⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 23
⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 23
Mas justamente o interessado, Ji Hyeon, mostrou uma atitude nada colaborativa.
—…Não precisa.
A resposta, que veio tardiamente, definitivamente não era uma afirmação. Nem aquela breve hesitação parecia rastro de ponderação. Como pareceu apenas que ele ficara sem palavras por um instante, Eunho acabou ficando um pouco sério.
—Ji Hyeon.
—Eu falei pra não me chamar assim.
Depois de ter sido dócil o tempo todo, Ji Hyeon reagiu com sensibilidade a esse chamado. E de quem ele vai reclamar por o nome dele ser Ji Hyeon? Os olhos bem arregalados pareciam cheios de insatisfação. No instante em que Eunho ia abrir a boca, Ji Hyeon falou antes dele:
—Não precisa porque eu já estou indo.
—…O quê?
As palavras que iam sair sumiram goela abaixo. Eunho por um instante o encarou com cara de bobo. Ji Hyeon, que soltou um suspiro, apertou a parte de trás do boné e virou a cabeça pro lado.
—O diretor procurou alguns médicos e eu fui. Não adiantou muito, mas.
—…Terapia?
—É. Devo ter ido em todos os famosos.
Não era um sujeito que mentiria sobre isso, e nem havia necessidade de mentir. Se quem procurara os médicos foi o diretor Byeon, não havia margem pra duvidar da competência deles.
—Não é problema do médico, é problema meu.
Ji Hyeon corrigiu naturalmente a parte com que Eunho mais se preocuparia. Que o motivo de o estado não melhorar ele mesmo conhecia bem.
—Dizem que o conteúdo da terapia é mantido em sigilo, mas como confiar? Até onde eu posso falar, o que eu não posso dizer, se isso vai virar problema depois — falando enquanto penso nessas coisas, a cabeça dói mais.
Era um problema ainda mais delicado por Ji Hyeon ser um artista. Toda terapia tem como base a formação de confiança entre paciente e terapeuta. Como não era fácil desde o começo, não era de espantar que houvesse tentativa e erro.
—Por isso eu ainda estou procurando. O diretor também disse que ia pesquisar mais.
Falando até ali, Ji Hyeon voltou a olhar pra Eunho. Aquelas pupilas especialmente claras quando batia o sol estavam agora infinitamente serenas.
—Então não se preocupa. …Eu sei que não posso depender de você nem pra isso.
A última frase saiu tão baixa que era quase inaudível. Não como uma fala dirigida a Eunho, mas como uma promessa feita a si mesmo. A julgar pelo olhar oscilante, ele não sabe se aquela fala teve algum efeito.
—E além disso, quais são as outras condições?
—…….
Dessa vez quem desviou o olhar foi Eunho. Eunho olhou pro chão do terraço à toa e domou o íntimo complicado. Na cabeça, as palavras que Ji Hyeon dissera um dia se repetiam nítidas como se fosse ontem.
—…Sem você eu não consigo respirar.
Com toda a sinceridade, ele queria mandá-lo dar um nome àquela emoção cega. Que a atitude que ele demonstrava era estranha demais, que aquilo, objetivamente falando, não era de jeito nenhum amizade, e que provavelmente o diretor Byeon, ao ouvi-lo, pensara o mesmo.
—Eu não conseguir dormir sem ele, ficar inseguro com medo de que ele suma de novo, ter até crise de pânico e não conseguir respirar…
—…….
—Isso é normal?
Não, claro que não. A não ser que você goste de mim.
Mas como ele poderia dizer isso? Quando ele perguntou antes se ele estava com ciúme, a resposta que veio de Ji Hyeon foi “por que eu faria uma coisa dessas?”. E se ele perguntasse se ele gostava dele, que vazio enorme ele sentiria? Desde o início, nada é tão ingênuo quanto a definição que um terceiro dá a uma emoção.
Aos olhos de Eunho, Ji Hyeon era pior que um patinho recém-nascido. Um sujeito que não tinha nenhum amigo simplesmente encontrou primeiro a pessoa chamada “Kwak Eunho”. As várias emoções que ele sentia não passavam de uma obsessão irracional pelo único ser existente.
Ou seja, não havia como aquilo ser um sentimento igual ao dele.
—…Cumpre o que você acabou de dizer.
Eunho respondeu de qualquer jeito e esfregou a nuca. Durante a gravação do ‘AME’, seu objetivo era desistir do sentimento nesse prazo e deixar de ser o único pra Ji Hyeon. Pra que ele não se decepcionasse intimamente depois que Ji Hyeon ficasse completamente bem. Pra que, ao não ser mais obcecado por ele, ele não sentisse traição ou mágoa. E pra que, no fim das contas, pudessem voltar a ser amigos comuns.
—Naquela vez foi repentino demais…
De certa forma era como um período de preparação. Mesmo pra Eunho, que cortava tudo sem apego, relações humanas e emoções eram coisas que não saíam como se queria. Como foi um fim com que ele esbarrou sem esperar, seria bom se dessa vez ele pudesse se preparar ao menos um pouco.
—Ah, é mesmo.
Eunho de repente se lembrou de uma coisa e soltou uma exclamação. E o que ele olhou ao dizer isso foi justamente o boné que Ji Hyeon usava. Aquele boné todo preto, sem estampa nenhuma, que ele lhe pusera e mandara embora da última vez.
—Até quando você vai usar isso?
