⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 33
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 33
* * *
Assim que subiram, Ji Hyeon primeiro tomou banho. Foi um gesto meio automático, mas, pra Eunho, que ficou ali sobrando, era uma situação nada menos que constrangedora. Enquanto ele hesitava, com uma sensação estranha, se podia ou não sentar no sofá, Ji Hyeon terminou o banho e saiu pra sala.
—…O que é isso?
Ele examinou Eunho, de pé na sala, com olhos de algum modo insatisfeitos. Felizmente ele estava com roupa de casa em vez de roupão, e o cabelo molhado estava com uma toalha por cima.
Depois de examinar Eunho de cima a baixo mais uma vez, ele perguntou como se não compreendesse:
—Por que você tá em pé desse jeito?
—…….
Por que estou em pé desse jeito? Porque o dono da casa foi tomar banho e me largou aqui, ora. Quando Eunho lhe lançou um olhar perplexo, Ji Hyeon murmurou com um tom ainda mais perplexo:
—Que coisa de repente…
Bom, não é que ele não entendesse. Quando Ji Hyeon o tratou como visita, Eunho também mostrara a mesma reação. Normalmente ele teria se sentado no sofá esperando por ele, banho ou não banho.
—E quem foi que pediu pra eu ver o roteiro e foi tomar banho?
Depois de responder como se nada fosse, Eunho se sentou no sofá do jeito que dava. Sentou-se no lugar diagonal de sempre, e Ji Hyeon ficou apenas olhando fixamente pra ele. Como por acaso o roteiro estava sobre a mesa, Eunho apontou pra lá com o queixo e perguntou:
—Então, que parte você quer que eu veja?
Só então Ji Hyeon se sentou em silêncio e pegou o roteiro. Folheou rapidamente as páginas e abriu uma parte, pousando-a na mesa. Deslizando o roteiro pra frente de Eunho, ele desviou o olhar de mansinho.
—É aqui que não sai direito.
—…….
Esse moleque não abriu numa página qualquer?
Mesmo pensando isso, Eunho examinou o roteiro que Ji Hyeon lhe estendera. Minhyeok e Yujin. A ‘S#32’, em que os dois apareciam, era uma das poucas cenas românticas de . Yujin era a mulher com quem Minhyeok prometera casar e também a vítima do assassinato que Minhyeok testemunhou. Era uma cena a ser gravada em breve, e uma atriz famosa conhecida pela imagem delicada faria a ponta.
“Ele vai sofrer de novo na hora de gravar.”
Eunho pensou por dentro enquanto percorria o roteiro. Era um conteúdo que passava de raspão, mas havia uma cena de beijo leve. Um sujeito que evita ao extremo o contato com outras pessoas — era evidente o tipo de estresse que ele sofreria só pra gravar aquilo. Seria uma sorte se conseguissem numa única tomada, mas nem tudo saía como se queria.
—É só essa cena que a gente tem que ensaiar?
—Por ora.
Era uma resposta pouco convincente, mas ele deixou passar. Desde que subira até ali, ele não achava que ensaiariam apenas uma cena. No começo o motivo podia ser não querer ficar sozinho, mas, uma vez começado o ensaio, Ji Hyeon também acabaria ficando sério.
—Você já decorou as falas, né?
Era óbvio, mas por ora ele perguntou uma vez. Como Ji Hyeon acenou com a cabeça, Eunho se levantou e mudou pro assento ao lado dele. Como ele precisava ver não só as falas, mas também a marcação e a direção do olhar, era melhor, se possível, ficar na mesma composição do roteiro.
—Quando estiver pronto, começa.
Quando Eunho falou, Ji Hyeon empurrou de leve pra baixo a parte de cima do roteiro que ele segurava. E, espiando de relance daquele jeito, parece que ele realmente não sabia que cena era. Segurando o riso que queria escapar, Eunho esperou que ele começasse as falas.
—…Você não vai mesmo falar comigo?
A voz que saiu devagar era bem diferente da de Ji Hyeon. A sensação lânguida sumira por completo e, no lugar, ficou afundada e áspera. Conforme a rubrica “aflito”, Ji Hyeon baixou as sobrancelhas e inclinou a cabeça.
—Sério…? De verdade?
A cena que iam ensaiar era justamente a seguinte à que gravaram naquele dia. A cena em que Yujin, namorada de Minhyeok, se aflige ao ver o rosto do amado cheio de ferimentos. Em contrapartida, Minhyeok tinha de medir o humor dela e acalmá-la com jeitinho.
—Eu já falei que errei… né?
