Capítulo 03.13
3. Cherry and Smoke
Mas em seguida Yurij reconheceu a contradição de seus sentimentos. Desde o início não tinha dado importância alguma às palavras de Cheriot, mas agora vinha arrastando o que tinha dito antes e o achava desagradável.
“Desperta, Yurij. Que as palavras de Cheriot sejam ou não sinceras não é algo que deva me importar.”
Após pôr ordem em seus pensamentos, desviou a vista de Cheriot, que o olhava com anseio. Sem dúvida Cheriot tinha dito isso para convencê-lo, mas infelizmente o interesse de Yurij agora estava muito mais apagado que antes. A proposta que já não lhe atraía agora lhe parecia a pior.
“Se formos ao caso, quem causou problemas seduzindo um ômega foi você, Cheriot.”
Yurij esteve a ponto de sacar o incidente do hotel, mas se conteve. Esse tipo de deboche também não era algo que Yurij pensasse normalmente.
— Não.
Talvez interpretando o longo silêncio como um sinal positivo, ao receber outra breve negativa o rosto de Cheriot se tingiu de decepção. Com o cenho franzido, Cheriot se aproximou muito dele e perguntou.
— Você diz a sério?
— Sim.
— Vou te dar outra oportunidade. Pense de novo.
— Recuso-me.
Cheriot insistia como uma criança, tanto que começou a se temer que se continuasse escutando poderia chegar a permitir essa saída tão descabida. Se fosse como Alexei, que simplesmente sairia empurrando a porta para fazer o que quer, ou falasse com uma atitude desagradável dando ordens, seria muito mais fácil ignorá-lo. Mas Cheriot continuava perguntando sua opinião como se a permissão de Yurij fosse importante.
Estando contratado, se Cheriot sair, Yurij não teria remédio senão segui-lo.
“Não sei se é educação ou sinceridade. Pela cor do cabelo ou seu rosto bonito, alguém pensaria que agiria como uma raposa.”
— A recompensa por um café da manhã incrível é só isso?
Ao ver que Yurij não cedia, Cheriot respondeu com ironia. Mas aí terminou a rebeldia de Cheriot.
— Quer que eu peça desculpas?
— Deixa.
Cheriot levou o garfo à boca para dar conta do último bocado e, ao descobrir o abacate que ficou no prato de Yurij, o apontou.
— Mas por educação para com quem o preparou, pelo menos isso você vai comer, não vai?
“…Inacreditável.”
A repentina repreensão de Cheriot pelo abacate provocou uma mudança na expressão de Yurij. Ele, que até agora tinha respondido com brevidade e rosto impassível, mostrou uma débil expressão. Ao vê-lo, Cheriot esboçou um sorriso.
— Será que… você é enjoado? Como uma criança?
Ao tratá-lo com condescendência, parecia que nestes dois dias Cheriot tinha se tornado confiante demais. Diante do comentário de Cheriot, que parecia ter perdido o medo, Yurij franziu suas grossas sobrancelhas e o fulminou com o olhar. Sem se abalar diante de sua expressão feroz, Cheriot zombou dele.
— Opa, parece que é verdade.
Deu vontade de dizer-lhe que calasse a boca, mas reagir a uma brincadeira seria prova de que tinha caído na provocação. Ocultando seu desgosto, Yurij pegou o garfo com lentidão. Sentiu o olhar de Cheriot em sua mão. Fazendo como se não notasse a descarada observação de seu cliente, Yurij espetou o abacate e o levou à boca de uma vez.
A fruta chamada abacate tinha o sabor mais estranho de todos os que tinha provado até agora.
Pela descrição de Alexei de que era como manteiga verde e seu aspecto viscoso e verde que inspirava rejeição, era uma fruta que de outro modo teria passado ao largo para sempre. Contra todas as expectativas, não era empalagoso nem repugnante. Tinha um leve gosto noz, uma textura fresca e um sabor doce muito tênue. Uma doçura que Yurij podia tolerar sem sentir desconforto.
Após mastigar e engolir o abacate em silêncio, Yurij olhou para o prato onde ficou o rastro da polpa e se surpreendeu um pouco consigo mesmo. Talvez porque tivesse evitado por completo provar coisas novas. Era a primeira vez em muito tempo que sentia um estímulo diferente em seus sentidos.
— Você gostou?
Esperava que tivesse uma expressão de decepção, mas Cheriot, inesperadamente, parecia estar bem. Com o queixo apoiado na mão, observou Yurij comer e ao encontrar seu olhar soltou uma risadinha.
— Nossa, você guarda o que gosta para o final, Wolfie.
— …Bobagens.
— Terei que lembrar. Não devo roubar o que você gosta.
Quando Yurij arqueou uma sobrancelha, Cheriot piscou um olho a modo de resposta.
— Eu sempre como primeiro o que gosto. Se não, desaparecerá.
Após deixar essa frase enigmática, recolheu os dois pratos que tinham ficado limpos e voltou a se tornar o adolescente cheio de queixas.
— Ai, vou ter que passar o dia entediado lavando pratos e fazendo tarefas domésticas. O início do verão que esperei um ano inteiro, e começa com ameaças de morte e quase levou um tiro. Pobre Cheriot…
Sem o menor pudor, Cheriot se compadeceu de si mesmo enquanto sussurrava desanimado. Sentindo-se culpado como se sentasse num travesseiro cheio de agulhas, Yurij o seguiu até a pia.
— Eu lavo os pratos, você vai para o quarto.
— Não quero. Você machucou o braço.
— Não precisa exagerar por uma ferida assim.
Então Cheriot, deixando os pratos na pia, olhou para Yurij. Talvez pela manhã, seus olhos verdes pareciam especialmente brilhantes e frescos enquanto o observavam em calma.
— Descanse, Wolfie.
Embora Cheriot não tenha dito mais nada, Yurij sentiu por alguma razão que o repreendia alguém muito mais jovem. Roçou-lhe uma leve incomodidade, pensando se ao tratá-lo com tanta confiança Cheriot estava se tomando muitas liberdades, mas um sentimento mais sutil foi maior.
Era ele quem devia proteger.
Embora pensasse isso, Yurij não podia continuar se opondo a Cheriot. Perdendo seu papel, Yurij ficou confuso e em silêncio um momento antes de sair da cozinha para procurar algo que fazer. Ao abrir a porta principal pensando em sair para revisar as armadilhas, Cheriot gritou de trás.
— Se você sair me deixando sozinho, vou rolar no chão e fazer uma birra na sua frente!
É realmente absurdo.
Deixando para trás a estranha ameaça de um jovem de vinte e oito anos, Yurij fechou a porta. Ao ameaçar, como é que se lhe ocorre fazer dessa maneira? Por baixo dos lábios de Yurij se escaparam várias risadas zombeteiras.
Ao sair assim, o reflexo do sol no lago era tão deslumbrante que as sombras iridescentes se estendiam por todas as partes. Os galhos das árvores se balançavam com a brisa sussurrante. Os lugares com sombra estavam frescos e sob o sol fazia um calor agradável.
Yurij inspecionou os arredores da casa em busca de sinais de intrusos e, após garantir que ninguém rondava pela zona, esticou as costas. Desde a janela onde tinha colocado as armadilhas na noite anterior, ao contemplar o lago, acreditou entender o que Cheriot quis dizer. O lago era de um azul deslumbrante. Tanto que davam vontade de se atirar imediatamente.
Ao longe se via a esteira de espuma que alguém fazia ao atravessar o lago num barco de pesca. Desde o lugar que provavelmente era o centro do vilarejo, parecia chegar-lhe um tênue barulho de risos.
Yurij continuava sem se interessar pela cena de lá longe, mas sentiu um pouco de curiosidade por saber como seria o riso de Cheriot brincando livremente ali.
Após contemplar o exterior do lago vários minutos, Yurij tirou lentamente seu telefone e enviou uma mensagem a Alexei. Após pedir-lhe que o chamasse quando visse a mensagem, voltou para casa. Mesmo assim, dirigiu e retirou o olhar várias vezes para o lado onde estaria a pessoa.
* * *
A manhã transcorreu sem incidentes. O fato de Alexei não ter dado sinais era inquietante, mas Yurij não podia fazer nada a respeito dali. Proteger um civil era uma tarefa mais desesperante do que imaginava. Embora seu papel fosse crucial para custodiar o cliente, a ausência de uma ameaça imediata o deixava sem outra opção que manter a tensão ao máximo, sem forma concreta de agir.
Cheriot se manteve relativamente tranquilo por cerca de quatro horas. Ao sair do quarto, vagueou sem rumo perto de Yurij antes de tirar um laptop com o logo de uma maçã branca e colocar todo tipo de vídeos. Entre um e outro, Cheriot soltava como um refrão que estava entediado, e não só com palavras, até sua postura no sofá o denunciava.
De onde estava sentado, Yurij não podia ver a tela, mas o som lhe chegava com clareza. Cheriot era incapaz de ver nenhum vídeo seguido e repetia sem parar o ciclo de abrir algo novo. Yurij era um homem de grande paciência, mas após quase quatro horas ouvindo Cheriot trocar de vídeo a cada dez minutos, começava a sentir certa irritação.
Parece que tem uma personalidade que, se não fala sem parar, tem que estar se distraindo de outra maneira.
No entanto, a Yurij não incomodava a dispersão de Cheriot. Mais bem sentia algo próximo ao ceticismo diante da situação de ter trancado em casa e sentado em quietude um homem que deveria se mover com energia. Indo além, sentia até irritação consigo mesmo por ter considerado por um momento que o correto seria levar Cheriot a respirar um pouco de ar fresco.
Sentado afundando as costas no sofá de uma praça, Yurij observava fixamente Cheriot sem expressão. Antes tinha estado vendo o pesado laptop deitado como se fosse um telefone, e agora tinha mudado de postura para vê-lo de bruços sobre o sofá. Embora o sofá de três lugares fosse bastante grande, parecia estreito para Cheriot, e naquele espaço reduzido seu rosto pálido folheando vídeos sem sentido carecia da vivacidade do dia anterior.
…Hmm.
Yurij baixou o livro que segurava e desviou o olhar para a janela. Por ter começado o dia cedo, tinham acabado de passar o meio-dia e o sol derramava sua luz sobre tudo o que havia na terra como se a estação lhe pertencesse. O lago brilhava com clarões prateados até parecer branco e transmitia uma sensação de grande frescor.
“Duas horas devem estar bem.”
Ciente de que o que pensava era muito irracional, Yurij se descobriu considerando sair para fora. Não havia uma ameaça imediata e, embora se trancasse em casa, não poderia esquivar um perigo que se aproximasse. Claro que sabia que ficar parado era o método mais seguro e ideal. Na caça de perseguir e ser perseguido, o que decidia o vencedor era a paciência para aguentar a respiração e esperar, e a decisão resoluta de não deixar escapar a oportunidade.
“Mas minha tarefa é…”
Entre o pensamento de “só devo proteger aquele tipo”, se infiltrou de repente o impulso de querer vê-lo tranquilo e contente. Yurij franziu ligeiramente o cenho pálido e entreabriu os olhos.
—Toc, toc— o som de seu dedo indicador batendo na capa do livro que segurava ressoou tênuemente. A deliberação se prolongou vários minutos.
Enquanto pensamentos sobre Cheriot, como pára-quedas de dente-de-leão chegados de não se sabe onde, rondavam a mente de Yurij, Cheriot finalmente encontrou algo em que se concentrar. Pôs um vídeo da final da Stanley Cup daquele ano e apoiou o queixo na mão. Ao soar o nome do time, os Red Maple, Yurij sem perceber aguçou o ouvido para o som. Ele também lembrava vagamente aquele jogo, porque durante todos os playoffs o nome dos Red Maple tinha ressoado por toda Vancouver.
E no centro de tudo aquilo sempre estava Cheriot Goodnight.
Cheriot, que tinha debutado na NHL com os Florida Panthers e depois foi transferido para os Chicago Blackhawks, chegou pela primeira vez ao Canadá há dois anos para se estabelecer como capitão dos Red Maple. Lembrava como a expectativa de que os Red Maple, com a transferência de Cheriot Goodnight, pudessem aspirar a ganhar a Stanley Cup depois de dez anos, se estendeu por toda a cidade.
Era tudo o que Yurij sabia sobre Cheriot Goodnight como jogador de hóquei. Ah, e também tinha visto seu rosto em algum anúncio. Após ouvir da boca de Alexei que o capitão dos Red Maple, tão comentado, era um homem com um rosto que não podia senão confundir-se com o de um ator ou modelo, Yurij tinha calculado com ceticismo quão confortável devia ser seu mundo enquanto passava junto a uma loja que tinha sua cara colada ao lado.
No vídeo dos momentos destacados, depois de explicar o histórico de vitórias da Stanley Cup de cada time, se passou a descrever os jogadores mais destacados. Enumeraram-se rapidamente elogios sobre Goodnight: seus recordes como maior goleador da liga, os prêmios do Troféu Maurice Richard e do Troféu Memorial Hart, suas fortalezas como centro, e muito mais… Até que o comentarista mencionou que o único que ele não tinha conseguido conseguir era a Stanley Cup.
Yurij percebeu que sem perceber estava bastante concentrado na explicação do narrador. Aquele Cheriot do qual ouvia ao longe com voz alheia era um ser tão extraordinário que não tinha por que se cruzar jamais com humanos como Yurij. Distraído pela situação premente de Cheriot, tinha se esquecido que Cheriot era um homem capaz de gastar centenas de milhares de dólares sem se abalar em honorários, um ser amado pelo mundo. Em vez de se sentir impressionado por compartilhar um espaço com um homem assim, a situação lhe parecia contraditória e irreal. Tão discordante era que por um momento sentiu náuseas e uma depressão avassaladora, como se fosse morrer.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna