⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 07
— Pra você eu posso ser um amigo de onze anos, mas pra mim você é a única pessoa há onze anos. Você me trata com tanto carinho que parece que seria capaz de me dar até o próprio fígado, como é que eu não ia gostar? Faz tudo o que eu peço, cuida de mim mais do que a minha família, e eu não ia gostar de você?
— …
— Você é que tá sendo cruel, não acha?
Na voz que ele cuspiu, ofegante, havia, sem que se percebesse, um traço de choro. Jihyeon cobriu os olhos com uma das mãos e abaixou a cabeça. Os lábios, que por um bom tempo só soltavam respirações trêmulas, emitiram uma voz fina, como se fosse se partir a qualquer momento.
— Eu também não quero gostar de você.
Eunho também sabia. O quanto um sentimento indesejado é revoltante e o quanto é amargo. Uma emoção que chega de repente é praticamente desespero.
— Mesmo assim eu gosto.
Por isso aquilo não era uma confissão, mas apenas o desabafo de uma mágoa antiga. Era um sentimento acumulado por muito tempo, uma ferida que inflamou por não ter sido percebida até agora. Tudo aquilo explodiu de uma vez, e acabou contido nas lágrimas que caíam uma a uma.
— Eu gosto de você, Eunho…
Já tinha ouvido aquele “gosto de você” tantas vezes. Mas nunca a sinceridade dele tinha chegado como agora. O sentimento confessado com tanta intensidade era tão genuíno que contagiava até Eunho, que ouvia. Talvez abalado pela própria confissão, Jihyeon mordeu o lábio com força e falou como quem mastiga as palavras.
— Que você goste de mim, isso eu não vou pedir, porque eu também tenho consciência.
A frase, interrompida, ficou um bom tempo sem continuar. Só então Jihyeon baixou a mão que cobria o rosto e olhou para Eunho com os olhos totalmente molhados. O contorno trêmulo dos olhos parecia mais desolado do que nunca.
— …Será que você não pode só acreditar em mim?
Desta vez, Eunho realmente não conseguiu responder nada. Primeiro, porque Jihyeon, ao dizer aquilo, parecia de fato magoado; segundo, porque só então uma culpa dolorosa o invadiu.
— Dessa vez também eu tô errado?
— …
Sentiu que estava fazendo algo imperdoável. Sabendo o quanto é cruel desqualificar os sentimentos de alguém. Sabendo muito bem o quanto aquele cara imaturo devia ter pensado antes de dizer aquilo.
Mas, ainda assim, mesmo assim, apesar de tudo, era difícil acreditar. Por mais tranquilo que Eunho fosse, havia coisas que temia, e não podia fingir que não conhecia o Jihyeon que tinha visto até então. Sua doença crônica, a desconfiança profunda em relação às pessoas e a misofobia.
— Eu acho que você…
No instante em que finalmente abriu a boca, um sentimento sem explicação o invadiu. Com a mente em branco, de repente sentiu uma tristeza. Como se o sentimento de Jihyeon tivesse passado para ele, o coração, também transbordando, revelou o que ele guardara tão bem escondido.
— …Você já chegou a imaginar namorar comigo?
— …
— Se consegue fazer coisas como beijar?
A pergunta lançada sem pensar era uma das inseguranças fundamentais de Eunho. Nem ele, que fez a pergunta, esperava uma resposta definitiva, e Jihyeon, que a ouviu, também ficou com a expressão perdida por um instante. No momento em que Eunho ia dizer mais alguma coisa, os olhares se enredaram no ar.
— …
— …
O tempo pareceu parar. Como mais cedo no banheiro, quando passava creme nas mãos dele, os olhos pesados e sombrios começaram a se tingir de outra emoção. Com uma sensação de choque elétrico, Jihyeon se aproximou num piscar de olhos.
— …!
Ter o pulso agarrado e o tronco tombado foi coisa de um instante. No momento em que Eunho ficou deitado de costas no chão, a garrafa de vinho que estava na mesa caiu no chão. O vinho derramado encharcou o tapete fofo, e a garrafa, rolando, parou ao bater no pé do sofá.