O fim da frase arrastado vinha carregado de dengo. Era exatamente o tom de quem faz manha pra desfazer a raiva da namorada. Como podia ser tão exatamente o oposto do habitual? Eunho, admirado por dentro, leu a fala de Yujin:
—Você só fala isso da boca pra fora. Você não pensa que eu vou me preocupar?
Como pode um “amor” soar tão duro assim? Era uma fala cheia de preocupação e afeto, mas o que Eunho conseguia fazer era, literalmente, “ler”. Como toda a sua atuação se resumia ao papel de árvore numa apresentação do jardim de infância, esperar uma grande linha emocional era pedir demais.
—Eu também não queria brigar, amor… mas o que eu faço se aqueles caras vieram pra cima primeiro?
Mesmo diante de Eunho falando feito máquina, Ji Hyeon atuava com uma seriedade de set de verdade. Desde a primeira vez que leu roteiro com ele até agora, era justamente essa a parte pela qual Eunho o achava impressionante. Toda vez que ele abria a boca, todo o clima se quebrava, mas Ji Hyeon soltava as falas como se nada fosse.
“Ator é ator mesmo.”
Bom, era coisa boa. Como não esperavam dele uma grande atuação, Eunho também podia ajudar no ensaio sem pressão. Além disso, segundo Ji Hyeon, depois de ensaiar com o Kwak Eunho, ele definitivamente ganhava jogo de cintura pra segurar o riso diante de atores ruins (claro, se era xingamento ou elogio, era ambíguo).
—De novo, de novo você fala feio. Eu não falei pra diminuir o palavrão?
—Eu? Quando é que eu xinguei? Amor, eu não xinguei. Do que você tá falando?
Ji Hyeon arregalou os olhos e depois deixou escapar um riso derretido. Na obra, Minhyeok era um homem que “se armava” diante dos outros e se abrandava infinitamente apenas diante de Yujin. Um sujeito de sangue quente, temperamento explosivo e, sem combinar nada, ainda romântico.
—Desculpa mesmo. Nunca mais te preocupo.
—…Verdade?
—É, verdade.
—Você promete?
—Faço com o dedinho?
Respondendo prontamente, Ji Hyeon estendeu o dedo mínimo. Eunho, sem sequer olhar pra lá, entrelaçou o dedo de qualquer jeito. Depois de gravar isso ele vai lavar a mão por um bom tempo. Era isso que ele pensava por dentro.
—Confia no seu homem?
O rosto que sorria suavemente era radiante como nunca. Sem saber ao certo, era certo que, depois que fosse ao ar de fato, só essa cena seria recortada e postada em todo lugar. Junto com comentários do tipo “eu odeio quando homem se chama de ‘seu homem’ mas com o ator Ji fica bom demais ㅠㅠㅠ”.
—Sei lá, já levei tanta facada de quem eu confiava.
—Então eu tenho que soprar o machucado do meu amor.
—Enfim, você só sabe falar bonito.
Que namoro mais melado. Junto com esse comentário leve, Eunho virou a página do roteiro. Eunho também lera o roteiro antes, mas não decorara todas as cenas. Ele prestara atenção especial, no máximo, às cenas de luta com muito movimento.
E o conteúdo da página seguinte era este:
「Os dois se encaram. Corre uma tensão estranha.
Minhyeok ……
Yujin ……
Silêncio. O riso vai desaparecendo de Minhyeok
Minhyeok (aproxima-se de Yujin com cautela)
Yujin (como se pressentisse, fecha lentamente os olhos)
Minhyeok (encosta os lábios nos de Yujin)
Apenas os lábios encostados.
Muito depois, Minhyeok afasta os lábios.
Minhyeok (sussurrando) …Eu te amo.」
Era a cena de beijo que ele conferira antes. A única de toda a série , a cena com que Ji Hyeon mais sofreria. Ao menos não seria um beijo de língua, mas a rubrica “beijam-se novamente e se beijam” provavelmente teria interpretação diferente na gravação real.
“Aqui eu passo só cumprindo tabela…”
Como fizera ao entrelaçar o dedo há pouco, Eunho pretendia apenas fingir e tirou os olhos do roteiro. Provavelmente Ji Hyeon também soltaria a fala seguinte por conta depois de um tempo adequado.
Mas, no instante em que virou a cabeça, Eunho não conseguiu sequer respirar e parou os movimentos.
—…….
—…….
Desde quando estavam tão perto assim? Ele tinha certeza de que havia certa distância, mas o rosto de Ji Hyeon estava excessivamente próximo. Ele também devia ter olhado pra Eunho sem pensar, mas, assim que os olhos se encontraram, ambos fecharam a boca de vez.
“…Está no roteiro, mas.”
Os dois se encaram. Corre uma tensão estranha. Lembrando-se disso a duras penas, Eunho piscou devagar. Porque, se por acaso Ji Hyeon estivesse construindo a emoção, era preciso acompanhá-lo até certo ponto.