Ele acabou esquecendo, de tão natural que era a atitude. Era claramente dele, mas, durante o tempo em que estiveram separados, Ji Hyeon vivia usando. Ele já costumava tomá-lo emprestado à força antes, mas o fato de não parecer ter nem intenção de devolver era bem cara de pau.
—Desse jeito você vai usar ele a vida inteira.
—…….
Engraçado que Ji Hyeon estava com uma expressão levemente tentada. “Pode?” — era evidente que era isso que ele pensava. Engolindo o “então pode?”, Eunho estendeu uma mão.
—Me dá agora.
De qualquer forma agora eles estavam na empresa, e até o hospital o diretor Byeon o levaria. Como não havia necessidade de se deslocar com o rosto coberto, já que se lembrou, ele pretendia recuperá-lo. Foi por isso que ele pediu, mas Ji Hyeon respondeu sem mudar uma linha da expressão:
—O cabelo tá amassado, não dá.
Era um motivo relativamente plausível, mas por algum motivo não tinha credibilidade. Eunho, que ficou fitando Ji Hyeon, apontou com o queixo, sem expressão:
—Tira. Eu confiro se amassou ou não.
—…Eu não lavei o cabelo.
Como esperado, Ji Hyeon, após uma breve hesitação, apresentou outro motivo. Dessa vez era um conteúdo um pouco mais convincente. É, se aquilo não tivesse sido dito a alguém com um TOC de limpeza severo.
—Quanto tempo sem lavar? Um dia?
Por mais que tivesse machucado o braço, aquele sujeito obcecado por limpeza não aguentaria muito. No máximo um dia, e com alta probabilidade a noite anterior. E, a julgar pelo fato de ele não conseguir responder agora, a chance de ele ter lavado de manhã era a maior.
—Não fica teimando à toa e entrega.
—…Por que você quer de volta um boné que nem é tão bom? Você tem o boné que eu te dei.
—E você, por que quer ficar com um boné que nem é tão bom?
—Eu te compro um novo.
—Por que você compraria…
Se ele é que precisa de boné, que compre um novo; por que cobiçar um boné já gasto até o osso? E ainda dando desculpas mal ajambradas descaradamente.
—Então eu lavo e devolvo.
—…….
Acho que mesmo depois de lavar ele não vai devolver. Quando ele começava a teimar assim, ele não cedia de jeito nenhum.
Então Eunho fixou o olhar nele e falou com aquele tom seco:
—Você disse que não ia esperar nada de mim.
—…….
—E já as palavras e as atitudes não batem.
A frase lançada de passagem foi suficiente pra fazer Ji Hyeon fechar a boca com força. Ele ficou de olhos baixos, sem conseguir dizer nada por um bom tempo. E então, não muito depois, tirou lentamente o boné.
Longe de não ter lavado, os fios que se espalharam suavemente pareciam de textura ótima, como um novelo desenrolado. O topo da cabeça estava um pouco amassado, mas nem isso estava impossível de olhar. Ji Hyeon passou a mão pelo cabelo de qualquer jeito e estendeu o boné a Eunho.
—Toma.
Que cara de quem toma veneno, pensou Eunho, e pegou o boné. Não, tentou pegar.
—…O que você tá fazendo?
—O quê.
—Não sabe e pergunta?
—…O quê.
—Você tem que soltar pra eu levar.
—…….
—Ei.
Esse desgraçado teimoso, sério. Ele acaba fazendo Eunho usar força. Assim que ele tomou à força o boné da mão dele, Ji Hyeon falou abertamente com ironia:
—Você gosta bastante desse boné, hein.
Se é pra ironizar, que não fale com brandura; se é pra falar com brandura, que não ironize. Quem gostava daquele boné agora era, aos olhos de qualquer um, não ele, mas Ji Hyeon.
—É mais confortável usar o de sempre.
Eunho respondeu de qualquer jeito e caminhou em direção à porta do terraço. Conversa terminada, ele pretendia ir voltando. Naturalmente achou que Ji Hyeon o seguiria, mas ele, em vez de segui-lo, abriu a boca ali mesmo:
—Eunho.
—…….
Era um chamado desnecessariamente adocicado. A ponto de ele prender a respiração sem perceber. Mesmo com Eunho não tendo se virado, Ji Hyeon perguntou de leve, olhando pra ele:
—Eu posso te ligar?
O que deu nele hoje, sério? Ele insistia em agir como alguém a quem falta algum parafuso. Ele já costumava medir a situação, mas nunca deixava tão evidente. Agora parecia que ele nem tinha fôlego pra esconder isso.
—…Por que você tá me perguntando isso?
Eunho puxou o boné que segurava e enfiou na cabeça. Não pretendia sair usando, mas queria de algum jeito esconder a expressão. Depois de se virar pra Ji Hyeon, fabricou a voz mais serena possível:
—Você é que tem que julgar por conta própria.
Se ele quer permissão, isso é ganância. Se ele achou que aquilo era uma reconciliação, ele também queria corrigir dizendo que era uma trégua momentânea. Que apenas entraram num período de calmaria, mas que não havia garantia de que aquilo não voltaria a irromper.
—Eu vou.
Deixando apenas essa frase, Eunho voltou a caminhar. Ji Hyeon não o seguiu e apenas ficou olhando aquelas costas. E aquele olhar assim fixado não se desprendeu até Eunho sumir do terraço.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna