Capítulo 04.12
4. Wolfie, The Bunny
—Meu pai recebeu a ajuda errada.
Uma pessoa realmente ingênua a ponto da tolice.
—Eu herdei o pecado desse pai.
Em vez de legar algo de que pudesse se lembrar com carinho, como o pai de Cheriot, seu pai lhe legou uma época dolorosa. Se não fosse por sua mãe, Yurij talvez tivesse crescido odiando o pai. Mas como sua mãe teve tanta compaixão e amor por ele, Yurij não pôde deixar de compreendê-lo.
—A cidade onde eu morava era um lugar onde um criminoso se comportava como um senhor feudal. Qualquer um que vivesse ali mais cedo ou mais tarde tinha que pedir dinheiro emprestado a ele e, se baixasse a guarda, sem perceber se via envolvido em negócios ilegais. Meu pai, com um ponto fraco explorado por aquele homem, contraiu dívidas, e eu, naturalmente, herdei o trabalho do meu pai.
Provavelmente ninguém sofria mais do que seu pai. Yurij não podia saber como se sentia um marido que continuava apegado às coisas de que a esposa gostava em vida.
Por isso Yurij não culpava ninguém. O erro era dele mesmo, que não tinha sido forte o bastante para mudar a situação.
Ao contar sua própria história de escolhas tolas, parecidas com as do pai, Yurij vacilou e acrescentou uma última frase:
—Eu nunca mexi com mulheres, idosos ou crianças.
Quis dar mais detalhes, mas não conseguiu abrir a boca. Para afirmar que nunca tinha tocado numa pessoa inocente que não fosse criminosa, ele era alguém que tinha ajudado, na sua época, a fazer o negócio de Igor funcionar. É verdade que depois ajudou Alexei a derrubar o império dos Volkov, mas isso era simplesmente o que devia ser feito.
Isso era, por ora, o máximo que Yurij podia fazer. Não ousava pronunciar a terrível palavra “máfia”. Criminoso e mafioso diferiam na natureza mesma do delito. Dizer em voz alta que estigma tinha carregado na vida exigia uma coragem muito maior do que Yurij imaginava. Seus pensamentos se dispersaram em desordem e seu coração bateu como se fosse explodir.
Por não conseguir imaginar com que olhos Cheriot estaria olhando para ele, Yurij manteve a
vista em suas mãos entrelaçadas durante todo o relato. O medo de que a qualquer momento ele soltasse a mão que segurava e se levantasse fez com que sua pele, já pálida, ficasse lívida.
Depois do breve relato de Yurijj, não houve reação de Cheriot. Sentiu o impulso de levantar a cabeça e olhar seu rosto, mas não se mexeu, temendo que a expressão que encontraria fosse de desprezo, como quem vê um inseto. Bem quando seu corpo, rígido pela tensão, começava a tremer com pequenas convulsões, Cheriot enfim falou.
—Então, o seu nome original definitivamente não é Yurij Campbell.
Seu coração afundou. Naquele momento não conseguiu entender que intenção Cheriot tinha com aquela pergunta. As polpas de seus dedos esfriaram. Lentamente, Yurij ergueu a cabeça e observou com esforço o rosto de Cheriot.
Felizmente, Cheriot não tinha a expressão terrível que ele imaginava. Também não havia decepção ou medo em seu olhar, nem ele parecia querer se afastar de seu lado imediatamente. Ainda continuavam de mãos dadas.
—Você disse que seus pais eram russos. O sobrenome não deve ser Campbell, né?
Ao ver a dúvida nos olhos de Yurijj, que não conseguia entender a pergunta, Cheriot sorriu com suavidade e explicou:
—Se o Wolfie sabe o meu nome, eu também tenho que saber o do Wolfie.
…Era esse o significado.
Uma cálida sensação de alívio fluiu com calma. O sangue começou a circular de novo por suas mãos, antes geladas. Um formigamento brotou nas polpas avermelhadas. Yurij abriu a boca lentamente.
—…Kiselyov.
Saiu de seus lábios um nome que ele não pronunciava em voz alta desde que fugiu de Saratov.
—Yurij Kiselyov.
Na verdade, Yurij gostava de seu sobrenome. Quando se casaram, seu pai disse que ela usasse o sobrenome da mãe, mas sua mãe disse que Kiselyov era muito mais bonito que Kozlova. Lembrando da mãe em sua juventude, que dizia que queria que todos soubessem que ela era a mulher de Kiselyov, Yurij também quis conservar aquele sobrenome.
—É muito mais impressionante que o nome Campbell, sem comparação!
Ao ouvir a exclamação admirada de Cheriot, Yurij, que ainda se sentia um pouco intimidado, relaxou. Ao ver aqueles olhos verdes brilhando de surpresa, Yurij também sorriu de leve. Ao vê-lo recuperar o sorriso, Cheriot o chamou pelo sobrenome.
—Kiselyov.
Saíram umas palavras num russo desajeitado. Yurij o corrigiu, pronunciando direito.
—Kisely-ov.
—Kisely-ov.
O esforço de Cheriot para falar russo repetindo depois dele lhe pareceu adorável, e o sorriso de Yurijj se abriu mais. Ao ouvir sua risada baixa, —haha—, Cheriot também riu junto. Cheriot, que sorria com uma doçura tal que lhe surgia uma covinha, perguntou com voz manhosa:
—Eu falei tão mal assim?
—Falou.
—Então me ensina a falar direito. Eu sempre sonhei em aprender russo algum dia.
Era evidente que ele estava inventando um desejo que nunca tinha existido, mas não soava nada mal. Yurij assentiu lentamente e acrescentou mais uma coisa sobre si mesmo. Era uma espécie de desculpa por não ter conseguido dar uma explicação adequada.
—Eu posso te ensinar o meu nome, mas eu também não falo bem russo. Meu nível de inglês pra ler e escrever é de estudante do ensino fundamental. Então… vai me tomar bastante tempo terminar de ler o livro que você me deu.
Temia que, se lesse o livro que ganhou de presente mais devagar do que o esperado, Cheriot pudesse se decepcionar, então Yurij mencionou esse ponto. Cheriot, que tinha ouvido em silêncio, fez uma proposta inesperada.
—Então… quer que eu te ajude?
—Como?
—Se você encontrar partes difíceis na leitura, me pergunta. Ou eu posso ler para você.
Yurij, que achava que já não tinha capacidade para aprender gramática nem queria se dar nenhuma possibilidade de progresso, piscou diante de um método que não tinha considerado.
Era uma proposta que só de ouvir já o alegrava. «Cheriot, ao meu lado, lendo um livro junto comigo.»
—Ou seja… quando isso acabar, você e eu vamos voltar para Vancouver, né?
—…É isso.
Não sabia quando seria, mas diante da menção de um futuro próximo, Yurij começou a ficar um pouco nervoso. Teve a ilusão de que Cheriot estava insinuando algo que ele só tinha ousado imaginar em segredo.
—Então talvez, depois do trabalho, eu possa passar na sua casa pra gente ler junto.
«Tomara que não seja ilusão.»
—Ou nos fins de semana, quando você vier na minha casa, pode trazer o livro.
Talvez…
Talvez, de verdade, aconteça o que ele imaginava.
Sua razão, assentada depois de inúmeros ciclos de esperança e decepção, lhe deu um conselho pungente: «Não espere nada até que seja certo. O Cheriot pode estar dizendo isso só porque quer ser um bom amigo, ou talvez tenha feito a proposta porque quer manter uma relação de simples colegas.»
Mas, mesmo deixando isso de lado, ao imaginar que poderia continuar em contato com Cheriot, Yurij se sentiu incrivelmente feliz. Apertou o punho com a mão oposta à que segurava Cheriot e depois, desviando suavemente o olhar, respondeu:
—Se para você não for incômodo, para mim tudo bem.
—Não é nem um pouco incômodo. De jeito nenhum.
Cheriot respondeu antes que ele terminasse de falar, criando um clima estranho. Quando Yurij devolveu o olhar, que tinha desviado momentaneamente, e encontrou Cheriot, viu suas bochechas avermelhadas. Ao olhá-lo surpreso, uma bonita cor carmesim se espalhou lentamente, tingindo até seus lóbulos de vermelho.
Não era que não houvesse pessoas que corassem ao vê-lo, mas, estranhamente, ver Cheriot assim fez com que Yurij também se sentisse envergonhado. Olharam-se em silêncio por um tempo, desviando a vista várias vezes e, quando o constrangimento chegou ao ponto de até respirar se tornar consciente, Cheriot pigarreou primeiro.
—Você terminou de comer?
—Terminei.
Ainda bem que ele mudou de assunto. Yurij assentiu rapidamente e ambos, hesitantes, soltaram as mãos que seguravam. Como se lamentassem se separar, seus dedos se entrelaçaram por um instante antes de se desprenderem lentamente. Sentiu um vazio, mas não podiam ficar assim para sempre.
—Eu cuido da limpeza. Como eu te atormentei tanto esse tempo todo, de agora em diante deixa todas as tarefas comigo. Eu até te sirvo água.
—Não precisa.
—Eu te peço, Wolfie. Me dá a oportunidade de compensar.
Cheriot pôs uma mão em seu ombro e olhou para ele com seriedade. Ao ver a expressão de desculpas preenchendo seus olhos verdes, Yurij se perguntou se talvez ele estivesse muito preocupado por ter mencionado a história da camisinha. Não tinha sido uma ação exemplar, mas ele sabia que nenhum dos dois estava em seu juízo perfeito, e isso não o incomodava. Tinha sido uma brincadeira, mas ao que parece, como ele não costumava fazer comentários engraçados, Cheriot levou a sério.
Dizem que quando as pessoas não agem como de costume, cometem erros, e era exatamente isso. Enquanto pensava em como melhorar o ânimo de Cheriot, lembrou que no primeiro dia Cheriot tinha querido beber cerveja. Tinham combinado de comprar no dia seguinte, mas sem perceber, até hoje tinha esquecido.
—Então… é melhor eu sair para comprar a cerveja que você queria beber. De quebra, também compro o neutralizador.
—Não, isso também eu faço. Wolfie, você deita na cama e descansa bem de novo.
Não lhe desagradava se sentir cuidado, mas a dor muscular melhorava ao se movimentar e Yurij não era uma pessoa tão frágil a ponto de adoecer por uma coisa dessas.
—É melhor que você se exponha o mínimo possível. Por mais que cubra o rosto, uma pessoa com a sua compleição e altura não é comum em lugar nenhum, então se lembrariam dela. Você não precisa se oferecer só porque está com vontade de se mexer.
Embora ele só estivesse dizendo a verdade, Cheriot pareceu contente, como se tivesse recebido um elogio. Ajeitou o cabelo sem razão e depois, sorrindo tímido, assentiu com a
cabeça.
—Então… pede alguma coisa da cervejaria Vancouver Island. Qualquer tipo de pale ale serve, mas se for de melancia ou toranja, melhor. Se não tiver, então Coors Light.
Yurij gravou com prazer o pedido dele na memória. Observar alguém com gostos definidos é sempre um prazer. Por isso mesmo era divertido observar Alexei ou Timac, mas os gostos de Cheriot eram do tipo a que ele não costumava ter acesso, então lhe pareciam ainda mais fascinantes.
—Se não te incomodar, compra também a bebida que você costuma tomar. Estou curioso.
Yurij, que estava memorizando os pedidos de Cheriot, ficou um pouco atônito com o último. Não esperava que ele tivesse curiosidade sobre isso.
«Não tenho nada em especial.»
Ele costumava escolher o mais barato. É que gostos são algo que consome recursos e, para alguém que cresceu como Yurij, isso era percebido como uma espécie de luxo.
Depois de refletir, assentiu com a cabeça. Era melhor ir procurar alguma coisa do que decepcionar Cheriot dizendo que não tinha.
—Entendido.
—Obrigado, Wolfie.
