↫─Capítulo 152
Diante do tom exagerado, com a entonação bem elevada, o olhar de Do-Heon e dos acompanhantes se voltou para o lado do visitante.
— …Sim. É o que devo fazer.
Cheongyeon, que respondeu sem forças, assentiu docilmente. Era uma voz frágil, como se ele fosse desmaiar de exaustão a qualquer momento.
O visitante, ao ver Cheongyeon assim, estalou a língua com pena.
— Ai, ai, tem dois filhos ainda tão jovens, não sei como o seu pai conseguiu fechar os olhos… Sem nem ver vocês conseguirem um emprego decente e ficarem independentes. E você, Cheongyeon, está saindo com alguém?
— Não. Ainda não.
— O próximo álbum vai sair?
— Isso também ainda não sei… Desculpe, mas vou dar uma passadinha no banheiro.
Como se não conseguisse mais suportar aquela situação, Cheongyeon passou pelo visitante e saiu da sala de velório. Do-Heon, que viu de relance o perfil choroso, virou a cabeça acompanhando o trajeto de Cheongyeon.
Como no dia em que o vira no hospital, os ombros caídos e o rosto de choro. Mesmo sabendo que era uma impressão inadequada à situação, veio-lhe o pensamento de que até aquela expressão não tinha mudado nada em relação à infância.
— Devemos ir agora pedir desculpas aos familiares enlutados?
O secretário Shim perguntou fitando o advogado. Então o advogado, revirando os olhos para os lados com cautela e confirmando que não havia pessoas por perto, disse como que sussurrando.
— Isso depende da vontade do senhor diretor. Ele faleceu em serviço, mas o acidente de trânsito foi por culpa do outro motorista, e o impacto no assento em que o falecido estava sentado foi maior do que no lugar em que o senhor diretor estava sentado…
— Se formos precisos, o senhor diretor também é uma vítima, então visitar os familiares enlutados e pedir desculpas não é uma obrigação, é isso.
— Ãh-ãh. Falando com frieza, o secretário tem razão. Afinal, quando ocorre um acidente de trabalho desses, é raro uma empresa mandar um executivo em pessoa, como agora, discutir o plano de indenização.
O secretário Shim e o advogado trocavam palavras bem à sua frente, mas naquele momento, para Do-Heon, as vozes deles pareciam só distantes.
— …
O nome é Yoo Cheongyeon. Pensando bem, acho que aquele bilhete que recebi ainda está em casa. Não tenho certeza, mas lembro de ter guardado em algum lugar da estante do escritório.
Do-Heon, que olhava na direção da saída por onde Cheongyeon passara, de repente ficou curioso.
Naquela vez, será que a criança ganhou o presente que queria de aniversário.
Embora a breve reminiscência sobre o bilhete tivesse terminado, Do-Heon fitava demoradamente aquilo que segurava na mão.
— …
Ele estranhava por que motivo não jogara isto fora e o mantivera até agora. Acabara de perceber que não era que não tivesse jogado fora, mas que não conseguira.
O Cheongyeon que reencontrou já adulto não o reconheceu de jeito nenhum, mas não fazia diferença.
Era ridículo explicar que ele se lembrava de um momento tão insignificante e, acima de tudo, Do-Heon queria dar a Cheongyeon tudo o que ele não pudera ter. Assim Cheongyeon também ficaria feliz, pensava ele.
Agora, ao rememorar, era um raciocínio leviano e unidimensional demais.
— Diretor. Isto não é um sentimento pessoal; pergunto como médico, por estar preocupado com o paciente. Sabendo que é perigoso, porque o paciente Yoo Cheongyeon ainda está tomando o supressor e o anticoncepcional juntos? Como eu disse da última vez, os casos de efeito colateral reportados no exterior são graves a ponto de exigir interrupção imediata. O exame minucioso também é importante, claro, mas, se o senhor está preocupado com o estado do paciente Yoo Cheongyeon, ajudá-lo a interromper o uso é, no momento, a prioridade máxima.
As palavras do médico que fora ao apartamento ver o estado de Cheongyeon cutucavam sem parar os nervos de Do-Heon .
— Haa.
Ele soltou um breve suspiro.
Do-Heon, que ergueu a cabeça, aflito, e a baixou, olhou para aquilo que segurava na mão. O bilhete que Cheongyeon escreveu na infância e o contrato de patrocínio redigido após o divórcio.
Agora ele tinha de admitir. Que, para Cheongyeon, ele não passava de um vínculo funesto, pior que um estranho. Que despedaçou toda a situação com as próprias mãos.
O que Cheongyeon precisava não era daquele mísero presente de aniversário. Muito menos de uma recompensa material. Apenas o fato de ele soltá-lo é que era algo em favor de Cheongyeon.
Cheongyeon já não era a criança que chorava por não ter ganhado o presente que queria, nem o amante que lhe sussurrava que o amava. Desde o instante em que Cheongyeon saiu desta casa, o vínculo terminou por completo.
Fora apenas ele, que não conseguira aceitar isso, quem à força agarrara seu tornozelo e o vinha arrastando.
E ainda assim, mesmo que toda a sua situação estivesse se desfazendo por causa de mim.
— Mas eu, Cheongyeon… eu ainda…
Não quero te soltar.
Mesmo que você não precise mais de mim. Mesmo que eu seja enfadonho e horrível para você, quero voltar para a nossa casa, onde você está.
Quero encher a casa inteira do seu aroma e do seu feromônio.
Quero devolver a casa que virou ruína, de novo, à nossa casa.
O rosto de Do-Heon, dominado por uma emoção intensa e indescritível, contorceu-se de dor.
— No mundo existem coisas que nem com dinheiro se compram. Bem mais do que o senhor imagina.
No fim, Cheongyeon tinha razão.
As pessoas, o afeto, não se compram com dinheiro. Por mais dinheiro e recompensa que se pague, não se recolhe uma única coisa. Nem a nossa relação que se desencontrou, nem o tempo que passou, nem as inúmeras oportunidades que ele deixara escapar.
Só lhe restava ficar observando aquilo apodrecer, estagnado feito uma poça no chão. Esse era o castigo que lhe fora dado.
*
Ao abrir os olhos, o ar bem morno de dentro de casa envolveu aconchegante o corpo. Ao mesmo tempo, o edredom pareceu úmido demais.
— Ec, minha cabeça…
A voz de Cheongyeon estava rachada de um jeito terrível.
Talvez por causa da ressaca ou então por causa da moleza do corpo, quando revirou os olhos, tudo à frente parecia girar em círculos.
Cheongyeon, num movimento bem lento, ergueu o corpo.
Não sabia quanto suara enquanto dormia, mas o travesseiro e o edredom estavam encharcados.
Cheongyeon, apoiando a testa por um instante para recompor a respiração, espreguiçou-se. Então os músculos que estavam duros e enrijecidos se distenderam e ele teve uma sensação bem revigorante.
— Que estranho. Estava com dor a ponto de achar que ia morrer assim…
Talvez graças a ter dormido bastante e acordado, a febre tinha baixado por completo.
— Nã-não. Não vou tirar sangue à força.
De repente, lembrou-se de Do-Heon, que o segurava desesperadamente com uma expressão de choro.
Que memória é essa. Era um sonho? Não me diga que Do-Heon voltou de novo e foi embora? Cheongyeon revirava os olhos, confuso, e vasculhava a própria memória embaralhada.
Lembrava até o ponto em que se deparara com Do-Heon diante da porta de entrada do apartamento ao voltar depois de beber, mas dali em diante as cenas eram indistintas.
Por ora, para umedecer a garganta seca a ponto de parecer que ia rachar, Cheongyeon caminhou cambaleando até a cozinha. Mesmo enchendo o copo de água e virando de uma vez, não conseguia se livrar de uma sensação incômoda.
Pelo visto, Do-Heon tinha voltado de novo…
— Merda. Será que fui eu que chamei dormindo?
Cheongyeon, com um “não me diga” no coração, procurou o celular. Achou o celular justamente na cozinha e tocou a tela, mas talvez a bateria tivesse acabado de vez, pois não havia reação.
Depois de conectar às pressas o carregador e esperar alguns minutos, logo o aparelho ligou.
— Ufa, ainda bem.
Por sorte, na lista de chamadas não havia vestígio de que ele tivesse ligado para Do-Heon .
O alívio durou pouco. Cheongyeon, só de pensar em conferir uma a uma as centenas de notificações acumuladas, ficou com a cabeça pesada.
A propósito, ir beber com Han Iram justo nesta situação. Na hora ele saíra sem pensar em nada, aflito e à beira de enlouquecer, mas, olhando para trás, ele também não estava em seu juízo perfeito.
Cheongyeon desabou na cadeira da mesa e esfregou os olhos inchados.
Quando a consciência embriagada de sono foi ficando cada vez mais nítida, junto voltaram aos poucos as lembranças dos últimos dias que ele tinha esquecido.
Depois que o escândalo com Han Iram estourou, cada dia transcorria de forma realmente atordoante. As agendas marcadas foram canceladas uma atrás da outra, e o cronograma de gravação do drama também acabou totalmente suspenso.
Toda vez que era chamado à empresa, Kim Gyeongseop estava ao telefone com o anunciante, num bate-boca sobre processo e indenização. As ligações dos repórteres que vinham ao escritório da agência também não cessavam.
— Chefe. Eles não estão namorando. É uma foto que pode surgir quando gente da mesma idade convive de forma próxima e, francamente, só com essas fotos não tem como dar problema, né? Hã? A gente também está se esforçando para resolver de algum jeito, então, por favor, espera só um pouco. Eu imploro.
Ouvir Kim Gyeongseop implorando desesperado ao telefone deixava Cheongyeon sem ar de repente.
Ficar só olhando, em tempo real, aquilo que construíra a duras penas desmoronar de uma vez num instante não era, de jeito nenhum, coisa fácil.
— Escuta, Cheongyeon. Vem sentar aqui.
Kim Gyeongseop, que voltara de fumar um cigarro atrás do outro, coçava com força o cabelo empastado enquanto sentava Cheongyeon no sofá.
— Escuta. O diretor Moon Do-Heon … não disse nada?
Kim Gyeongseop parecia querer contatar Do-Heon e receber ajuda de algum jeito.
De fato, ele talvez até tivesse tentado.
Mas, pelo que Cheongyeon sabia, Do-Heon estava em viagem de negócios ao exterior. Ainda por cima, Do-Heon não era uma pessoa que se pudesse contatar tão facilmente só por querer.
Se fosse ele mesmo a fazê-lo, talvez, mas por mais que Kim Gyeongseop e os outros envolvidos ligassem cem dias para a secretaria de Do-Heon, seria difícil a notícia chegar depressa. Provavelmente havia grande chance de Do-Heon só ficar sabendo do escândalo depois de voltar para a Coreia.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna