Capítulo 168

⚝ Capítulo 168
— A pessoa que provocou meu primeiro cio foi o ômega que me deu à luz.
A princípio, não entendi o que ele estava dizendo. Enquanto eu piscava, confuso, Asgyle continuou a falar com a voz calma:
— Depois que a Rainha morreu, não muita coisa mudou. Eu era o único herdeiro e era tratado como tal. …Até que o primeiro cio chegasse.
De repente, aquelas palavras ecoaram como um trovão em meus ouvidos, quase como uma alucinação auditiva. Enquanto eu prendia a respiração, a voz dele me alcançou:
— Os feromônios estavam me deixando desnorteado, mas alguém entrou no quarto.
Lembrei-me de quando presenciei o cio dele. O som de sua respiração arfante, seus olhos dourados, seu rosto corado e o estado daquele homem que não demonstrava o menor vestígio de racionalidade.
“Era como uma besta.”
Arrepios surgiram em minha pele e tremi sem perceber. Asgyle, que me abraçava, deve ter sentido, mas não reagiu. Era como se fosse natural eu ter esse tipo de reação. Um canto do meu coração estremeceu e sussurrei baixinho:
— O senhor se lembra de tudo?
— Não — respondeu ele. — Não sei os detalhes. De qualquer forma, era a minha primeira vez, e com certeza um ômega estava deitado na cama me esperando, enquanto eu apenas sofria com os sintomas.
Asgyle soltou uma risada curta e autodepreciativa.
— Então o ômega disse: “Não se preocupe. Como seu pai, eu vou enlouquecer com esse corpo”.
Ele continuou com a voz estranhamente abafada:
— Foi então que percebi que ele era o ômega que se deitava com o meu pai. Mas, e daí? Que tipo de ômega restaria no palácio real? Meu pai, o Rei, realmente agia como se fosse morrer se passasse um único dia sem fazer aquilo.
E então Asgyle riu de si mesmo.
— Bem, existe algum alfa dominante que não seja assim?
— Vossa Alteza. — Sem perceber, aproximei-me e o chamei.
Asgyle pegou a minha mão e a colocou sobre o meu ventre, como se dissesse que estava tudo bem.
— De qualquer forma, a única coisa em que eu conseguia pensar era que precisava me livrar dos feromônios o mais rápido possível, mas de repente aquele ômega fez isso. Disse para eu ir rápido.
Depois de respirar fundo, ele finalmente confessou:
— Disse para eu usar logo a entrada de onde eu tinha acabado de sair.
Prendi a respiração, sentindo uma agonia sufocante. Asgyle, chocado a ponto de não conseguir se mover, continuou a falar com calma:
— Quando acordei, já tinha despedaçado o corpo dele por completo.
— …
— Havia sangue por toda parte, não apenas na cama. Saí de lá coberto de sangue, mas não consigo me lembrar direito do que aconteceu depois. Ninguém disse nada e eu não perguntei. …No entanto, é verdade que o Rei começou a se opor abertamente a mim depois disso.
Enquanto o escutava com a respiração suspensa, percebi uma contradição. O motivo de o Rei odiar o Príncipe Herdeiro talvez não fosse por ele ter matado o seu ômega. Afinal, ele já havia tentado matá-lo junto com a Rainha antes disso.
Se a hostilidade passou a ser expressa externamente após a morte do ômega, a verdade devia ser outra, exceto pelo fato de aquilo ter sido o estopim.
Qual seria a razão para ele odiar tanto o seu único filho?
Meu coração batia sem parar devido à ansiedade e encolhi o corpo. Não me restavam muitas memórias, mas, quando meus pais ainda estavam vivos, eu sabia o suficiente para ter certeza de que eles me amavam. Essas lembranças ainda me dão forças de tempos em tempos. Mas com Asgyle é diferente. A Rainha que cuidava dele, morreu daquela forma, e ele ficou sozinho no palácio espaçoso…
Como deve ser doloroso para uma criança saber que seus pais a odeiam. Sem dizer mais nada, Asgyle murmurou:
— Isso é tudo, é uma tolice.
Balancei a cabeça.
— Não.
— É uma tolice, não é nada. Existem muitos pais no mundo que odeiam seus filhos.
Ele não estava falando de nada em especial. É claro que o que ele dizia era verdade, mas com certeza haveria muito mais pais que amavam seus filhos. Mas, em vez de magoá-lo, mudei de assunto:
— …Eu vou amar muito o meu filho.
— Sim, você faria isso. — Ele concordou sem hesitar. Mesmo que seja o meu filho, e não o de Camar.
A mão grande de Asgyle acariciou meu ventre de forma significativa. Por algum motivo, meu corpo se contraiu. “Será que eu realmente teria um bebê no ventre?” Ainda em dúvida, ele soltou uma risada curta e acrescentou, como se falasse consigo mesmo:
— Como eu poderia deixar você sozinho?
Ele parecia prestes a dizer algo ríspido, mas manteve a boca fechada. Provavelmente sabia que, se xingasse o Camar mais uma vez, eu não ficaria quieto. E, claro, isso era verdade.
O silêncio se instalou. O oásis sempre foi muito calmo, sem nada se movendo, exceto por uma brisa ocasional.
“Será que cheguei a sentir essa calmaria quando estava sozinho com o Camar?”
Foi quando me lembrei disso vagamente.
— Quero te perguntar uma coisa.
Virei a cabeça ao ouvir a voz baixa. Ele esperou por mim, tenso, como se estivesse refletindo por um momento, sem dizer nada. Abri a boca quando senti algo sinistro e meu coração gelou:
— Você roubou aquele pó, Yohan?
— …? — Inclinei a cabeça, sem saber o que dizer, e Asgyle continuou: — Fiquei sabendo por Hayden. O Steward enviou um pó misterioso para o laboratório. Quando o questionei, o Steward disse que o conseguiu através de você.
Fiquei tão surpreso que nenhum som saiu da minha garganta. Asgyle, diante de mim que havia congelado com a boca aberta, ainda perguntou com a voz calma:
— Por que você o pegou? O que estava tentando fazer?
Tentei falar, mas a voz não vinha. Ao me ver tenso, ele deu um leve toque nas minhas costas como se quisesse me tranquilizar, e então parou. Mantendo a mão onde estava, Asgyle disse:
— Tudo bem, podemos conversar devagar. Eu espero.
Ele não acariciou mais as minhas costas; apenas me abraçou daquela forma e permaneceu em silêncio. Minha respiração trêmula foi diminuindo aos poucos e fui me acalmando vagamente. Mal consegui me recompor e abri a boca:
— O senhor sabe que pó é aquele?
A voz trêmula parecia a de outra pessoa. Asgyle não respondeu à minha pergunta, apenas me devolveu com outro questionamento:
— Como você conseguiu aquele pó?
— Isso… — Engoli a saliva seca e respirei fundo mais uma vez. Foi preciso ainda mais coragem para dar a resposta. — Naquele dia, o dia da cerimônia sagrada de Sua Majestade… Vi Sua Majestade retirar continuamente o pó de uma caixa e misturá-lo ao vinho… Mas, de repente, ele vomitou sangue.
Prendi a respiração novamente e interrompi a fala. Respirei fundo mais algumas vezes para me acalmar e continuei:
— Eu… Vossa Alteza, o senhor teve esses mesmos sintomas, por isso ainda não detectamos o culpado e não conseguimos descobrir que veneno era aquele.
— Então… — Asgyle concluiu por mim: — Você pensou que se tratava do mesmo veneno e o roubou.
— Sim. — Depois disso, o ar que estava preso finalmente escapou. Acrescentei, sentindo-me um pouco mais aliviado: — Pensei que o assassino que tentava matar Vossa Alteza também estivesse tentando matar Sua Majestade, então achei que descobrir qual era o veneno nos ajudaria a encontrar o culpado.
Aquela suposição não estava inteiramente errada. A razão pela qual a saúde do Rei melhorou provavelmente foi porque roubei o veneno e ele não pôde mais consumi-lo.
Mas, considerando a situação agora…
Mordendo o lábio de embaraço, abri a boca com dificuldade:
— O senhor já sabia sobre o pó?
Asgyle não respondeu de imediato. Por algum motivo, tive a impressão de que ele estava escolhendo as palavras, mas logo desistiu e falou soltando um suspiro:
— Sim.
Meu coração, que mal havia se estabilizado, começou a palpitar devagar.
— En-então, por acaso… Qual é o veneno, e quem é o culpado… O senhor sabia?
— Sim.
Desta vez, a resposta veio um pouco mais rápido. Respirar estava se tornando cada vez mais difícil, mas eu não conseguia conter minhas emoções. “Por favor, por favor…”
— Sua previsão está correta — Asgyle continuou a falar calmamente. — Eu sou o culpado.
Prendi a respiração de surpresa, e ele prosseguiu com serenidade:
— Fui eu quem colocou veneno na taça do meu pai, e fui eu quem tentou matá-lo, envenenando-o constantemente para levá-lo à loucura. A culpa é toda minha.
“Meu Deus”
Cobri a boca com ambas as mãos.
“O que foi que eu fiz?”
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør&Faby