Cheriot lhe dedicou um sorriso tão radiante que alegrava qualquer um que o visse, e abraçou Yurij de repente. Surpreso pelo abraço repentino, Yurij arregalou muito os olhos. Não esperava um gesto tão íntimo num momento como aquele.
Enquanto pensava no que fazer, Yurij ergueu lentamente a mão e lhe deu uns tapinhas nas costas. Tentou acariciá-lo com a maior calma possível, mas seu nervosismo o impedia de ser natural. No entanto, talvez aquele gesto desajeitado tenha sido bom, porque Cheriot apertou ainda mais os braços que o envolviam antes de soltá-lo, com um quê de pesar.
Ao se pôr de pé lentamente, Cheriot sorriu e lhe dirigiu uma despedida que soava maravilhosamente bem.
—Boa viagem, Yurij.
Yurij podia sentir pela primeira vez em muito tempo como era ter alguém esperando por sua volta. «Ah, é, era assim esse sentimento. Se preocupar com quem fica antes mesmo de partir
e, desde o momento em que você sai, sentir o desejo de voltar logo para casa.»
—…Tá. Não vou demorar muito.
—Então eu tenho que me apressar. Quero terminar de limpar a casa antes que o Wolfie volte. Depois de três dias largada, está um desastre.
Com a voz cheia de determinação, Cheriot pôs seu plano em ação imediatamente. Como um garçom servindo, pegou dois pratos em cada mão e começou a limpar a mesa com destreza. Ao vê-lo se apressar, Yurij sentiu por alguma razão que devia acompanhar seu ritmo, então também saiu da cozinha.
Depois de passar um instante pelo quarto para pegar as chaves do carro e a carteira, quando estava prestes a sair, virou-se antes de fechar a porta. Encarou fixamente o travesseiro onde tinha escondido a faca militar e hesitou brevemente. São uns 40 minutos entre ida e volta, uma hora no máximo. Levar uma faca a uma loja de bebidas lhe parecia hoje especialmente incômodo, então no fim Yurij deixou a arma em seu lugar.
Com a esperança de que a afirmação infundadamente otimista de Cheriot — de que, se alguma coisa fosse acontecer, já teria acontecido — fosse verdadeira, saiu do quarto. Cheriot, que estava na cozinha, se despediu acenando com a mão. Ao ver aquele homem lindo sorrindo radiante, Yurij desejou que hoje, pelo menos, não acontecesse nada. Tomara que, até chegarem os novos seguranças de Cheriot, ou mesmo depois.
O entardecer cedo em Big Fox, bem quando o sol começava a se pôr, era fresco e bonito. Depois de contemplar em silêncio o lago tingido pelo ocaso, Yurij subiu no carro e ligou o motor. Conectou o telefone, que tinha deixado largado sem pensar em carregar, ao USB do veículo, e repassou mentalmente a rota que Cheriot tinha feito da vez anterior. Foi então que percebeu que, embora estivesse ali havia apenas uma semana, Big Fox lhe parecia familiar, como um lugar que ele tivesse visitado muitas vezes.
Enquanto girava lentamente o volante para sair da cabana, perguntou-se mais uma vez se deveria ter levado a faca, mas disse a si mesmo que ficaria tudo bem. No porta-malas ainda estava a pistola e, se chegasse a uma situação em que tivesse que usá-la, de todo jeito uma faca militar não serviria de nada.
Mas Yurij estava esquecendo a lição que tinha repetido a vida toda. «O infortúnio é como um acidente imprevisível; você nunca sabe quando vai chegar.» Ele tinha aprendido isso através daqueles acontecimentos terríveis, e no entanto…
O homem que tinha vivido uma vida de desvantagens, tolamente cegado pelo sonho de uma noite de verão que lhe chegara, esqueceu temporariamente essa lição.
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Notas
[6] Referência a “Onde há amor, aí está Deus”, de Tolstói. Nessa história, um anjo (o arcanjo Miguel), banido do céu, aparece na Terra em forma humana e é acolhido pelo humilde sapateiro Simon e sua esposa.
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Fim do Volume 02
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna