Capítulo 105
Seus olhos estavam secos. Chrissy soltou um gemido baixo, franzindo o cenho. Por algum motivo, não conseguia abrir as pálpebras, então esfregou os olhos com a mão de forma brusca. Foi quando, de repente, uma voz inesperada surgiu:
—Para. Se você esfregar assim, só vai piorar seus olhos.
A voz grave e fria era, sem dúvida, familiar. Chrissy hesitou por um instante, então afastou a mão dos olhos e abriu a visão lentamente. O foco embaçado se ajustou após algumas tentativas, e logo ele conseguiu identificar o dono da voz. Nathaniel Miller, sentado em uma cadeira ao lado da cama, o observava.
Por um tempo, Chrissy apenas o encarou em silêncio. Sua mente estava confusa, tentando entender a situação. Aquele não era o quarto onde ele havia adormecido. Pelo leve aroma de feromônios no ar, percebeu instintivamente que aquele era o quarto de Nathaniel. A questão era: por que ele estava ali, deitado na cama de Nathaniel?
Além disso, a aparência de Nathaniel também era completamente diferente da do dia anterior. Seu rosto abatido, as bochechas mais fundas e as olheiras profundas o faziam parecer extremamente cansado — como se não tivesse pregado o olho a noite toda.
Não me diga que ele ficou sentado aí a noite inteira só me observando…
Nada fazia sentido. Depois de ficar deitado por um tempo, ele desistiu de pensar e se ergueu lentamente.
—O que…? O que aconteceu?
Diante do tom misto de dúvida e cautela, Nathaniel não respondeu imediatamente. Ele observou o rosto de Chrissy por um momento, como se o avaliasse, antes de finalmente falar:
—Você não se lembra?
—O quê?
Chrissy perguntou novamente, mas ele, em vez de responder, acariciou o queixo com uma das mãos, como se estivesse pensando em algo. Chrissy, por alguma razão, começou a ficar inquieto, apertando e soltando o lençol repetidas vezes.
—Anda, fala logo. Eu não gosto quando ficam enrolando assim.
Ao ser pressionado com o máximo de frieza possível, Nathaniel soltou um breve suspiro, passou a mão pelos cabelos e só então abriu a boca:
—Parece que você teve um pesadelo ontem à noite.
—Eu?
—Sim.
Dessa vez, a resposta veio imediatamente. Diante da expressão surpresa de Chrissy, ele continuou:
—Se você não se lembra, não tem muito o que fazer. Vá tomar um banho primeiro. Eu vou preparar o café.
—O quê?
Nathaniel continuava dizendo apenas coisas sem nexo. Chrissy perguntou por reflexo, mas ele não acrescentou mais nada e tentou sair do quarto. Incapaz de deixá-lo ir assim, Chrissy o chamou novamente:
—Miller!
Diante do tom urgente, Nathaniel, que já abria a porta para sair, parou e se virou para ele. Ainda sentado na cama, Chrissy insistiu:
—O que eu fiz ontem? O que aconteceu? Me explica.
Nathaniel abriu a boca, mas demorou um pouco até as palavras saírem:
—Se você não se lembra, então está tudo bem assim.
—Como assim “tá tudo bem”? Isso é sobre mim, então como—
Chrissy ia continuar, mas Nathaniel falou antes:
—Às vezes, é melhor não saber. Se você não se lembra, provavelmente é porque não precisa saber.
De repente, sentiu uma estranha atmosfera em suas palavras. Com o cenho franzido, Chrissy perguntou, desconfiado:
—Quem não precisa saber? Você… ou eu?
Para sua surpresa, um leve sorriso surgiu nos lábios de Nathaniel. Por um instante, Chrissy hesitou — e então ele respondeu de forma simples:
—Ambos.
Com isso, Nathaniel saiu do quarto. Sozinho, Chrissy ficou apenas piscando, atônito, até finalmente voltar à realidade. No fim, não conseguiu arrancar nenhuma resposta concreta dele.
Afinal… o que tinha acontecido?
As memórias estavam fragmentadas, dispersas. Parecia que ele tinha sonhado com algo da infância, mas não tinha certeza. Será que foi sobre aquilo? Até onde ele havia contado para aquele homem? Não tinha revelado tudo… tinha?
