Capítulo 160
— O que foi que aconteceu? Disseram que você ficou doente de repente?
Assim que o viu, o chefe perguntou, e Koy respondeu constrangido, confirmando.
— Desculpe… peguei um resfriado.
Ele ficou de cama não só durante o fim de semana, mas por mais dois dias. Ainda bem que havia cancelado o compromisso com Sara a tempo, mas, quanto ao trabalho e a qualquer outro lugar, ele não só não entrou em contato com ninguém como também não atendeu nenhuma ligação. Por causa disso, quando finalmente conseguiu se levantar, o telefone não só estava cheio de chamadas perdidas, como também a bateria havia descarregado.
A primeira pessoa para quem ligou, claro, foi Ariel. No início, ela ficou muito assustada e perguntou se ele estava bem; depois que soube que não tinha acontecido nada grave, passou a brigar com ele. Mesmo assim, isso não durou muito.
— Da próxima vez que a gente se encontrar, me dê uma cópia da sua chave. Se acontecer alguma coisa, eu entro direto.
Depois dessa advertência final, Ariel desligou. Durante o período em que Koy ficou incomunicável, a única pessoa que foi até o apartamento dele foi justamente ela. E mesmo assim, como Koy não respondeu, Ariel achou que ele não estivesse em casa e chegou a registrar um boletim de ocorrência por desaparecimento. Ela até suspeitou que Ashley pudesse ter feito alguma coisa, mas, felizmente, tudo acabou não passando de um susto. Se Koy tivesse demorado só mais um dia para entrar em contato, talvez ela tivesse invadido o escritório de Ashley mais uma vez.
Sem fazer ideia do ocorrido, Koy pediu desculpas a ela repetidas vezes, prometeu que em breve se encontrariam para compensar a preocupação e, só então, ligou para a empresa.
Pelo jeito, no trabalho acharam que Koy tinha simplesmente sumido. O chefe ficou bastante surpreso quando atendeu a ligação e, no dia seguinte, quando Koy apareceu para trabalhar, exibiu uma expressão muito brava. Independentemente do motivo, o fato é que ele faltou ao trabalho sem avisar, então Koy se desculpou várias vezes.
— Desculpe. Vou me esforçar ainda mais daqui pra frente.
— É bom mesmo. Vai ter que compensar por sumir sem dar notícias .
Depois de mais uma bronca, o chefe lhe passou algumas tarefas. Koy se apressou em sair dali para pegar as ferramentas de trabalho, quando Tony, outro funcionário que estava observando, se aproximou discretamente e puxou conversa.
— O que aconteceu? Liguei várias vezes e você não atendeu. Foi tão sério assim?
— Ah… foi.
Koy respondeu com um sorriso amargo.
— Eu quase nunca pego um resfriado, mas dessa vez foi pesado. Fiquei com febre o tempo todo, o corpo parecia um chumbo, eu mal conseguia abrir os olhos.
Mesmo assim, se fosse comparar, não chegava a doer. A cabeça ficava enevoada, o sono não dava trégua e ele simplesmente não conseguia se levantar, mas, apesar da febre alta que fazia o corpo inteiro arder, não havia dor alguma.
‘Será que é algum tipo novo de vírus que anda circulando por aí’?
Koy, que internamente achava aquilo estranho, ouviu Tony abaixar ainda mais a voz e perguntar:
— Não me diga que você fingiu estar doente e saiu por aí para se divertir.
— Não.
Diante do olhar desconfiado, Koy acabou sorrindo sem perceber. Tony inclinou a cabeça, como quem diz “é mesmo?”, e então fungou o ar.
— Desde mais cedo tem vindo um cheiro bom de você. Pensei que talvez tivesse saído por aí e comprado algum perfume.
— Cheiro?
Quando Koy perguntou, surpreso, Tony respondeu:
— Isso. Parece cheiro de flor, ou de grama… sei lá. Enfim, é um cheiro muito bom. Dá até uma sensação de tranquilidade.
Por um instante, Koy ficou tenso, mas ao ver a expressão satisfeita no rosto de Tony, sentiu um alívio silencioso. Como ele mesmo não conseguia sentir cheiros, se tivesse ouvido que estava exalando um odor desagradável, teria ficado envergonhado.
— Ah, é que uma das plantas lá de casa floresceu.
Ele se lembrou que, a última vez em que tinha regado, antes de adoecer, os botões ainda estavam bem fechados, mas agora haviam se aberto por completo. Tinha comprado sementes em promoção quando passou por uma loja, então não sabia o nome da flor, mas, ao ouvir falar em aroma, veio à mente a planta que brilhava em amarelo no vaso.
— Deve ser o cheiro dessas flores. Três desabrocharam de uma vez.
— É mesmo?
Tony se virou com uma expressão intrigada e murmurou:
— O cheiro de flor dura tanto tempo assim…?
Felizmente, a situação terminou sem maiores problemas. Koy logo esqueceu o assunto, mergulhado no trabalho, quando se deu conta, já era fim de tarde.
— Haa…
Assim que voltou para casa, ele soltou um suspiro profundo. O resfriado já devia ter passado, mas seu corpo ainda estava letárgico e pesado. Pelo menos a febre tinha baixado e isso já era um alívio. Arrastando os pés, ia em direção ao banheiro para tomar um banho quando algo entrou em seu campo de visão.