E então os lábios se tocaram.
— Hmp…
Um calor intenso passou pelos lábios colados sem nenhuma fresta. Assustado, Eunho tentou empurrá-lo, mas Jihyeon prendeu os dois pulsos dele contra o chão e não o soltou. Não chegava a doer, mas era forte o suficiente para que não conseguisse se soltar.
“Que força é essa…”
Ele malhava religiosamente mesmo ocupado, e pelo visto só tinha ganhado força nas mãos, à toa. Eunho cerrou os punhos e dobrou um joelho, mas as pernas emaranhadas só ficaram ainda mais próximas. Parecia que conseguiria empurrá-lo se usasse toda a força, mas, antes que pudesse fazê-lo, Jihyeon inclinou levemente a cabeça.
— …Ngh.
Os lábios macios se esfregaram, e Eunho, sem querer, deixou escapar um som da garganta. O rosto ardia, e um calor subiu de repente desde a barriga. Enquanto tremia os olhos, sem conseguir vencer aquela sensação, sentiu os lábios colados se entreabrirem levemente.
“Ah… que loucura.”
Da outra vez, tinha desferido um soco de cara, mas desta vez não conseguia de jeito nenhum. Primeiro, porque estava com os pulsos presos, e porque ele próprio estava excitado demais para simplesmente recusar. Seria efeito tardio do vinho, ou estaria embriagado pelo clima? O mesmo valeu para o instante em que Jihyeon mordiscou seu lábio inferior e enfiou a língua.
Pela fresta dos lábios levemente entreabertos, uma língua macia invadiu. Diante da sensação quente e úmida, Eunho cerrou os dois punhos com força. A língua, que invadiu a boca sem nenhum pudor, esfregou-se na língua de Eunho, que estava quieta.
— Hn…
A mente ficou em branco e ele já nem pensava em empurrá-lo. Metade era pensar que ia enlouquecer, um pouco era deixar acontecer o que tivesse que acontecer, e outro tanto era um impulso que subiu de repente.
Talvez percebendo que Eunho tinha se acalmado, Jihyeon soltou os pulsos que segurava. Em vez disso, apoiou uma das mãos no chão e, com a outra, pegou o pulso de Eunho e o levou ao próprio rosto. Não sabia qual era a intenção, mas era exatamente a parte que Eunho tinha esmurrado.
Mas, desta vez, Eunho, por instinto, acariciou levemente o rosto de Jihyeon. Quando deslizou as pontas trêmulas dos dedos pela bochecha lisa, a língua que se esfregava sutilmente parou de repente. Retirando a língua devagar, Jihyeon ergueu as pálpebras.
— …Não vai me bater?
— …
Como ele perguntou sem afastar os lábios, sentiu o hálito sussurrante de forma explícita. Nos olhos que se encontraram de perto oscilavam várias emoções indecifráveis. Algo como dúvida, algo como expectativa, o sentimento desesperado de alguém que não conseguia adivinhar o que Eunho pensava.
— Você agora…
Será que ele ofereceu o rosto para que eu batesse se não quisesse? Assim que percebeu isso, seu peito se apertou. Uma montanha de palavras lhe veio à cabeça, mas não conseguiu dizer nenhuma.
Soltando um suspiro complicado, Eunho envolveu a nuca de Jihyeon com uma das mãos. Antes de fechar os olhos de novo, pareceu-lhe que uma percepção passou de relance pelos olhos molhados dele. No instante em que os fios macios se enroscaram entre seus dedos, Eunho o puxou e o beijou outra vez.
— …
Os lábios se encaixam de novo e as línguas se misturam, foi coisa de um instante. A mínima hesitação que restava sumiu no momento em que Eunho deslizou a mão pela nuca de Jihyeon. Jihyeon, enfiando a língua mais fundo do que antes, inclinou a cabeça e começou a revirar cada canto de sua boca.
O céu da boca e a língua, até a parte íntima embaixo da língua. Tudo o que Jihyeon tocava parecia extremamente sensível. No começo achou que fazia cócegas, mas pouco depois aquilo se transformou em prazer e foi se acumulando no baixo-ventre. Achando que, se se descuidasse, surgiria uma situação constrangedora, o melhor que pôde fazer foi dobrar os joelhos meio sem jeito.
— Hmmp…
Sem saber se Jihyeon percebia ou não a situação de Eunho, ele o pressionava de forma cada vez mais insistente. Além de envolver a língua dele e sugá-la, bebia o fôlego de Eunho como quem mata a sede. Os dois respiravam cada vez mais ofegantes, mas os lábios encaixados não davam sinal de se separar.
Ah, por que esse cara beija tão bem?
Pela primeira vez na vida, descobriu que um beijo podia ser tão doce. Justamente por estarem tomando um vinho adocicado, até a saliva parecia doce, e isso deixava tudo ainda mais intenso. Sons molhados ecoavam em seus ouvidos, e o hálito quente deixava o ar cada vez mais agitado.
Era a primeira vez que Eunho beijava alguém, mas, mesmo levando isso em conta, não fazia sentido ser tão bom. Em meio a um prazer completamente desconhecido, chegou até a se sentir inseguro. A satisfação de estar com os lábios colados aos de quem gostava também contribuía para isso.
Os lábios só se separaram muito tempo depois. Quando Eunho, inquieto, agarrou os ombros de Jihyeon, e Jihyeon, como se estivesse enlouquecendo, agarrou os pulsos de Eunho. Quando os dois, com o rosto vermelho, soltavam o pouco fôlego que tinham.
— …Haa.
Com um estalo constrangedor, os lábios se separaram. O fio fino de saliva não se esticou muito e se rompeu. Dos lábios já molhados de ambos saía uma respiração completamente excitada.
— …
— …
Ninguém dizia nada. Apenas o som das respirações ofegantes enchia a sala silenciosa. Eunho e Jihyeon só se fitavam com olhos pesados.
Entre eles, quem falou primeiro foi Jihyeon.
— …Desde quando?
A voz, mais grave que de costume, ficava rouca e falhada no final. Não havia nem um pingo de tranquilidade, e, longe de ser suave, estava cheia de ansiedade. Sem que precisasse perguntar o que ele queria dizer, Jihyeon fez a garganta vibrar como num rosnado.
— Desde quando aquele desgraçado era eu?
Pareceu que faíscas saltavam diante de seus olhos. O que havia no olhar dirigido a Eunho não era aquela emoção confusa de antes. Era, antes, uma percepção tardia e um pouco de sensação de traição, e prazer e euforia cobrindo tudo isso.
— Porra, e eu sem saber disso…
— …Ha.
Dar desculpas agora não mudaria nada, e Eunho já não tinha intenção de esconder. Já era leite derramado desde o instante em que acariciou o rosto dele, desde o instante em que o puxou e o beijou.
Sim, quer dizer que já era tarde demais para voltar atrás.
— Ei, eu…
Eunho cobriu o rosto com um braço e soltou longamente a respiração que lhe subia até a garganta. Só depois de recompor duas vezes a respiração acelerada, as palavras saíram de uma vez, num estado de entrega total.
— Eu até já me masturbei pensando em você.
“Você acha que eu sou piada?”
O dia em que Jihyeon o beijou durante o ensaio do roteiro. Eunho, que voltou para casa, não conseguiu dormir. Passou a noite em claro organizando os pensamentos e, sem conseguir se acalmar de jeito nenhum, acabou fazendo algo que não ousaria mencionar. Para ser sincero, não era a primeira vez e, justamente por não ser a primeira, sentiu ao mesmo tempo, auto desprezo e culpa.
Como Jihyeon poderia sequer imaginar esse sentimento?
— Eu gosto de você há quatro anos, Jihyeon.
— …
— A pessoa de quem eu gosto é você.
Não era desse jeito que queria dizer isso. Não, para começar, nem tinha intenção de dizer.
— Quando eu digo que gosto de você, isso inclui esse tipo de coisa também.