Com a mente confusa, a ansiedade começou a crescer. Até onde aquele homem sabia sobre ele?
Para Nathaniel Miller, investigar o passado de alguém seria mais fácil do que torcer o braço de uma criança — bastava querer.
Enquanto tomava banho, Chrissy balançou a cabeça com força. Pensar nessas coisas era perda de tempo. Se aquele homem não dizia nada, então também não havia motivo para ele ficar cavando ou se preocupando com isso.
O importante agora era encontrar o detetive Simmons… e fazer aqueles desgraçados pagarem.
Tendo chegado a essa conclusão, ele terminou o banho rapidamente e saiu. Vestiu-se para o trabalho e, ao fazê-lo, sentiu a mente clarear, como se tivesse voltado ao normal. O tornozelo também estava bem melhor — ainda havia um leve incômodo, mas nada que realmente atrapalhasse.
Ótimo, vamos.
Balançando a cabeça para o próprio reflexo no espelho, Chrissy saiu do quarto e desceu as escadas. O aroma de manteiga tostando que se espalhava pela sala fez a fome surgir de repente. Já acostumado a ficar naquela casa, seus pés o levaram instintivamente para a sala de café da manhã.
A mesa já estava posta. Olhando de relance para as costas largas do homem alto que fritava bacon, Chrissy puxou a cadeira de propósito, fazendo barulho — um sinal silencioso de que havia chegado. Assim que se sentou, Nathaniel tirou o bacon da frigideira, colocou no prato e o trouxe até a mesa.
Olhando para o prato com ovos mexidos, bacon e várias pequenas panquecas, Chrissy ergueu o olhar sem perceber. Em seguida, Nathaniel colocou uma cesta com vários tipos de pão. Depois, acrescentou um pequeno recipiente de vidro com xarope de bordo e manteiga — só então ele finalmente se sentou.
A pequena mesa, apropriada para o café da manhã, já estava completamente cheia.
—Se for demais, pode deixar.
Nathaniel disse isso com naturalidade, vendo Chrissy apenas encarar o prato em silêncio. Observando-o despejar xarope de bordo sobre as panquecas, Chrissy franziu o cenho e inclinou a cabeça.
O que é isso… tem alguma coisa estranha.
Ele já tinha visto aquele homem cozinhar várias vezes, então não havia motivo para estranhar ou se surpreender. Além disso, não era esse tipo de sensação. Era uma estranha desconexão difícil de explicar. Ainda confuso, cortou um pedaço da panqueca com o garfo e levou à boca. Foi quando Nathaniel se levantou…
Vendo-o pegar vinho e uma taça com toda naturalidade, Chrissy pensou, meio atônito, ele vai beber vinho logo de manhã? — e então, de repente, percebeu a origem daquela sensação estranha. Seus olhos se arregalaram.
—Sua perna.
Ao ouvi-lo gritar com urgência, Nathaniel, que estava prestes a se sentar, parou. Mas Chrissy não se conteve e continuou:
— Cadê sua bengala? Você não estava se apoiando nela agora a pouco? Não me diga que… você já está completamente curado e só fingiu estar machucado esse tempo todo? Por quê?
—Ah…
Só então Nathaniel deixou escapar um leve sorriso. Sentando-se com calma na cadeira e encarando Chrissy, ele respondeu como se não fosse nada demais:
—Você só percebeu agora? Não sei se você só é lerdo… ou que simplesmente não presta atenção em mim.
Diante de algo tão absurdo, Chrissy ficou momentaneamente sem palavras. Afinal, quem era que vinha mancando e usando aquela bengala o tempo todo?
—Qualquer um seria enganado, assim como eu, se alguém mancasse e usasse bengala bem na sua frente.
Ele respondeu com ironia, praticamente dizendo ‘foi você que fez essa ceninha na minha frente’, mas Nathaniel continuou com o mesmo sorriso enquanto servia o vinho.
—Me disseram para tomar cuidado, na medida do possível. Digamos que foi… por segurança.
Em seguida, ele acrescentou, encarando Chrissy:
—Em breve vou fazer exames adicionais. Vou descobrir se houve dano permanente ou não…
Nathaniel deixou a frase no ar de forma estranha e estreitou os olhos.
—Não está curioso?
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Continua…