Eram as flores que ele vira de manhã antes de sair. Ao ver as vibrantes flores amarelas ainda totalmente abertas, seu coração pareceu se aquecer. Imediatamente, ele se aproximou e, após observar as flores por um tempo, acariciou cuidadosamente uma pétala. Era como se o brilho suave da pétala fosse transmitido através da ponta de seus dedos.
Que tipo de perfume será que tem?
Ao se lembrar das palavras de Tony, sentiu uma pontada de nostalgia. ‘Se eu pudesse sentir cheiros, saberia como é o aroma dessa flor’.
‘Será que eu também me sentiria mais tranquilo’?
Depois de encarar as flores por mais um tempo, Koy baixou a mão e entrou no banheiro estreito. Tomou um banho rápido e, assim que saiu, deitou-se na cama e tentou dormir.
Desde aquele dia, Ashley não entrou em contato nem uma única vez.
O perfume da flor, que ele achara não ser nada demais, só se tornou um problema cerca de uma semana depois. Quando Tony comentou sobre o cheiro pela primeira vez, Koy não deu muita importância, mas, à medida que os dias passavam, o aroma que emanava de seu corpo foi ficando cada vez mais intenso.
O primeiro a ser atraído por aquele perfume e se aproximar de Koy foi Tony. De repente, ele o puxou pela cintura, e Koy, assustado, acabou empurrando-o. Com isso, Tony torceu o pé e não teve escolha a não ser faltar ao trabalho. Um dia depois, outro funcionário tentou agarrar Koy de forma imprudente, caiu e acabou quebrando o nariz.
Em poucos dias, o pequeno escritório, que mal tinha meia dúzia de pessoas, ficou completamente vazio. Depois que o último funcionário que ainda resistia tentou ficar grudado em Koy, acabou brigando feio com o chefe e pediu demissão, restaram apenas Koy e o patrão.
Embora não fosse sua intenção, Koy não podia negar que tinha sido ele quem deu origem a isso tudo. Estava tão tomado pela culpa e pelo remorso que mal conseguia levantar a cabeça. Mas o chefe foi incrivelmente generoso, dizendo-lhe que estava tudo bem e até lhe oferecendo conforto. Para completar, no dia em que o último funcionário foi embora e Koy ficou sem saber o que fazer, o patrão pediu que ele não se preocupasse, que continuasse vindo trabalhar regularmente, e ainda lhe deu dinheiro.
Koy ficou muito grato pela bondade do chefe, mas, mesmo assim, tudo aquilo tinha acontecido por causa dele, não podia simplesmente ignorar. Além disso, até mesmo no metrô, frequentemente alguém tentava puxar conversa ou tocá-lo, fazendo com que ele muitas vezes tivesse que descer e caminhar por várias estações. Andar pela rua era um pouco melhor, talvez porque o espaço fosse mais aberto, mas ele não podia continuar vivendo assim para sempre.
‘O quão forte pode ser o perfume dessa flor para causar tudo isso’?
Com o rosto sério, Koy olhou para as flores amarelas ainda viçosas e, por fim, tomou uma decisão.
‘É uma pena, mas preciso me livrar dela’.
Era a primeira flor que ele tinha conseguido fazer desabrochar desde que viera para o Leste, então seu coração doía demais, mas não havia alternativa. Os problemas causados por causa daquela flor já eram grandes demais.
‘…Mas jogar fora assim, sem mais nem menos, também é um desperdício’.
Com cuidado, Koy colocou o vaso dentro de um saco plástico. Por sorte, no dia seguinte era fim de semana, e ele já tinha um compromisso marcado.
Amanhã vou mostrar para a Ariel.
***
— Nossa, que linda. Floresceu agora?
— Foi. Já faz um pouco mais de dez dias.
Respondendo sem conseguir esconder o orgulho, Koy viu Ariel pegar o pequeno vaso e inspirar profundamente o perfume. Por um instante, ele se assustou, mas ela simplesmente levantou a cabeça como se nada tivesse acontecido e disse:
— Trouxe para se exibir?
— Hã? Ah… é que…
Diante de uma reação tão descontraída, Koy piscou, confuso, antes de falar. Começando com um “na verdade…”, contou de forma resumida tudo o que vinha acontecendo. Ariel ouviu com uma expressão séria e, ao final, inclinou a cabeça, intrigada.
— Para mim, é só um cheiro de flor comum.
— S-sério?
Koy ficou olhando para ela, atônito. O que está acontecendo?
Ariel não era alguém incapaz de sentir cheiros como ele, então a situação simplesmente não fazia sentido. Piscando, ainda confuso, Koy só então reparou melhor ao redor. Eles estavam sentados na área externa de um café, e, apesar de as mesas não ficarem tão distantes umas das outras, ninguém ao redor parecia prestar qualquer atenção nele.
‘…Será que eu estava imaginando coisas’?
Ainda desnorteado, Koy perguntou a Ariel um pouco depois:
— Ei… você está sentindo algum cheiro vindo de mim?
— Cheiro?
Ariel puxou o braço de Koy sem hesitar, inclinou o corpo sobre a mesa e o inspirou profundamente. Depois de cheirar algumas vezes, soltou o braço dele e ergueu a cabeça.
— Não sinto cheiro nenhum.
— Sério?
Koy ficou confuso mais uma vez. ‘Afinal, o que estava acontecendo?’
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Continua….
Tradução: Ana Luiza
Revisão: Thaís