Capítulo 25

⚝ Capítulo 25
— Eu preciso de um meio de transporte.
Olhei para Camar com um pouco de medo ao ouvi-lo falar com aquela expressão tão séria. Quando acordei, ele começou com esses planos que pareciam um sonho, e o pior foi perceber que eu tinha concordado com tudo. Quando a ficha caiu, entrei em pânico. Só então percebi a gravidade da situação, e Camar notou meu nervosismo na mesma hora.
— Não se preocupe, vai dar tudo certo.
Ele me deu um beijo e sorriu com doçura para me acalmar, mas eu não conseguia relaxar.
— Vai ser a mesma coisa em qualquer lugar. Ir para a cidade não muda nada… Eu não vou deixar de ser um ômega só por estar lá.
Camar logo rebateu:
— Mas ninguém lá sabe que você é um ômega.
Eu não tinha como negar, era verdade. Mesmo aqui, só poucas pessoas sabiam, como o meu tio, mas ele teria dificuldade em me proteger para sempre. Foi por isso que ele me escondeu neste lugar. Mesmo assim, hesitei antes de dizer:
— Não deve ser diferente de outras cidades… Na verdade, deve ser pior. Ouvi dizer que pegam os ômegas, trancam todos num lugar só e os obrigam a fazer coisas horríveis.
— Coisas horríveis?
— Eu não sei — respondi, balançando a cabeça. Mas eu tinha certeza de que algo ruim acontecia, lembrando de como minha mãe ficava tensa e sempre adiava o que queria me dizer. Encolhi os ombros sem querer e Camar me abraçou apertado.
— Está tudo bem, não se preocupe. Eu estou aqui — ele sorriu de novo ao ver meu olhar preocupado. — Se a cidade for o ponto central, vai ser fácil ir para outros lugares de lá.
— Outros lugares? — perguntei, confuso.
— Qualquer lugar que não seja aqui. Um lugar que aceite a gente.
— …Existe um lugar assim?
— Com certeza.
A voz dele estava mais firme do que nunca. Sem perceber, eu senti vontade de acreditar.
— Então, seria bom… — Minha voz sumiu no final, mas Camar completou com determinação: — Se não existir, eu dou um jeito de criar um.
Aquilo me fez parar de rir.
— Como?
Perguntei com um sorriso no rosto, e Camar respondeu da mesma forma:
— Do jeito que você quiser. De qualquer jeito.
Meu coração se encheu de alegria e o amor por ele transbordou.
— Tudo o que eu quero é você.
Camar ergueu a sobrancelha e sussurrou:
— Eu também só quero você.
Nos braços dele, eu me sentia seguro contra tudo no mundo. Queria ficar ali para sempre, protegido. Nem conseguia mais imaginar ir para outro lugar sem ele. Fechei os olhos e o apertei forte. Decidi confiar nele. Eu não conseguia mais viver longe do Camar.
— Vai dar tudo certo, nós… eu te amo.
Depois que eu sussurrei isso, Camar me beijou como se já soubesse.
— Eu te amo mais.
Ele riu de novo. Com um beijo mais profundo e sério, minha decisão foi tomada.
***
Os dias passaram e Camar estava muito ocupado, mais do que o normal. Enquanto eu fazia a tapeçaria, ele parava de vez em quando para pensar em algo, parecendo meditar, e fazia anotações.
Ele já estava planejando como viveríamos depois de fugir daqui. Diferente de antes, ele agora saía para resolver as coisas em vez de ficar abraçado comigo depois do almoço. Eu aguentava a solidão e focava no trabalho.
— Eu preciso de um transporte — ele repetiu enquanto comíamos.
Parei de comer e pisquei, surpreso com o assunto repentino.
— Um meio de transporte?
— Você não aguentaria ir a pé, não é?
Só então entendi e balancei a cabeça, concordando. Camar continuou falando com naturalidade:
— Precisamos de muita coisa para atravessar o deserto, coisas que não dá para carregar na mão. Estive pensando no que levar… Quando o Gurab chega? Falta muito?
Eu respondi a data:
— Na semana que vem.
— Certo, então peça isso e aquilo a mais desta vez. Isso aqui também.
Camar usava o papel e a caneta com uma facilidade impressionante, anotando tudo rápido. Ele olhou para a lista e continuou:
— Por enquanto, é só isso. Vamos preparar tudo agora e sair daqui na próxima vez que o Gurab vier.
— Como?
— O Gurab tem um carro.
Fiquei preocupado na hora.
— Você acha que ele vai emprestar o carro para a gente?
— É claro que não vai emprestar.
Fiquei chocado com a resposta curta e grossa.
— Então o que você vai fazer?
Camar olhou para mim e sorriu.
— Não se preocupe, eu tenho um jeito. Deixe comigo.
Ele se levantou de repente e, vendo que eu estava assustado com a sombra dele sobre mim, continuou:
— Vou dar uma olhada lá fora. Precisa de ajuda com alguma coisa?
— Uh, não…
Quando o soltei, ele parou e me encarou. Hesitando, ele sentou de novo e perguntou:
— O que foi? O que aconteceu?
A mão dele fazendo carinho no meu rosto me acalmou. Respondi baixinho:
— Fiquei com um pouco de medo.
Não tinha como evitar. Vivi aqui por tempo demais e minhas memórias do mundo lá fora eram confusas. Será que eu conseguiria viver longe daqui? Como se estivesse lendo meus pensamentos, Camar falou:
— Não dá mais para viver aqui, Yohan. Você disse que pode engravidar… e se tivermos um bebê? Como você vai dar à luz aqui sozinho?
Fiquei pálido ao perceber que eu tinha esquecido totalmente desse detalhe. Olhei para baixo e ele desceu a mão do meu rosto para a minha barriga.
— Talvez meu filho já esteja aqui dentro.
Aquelas palavras trouxeram a realidade com força. A gente transava várias vezes por dia. Ontem mesmo, perdi a conta de quantas vezes foi. Com o tanto de sêmen que o Camar despejava dentro de mim, não seria estranho se eu já estivesse grávido. Ele sorriu, pensando o mesmo.
— Acho que já dá para acreditar que teremos gêmeos.
Fiquei com o rosto queimando de vergonha. Camar me abraçou e beijou o topo da minha cabeça.
— Então você precisa sair daqui. Você é frágil e vai precisar de ajuda quando os bebês chegarem. Daqui para frente, eu vou ter que… me segurar um pouco.
A voz dele perdeu um pouco da confiança por um momento. Eu não queria culpá-lo, porque também queria estar com ele. Abracei-o e assenti.
— Sim, eu entendo. Vou ser paciente.
Mas como ser paciente se eu só conseguia pensar em dormir com ele? Reuni coragem e olhei para ele:
— Ei… só mais uma vez… a última…
— Não.
Com a recusa firme, ele disse sério:
— Não pode ser a última. Eu vou possuir você pelo resto da minha vida.
Com isso, o clima pesado sumiu e eu ri. Beijei o pescoço dele e ele acabou me deitando no chão, subindo em cima de mim.
— Eu te amo.
Enquanto aceitava o corpo dele entrando em mim, confessei de novo:
— Eu te amo, Camar. Amo muito. Não consigo viver sem você.
***
O carro do Gurab apareceu exatamente no dia combinado. Eu estava com medo de que o Salman viesse junto, então suspirei de alívio ao ver que era só o mercador. Com a lista do Camar e a tapeçaria pronta, esperei o carro chegar.
Na noite anterior, Camar tinha me dado coragem:
“Vai dar tudo certo, Yohan. Se acontecer qualquer coisa, a gente vai embora na hora. Não vou deixar ninguém te machucar.”
Aquelas palavras eram tudo o que eu precisava. Eu não estava mais sozinho. Apertei o papel na mão enquanto o Gurab parava o carro.
— Olá, Gurab. Como você está?
Tentei falar normal, mas ele não respondeu. Senti algo estranho. Gurab abriu a boca e disse:
— Mestre, vim buscar o senhor.
— O quê? — Pisquei, sem entender.
Gurab falou com uma cara fechada e tom grosseiro:
— O Patrão mandou buscar você. Vamos, entre logo no carro. Tenho ordens de te levar direto para a mansão.
Arregalei os olhos. Mansão? Meu tio me chamando depois de tanto tempo? Lembrei das últimas palavras dele antes de me largar aqui. Eu estava pronto para fugir com o Camar, e agora o passado vinha me puxar de volta?
— De que mestre você está falando? — A voz do Camar veio de trás de mim.
Virei e vi o Camar saindo da cabana. O Gurab deu um pulo de susto ao vê-lo. Mas eu só conseguia olhar para o Camar.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna