Capítulo 173

Capítulo 173
Quando acordou, estava parado no meio de uma estrada desconhecida. Levou um pouco mais de tempo para entender a situação. No entanto, não conseguia compreender por que estava sozinho num lugar como aquele, para onde todos os seus guarda-costas haviam sumido, e o que era aquele terno velho e surrado. Nem sequer tinha um celular, muito menos dinheiro, tudo o que possuía era uma tapeçaria.
— Droga.
Estava tão perturbado que praguejou sem perceber. Asgyle esfregou a testa nervosamente e olhou ao redor. Numa rua tranquila, algumas lojas estavam abertas, esperando por clientes. Ele entrou de bom grado em uma delas e encontrou o dono. O dono da loja de miudezas olhou para o próprio celular, depois ergueu os olhos e olhou para Asgyle.
Soltou um “ah”.
Internamente, Asgyle suspirou. Era impossível que alguém ousasse olhar para o seu rosto daquela forma. Mas conteve as emoções e logo esfriou. Se fosse uma situação normal, uma única palavra bastaria para separar aquela cabeça redonda do corpo, mas não agora. Asgyle parou de falar com o dono. Os títulos dos jornais dispostos lado a lado no balcão de vendas chamaram sua atenção. Ele naturalmente desviou o olhar, notou a data e ficou instantaneamente chocado.
Pegou o jornal rapidamente e o folheou, mas nada mudou. Com os olhos arregalados, o dono o observava confuso. A presença daquele hóspede incomum despertava sua curiosidade, mas ele não conseguia abrir a boca com facilidade. O homem finalmente se dirigiu ao dono, que prestava atenção, sentindo uma estranha sensação.
— … Que dia é hoje?
A voz baixa era estranhamente calma. Não era fácil distinguir a emoção do homem, se estava nervoso, zangado ou perturbado, mas era evidente que estava confuso. O dono ficou intrigado com a aparência do homem segurando o jornal, mas respondeu com submissão.
— Hoje é dia X de tal mês de 20XX.
De repente, o homem amassou o jornal. Seu rosto se ergueu com uma expressão de surpresa. Vendo aquela expressão, o dono finalmente perguntou, pois sua paciência havia chegado ao limite.
— O quê? O que diabos está acontecendo?
Ele olhou ao redor como se estivesse procurando algo, deixando transparecer sua curiosidade, mas não estava em condições de responder com facilidade. Com o rosto confuso, olhou alternadamente para o rosto do dono e para a data no jornal, e soltou um suspiro sufocado.
— … o telefone.
Depois de um tempo, Asgyle abriu a boca. O rosto ainda pálido, continuou em sussurro.
— Quero fazer uma ligação. Não é um assalto.
O dono estava muito preocupado com o jornal que Asgyle havia estragado, mas ficou se perguntando o que aquele homem estava tentando fazer. Depois de discar em silêncio o telefone da loja, pegou o receptor e o entregou. O homem, que parecia estar esperando por aquele momento, abriu a boca imediatamente.
— Sou eu, Dive.
Uma respiração aguda do outro lado da linha chegou fracamente aos ouvidos do dono. Asgyle continuou.
— Venha até aqui agora. Precisamos conversar.
Em seguida, pegou um cartão de visita empilhado sobre o balcão e leu o endereço nele. A ligação terminou rapidamente e Asgyle desligou o telefone.
Apesar da curiosidade do dono, ele não disse nem fez mais nada. Tudo o que fez foi sentar-se de pernas cruzadas numa cadeira, fitando a tapeçaria que trouxera consigo, contemplando algo. O dono tinha muitas perguntas sobre ele, mas não estava com disposição para perguntar nada, apenas o observava. Por outro lado, Asgyle notou a insinuação do dono, mas a ignorou. Havia algo mais importante para ele naquele momento.
“Por que diabos eu estava segurando isso?”
Por mais que olhasse, não havia nada de especial. Era apenas uma tapeçaria comum. Feita claramente com bastante habilidade.
Ele nem conseguia se lembrar do que havia acontecido com ele. Sua última lembrança era ter saído para o deserto para caçar falcões, e ali as memórias se perdiam.
Mais de um ano havia se passado.
Por mais que pensasse, não conseguia se lembrar. Quanto mais tentava, pior ficava a dor de cabeça, deixando-o ainda mais ansioso.
— … …
Foi então que finalmente fechou os olhos, esfregou a testa e cuspiu um palavrão entre dentes. Perguntou-se se conseguia ouvir o motor de um carro, e logo vários carros pretos pararam diante da porta aberta. Homens correram para fora deles e entraram apressados na loja, e o homem à frente gritou alto.
— O senhor está bem? Eu…
Enquanto falava, avistou seu senhor e fechou a boca rapidamente. Passando pelo dono, que os observava com uma expressão perplexa, os homens correram até Asgyle e se ajoelharam sobre um joelho, um de cada vez.
— Fico feliz que esteja a salvo. Vamos mantê-lo em segurança a partir de agora.
Asgyle passou por ele sem dizer uma palavra. Dive, que se levantara rapidamente, seguiu-o como se corresse atrás dele, e os homens desapareceram tão rápido quanto haviam entrado. O dono, que ficara para trás, piscava com os olhos arregalados, segurando o jornal amassado.
— … O quê? O que foi isso.
Contou aos conhecidos sobre os acontecimentos daquele dia, que acabaram parecendo um sonho, mas isso não durou muito. E seis meses depois o dono soube que o Príncipe Herdeiro havia visitado sua loja.
***
— … Então, a pessoa que Zakriya encontrou secretamente na semana passada foi um traficante de armas americano. Ainda estamos tentando descobrir quais itens ele encomendou, mas logo teremos uma lista em mãos. E, mais uma vez, há informações de que ele está recrutando mercenários.
Asgyle falou com calma, sem demonstrar nenhum sinal de surpresa diante do relatório de Dive.
— Depois de comprar armas, é claro que é preciso encontrar alguém para usá-las.
A questão é: de onde veio todo aquele dinheiro? Com as finanças que Asgyle conhecia, era impossível executar um projeto dessa magnitude. Franziu a testa involuntariamente e, depois de hesitar por um momento, Dive abriu a boca.
— Por fim, sobre a tapeçaria que o senhor encomendou.
Pela primeira vez, Asgyle demonstrou reação. Dive, que estava de pé diante da enorme mesa, parou, olhou para ele e continuou a falar, visivelmente incomodado.
— Vasculhei toda a região, mas não consegui encontrar nenhuma pista. Ouvi dizer que tapeçarias semelhantes eram vendidas em Al Fatih, mas o homem que as vendia lá morreu num acidente há alguns meses. Além disso, não descobri mais nada.
Uma ruga profunda se formou na testa de Asgyle. Aquela era a única pista que ele tinha sobre o que havia acontecido durante seu desaparecimento. Mas, se nem Dive conseguia encontrá-la, talvez fosse realmente impossível.
O que aconteceu durante esse tempo?
Por mais que pensasse, nada lhe vinha à mente além da dor de cabeça. De qualquer forma, tudo estava bem até ele voltar ao palácio real, sem problemas.
Ele até tinha uma cicatriz no ombro que nunca havia visto antes. “Será que fui sequestrado? Por quem? Por quê? Como?”
Talvez alguém estivesse tramando algo relacionado ao que aconteceu no passado. Se soubessem sobre a cicatriz, certamente teriam motivo para me ameaçar.
“Vamos, apareça na minha frente” Asgyle estreitou os olhos.
“Vou matar ratos e pássaros sem que percebam.”
Não havia nada que ele pudesse fazer agora. Era muito frustrante que a memória de mais de um ano tivesse desaparecido, mas, por outro lado, se nada acontecesse, poderia ficar esquecido para sempre. Porque isso não era o mais importante no momento.
— Continue monitorando os movimentos de Zakriya e investigue mais as fontes de financiamento. Não deve haver como atrair e gastar essa quantia de dinheiro sem deixar rastro.
— Certo. E quanto à tapeçaria?
Dive perguntou com cautela. Pensativo, Asgyle respondeu secamente.
— Não é uma coisa inútil? Descarte-a por conta própria.
— Certo.
Dive curvou-se educadamente e se afastou. Asgyle, deixado sozinho no escritório, mergulhou em pensamentos profundos. O trabalho havia atrasado por causa do seu desaparecimento.
Felizmente, parecia que o rei ainda não havia recuperado a saúde, mas isso poderia ter produzido uma situação irreversível se tivesse demorado um pouco mais.
“Preciso me apressar”
Sua expressão escureceu. Se Zakriya estava recebendo dinheiro do exterior…
Quando pensou nisso, um clarão de luz surgiu de repente diante dele e desapareceu. Por um instante, prendeu a respiração. Só para ele, o medo não era uma emoção que precisasse esconder. Um estrondo alto de trovão se seguiu logo depois, e ele cobriu os ouvidos com urgência.
“Asgyle”
A mãe ensanguentada repetia seu nome. Um fantasma que não vai embora por mais que se tente afastá-lo entra na mente.
“Asgyle, você deve ir até sua mãe”
Os dedos finos dela se enrolaram em volta do seu pescoço. A respiração ficou sufocante e os olhos escureceram. Asgyle cerrou os dentes e fechou os olhos, imóvel por um longo tempo. A chuva continuou a cair, deixando-o novamente sem sono.
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↫─☫ Continua…. //
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør&Belladonna