Como esperado, ele estava seguindo a rubrica, pois o riso que restava no rosto de Ji Hyeon desapareceu. Aquelas pupilas de cor especialmente clara olhavam diretamente pra Eunho. Quando foi mesmo? Como naquela hora em que ele tirou a caracterização e os olhos se encontraram. O olhar entrelaçado no ar começou a carregar uma tensão estranha.
—…….
Ah, mesmo assim, isso não é meio estranho?
Não era a primeira vez que ele via Ji Hyeon a essa distância. De vez em quando, ao fazer o papel de contracena, ou ao tirar alguma coisa do rosto dele, ou até ao retirar um grampo, Eunho se aproximava bastante.
“…Não, aquilo era mais longe que isso.”
Os traços elegantes como um desenho prendiam o olhar. Os cílios que tremiam levemente — ele não distinguia se eram atuação ou verdade. Nem no instante em que o rosto de Ji Hyeon foi se aproximando aos poucos e ele baixou os olhos e inclinou a cabeça.
—…….
—…….
Ele só se deu conta tardiamente demais de que os lábios tinham se tocado. Quando recobrou a consciência, um toque macio já pousara sobre seus lábios firmemente fechados. Um cheiro suave de xampu roçou a ponta de seu nariz, e dos lábios encostados se transmitiu um calor morno.
O que está acontecendo aqui? Esse pensamento durou pouco. Eunho, sem conseguir afastá-lo nem se distanciar, ficou olhando pra Ji Hyeon com ar aéreo. Como não havia um pingo de realidade, por um instante ele teve até a sensação de que o coração parava.
E então, no instante em que os lábios encostados se entreabriram,
—…!
Bum! Eunho, que desferiu um soco por reflexo, se levantou de um pulo. Ouviu-se um som que parecia doer bastante, mas ele nem teve tempo de perceber. Eunho, cobrindo a boca com uma das mãos, soltou de uma vez o ar que segurara.
—Ha…
Era como se a nuca queimasse. O toque que sentira instantes antes, apesar de ter sido um breve momento, não se apagava. Enquanto nem Ji Hyeon nem Eunho conseguiam olhar um pro outro, quem falou primeiro foi Eunho:
—…Desgraçado maluco.
Esse cara enlouqueceu de vez?
Já tinham ensaiado cenas românticas juntos, mas nunca uma cena de beijo. Se por acaso surgisse alguma cena de contato físico, eles apenas fingiam e seguiam. Mas que mudança de espírito acontecera nesse meio-tempo? Por mais que fosse parceiro de ensaio, ele não tinha obrigação de fazer nem isso.
—Você tá me achando com cara de otário?
—…….
—Eu falei que sou gay, porra, achou que podia fazer isso?
Ele sabia que aquilo era um excesso de vitimização. Pelo temperamento de Ji Hyeon, não era um ato pensado até esse ponto. Podia ter sido embriaguez do clima, ou podia haver outro motivo.
Só que uma coisa era certa: aquele beijo que ele dera sem pensar tocara a ferida de Eunho.
—Tem limite pra menosprezar uma pessoa…
Eunho era alguém que media a situação até pra encostar nele, com medo de que Ji Hyeon não gostasse. Quando por acaso precisava tocá-lo, ele ficava tenso sem que ninguém percebesse. E agora Ji Hyeon encostara os lábios sem o menor escrúpulo.
—Eu tenho que fazer até isso pra ensaiar roteiro?
A raiva aumentou por causa do desconcerto. Como se ele tivesse sido descoberto, as palavras jorravam como quem tem telhado de vidro. Ficar revoltado por ter reagido àquele breve contato lhe deixava sem meios de domar a fúria que subira.
—Pra você, encostar bocas pode ser rotina profissional, mas…
—…….
—Pra mim, não é.
Ji Hyeon não conseguiu dizer nada e apenas olhava pra Eunho com olhos aéreos. Mais precisamente, no instante em que ele mexia os lábios pra dizer alguma coisa, Eunho limpou os lábios com a palma da mão e virou o rosto.
—…O resto você faz sozinho.
Ji Hyeon nem teve tempo de segurá-lo. Eunho largou o roteiro quase o atirando, virou o corpo e saiu da sala. Só pelo som pesado de seus passos já se via o quanto ele estava com raiva.
—…….
Não muito depois, ouviu-se o estrondo da porta de entrada se fechando. Ji Hyeon, que ficou aéreo até então, tardiamente cobriu a boca com as costas da mão e arregalou os olhos.
O rosto tomado de perplexidade estava todo vermelho, até as orelhas.
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Fim do Volume 02
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna