Capítulo 187

Capítulo 187
O céu continuava límpido, sem uma única nuvem. O clima estava tão agradável que até o som dos soldados treinando do lado de fora da janela parecia música aos ouvidos. Depois de assinar o último documento, Asgyle ergueu os olhos e encontrou a expressão perplexa do secretário.
— Desculpe. Perdão.
O secretário, que havia se distraído por um instante, pediu desculpas apressadamente. Asgyle franziu a testa, mas logo sua expressão voltou ao normal e perguntou sobre o próximo compromisso.
O secretário, rapidamente relatou a agenda e, depois, olhou fixamente para ele antes de acrescentar.
— Parece estar de bom humor, Majestade.
— Eu?
— Sim.
Asgyle assentiu de leve. Por um instante, ficou em silêncio, mas então deu de ombros. Foi quando percebeu que estava cantarolando. Era natural que o secretário tivesse reagido daquela maneira. Mas Asgyle simplesmente ignorou.
E daí?
Não havia nada de errado em estar de bom humor.
Todos ficariam surpresos ao saber a causa.
Depois que dispensou o secretário, Asgyle relaxou os músculos ao redor da boca, que havia mantido conscientemente sob controle.
Não tentou conter os cantos dos lábios, que se erguiam espontaneamente. Em vez disso, soltou uma breve risada. O secretário tinha razão. Asgyle vinha se sentindo melhor do que nunca ultimamente. Não. Talvez nunca tivesse se sentido tão animado antes. Embora soubesse exatamente qual era a causa, não se importava. A ideia de estar sendo influenciado por um Ômega tão insignificante chegava a ser engraçada.
Mas aquilo era um fato óbvio. Quando acordava de manhã e encontrava Yohan dormindo em seus braços, todas as barreiras dentro dele desmoronavam.
Seu coração chegava a doer ao vê-lo encolhido daquele jeito, dormindo como um gatinho que ainda não havia crescido completamente. Também era verdade que sentiu uma pontada de culpa ao lembrar que desejara abraçar aquele corpo até o amanhecer. Mas, ao mesmo tempo, sentia um impulso feroz. Asgyle precisou sair às pressas do quarto antes que se transformasse em uma fera. Desde então, a imagem de Yohan continuava surgindo em sua mente durante o dia. Seus seios tremendo sempre que eram beijados, os lábios úmidos, os soluços…
— Ah!
Reconhecendo o cheiro de feromônios que transbordava de si mesmo, ele rapidamente recuperou a consciência. A sala de escritório estava cheia de seu feromônio excitado.
Asgyle franziu a testa, levantou-se e abriu a janela. O ar quente e seco entrou em um instante, mas parecia que sua razão havia voltado. Enquanto se apoiava na janela por um momento, Asgyle ponderou seus pensamentos.
”Ele é apenas um ômega qualquer”
O pensamento surgiu involuntariamente, mas logo ele o corrigiu..
“Um pouco magro… um pouco bonito… Bem, talvez seja um pouco fofo”
Quanto mais se lembrava dele, mais coisas encontrava. Seu narizinho era adorável, os olhos grandes que o encaravam eram bonitos, e ele era tão fofo que Asgyle queria morder seus dedos trêmulos. Yohan ainda o encarava e tremia de medo como antes. Mas, apesar de estar tão assustado, acabava derretendo em seus braços quando era beijado.
Era inevitável.
A natureza do ômega é enfraquecer diante dos feromônios, independentemente de sua vontade.
Pobre coitado.
Por um lado, Asgyle sentia pena.
Por outro, ria.
Yohan parecia um esquilo escondendo pão para o inverno e comendo apenas o que havia guardado. Na verdade, até um esquilo provavelmente seria mais econômico com comida do que Yohan. Ao se lembrar dele sendo pego sem sequer ter retirado o pão que havia escondido, Asgyle não conseguiu mais controlar a expressão e começou a rir.
Imediatamente percebeu a risada que escapara espontaneamente. Mesmo assim, não conseguiu evitar que os cantos de sua boca permanecessem suavizados.
“O que ele está fazendo agora?”
Aquele não era o momento para ficar pensando nisso. Ainda havia muito trabalho a fazer. Precisava verificar o estado do rei, concluir o restante das negociações com Hayden e garantir que tudo estivesse preparado conforme suas necessidades. É claro que, considerando o andamento das coisas até aquele momento, havia poucas chances de algo dar errado. A menos que surgisse alguma variável inesperada. Depois que Hayden fosse embora e Asgyle assumisse o trono, ele se casaria em pouco tempo.
Asgyle já havia planejado um palácio privado para Yohan. Um novo palácio seria construído, bonito e esplêndido, não muito distante de seu escritório. Ali, poderia passar algum tempo com aquele gato travesso e brincalhão sempre que estivesse cansado do trabalho. Sua esposa teria um herdeiro sem dificuldades, e Asgyle poderia continuar desfrutando da companhia de seu amado Ômega.
Ele pensava em fazer isso como um favor, para que, um dia, quando seu coração esfriasse, pudesse partir quando quisesse.
Nada era permanente neste mundo, e o coração humano estava sempre mudando.
Mas não agora.
Às vezes, os Ômegas não entendiam seus limites. Yohan também ultrapassava o limite de vez em quando. Como se tivesse percebido que o príncipe herdeiro estava interessado nele, tentava chamar sua atenção fazendo sons absurdos. É claro que isso não funcionava. Enquanto permanecesse quieto, Yohan poderia ser tão fofo quanto quisesse. Asgyle clicou a língua mentalmente.
É inevitável.
Porque não existe fim para aquilo que as pessoas desejam.
Ele não pretendia permitir que Yohan tivesse um filho próprio. Na verdade, nenhum Ômega teria filhos, não apenas Yohan. A linhagem do vigário do deus profano terminaria naquela geração, assim como aquela estranha tradição. Asgyle acreditava nisso.
E, pouco depois, ele e Hayden partiram para a viagem conforme o planejado. É claro que Hayden estava bastante animado havia alguns dias.
— É a primeira vez que pessoas comuns cruzam este deserto?
— Sim.
Quando perguntado de dentro de um carro em movimento, Asgyle respondeu calmamente. Hayden virou a cabeça para olhar a areia sem fim e murmurou.
— Se você se perder em um lugar como este, vai morrer.
— Se você não conhece o deserto, assim será.
Asgyle sempre fora seco.
Quando a viagem terminasse, o rut do rei já teria chegado ao fim. Então ele retornaria e cuidaria do restante. Esperar o tempo passar quando tudo já estava programado era irritante para qualquer pessoa. Mas havia outra coisa que o deixava inquieto agora.
— Eu gostaria que Yohan tivesse vindo comigo.
Hayden murmurou aquilo de repente.
É claro que era absurdo.
Hayden se aproximou um pouco mais e perguntou:
— Vossa Alteza não pretende tomar Yohan como sua esposa, certo?
— Claro que não.
Asgyle respondeu sem hesitação. Tudo o que ele conseguia pensar era se este homem tinha perdido a cabeça por causa dos feromônios. Era tolice tomar um ômega como esposa. No entanto, ele não tinha intenção de entregá-lo a Hayden.
— Será melhor não me provocar. A menos que queira ser deixado sozinho no deserto.
Asgyle fez o possível para deixar o aviso claro. Hayden rapidamente calou a boca e houve silêncio entre eles por um tempo.
O deserto continuava se estendendo sem fim.
Fazia muito tempo desde que Asgyle vira uma paisagem como aquela. Ele estreitou os olhos enquanto vasculhava suas memórias.
Pensando bem, quanto tempo faz desde a última vez que havia saído para caçar com falcões?
Fazia muito tempo que não treinava um falcão para caçar. Asgyle possuía alguns falcões de que gostava particularmente, e até os treinadores cuidavam deles com grande dedicação.
“Da próxima vez, deveria trazer Yohan e mostrar os falcões a ele”
Talvez ele ficasse assustado.
Asgyle sorriu suavemente ao imaginar Yohan tremendo de medo e se agarrando a ele.
Seria bom.
***
Ha…
Uma respiração áspera agitava seus ouvidos. Seu ombro ardia como se estivesse queimando.
Sim. Eu fui baleado.
Asgyle se lembrava vagamente daquilo. Não sabia como havia escapado do perigo. A verdade era que ele havia sobrevivido sozinho neste deserto infinito.
Eu poderia morrer assim.
Ele nem sabia em que direção ficava a fazenda mais próxima. Ele desmaiou, incapaz de distinguir sonho da realidade, lutando para recuperar a consciência.
‘…Camar’
Alguém o chamava pelo nome.
Que estranho.
“Qual era mesmo o meu nome?”
‘..Camar, eu te amo’
Ele abraçou com todas as forças aquele corpo pequeno e macio. Parecia que, se o soltasse por um instante, iria perdê-lo.
Se isso acontecesse…
Se perdesse aquele corpo…
Eu vou morrer.
Seu corpo inteiro ficou frio de medo. O pequeno corpo em seus braços era tão magro que parecia quebrar com um pouco de força. No entanto, eu não conseguia soltá-lo. No instante em que o fizesse, aquela pessoa desapareceria.
O quê?
…Quem?
— Vossa Alteza!
Alguém o acordou com uma voz rouca.
Asgyle abriu os olhos por um momento e não conseguiu voltar a si por um tempo. Tudo o que conseguia pensar era no desconforto de sentir o corpo inteiro encharcado de suor frio.
— Majestade, tenho uma mensagem urgente do palácio.
Tardiamente, ele percebeu que o secretário estava olhando para ele com o rosto pálido. As memórias estavam fragmentadas e não conseguiam se encaixar.
Ele se lembrava de ter procurado Hayden e o falcão e, depois, de terem montado uma tenda no deserto.
“Eu bebi?”
Parecia que Hayden havia fumado narguilé. Talvez até ópio.
Eu não sabia quando adormeci ou com o que sonhei, mas estava claro que algo havia acontecido.
— …No palácio, o quê?
O rei provavelmente já deveria ter chegado àquela etapa do seu rut.
Será que alguma coisa deu errado?
O secretário respondeu às palavras mal pronunciadas:
— Disseram que o Ômega foi levado. Eu… a cerimônia sagrada de Sua Majestade, o rei…
O secretário gaguejou, mas o significado ficou claro. Asgyle parou de se mover, com uma das mãos pressionada contra a têmpora latejante..
— … O quê?
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↫─☫ Continua…. //
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør