Capítulo 03.12
3. Cherry and Smoke
Após lançar um olhar furtivo à colcha que o cobria até o torso, Yurij a afastou e saiu da cama. Sua roupa era a mesma de ontem e seus tornozelos não estavam atados nem nada. Terminada a verificação, revisou em silêncio debaixo do travesseiro. Felizmente, a faca militar que tinha escondido antes continuava ali.
Após guardar a faca no bolso, Yurij se aproximou com cautela da porta. Contendo sua presença, tentou girar a maçaneta sem fazer barulho quando, do outro lado da porta, se ouviu uma suave canção.
And I’ll dream each night of some version of you.
That I might not have, but I did not lose[4].
Uma voz masculina de tom médio-baixo com um traço levemente rouco, uma melodia com violão acústico, uma letra que à primeira vista parecia alegre, mas a letra não encaixava. Tinha um ar de música country e Yurij, sem pensar, imaginou que seria Cheriot quem a escutava. Uma espécie de alegria o visitou de repente e entreabriu a porta para espiar pela fresta.
Sua suposição estava correta.
My other half was you, I hope this pain’s just passin’ through, But I doubt it.
Através da estreita abertura da porta, viu o perfil de Cheriot em pé na cozinha, cozinhando e cantando a canção. Embora estivesse só, tinha um sorriso na comissura dos lábios e cantarolava com uma voz agradável. Ao girar o pulso que segurava a frigideira, uma panqueca deu uma volta no ar e caiu de novo em seu lugar com precisão. Então, com atraso, percebeu o doce aroma da massa dourada, o cheiro saboroso do bacon no ponto e algo como ovo.
Só depois de confirmar que Cheriot estava ali em pé, intacto, Yurij pôde ter certeza de que não tinha acontecido nada de mal enquanto dormia. Claro, teria que verificar fora, mas pelo menos não tinha ocorrido nenhuma desgraça de momento. Mesmo assim, não podia perdoar sua própria estupidez por ter dormido, mas de qualquer modo era um alívio.
Enquanto duvidava se saia para dar os bons dias, Yurij observou em silêncio um pouco mais Cheriot. Cheriot irradiava frescor mesmo sozinho. Cantava enquanto se movia de um lado para o outro pela cozinha, colocando e decorando as panquecas num prato. Por um momento lembrou os cafés da manhã que sua mãe lhe preparava, mas mais que isso, pensou, apoiado de lado com o ombro contra o batente da porta, era agradável ver Cheriot tão absorto em sua tarefa. Parecia que podia continuar observando-o assim eternamente sem se cansar.
Ao que parece terminou os preparativos, porque Cheriot dirigiu o olhar para o quarto de Yurij. Então, ao descobrir Yurij atrás da porta entreaberta, desdobrou um sorriso radiante e gritou com carinho.
— Olá!
Não se sabia o que lhe dava tanta alegria, mas Cheriot jogou o pano de cozinha que tinha na mão e se aproximou rapidamente dele. Em vez de recuar, Yurij ficou parado esperando-o.
— Já está acordado, Wolfie?
Cheriot, que tinha se aproximado até a porta, o cumprimentou com alegria, encontrando seu olhar. Yurij também olhou fixamente para seus brilhantes olhos verdes e respondeu em voz baixa.
— Sim.
— A cama não era desconfortável?
“Ah, isso.” Yurij tinha que resolver essa dúvida.
— Por que eu estava dormindo no quarto?
Então Cheriot, como se a pergunta fosse óbvia, deu uma resposta clara.
— Você dormiu na cozinha, dava pena, então o transferi.
— Me transferiu? A mim?
— A mim?
Diante da andança de perguntas de Yurij, que incluía essa dúvida, Cheriot soltou uma risada baixa. Como se se divertisse, reduziu a distância até que as pontas de seus sapatos quase tocaram as de Yurij e sussurrou.
— Por quem você me toma, Yurij? Para carregar você me sobram forças. Os jogadores de hóquei não são bons só em brigar, também são fortes.
Yurij o observou com expressão cética. Era evidente que tinha melhor compleição e mais força que ele, mas Yurij não era um peso que pudesse ser considerado leve para ser levantado, nem mesmo como um elogio vazio. A diferença de altura era de apenas alguns centímetros e ele também tinha músculo; não era um peso que qualquer homem adulto pudesse carregar facilmente até o quarto. Arrastar, talvez.
— Suponho que me arrastou pelo chão.
— Que nada.
Cheriot pôs uma expressão significativa e, com um sorriso amplo, começou a explicar.
— Você não é leve, pesa como um lobo, mas parecia o príncipe da floresta adormecido, era todo um espetáculo. Devia estar tão cansado que nem se despertou quando te dei um beijinho.
“…Um beijinho?”
O entrecenho de Yurij se franziu com severidade. Custava-lhe acreditar que não tivesse despertado enquanto lhe faziam uma loucura dessas. Por um instante, conteve por pouco a reação de levar a mão aos lábios, quando Cheriot riu com vontade.
— É brincadeira, brincadeira. Por mais que eu seja doido, não beijaria alguém sem seu consentimento.
Desde a primeira hora, Cheriot já o tinha surpreendido em vários aspectos. Incomodava-o um pouco, mas a sensação não era a mesma de quando ouviu seus primeiros flertes. Como dizer…
Diferente do desagrado.
— Você tem vontade de fazer isso com alguém que considera aterrorizante?
Tinha curiosidade por saber por que Cheriot fazia essas brincadeiras. Embora soubesse que eram bobagens, queria entender a razão de seu comportamento constante. Na verdade, não era importante.
Diante da pergunta de Yurij, Cheriot guardou silêncio um momento, olhando-o fixamente. Sob o escrutínio daqueles olhos verdes que percorriam seu rosto da testa ao queixo, como se o tateassem com o olhar, surgiu uma estranha tensão. Yurij, sem perceber, conteve a respiração e, quando Cheriot abriu a boca, a exalou em silêncio.
— Sim.
Após meditar, Cheriot deu uma resposta perigosa.
— Porque você é meu tipo.
— Embora sua vida corra perigo, se for seu tipo, não importa?
— Não é isso, mas…
Cheriot girou sobre si mesmo com um sorriso e, jogando a cabeça para trás, piscou um olho.
— Hoje acordei vivo para o café da manhã. Então suponho que não é perigoso, não é?
Era uma resposta ao mesmo tempo acertada e errada. Os humanos eram assim, mudavam segundo a situação, e nunca se podia saber o que havia em seu interior… Parecia que Cheriot realmente tinha acumulado bastante confiança para com ele em apenas um dia.
Claro, isso também podia ser uma ilusão sua. Yurij não costumava ter talento para ler a mente das pessoas comuns.
— De qualquer modo, você acordou no momento perfeito. Acabei de terminar de preparar o café da manhã. É o café da manhã estilo Cheriot Goodnight, que em preço de mercado supera os cem dólares.
Caminhou para a cozinha e transferiu para o balcão tipo ilha os pratos que tinha preparado antes. Sobre a ilha, separada da bancada por um pequeno espaço, havia uma tigela de salada de madeira e dois pratos grandes e redondos. Parecia a comida para duas pessoas. À primeira vista.
— Você vai comer comigo?
Quando Yurij perguntou, por via das dúvidas, Cheriot o olhou com olhos atônitos.
— E com quem mais?
— Poderia comer tudo sozinho.
— Sou um especialista em sobremesas, então não como muito nas refeições principais. Não dou conta de tanto.
Cheriot apontou os pratos e perguntou.
— Não quer café da manhã?
Diante daqueles olhos que mostravam genuína perplexidade e um toque de expectativa, Yurij engoliu saliva pensando que costumava pular o café da manhã. Não esperava que hoje tivesse cozinhado também a parte que correspondia a ele.
— Não.
Respondeu com um fio de voz e se aproximou lentamente da cozinha. No caminho, lançou um olhar ao redor, mas não havia mudanças significativas na disposição nem sinais de intrusão forçada. Talvez pela culpa de ter dormido tão plácidamente, não podia evitar revisar o ambiente constantemente.
Ao se aproximar da mesa, Cheriot, como se o tivesse esperado, afastou-lhe a cadeira. O tratamento excessivo deixou ligeiramente tenso o rosto de Yurij. Sem saber como reagir, Yurij parou perto da cadeira e falou em voz baixa.
— Obrigado.
Tinha que dizer. Fazia tanto tempo que não fazia um cumprimento tão suave e cotidiano que as palavras se atolaram em sua garganta, mas Cheriot pareceu entender claramente.
— Por um homem bonito, esse esforço não é nada.
O comentário que se seguiu irritou-o um pouco, mas não tanto a ponto de replicar. Respondendo com indiferença, Yurij sentou-se na cadeira que Cheriot lhe tinha afastado. Cheriot, que tinha arrastado sua própria cadeira e sentou-se junto a ele, começou a comer como se tivesse esperado. O café da manhã consistia em torradas com abacate, bacon e um ovo frito com a gema líquida, apresentado como num restaurante. A salada era Ceasar.
— Temos muito que fazer depois de comer. Hoje faz muito mais calor que ontem, é perfeito para sair e aproveitar.
Ao ver o perfil de Cheriot, que cortava sua torrada com ar animado, sentia que devia dar-lhe permissão, mas Yurij desviou o olhar e, evitando-o, falou com firmeza.
— Não.
Não esperava que lhe servissem essa comida tão de cidade. Yurij olhou fixamente para o abacate verde, duvidando se afastava ou não. Nunca o tinha comprado pelo caro que era, mas Alexei dizia que o abacate tinha gosto de manteiga. Valery o comia porque gostava, mas Alexei acrescentava que também era produto da exploração e que as pessoas eram ridículas.
— O quê?
Enquanto Yurij pensava, Cheriot deixou o garfo e a faca e exclamou.
— Não viemos aqui de férias. Passear e chamar atenção é perigoso.
Sem deixar de olhar o abacate, Yurij continuou a explicação, suavizando suas palavras em vez de dizer que era uma estupidez.
— Mas está um sol radiante!
Cheriot se queixou como um adolescente a quem proíbem sair.
— Não.
Era uma pena, mas isso de passear podia fazer quando Cheriot tirasse umas férias de verdade. Diferente de Yurij, ele teria esse tempo pela frente indefinidamente.
Finalmente, afastou o abacate em silêncio e provou o café da manhã estilo Cheriot. Como já notou ontem, Cheriot cozinhava realmente bem. Embora fossem coisas simples, talvez pelo toque pessoal, o tempero era bom e os ingredientes estavam no ponto.
— Escuta, Yurij. Big Fox é um vilarejo com muito que ver. É pequeno, mas tem de tudo.
Durante toda a refeição, Cheriot não parou de enumerar as maravilhas de sair. Como repetia uma mordida e um comentário, quando Yurij terminou de comer, Cheriot mal tinha acabado a metade.
Cheriot falou de uma loja que vendia um jerky de boi incrível, especialidade de Alberta; de um sorvete suave e de sabor profundo feito com leite de fazenda; de churrasco que assavam e vendiam com milho.
Também de uma loja incomum para um vilarejo pequeno que combinava livraria e café; de uma bonita igreja onde oficiavam missa aos domingos; do parque decorado de forma clássica no centro do vilarejo e do ponto do lago chamado Paradise Beach.
Eram coisas que a uma pessoa normal pareceriam interessantes, mas Yurij não se entusiasmava. Mesmo se lhe atraíssem, não fazia sentido porque a situação não era segura para Cheriot, e de qualquer modo esse tipo de turismo não era algo permitido para Yurij. Como sempre o considerou algo alheio, não podia sentir nenhuma expectativa diante de atividades que se supunham “divertidas”.
— E Big Fox é famoso por suas belezas.
Cheriot, que não parava de tentar convencer Yurij, disse com dramatismo enquanto espetava o último pedaço de panqueca em seu garfo. Diante da palavra “beleza”, surgida do nada, Yurij o olhou de relance.
— Se você sair, verá muitos ômegas bonitos. Como seu tipo parecem ser os ômega, que tal aproveitarmos para sair e ver?
Então… esse tipo de comentário, Yurij também tinha ouvido algumas vezes na vida.
Talvez por aquele desejo trivial de reprodução da espécie, o interesse da maioria dos alfas eram os ômegas bonitos. Queriam dinheiro e poder para conquistar belezas e abundavam os alfas que punham o propósito de sua vida nesse sucesso mundano. Mesmo entre os que se aproximavam de Yurij para impressioná-lo, às vezes mencionavam os ômegas como moeda de troca.
Algo bonito, sem dúvida, era agradável à vista.
Mas Yurij não precisava de um ômega, a menos que fosse seu rut, e desde que chegou a Vancouver não tinha se encontrado com ninguém. Os ômegas que conheceu em Saratov não eram, nem por cortesia, de boa qualidade.
Os ômegas com quem Yurij tinha lidado pertenciam a dois tipos: os que acorriam para vender droga diretamente para ganhar dinheiro, ou os que atuavam como intermediários tentando pessoas que viviam tranquilas para comprar os produtos de Igor. Assim, Yurij tinha visto muita gente bela mas de interior repulsivo. Afinal, a beleza exterior era algo meramente passageiro.
Além disso… é comum dizer esse tipo de coisa a alguém que te interessa?
Enquanto ruminava a proposta de Cheriot que continuava sem despertar seu interesse, a Yurij veio de repente esse pensamento. Tinha se posto a dizer toda classe de palavras doces como açúcar, falando que era seu tipo e que quase lhe deu um beijo, então oferecer essa proposta para sair lhe produziu de repente uma desagradável estranheza.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna