↫─Capítulo 156
— Só agora você me olha.
Do-Heon falou como se esse tempo todo estivesse esperando que o olhar dele o alcançasse.
Era só uma voz extremamente inexpressiva como sempre, mas surgiu a ilusão de que, a ponto de fazer cócegas no ouvido, havia nela algo como um pesar. Cheongyeon, sem perceber, virou a cabeça de lado num movimento brusco e desviou do olhar.
Isto foi antinatural demais. Cheongyeon, tardiamente, censurou o próprio gesto desajeitado.
Não sabia como lidar com Do-Heon , que pedia desculpa com uma voz que ele nunca ouvira antes. Porque, no caminho até ali, ele imaginara inúmeras possibilidades que poderiam ocorrer hoje, mas, dentre elas, uma situação dessas com certeza não havia.
— O diretor indo até dizer que sente muito por mim… Você bebeu?
— Como se fosse possível.
— …
Quando recebera desculpas de Han Iram, foi só uma sensação de alívio, com a mágoa acumulada se desfazendo, e as entranhas ficaram só leves.
De forma estranha, diante das palavras de desculpa de Do-Heon, a boca do estômago doeu. Uma sensação de formigamento se estendia desde o fundo do peito até a ponta dos dedos, e Cheongyeon repetiu algumas vezes o gesto de fechar e abrir a mão.
— Vou colocar tudo de volta no lugar. Tudo o que eu estraguei esse tempo todo.
Do-Heon falou com voz firme.
— Se você só me der uma chance, até você ficar satisfeito, do jeito que você quiser.
A cada palavra que ele soltava se cravando no ouvido, as entranhas revolviam.
Afinal, o que teria acontecido com Do-Heon esse tempo todo. Será que ele deixara escapar alguma coisa?
Por que processo ele passara para, não bastasse dizer que dava o contrato por encerrado, ainda dizer uma coisa dessas.
— …
Com a garganta embargada, Cheongyeon não conseguiu dizer nada. A mente, complicada demais e ao mesmo tempo vazia, enrijeceu ali mesmo.
Cheongyeon apertou com força o arquivo que segurava. Para ser sincero, ele não queria fazer com que ele resolvesse os problemas lançados diante dele. Porque não desejava mais nada de Do-Heon .
— Diz alguma coisa, qualquer coisa, Cheongyeon.
— …
Como não houve resposta por muito tempo, o olhar insistente de Do-Heon se grudou nele. Sem parecer o de sempre, a paciência dele se esgotou depressa.
— …
— …
Quando Cheongyeon cerrou bem a boca e recompôs a respiração, Do-Heon deu um passo à frente.
— Antigamente.
E, de novo, com pressa, rompeu o silêncio.
— Bastava olhar o seu rosto e eu conseguia saber tudo o que você estava pensando.
Cheongyeon, conferindo a distância que sem perceber se estreitara e Do-Heon, piscou os olhos lentamente.
— Ler a sua expressão era muito fácil.
— …
— Mas agora não sei. Não consigo nem calcular como você está se sentindo.
Do-Heon confessou como quem sofre.
Isso é até justo. Porque ele passara por isso durante toda a vida conjugal.
Perambulara ao redor para conseguir cruzar o olhar com ele nem que fosse uma vez a mais, e vivera aflito querendo ler os pensamentos dele.
A sensação era estranha, como se a situação tivesse se invertido.
E as palavras de Do-Heon eram verdade. Cheongyeon, ao contrário de Do-Heon, conseguiu perceber logo que ele estava impaciente.
Sendo que a minha chama já se apagou e só restou cinza, será que o lado dele agora acabou de se acender no rastilho e está pegando fogo.
Se era assim, era até satisfatório. E, por outro lado, também dava pena.
Ao mesmo tempo, como era a primeira vez que Do-Heon falava seus pensamentos de forma tão crua, ele sentiu até uma leve superioridade.
— Eu… para ser sincero, não sei por que o senhor está fazendo isso comigo de repente, então estou confuso.
Cheongyeon tirou algo do bolso e o estendeu a ele.
— Mas, se você só rasgar o contrato, tanto faz se estou confuso ou não. É que eu quero acabar logo. Então vou devolver isto.
Era a chave de carro que Do-Heon presenteara depois que ele estreou como ator. Na verdade, mais do que presente, era algo próximo de uma gorjeta dada como recompensa pela cama, na condição de patrocinador.
No começo, Do-Heon ficou só fitando, quieto, como quem não sabe o que é, e, ao perceber que era chave de carro, hesitou em pegar.
— Não precisa devolver até o que eu presenteei.
— Mesmo que eu fique com ele, de todo modo não dou conta dos custos de manutenção.
Era um modelo de carro que, num descuido, era fácil virar dono de carro empobrecido.
Quando Cheongyeon sacudiu de leve a mão no sentido de que ele pegasse, Do-Heon, no fim, pegou a chave a contragosto.
— Ah. E a casa eu desocupo até esta semana.
— A casa? Então para onde você pretende ir.
Do-Heon apertou a chave com força e estreitou os olhos.
— Isso eu ainda não decidi, então não sei.
— Ir para outro lugar agora deve ser perigoso.
Mas também não dava para continuar no apartamento que Do-Heon providenciara. Para ser sincero, o apartamento também era recompensa de patrocínio, então ele não queria ficar por muito tempo.
— Agora está assim, mas logo se aquieta.
— Se você se mudar para um lugar com segurança ruim, agências de imprensa podem aparecer e incomodar. E existe a possibilidade de algum sujeito estranho invadir também.
— Ainda assim, não tem jeito. Só me resta ir me esquivando com jeitinho…
— Isso não pode. É perigoso.
Assim que soltou a fala friamente, por hábito, Do-Heon, com uma expressão de “ops”, acrescentou depressa.
— Não estou impondo, é que eu me preocupo com você…
— Olha só. Eu não disse que as pessoas não mudam fácil.
Cheongyeon soltou uma risadinha dizendo que já sabia. Ao ver o canto da boca se erguer como quem nem esperava outra coisa, Do-Heon, como quem está aflito, alisou o cabelo com brusquidão.
— Se soou como imposição, peço desculpa.
Diante da atitude de aceitar docilmente, Cheongyeon ficou sem mais o que dizer. Como sempre fora, achou que ele fosse esbravejar mais, dizendo que não podia, e foi inesperado.
Do-Heon tinha uma expressão de quem tem muito a dizer, mas parecia estar se contendo com todas as forças.
Cheongyeon, que por um instante o fitou quieto, logo virou o corpo e dirigiu os passos ao segundo andar.
— Como é a última vez, vou conferir se há alguma coisa no quarto para levar.
Do-Heon, que no fim não se conteve, começou a persuadir Cheongyeon enquanto o seguia.
— Em vez de sair já, que tal se preparar com calma e então se mudar. Não precisa forçar para sair…
— De todo modo, agora vou largar a atuação, então não vai ter perigo nenhum. Se eu não trabalhar, o interesse da imprensa também some logo.
— Você vai deixar de ser ator?
Cheongyeon abriu a porta do quarto que usava antigamente e entrou. Do-Heon, diante da porta escancarada, pareceu hesitar por um instante e logo entrou atrás dele.
Cheongyeon, que examinava o interior do quarto, ficou em dúvida sobre se devia mesmo explicar sua posição. Mas, como ele até rasgara o contrato e dali em diante não haveria mais razão para se verem, ele não queria fazer questão de esconder nem mentir.
— Tenho que largar. Continuar trabalhando aqui também é impossível. E agora nem tenho fôlego para recomeçar…
— Então o que você pretende fazer.
Como quem tem de ouvir a resposta já, Do-Heon aproximou-se bem de Cheongyeon. Diante da distância que se estreitou num instante, Cheongyeon estremeceu e recuou um passo.
— Preciso dizer até isso?
Do-Heon estancou e ergueu as duas mãos como quem não tinha a intenção de assustar.
— Não. Claro que não precisa.
— …
Cheongyeon, em vez de continuar falando, examinou o quarto com atenção. A relação entre Do-Heon e ele já mudara e se distorcera em muita coisa, mas só este quarto estava, de um jeito arrepiante, do mesmo jeito.
— Fiquei sabendo pela avó. Disseram que você recusou a herança.
Do-Heon, que o seguia mantendo certa distância conforme Cheongyeon se movia, tornou a abrir a boca.
— Como eu disse antes, aquilo é uma coisa que a avó deu para você. Pode simplesmente aceitar.
— A avó é uma boa pessoa e eu sei que é uma consideração grande demais para mim, mas…
Cheongyeon parou diante da cômoda e fitou Do-Heon .
— Eu não quero aceitar esse dinheiro e ficar envolvido com o senhor.
Nisso, sem querer, pegou o frasco de perfume que entrou em seu campo de visão.
Isto originalmente já estava com só isto? Não sabia por que, mas parecia estar visivelmente mais reduzido do que da última vez em que viera.
Quando olhou com o olhar intrigado para Do-Heon, que estava de pé a alguns passos, ele, fingindo não saber, virou a cabeça.
— É mesmo, vou simplesmente não levar nada.
Cheongyeon tornou a pousar o perfume no lugar.
— Desta vez, jogue mesmo tudo fora, por favor.
— …
— Você disse que queria colocar tudo de volta no lugar. Se o senhor tem um sentimento sincero de desculpa por mim, simplesmente não se intrometa mais na minha vida, por favor.
O pomo de adão de Do-Heon subiu e desceu com força. A voz de Cheongyeon, que encarava Do-Heon assim, estava calma como nunca.
— O que você quer de mim é só isso?
— Sim. Agora vamos viver mesmo como estranhos.
— …
— Como se você fosse uma pessoa que nunca existiu, desde o começo.
Diante do pedido inflexível de Cheongyeon, o cenho de Do-Heon se franziu de leve.
Ele, só depois de um bom tempo, a muito custo abriu a boca.
— …Tá.
— Então, agora acabou tudo, né.
Cheongyeon, que recebeu a resposta de Do-Heon, como quem se alivia, gravou o próprio quarto nos olhos uma última vez e murmurou. E, do arquivo que segurava na mão, tirou o contrato e o rasgou ali mesmo, sem hesitação.
O som do papel sendo rasgado em pedaços ecoou nítido pelo quarto.
Só desta vez, Do-Heon também não conseguiu esconder a expressão que se contorcia por completo.
Mas Cheongyeon, sem se importar nem um pouco, amassou com a mão os pedaços rasgados a ponto de não se distinguir a forma e os enfiou na lixeira.
Enfim tinha a sensação de estar liberto do grilhão que o oprimia.
Agora é mesmo o fim.
— …Aliás, o que é isto?
Cheongyeon, que sacudia as mãos, quando ia fechar o arquivo que trazia debaixo do braço, descobriu algo. Na página de trás, onde o contrato estava encaixado, havia um pequeno bilhete.
Talvez fosse bem antigo, pois as bordas estavam gastas.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna