Capítulo 169

⚝ Capítulo 169
— Por quê?
Eu mal conseguia emitir som, como se estivesse forçando minhas cordas vocais.
— Por que… Por que o senhor fez isso?
Enquanto eu gaguejava, incapaz de falar direito, Asgyle me perguntou com a voz misturada a uma risada cínica:
— Por que eu quis matar meu pai? Ou por que criei aquele teatrinho?
— Os dois… Quero saber os dois.
Reuni coragem para responder. Asgyle ficou em silêncio por um instante. Não sei se ele estava escolhendo as palavras ou organizando os pensamentos, mas eu esperei.
— O Rei…
Ele finalmente abriu a boca e eu prendi a respiração.
— Ele enlouqueceu desde que o ômega dele morreu. Passou a me odiar e parecia estar perdendo o juízo. …É difícil imaginar que um homem daqueles tenha amado alguém, mas não há razão para tentar adivinhar nada além disso.
A voz de Asgyle voltou ao normal. Ele continuou a falar com um tom calmo, quase sem emoção:
— Ele fez tudo o que pôde para me matar, mas, assim como aquele homem, eu sou resistente a drogas. Se ele tivesse agido antes da minha manifestação, bem, provavelmente teria tido sucesso.
— Que alívio…
Ao me ouvir falar em tom de alívio, ele acariciou minha cabeça. Fechando os olhos diante do conforto daquela mão grande, curvei-me enquanto Asgyle me abraçava e sussurrava acima da minha cabeça:
— Como eu era o único herdeiro e já havia me manifestado, ele não conseguia encontrar um pretexto para me punir ou me matar abertamente. Ele não tinha escolha a não ser ter outro filho ou me matar em um acidente, o que também me parece estranho. Por que nem mesmo o filho da Rainha teve permissão para nascer, e por que não houve mais ninguém que gerasse um filho do Rei depois disso?
— …
— Talvez ele simplesmente não quisesse um filho.
Asgyle chegou a uma conclusão, como se falasse consigo mesmo. Fiquei intrigado e recordei as palavras do Steward. Ele dissera que alfas dominantes conseguem controlar a fertilização, então não seria possível gerar um filho com a pessoa que quisesse, no momento em que desejasse? Por que o Rei não teve mais filhos? Ele o odiava tanto e não havia outro sucessor.
A menos que se pergunte diretamente ao Rei, provavelmente nunca saberemos a resposta. Isso era tudo o que o Príncipe Herdeiro podia me contar.
— Ainda assim, é demais o que ele fez ao tentar matar o senhor. — Era hora de criticar o Rei, mesmo que em voz baixa.
— Bem, eu não sou diferente.
— Mesmo assim…
Ele acrescentou com indiferença, tentando de alguma forma encerrar o assunto:
— Dá no mesmo, já que eu dei a ele todo o veneno que consegui encontrar.
Quando ouvi aquilo, fiquei sem palavras. De qualquer forma, eu poderia ter dito que era legítima defesa ou que ele não teve escolha para sobreviver, mas por algum motivo nada saiu da minha boca. Ele manteve o foco e falou comigo de forma despreocupada:
— Percebi que seria difícil matá-lo agindo pelas costas. Foi então que conheci Hayden enquanto estudava na Inglaterra.
Talvez surpreso pelo nome que eu havia esquecido, Asgyle confirmou:
— Aquele desgraçado que você chama de H.
Soava um pouco como provocação, mas achei um tanto ríspido chamá-lo de desgraçado. No entanto, não era o momento de apontar isso, então apenas esperei. Asgyle continuou:
— Achei que ele fosse um cara de quem eu não iria querer me aproximar, mas ele foi surpreendentemente útil. O pai dele era dono da maior empresa farmacêutica do mundo.
Instintivamente, prestei ainda mais atenção. Piscando os olhos, ouvi Asgyle continuar:
— Aquele pó nasceu naquele laboratório. O Hayden o produziu pessoalmente e o entregou para mim. Ele veio até aqui para receber o preço que lhe prometi após verificar o progresso.
— …Dinheiro?
Quando perguntei com cautela, Asgyle soltou uma risada curta.
— Eu gostaria que fosse isso, mas infelizmente ele não é um cara movido a dinheiro.
O Steward já havia dito algo parecido antes. Sendo assim, qual era o preço que o H queria?
— Nós, Yohan… — A voz calma de Asgyle ecoou. — Conseguimos obter quase tudo o que desejamos, então algo simples assim não serve para fechar um acordo.
Será que esse “nós” se referia a alfas dominantes como o Príncipe Herdeiro? Ou ele estava falando de pessoas da mesma classe social que a dele? Ou seriam do mesmo tipo de linhagem?
Havia coisas demais para ponderar, mas pensei que ele poderia estar se referindo a todas as alternativas. O que era certo era o fato de que eu não conseguia me incluir naquele “nós”.
Sentindo uma lenta sensação de isolamento, apressei-me em escondê-la. É absurdo que eu me sinta assim. É o normal. Rezei para que o Príncipe Herdeiro não percebesse e, enquanto eu permanecia em silêncio com a boca fechada, Asgyle continuou a falar:
— Comecei a dar o pó ao Rei a partir de um certo dia. O efeito não foi ruim. …Mas demorava demais. A saúde do Rei vinha se deteriorando pouco a pouco, mas, naquele ritmo, achei que ele conseguiria sobreviver por mais dez anos.
— …
— Fiquei exausto de esperar. Estava cansado de o Rei me dar medicamentos sem sentido.
— …
— Por isso, o Hayden desenvolveu uma nova fórmula e a enviou para mim. E achei que valia a pena tentar. Eu não queria esperar mais dez anos, aguardando o Rei morrer.
— Ah…
Sem perceber, soltei um suspiro e cobri rapidamente a boca com ambas as mãos. Diante da minha reação, Asgyle acariciou minha cabeça como se já esperasse por isso.
— Sim, foi por isso que criei aquele teatrinho.
Inesperadamente, as peças da história se encaixavam perfeitamente. Exceto por um detalhe.
— O senhor poderia ter morrido. Por que fez isso?
— Eu era o único alfa dominante que poderia testar a droga — disse ele após uma pausa. — Se eu morresse, seria inevitável. Talvez fosse isso o que ele esperava.
Fiquei pensando nele parado sozinho no jardim. Com um rosto infinitamente vazio, não seria estranho se ele simplesmente desaparecesse daquela forma. Talvez esta pessoa estivesse esperando por aquele dia há muito tempo. Quando pensei nisso, meu coração apertou. Abri a boca com dificuldade:
— Não havia necessidade de correr esse risco e testar em si mesmo.
Meu coração desabou ao pensar que este homem realmente poderia ter morrido naquele dia. Sussurrando com a voz trêmula, perguntei:
— No fim, sobrevivi e não foi uma escolha ruim. Se for descoberto, servirá de pretexto para o suspeito escapar e será um excelente caso para acusar outros.
“Zakriya.”
Talvez Asgyle estivesse certo. Os “outros” de quem Asgyle falava. Era fato de Zakriya também ser hostil com Asgyle.
De repente, algo me veio à mente. Não foi ele quem o envenenou. Aquilo foi um jogo do próprio Asgyle, e era Asgyle quem tentava matar o Rei. Pelo contrário, era o Rei quem queria matar o Príncipe Herdeiro.
Se ambos desaparecerem, o trono…
— O senhor Zakriya, então… Ele tem alguma relação com isso?
Ao fazer a pergunta apressadamente, Asgyle respondeu com indiferença:
— Ele é um homem astuto como uma serpente, e não faz nada que permita que o peguem pelo rabo. Mas ele é capaz de qualquer coisa para plantar pensamentos ruins na minha cabeça.
— Mas se Sua Majestade, o Rei, e Vossa Alteza, o Príncipe Herdeiro, entrarem em confronto por causa do exército, é certo que ambos estarão em perigo, não é verdade?
— Sim. — Asgyle não negou. — Talvez o Zakriya use esta oportunidade para arquitetar uma conspiração. Estamos cientes de qualquer movimentação suspeita.
— Então…
— Ou ele pode se aliar ao Rei para me derrotar primeiro e depois reivindicar o trono.
A situação parecia extremamente complicada. É claro que havia muito pouco que eu pudesse fazer.
“Se eu tivesse deixado o pó onde estava…”
Prendi minhas mãos com força e abri a boca com dificuldade:
— Mais uma vez… Dar o pó ao Rei… É impossível?
— Sim. — Asgyle respondeu prontamente desta vez também. Como se não houvesse nada a esconder. — Não foi tão difícil dar o pó a ele na primeira vez. Por causa de sua arrogância de que nenhuma droga forte surtia efeito nele, ele consumia qualquer substância. Dizem que ela proporciona uma imensa sensação de felicidade até causar a dependência. Parece ter o mesmo efeito que as drogas comuns têm em pessoas normais — acrescentou ele.
Lembrei-me de vê-lo consumindo o pó por conta própria. Tudo o que o Príncipe Herdeiro precisava fazer era reabastecer a caixa de joias que continha o pó. Seria possível apresentá-la ao Rei na primeira vez através de qualquer pessoa. O Rei, que já vinha doente antes, consumiu sem desconfiar e rapidamente se rendeu ao prazer que experimentava pela primeira vez.
“…Eu arruinei o plano de Asgyle.”
Eu não conseguia sequer mensurar quantas pessoas morreram e quantas seriam afetadas por isso. Tudo porque eu trouxe o pó.
“Por minha causa.”
— A culpa não é sua.
Como se estivesse lendo meus pensamentos, Asgyle falou. Surpreso, ergui os olhos e ele continuou suavemente:
— Tudo correu de forma bastante tranquila até aqui. Não pode ser que tudo tenha terminado apenas com ele se tornando um viciado.
— …No entanto…
— Tudo bem, estou pronto. É apenas uma questão de esperar pelo momento certo.
— Mesmo assim…
Quando eu estava prestes a dizer mais alguma coisa, o Príncipe Herdeiro me beijou e calou a minha boca. Misturando nossas línguas, ele acariciou meu corpo lentamente. Rapidamente fiquei sem fôlego e me senti tonto, mas não conseguia parar de pensar. Sangue e pessoas morrendo passavam pela minha cabeça, e entre elas estava a figura de Asgyle.
Pensei que ele iria me deixar sem ar, então abracei rapidamente o Príncipe Herdeiro. Meus dedos estavam frios e meu corpo inteiro tremia, e eu não conseguia suportar aquilo.
Desistir deste homem e morrer por este homem são duas coisas diferentes. Eu jamais poderia deixá-lo morrer.
“Eu tenho que acabar com isso.”
Fiquei pensando sobre isso. Mesmo que eu morra em caso de fracasso, não posso assistir a este homem morrer primeiro.
O efeito do veneno é garantido. Não resta muito, mas é possível se eu der tudo de uma vez. E, se o Steward estiver certo…
Tenho certeza de que conseguirei.
Jurei para mim mesmo repetidas vezes, tentando afastar a imagem do rosto sem vida de Asgyle que estava presa em minha mente. Os três dias prometidos estavam chegando ao fim.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør&Faby