Era um sentimento que pretendia esconder a vida toda, com medo de nunca mais poderem voltar à relação de antes. Também era um sentimento pelo qual nunca pensou em ser correspondido, porque não confiava que conseguiria ser bom para ele. Achava que bastava guardá-lo sozinho e depois jogá-lo fora num lugar onde ninguém visse.
— Amigo de onze anos? Porra… isso é tudo papo furado. Faz quatro anos que eu não te vejo como amigo nem uma vez.
Quatro anos era só um modo de dizer; na verdade, apenas não tinha percebido. Gostava dele havia mais tempo, e há mais tempo não conseguia vê-lo como amigo. Sempre que um aperto inexplicável o sufocava, desviava os olhos sem nem perceber que aquilo era amor.
— Não é questão de acreditar ou não no seu sentimento.
— …
— Eu acredito, agora eu acredito, mas…
— …
— Mas é que eu fico inseguro.
Como expectativas irresponsáveis trazem decepção, era inevitável que Eunho fosse cauteloso. E se, depois de ouvir que ele gostava de si, confessasse o que sentia e Jihyeon dissesse que o sentimento dele era diferente e lhe desse as costas? Toda aquela situação que chegara de repente só causava um medo excessivo, já que ele não estava preparado.
— Você, sem saber de nada, me pedia pra passar creme nas tuas mãos. E eu, toda vez, por dentro… ah.
Achando que ia acabar xingando, Eunho soltou um suspiro e engoliu o resto. Não sabia se aquela sensação de transbordamento era por causa do beijo de agora há pouco ou por uma tristeza sem explicação.
— …Sabe com que sentimento eu dizia não toda vez que você me chamava pra dormir aqui? Quando você aparecia só com aquele roupão de merda, sabe o que eu pensava toda vez?
Jihyeon provavelmente nunca saberia, e Eunho não tinha intenção de contar daqui para frente. Gostar de alguém não precisava ser necessariamente nesse sentido, mas, de qualquer forma, Eunho sentia “esse tipo” de impulso por Jihyeon. Achava que, por mais que ele gostasse de si, sentiria repulsa por um desejo tão explícito.
— Mesmo sabendo disso, você consegue dizer que gosta de mim? Um cara que tem a mesma coisa que você no meio das pernas te olhando desse jeito, você acha que isso vai mesmo ficar tudo bem?
Não sabia como ele receberia aquilo, mas, para Eunho, era algo que já tinha pensado inúmeras vezes. Por mais inseguro e com medo que estivesse, para transmitir o que sentia, precisava pedir que ele compreendesse esse lado também. Se Jihyeon sentisse nojo, então teria de dobrar aquele sentimento sem nem chegar a estendê-lo.
— E você ainda tem uma misofobia forte…
— …Você se masturbou pensando em mim?
— …
Eunho se calou de repente. Por causa da frase que Jihyeon devolveu de supetão. Quando finalmente tirou o braço que cobria os olhos, Jihyeon o fitava de cima com o rosto completamente vermelho. Olhando para Eunho com olhos trêmulos, mexeu os lábios devagar.
— Você fica com tesão em mim?
Por que, naquele momento, sentiu que tinha falado errado? Seria porque ele fazia uma expressão ansiosa, ou porque, sem que percebesse, a parte de baixo dos corpos encostados estava pesada? Desde quando estavam tão perto? O peso que o pressionava de cima era diferente de antes.
— Continua falando, Eunho.
— …
— Eu tenho uma misofobia forte, e daí?
Pretendia perguntar se ele aguentaria tudo isso. Também pretendia confirmar se ele de fato não sentiria nojo.
Mas Eunho não conseguiu perguntar nada e soltou um riso incrédulo. Porque dava para prever muito bem a resposta, se fosse confirmar agora. Como esperado, Jihyeon falou com uma voz bem mais calma do que antes.
— Você me perguntou se eu conseguia te beijar. Aí eu respondi.
Ele tinha perguntado se conseguia, não mandado fazer. Mesmo tendo beijado por conta própria, fazia cara de quem pergunta qual era o problema. Claro que Eunho, que tinha correspondido também, não podia culpá-lo por isso.
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Faby&Othello