum som, uma voz neutra veio do outro lado da linha. Ainda sem acreditar, Koy conferiu o celular mais uma vez e falou num tom inseguro.
— Ash…?
— Isso, sou eu.
Mesmo depois da confirmação, Koy continuava atônito. Fazia tanto tempo, e justo agora quem ligava era Ashley — era difícil de acreditar.
— O… o número não era esse.
Ao apontar isso de forma hesitante, Ashley respondeu com a mesma voz indiferente.
— Estou ligando do escritório. Salva esse número também.
— Ah, s-sim, entendi.
Koy ia salvar automaticamente quando interrompeu o movimento às pressas e perguntou:
— Então… o que houve? Eu estou esperando uma ligação…
Só depois de falar é que percebeu que tinha cometido um erro.
— A-ah, não, não é isso, quer dizer, a sua ligação é bem vinda, de verdade, eu fiquei muito feliz, só que…
— Tudo bem. Se você está esperando a ligação de um advogado, então sou eu mesmo.
— Hã?
Sem entender, ele apenas piscou os olhos, e Ashley continuou:
— O advogado cuja ligação você estava esperando sou eu. A Al me ligou, disse que você estava com um problema sério.
— Ah…
Ele entendeu, mas sua mente ainda não estava funcionando direito. Ele só conseguiu soltar uma exclamação vazia antes de Ashley prosseguir:
— O que você acha? Quanto antes fizermos a consulta, melhor, não é?
— A-ah, sim.
Assentindo apressadamente, ele logo ficou curioso. O quanto Ashley sabia sobre a situação atual?
— Então… você poderia vir até aqui? Pra eu sair fica meio… complicado.
Na verdade, o certo seria Koy ir até o escritório de Ashley, mas ele não tinha nem dinheiro para pegar o metrô. Pedindo quase num fio de voz, Ashley respondeu como se não fosse nada demais.
— Estou indo aí agora.
Ao ouvir isso, em vez de se sentir aliviado, Koy se assustou e balançou a cabeça com força.
— Espera, se você estacionar o carro aqui, pode ser roubado.
— Tudo bem, eu vou de metrô ou ônibus.
— E-espera.
Koy o interrompeu outra vez, murmurando:
— Isso também parece perigoso… e se você encontrar um assaltante? E se levar um tiro?
‘Só porque é um alfa dominante não quer dizer que sairá ileso depois de levar um tiro’, acrescentou em voz baixa. Houve um breve silêncio antes de Ashley responder:
— Não se preocupe. Eu dou um jeito. Me manda o endereço.
— A-ah, tá.
Koy assentiu apressado.
— Vamos nos encontrar naquele lugar onde você me deixou da última vez. Eu vou te esperar lá.
Se Ashley ficasse procurando o endereço, poderia acabar se envolvendo em algum crime. Pensando em reduzir ao máximo o tempo dele na rua, Koy completou às pressas. Do outro lado da linha, ouviu-se um suspiro profundo.
— Koy, eu não sou uma criança. Me manda o endereço. Eu encontro sozinho.
— A-ah… tá.
Se continuasse insistindo, ele realmente iria se irritar. Sem alternativa, Koy desligou e digitou o endereço, enviando a mensagem. Ao confirmar que Ashley havia lido, sentiu um certo alívio, mas não havia tempo a perder. Assim que tomou consciência da situação, a realidade caiu sobre ele de uma vez.
Até então ele não tinha percebido, mas seu apartamento estava literalmente um caos. O espaço já era pequeno, e somando-se às jornadas exaustivas, à fome e ao cansaço, ele não tinha conseguido limpar nem lavar nada. Lixo e roupas estavam espalhados por todo lado, e o chão empoeirado fez sua mente despertar de vez.
‘Não dá pra deixar o Ash entrar num lugar desses’.
Como não tinha comido nada desde o dia anterior, ele estava com fome, mas mesmo assim forçou-se a se mexer. Quando Ashley chegasse, pelo menos deveria oferecer um café… embora só tivesse água para dar.
Koy pegou o copo mais limpo que tinha, lavou mais uma vez e o secou. As roupas acumuladas por não ter ido à lavanderia foram juntadas e escondidas dentro do armário; o lixo, colocado em sacos e deixado de lado. Em seguida, limpou o chão, movendo-se freneticamente.
Ele ouviu passos suaves descendo a escada quando finalmente terminou a limpeza e conseguiu respirar um pouco. Será que…? Com o coração na boca, Koy ficou atento, e os passos, cada vez mais próximos, pararam bem diante da sua porta.
Gulp.
Sem perceber, engoliu em seco enquanto encarava a porta de entrada. O som fino e levemente irritado da campainha ecoou em seus ouvidos. Koy não teve tempo nem de pensar duas vezes e escancarou a porta.
Do lado de fora, como esperado, Ashley estava ali. Com o cabelo sempre impecavelmente penteado para trás, um terno caro e até um casaco de grife que chamava atenção à primeira vista. Em contraste, Koy vestia uma camiseta velha e encardida que usava havia vários dias, e um jeans gasto e puído.
Ashley pareceu momentaneamente surpreso, mas logo sua expressão voltou ao normal. Pensando que ele devia ter se assustado com a porta se abrindo de repente, Koy falou com um sorriso sem graça:
— Entra… você conseguiu achar direitinho.
Koy recuou o corpo para abrir espaço, Ashley entrou sem hesitar. Mesmo quando estava sozinho o apartamento já parecia apertado; com Ashley ali, quase o dobro do tamanho dele, o lugar parecia ainda mais cheio. Ashley percorreu o ambiente com o olhar uma vez, em silêncio e logo fixou os olhos em Koy. Suportando o constrangimento e fingindo naturalidade, Koy puxou conversa:
— Faz tempo, Ash. Você tem passado bem?
Ashley não respondeu de imediato. Ele encarava o rosto de Koy intensamente e só depois de um bom tempo, deixou escapar uma única palavra:
— Sim.
O silêncio voltou a se instalar. Koy coçou a cabeça e com certa dificuldade, falou:
— Obrigado por ter vindo, mesmo estando ocupado. Eu não achei que a Al fosse entrar em contato com você…
A frase foi perdendo força no final. Ele deveria ter percebido quando ela disse “o melhor advogado”. Claro que o advogado mais renomado desta cidade só podia ser Ashley Miller.
E, ao mesmo tempo, o mais ocupado… e também o mais caro.
Quando Ariel falou aquilo, Koy sequer cogitou que pudesse ser Ashley. Mas, no instante em que ele apareceu à sua frente, Koy percebeu o quão óbvia eram as suas conexões.
Também é a mais poderosa de todas.
— Koy.
Enquanto tentava se recompor, Ashley chamou seu nome de repente. Koy despertou num sobressalto e ergueu a cabeça, encontrando o olhar dele, que continuava fixo em si. Diante daquele olhar frio, engoliu em seco sem perceber, e Ashley falou:
— Antes de qualquer coisa, preciso confirmar uma coisa com você. Você realmente quer me contratar como seu advogado?
— Ah… quero, sim… quer dizer, eu gostaria, mas…
— Só responde sim ou não.
Ele não teve nem tempo de dizer que não tinha condições de pagar os honorários. Diante da exigência direta de Ashley, Koy hesitou por um instante antes de assentir com a cabeça.
— Eu gostaria que você aceitasse.
— Certo.
Concordando com a cabeça também, Ashley perguntou novamente:
— Antes de eu assumir sua defesa, há algo que você precisa prometer. Isso é absolutamente essencial, entendeu?
— Ah… sim. Eu prometo.
Como nem vou conseguir pagar, então é óbvio que tenho de fazer tudo o que ele mandar. Com o rosto tenso, Koy respondeu e aguardou. Depois de confirmar a reação dele, Ashley falou.
— Bom. Há apenas uma coisa que você precisa cumprir. Seja completamente honesto comigo sobre tudo. Não esconda nada e não minta.
Ele ficou surpreso por não ser algo tão grandioso quanto esperava. Koy esperou, pensando que poderia haver mais, mas a exigência de Ashley era apenas aquela. Percebendo logo em seguida, Koy prometeu:
— Claro. Eu nunca mentiria para você.
— E não esconda nada.
— …Sim.
Diante da observação adicional de Ashley, Koy respondeu com o rosto um pouco corado.
— Não farei isso.
Ashley assentiu, como se agora estivesse satisfeito, e então falou:
— Então vou fazer a primeira pergunta, Koy. Não esqueça do que prometeu.
— Sim. Vou ser sincero, sem mentir, vou contar tudo.
Ao repetir as advertências, ainda nervoso, Koy viu Ashley esboçar um breve sorriso antes de finalmente perguntar:
— Quando foi a última vez que você comeu?
— Hã?
Surpreso com a pergunta inesperada, Koy arregalou os olhos. Mas, ao ver Ashley franzir a testa e cruzar os braços, ele se apressou em responder. Então… depois de hesitar por um instante, falou com dificuldade:
— Ontem à noite… eu comi um sanduíche.
Embora chamasse de sanduíche, era só um pão ressecado com um único hambúrguer barato e fino. Assim que se deu conta da fome, ela veio como uma onda violenta. Koy pressionou a mão contra a barriga, desviando o olhar para conter o som que quase escapava. Diante daquela reação, Ashley disse apenas:
— Entendi.
Em seguida, completou:
— Então vamos sair. Eu também ainda não jantei. Vamos comer juntos enquanto conversamos.
— Hã?
Sem perceber, Koy se assustou e ergueu a cabeça, mas Ashley já estava se virando para sair.
— Ah, é mesmo.
Koy ficou parado, apenas olhando, quando de repente Ashley interrompeu os passos, como se tivesse se lembrado de algo, e se virou para ele.
— Tem mais uma coisa que você precisa cumprir.
— A-ah, sim. O quê?
Ao encarar Koy, que havia ficado rígido por reflexo, Ashley continuou:
— O cliente deve obedecer absolutamente todas as orientações do advogado. Consegue fazer isso?
— C-consigo. Claro que sim.
Quando Koy confirmou apressado, Ashley fez um gesto leve com a mão, como se aquilo bastasse.
— Vem. Vamos jantar.
E, sem esperar resposta, ele voltou a andar e saiu. Koy, que até então permanecia parado de maneira indecisa, só então caiu em si e correu às pressas atrás dele.
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Continua….
Tradução: Ana Luiza
Revisão: Thaís