₊ Capítulo 44.1
𓂃˖˳·₊˚.𔓎 Capítulo 44.1: A Vista Dentro da Moldura ⋆⁺₊
No que dizia respeito àquela novata, Ruan Nanzhu parecia particularmente avesso a ela desde o primeiro dia.
Lin Qiushi lhe perguntou se ele havia pressentido que algo estava errado com ela desde o início, mas quem poderia imaginar que Ruan Nanzhu lhe daria uma resposta superficial em troca:
— Não. Eu só odeio pessoas que começam a chorar no momento em que entram nesses mundos de porta. Pessoas assim geralmente fazem perguntas demais e são problemáticas demais para lidar.
Depois de declarar isso, ele olhou para Lin Qiushi, seus olhos se aprofundando com imensa satisfação, e sorriu radiante.
— Você não costuma fazer tantas perguntas nem se intrometer muito, e eu gosto disso.
Lin Qiushi: …
Ele provavelmente deveria ser grato pela sua própria falta de curiosidade.
Yang Meishu era o nome dessa tal novata. Talvez o maior erro que ela poderia ter cometido fosse fingir ser uma completa iniciante. Assim que entrou no mundo da porta, começou a soluçar persistentemente, provocando assim o desprezo de Ruan Nanzhu. Se ela tivesse mudado de abordagem e agido de forma fofa, poderia genuinamente ter tido uma chance de se aproximar de Ruan Nanzhu — assim como Xu Jin teve no mundo anterior.
— Você não disse que há apenas uma pista para cada porta? — Tan Zaozao estava bastante confusa depois de ler o pedaço de papel na mão de Lin Qiushi. — Qual é exatamente a história deste bilhete?
— Não necessariamente. É só que tais instâncias são bastante raras — esclareceu Ruan Nanzhu. — Eu já encontrei essa situação específica algumas vezes antes. Quanto ao motivo de dois bilhetes diferentes poderem existir dentro da mesma porta, eu não tenho uma explicação a oferecer, já que eu mesmo não sei. Talvez esse fenômeno seja acionado por condições especiais?
Ruan Nanzhu apertou o pedaço de papel entre os dedos e ponderou profundamente:
— Ou talvez… os indivíduos que obtiveram tais bilhetes sejam os especiais.
Claro, essas eram meramente conjecturas suas, especulações que não podiam ser provadas naquele momento.
— Então, como está tudo com Yang Meishu agora? — Lin Qiushi indagou. — Ela sabe que você já descobriu a verdadeira identidade dela?
Ruan Nanzhu sorriu alegremente:
— Quem sabe por enquanto, mas nós vamos descobrir, muito em breve.
Seu tom era leve e relaxado:
— Eu realmente espero que ela ainda esteja viva quando descobrir.
Lin Qiushi: …
Uma malícia diabólica surgiu nas profundezas dos olhos de Ruan Nanzhu, gritantemente óbvia e assustadoramente gélida.
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Profundamente envolta na quietude da noite serena, Yang Meishu estava deitada na cama.
Aquele homem belo não apareceu no salão de jantar para comer com os outros durante o dia. Parecia que seu plano havia funcionado sem contratempos. Ele trouxera aquilo para si mesmo. Quem mandou ele recusar as investidas sinceras dela? Yang Meishu sentiu uma pontada de arrependimento ao recordar aquele belo homem. Ela era honestamente bastante afeiçoada a ele, e ele também poderia ter vivido até o fim; era uma pena que aquilo não fosse mais possível.
Naquele momento, duas mortes haviam sido confirmadas. Claro, o objetivo final de Yang Meishu ainda estava longe de seu alcance, mas ela não tinha pressa; afinal, a situação inteira estava inteiramente sob seu controle, desenrolando-se exatamente como ela desejava na palma de suas mãos. Desde que os humanos dentro daquele mundo de porta fossem lentamente eliminados, segundo as leis desses mundos de porta, ela, a sobrevivente restante, seria invencível. E, quando esse momento chegasse, a questão da chave ou da porta para escapar daquele inferno poderia ser facilmente resolvida.
Quanto àquela regra particular de que ninguém deveria matar outro nos mundos das portas — os mortos que buscavam vingança geralmente sabiam quem eram seus inimigos. Mas aqueles humanos lamentáveis que haviam morrido injustamente e se tornado inconscientemente um fantasma errante mal conseguiam compreender suas próprias mortes, quanto mais descobrir de quem deveriam se vingar; nem é preciso dizer, como poderiam eles exercer uma vingança sem sentido se nunca perceberam quem ou o que levou à sua ruína, para começo de conversa?
Pensando nisso, Yang Meishu riu baixinho de puro deleite. Ela cantarolou alegremente uma melodia enquanto contemplava o teto. Não demorou muito para que mergulhasse em sono profundo.
Plin. Plin. Plin.
Gotas congelantes de água tamborilaram no rosto de Yang Meishu, grudando delicadamente em sua pele frágil. Ela abriu os olhos grogue e, através de sua visão turva, avistou uma mancha escura e úmida borrando as paredes acima. As manchas imundas e molhadas maculavam o teto puro e branco como neve, e contas translúcidas de água caíam constantemente sobre suas bochechas.
Yang Meishu ficou instantaneamente ciente de seus arredores, a névoa em sua mente se dissipando. Ela saiu rapidamente da cama e olhou ao redor. Sem que ela soubesse, a janela originalmente fechada havia sido escancarada. Rajadas invernais rasgavam sua janela, convidando a frieza cortante da chuva impiedosa.
Assaltada pelos ventos amargos, Yang Meishu tremia incontrolavelmente. Querendo fechar a janela, ela foi até a beira da cama, quando inesperadamente avistou uma figura encapuzada de pé do lado de fora de seu quarto.
Era uma mulher. Uma mulher esguia vestida num vestido preto esvoaçante e num chapéu preto clássico. Sua cabeça estava inclinada para trás num ângulo leve, e seus olhos negros e sem alma espiavam Yang Meishu, uma mania perturbadora emanando de seu olhar sinistro. A escuridão de seu traje preto acentuava o aspecto medonho de sua tez pálida. Ela era como um cadáver encharcado e em decomposição, recebendo silenciosamente a chuva em cascata sobre sua figura.
— Ah!!! — Yang Meishu cambaleou para trás de susto. Ondas de suor frio lavaram seu corpo trêmulo. Plin. Plin. Plin. As manchas d’água no teto se expandiram, tornando-se cada vez mais proeminentes. O cabelo de Yang Meishu ficou mais úmido também, absorvendo gradualmente a umidade.
De repente, Yang Meishu foi atingida por um estouro de lembrança. Ela correu até seu criado-mudo e agarrou sua mochila, virando-a do avesso com urgência, em busca de algo.
Não está aqui! Não está aqui — não havia vestígio do item que ela procurava! Gotas gélidas de suor escorriam por sua espinha, encharcando suas roupas e anunciando sua angústia. Em pouco tempo, os joelhos de Yang Meishu cederam sob ela, e ela desabou no chão com um grito derrotado:
— Onde está o bilhete?! Onde está o meu bilhete…
O bilhete havia sumido; não havia nada. A chave vital para sua sobrevivência não estava em lugar algum. Yang Meishu tremia de medo, como uma corça recém-nascida. Ela ergueu a cabeça com rigidez e encarou o teto acima, olhando temerosa enquanto as manchas d’água crescentes se distorciam gradualmente na forma de um ser humano.
Pasma diante da visão, Yang Meishu se pôs de pé freneticamente, desejando desesperadamente fugir daquele quarto o mais rápido possível. No entanto, quando se aproximou da porta e girou a maçaneta para abri-la, descobriu, para seu maior desespero, que seu único meio de fuga estava trancado.
— Me ajudem! Tem alguém aí! Socorro… — Gritos plangentes rasgaram a garganta rouca de Yang Meishu. Ela observou sem esperança as manchas d’água se deformarem no teto, contorcendo-se agitadas como se desejassem se libertar das paredes que as continham. Ela socou furiosamente a porta, ansiosa para deixar aquele quarto horrendo.
— Me ajudem! Me salvem, alguém… — O fedor espesso e estagnado de água encheu seus pulmões, sufocando-a. Yang Meishu uivou em agonia; pela primeira vez na vida, ela percebeu quão amargo era o sabor do desespero.
Seus olhos dispararam ao redor em pânico, até pararem em certo objeto. Em algum momento, a paisagem comum ilustrada na pintura de seu quarto havia se transformado num retrato zombeteiro de um indivíduo familiar. A aparência da mulher capturada na tela praticamente espelhava a da senhora do castelo; na verdade, a semelhança era tão sobrenatural que bem poderia ser a própria senhora em carne e osso.
— Aaaaaah… — A razão de Yang Meishu finalmente sucumbiu ao medo insuportável, e ela avançou imprudentemente contra a pintura. Ela agarrou a faca de frutas e começou a golpear o retrato assombrado diante de seus olhos, retalhando-o impiedosamente. Ela baixou a lâmina cruelmente de novo, e de novo, e de novo…
Em pouco tempo, A Mulher da Chuva estava despedaçada; fragmentos rasgados do rosto inexpressivo da dama caíram e se espalharam pelo chão. Yang Meishu finalmente soltou a lâmina afiada. Com o cabelo desgrenhado e os olhos enlouquecidos, ela arfava de forma irregular, seu peito subindo e descendo pesadamente.
— Eu não tenho medo de você. — Yang Meishu entoava delirante. — Eu não tenho medo de você…
No entanto, quando olhou de volta para a janela, seu coração parou.
A mulher que deveria estar de pé do lado de fora de sua janela estava agora dentro de seu quarto. Sua figura iminente lançava uma sombra fria e escura sobre o corpo de Yang Meishu, envolvendo a jovem trêmula numa desolação caliginosa. Nas mãos da mulher havia uma moldura preta, uma que Yang Meishu conhecia bem demais — era a moldura que ela usara para matar os outros.
— Não, não, não, não! — Foi naquele exato momento que Yang Meishu compreendeu a gravidade de sua situação. Ela olhou ao redor horrorizada, tentando encontrar a verdadeira moldura que a encaixava; infelizmente, era tarde demais.
A mulher caminhou friamente em direção a Yang Meishu, por fim parando bem diante dela. Ela olhou para a outra com um olhar vazio, então ergueu a ameaçadora moldura preta em suas mãos e a esmagou com força contra a garota.
— Aaaaaaah!!! — Ao contrário de Xiao Su, que perdeu a consciência imediatamente ao ser atingida pela moldura e inserida num retrato, Yang Meishu não foi diretamente incrustada numa pintura. Em vez disso, a moldura se transformou numa arma serrilhada e mutilou sua carne com lacerações severas, das quais filetes espessos de sangue quente e carmesim jorravam.
Yang Meishu lutou para se virar e escapar, mas tudo o que escapou foi sua força, abandonando-a lentamente à fraqueza. Tendo suas forças falhado, ela desabou no chão com força. Enquanto jazia no piso, seus olhos turvos vagaram pelo quarto, logo repousando sobre as ruínas do retrato que ela havia retalhado.
Por fim, a escuridão sem vida embaçou sua visão, e as pesadas pálpebras de Yang Meishu se fecharam.
Até seu último suspiro, ela nunca percebeu o que havia levado à sua ruína trágica.
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Lin Qiushi dormiu muito bem naquela noite. Na manhã seguinte, Ruan Nanzhu acordou excepcionalmente cedo e de humor bastante agradável. Ele cumprimentou Lin Qiushi com um sorriso radiante.
— Bom dia. — Lin Qiushi alisou seu cabelo preguiçosamente desgrenhado. — Você parece estar de bom humor?
— Claro. — Ruan Nanzhu olhou as horas. — Mal posso esperar para tomar café da manhã.
Lin Qiushi não pensou muito nas palavras de Ruan Nanzhu; simplesmente achou que o homem estava ansioso para encher a barriga faminta. Por outro lado, Tan Zaozao considerou a declaração do outro com uma expressão pensativa.
Em seguida, o grupo de três se dirigiu ao salão de jantar. Ruan Nanzhu encontrou um lugar para se sentar e começou a examinar o cômodo, aparentemente procurando por algo.
— O que você está procurando? — Lin Qiushi perguntou a ele, enquanto mastigava seu pão fresco.
— Estou procurando alguém. — Ruan Nanzhu respondeu. — Parece que mais um de nós está faltando.
De fato, havia um a menos entre eles. A novata de quem Ruan Nanzhu falara no dia anterior não estava em lugar algum. E não eram só eles que notaram aquela situação estranha, ao que parecia. No fim, alguém abordou o parceiro de Yang Meishu e perguntou sobre ela.
— Eu não sei. Eu bati na porta dela, mas ela nunca abriu. — O companheiro de equipe respondeu. — Ela ainda pode estar dormindo.
Todos eles haviam formado equipes temporárias arbitrariamente naquele mundo de porta, então era apenas natural que não fossem próximos uns dos outros, muito menos leais; era inútil esperar que as partes envolvidas cumprissem conscienciosamente seus deveres como companheiros confiáveis. No entanto, a resposta do outro foi desdenhosa e inconsiderada demais, fazendo todos franzirem o cenho.
Zhang Tao, que havia encontrado a moldura anteriormente, disse:
— Como é que ela ainda poderia estar dormindo nestas circunstâncias? Algo deve ter acontecido. Vamos ver como ela está.
Quando terminou de dizer isso, lançou um olhar a Ruan Nanzhu, aparentemente aguardando sua aprovação.
— Certo. — Ruan Nanzhu assentiu.
Embora Ruan Nanzhu raramente se pronunciasse e raramente oferecesse sua própria opinião, de alguma forma ele ainda assumia o papel de líder da equipe, simplesmente por causa de seu caráter distinto e sua disposição imponente. Todos sempre paravam para ouvir sua opinião primeiro, antes de tomar qualquer decisão. Talvez fosse a isso que o mito do carisma se referia, Lin Qiushi pensou consigo mesmo.
Eles logo chegaram ao quarto de Yang Meishu. Mesmo antes de entrar, Lin Qiushi podia sentir o fedor pungente de água imunda no ar. Lin Qiushi reconheceu instantaneamente que a situação lá dentro estava longe de boa assim que sentiu aquele odor vil; depois que arrombaram o quarto à força, suas suspeitas foram confirmadas.
Não havia sinal de Yang Meishu.
Mas o quarto inteiro estava em frangalhos, lançando alguma luz sobre o terrível desastre que ocorrera na noite anterior.
As janelas estavam escancaradas, permitindo que a chuva torrencial jorrasse para dentro do quarto e encharcasse bagunçadamente os tapetes. A pintura de paisagem que estava suspensa na parede estava em farrapos caóticos, deliberadamente retalhada por alguém. E cacos de vidro quebrado estavam espalhados desordenadamente pelo chão.
— Onde ela está? — Zhang Tao se perguntou em voz alta.
Ninguém conseguia responder. Na verdade, todos os olhos não puderam deixar de se desviar para a pintura enrolada pendurada do lado de fora da entrada. Sem perguntas, todos estavam convencidos de que Yang Meishu era um caso perdido e já havia se tornado uma pintura.
— Vamos procurar por ela. — Ruan Nanzhu disse, antes de girar nos calcanhares e sair do quarto.
Imediatamente depois, os outros o seguiram e começaram a procurar por toda parte pela pintura de Yang Meishu.
Era um fato indiscutível que Ruan Nanzhu tinha algo a ver com aquele assunto, mas Lin Qiushi não ousou perguntar na hora. Ele esperou até que todos os outros saíssem, antes de sussurrar:
— O que você fez?
— Eu apenas devolvi o que era legitimamente dela, nada mais. — Ruan Nanzhu deu de ombros com indiferença. — Quem diria que ela seria tão estúpida.
— Onde você colocou a moldura? — perguntou Tan Zaozao, que havia muito descobrira o que estava acontecendo.
Ruan Nanzhu não respondeu e, em vez disso, acenou para que eles o seguissem.
Minutos depois, eles voltaram ao quarto de Yang Meishu.
Ruan Nanzhu fechou silenciosamente a porta atrás deles, então caminhou a passos largos até a cama e se curvou, ajoelhando-se no tapete.
Ao ver suas ações, Lin Qiushi adivinhou onde o outro havia escondido a moldura — pensar que ele realmente enterrou a moldura debaixo da cama de Yang Meishu.
— Isso realmente funcionou? — Tan Zaozao arregalou os olhos de incredulidade.
— Eu também queria descobrir se funcionaria. Acontece que os resultados definitivamente superaram minhas expectativas. — O que Ruan Nanzhu havia colocado debaixo da cama era uma moldura vazia que se transformou numa pintura.
Se havia um problema, era que eles não conseguiam distinguir a imagem na pintura diante de seus olhos, pois seu conteúdo estava hediondamente convoluto além do ponto do grotesco; nenhuma única pessoa que pusesse os olhos naquela peça insana poderia possivelmente reconhecer o que estava desenhado. No entanto, a julgar pelos pigmentos vermelhos e quentes usados, era bastante aparente que o que estavam olhando era sangue.
— A gente nem consegue ver a Yang Meishu. — Com a cabeça baixa, Tan Zaozao estudou a pintura. — Se você vai capturar alguém fielmente numa pintura, pelo menos mostre um pouco da aparência da pessoa, ah…
Deus sabia o que Yang Meishu fez para que sua pintura saísse com aquela cara.
— A pintura dela permaneceu no mesmo lugar, indicando que ela nunca deixou este quarto. — Ruan Nanzhu analisou. — Já que ela nunca saiu do quarto, isso significa que ela morreu por outras condições.
Seu olhar vagou para a pintura de paisagem rasgada na parede.
— Ela deve ter erguido a mão contra A Mulher da Chuva.
— Hum. — Lin Qiushi concordou com o raciocínio de Ruan Nanzhu. — Quando você está preso dentro da moldura, as pinturas originais do quarto mudam para outras imagens.
Ruan Nanzhu concluiu a tragédia de Yang Meishu com uma última frase:
— Realmente, não há nada mais divertido que uma briga de gatas.
╋━ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna, Othello&Yuki