↫─☫ Extra 21
↫─☫ Extra 21
A oportunidade de colocar sua promessa em prática surgiu mais rápido do que o esperado. Quando o sol começou a se pôr, Lee Chayoung saiu de casa acompanhado de sua família.
O destino era um hotel. Não para se hospedarem, mas porque a festa de aniversário de oitenta e oito anos de sua tia-avó seria realizada no salão de eventos de lá. O próprio Chayoung assumiu o volante. Enquanto se concentrava na direção, assim que o sinal fechou, ele virou a cabeça para o lado como se tivesse sido chamado por alguém.
— O terno ficou ótimo em você.
— Já estou me sentindo desconfortável.
Diferente de Lee Chayoung, que tinha o terno como seu traje padrão, Seo Gyuha o usava apenas cinco ou seis vezes por ano, no máximo. Talvez fosse porque, nos tempos de escola, ele nunca abotoava o uniforme direito. Curiosamente, ele conseguia usar blusas de gola alta no inverno sem problemas, mas sentia um incômodo estranho sempre que precisava abotoar uma camisa social ou dar o nó na gravata.
Lee Chayoung deu uma olhada rápida para o banco de trás e sussurrou de um jeito que apenas Seo Gyuha pudesse ouvir:
— Quero chegar logo em casa para tirar tudo de você. Até a cueca.
—….
Diante daquele olhar afiado que Gyuha lhe enviou como resposta, Lee Chayoung não conseguiu conter uma curta risada.
— Não está com frio?
— Não. Está na medida certa.
As ruas que se estendiam além da janela do carro estavam totalmente tomadas pelo clima de Natal. O rosto de Gyuha, enquanto observava a paisagem passando, parecia imensamente sereno. Era um alívio renovado não ter que estar sozinho em meio a uma guerra fria e poderem estar juntos como sempre.
Entre uma conversa e outra, logo chegaram ao hotel. Embora tivessem saído com folga, já havia bastante gente que tinha chegado mais cedo. Lee Chayoung distribuía cumprimentos com um sorriso radiante no rosto, parecendo até um político em campanha; Gyuyoung, que herdara sua personalidade sociável, também sorria abertamente enquanto fazia reverências educadas aos adultos. Entre os presentes, estava Kim Moran.
— Olá!
— Ai, meu Deus, quem é esse aqui? Nosso Gyuyoung veio todo arrumado para o aniversário da vovó?
Uma risadinha escapou de Lee Chayoung. Por mais que visse, ele nunca se acostumava com aquela imagem dela sorrindo e sendo carinhosa com a criança. Sentindo o olhar fixo dele, Kim Moran endireitou a postura e logo assumiu uma expressão ranzinza.
— O quê? Que foi?
— Nada, só estou feliz em te ver.
— Deixe-me ver o rosto do Gyuchan também.
Como daquela posição só conseguia ver a nuca do bebê, Kim Moran inclinou o corpo levemente para o lado. Ela sorriu novamente, com os olhos semicerrados, e cutucou de leve as bochechas fofas do pequeno.
— Olá, tampinha.
— Uu.
— Por que está com essa cara tão brava enquanto está aí todo confortável pendurado no papai? Hein? Hein?
— Ubu.
A cada cutucada nas bochechas, Gyuchan virava a cabeça para o lado oposto, expressando uma rejeição clara. Ela parou com a brincadeira antes que ele começasse a chorar, e então Seo Gyuha puxou assunto primeiro:
— Você veio direto da empresa?
— Sim. E vou ter que voltar para lá daqui a pouco.
Pelo bocejo longo que ela soltou cobrindo a boca, dava para sentir o cansaço. Seguindo a sugestão de se sentarem, os três caminharam e se acomodaram em volta de uma mesa redonda.
Como era de se esperar de um banquete para o membro mais velho da família, o salão estava luxuoso. O palco principal exibia uma mesa decorada de forma clássica com flores naturais e velas aromáticas, e cada mesa abaixo também apresentava uma montagem impecável.
Às sete horas em ponto, a recepção começou oficialmente. Um mestre de cerimônias profissional conduzia o evento com fluidez, arrancando risadas de todos os cantos com seus comentários bem-humorados.
Ambientes com todos os anciãos da família reunidos costumam ser tediantes e desconfortáveis, mas, excepcionalmente, Seo Gyuha manteve o foco na tia-avó no palco. Ele sabia que ela gostava de Lee Chayoung como se fosse seu próprio neto e que até tinha se esforçado para convencer o avô de Chayoung — que não aprovava o casamento dos dois na época. Por isso, manter a concentração por trinta minutos era o mínimo que ele poderia fazer.
Assim que a cerimônia seguiu o cronograma e terminou, Seo Gyuha dirigiu-se ao buffet. Kim Moran sentou-se à mesma mesa que eles. Quando Gyuha voltou ao seu lugar após dar uma volta com Gyuyoung pelas mãos, Kim Moran já estava com o prato cheio, comendo com uma elegância inigualável. Aquilo também era algo a que ele simplesmente não conseguia se acostumar.
— Por que está me olhando assim?
— Nada… é que você parece estar comendo com gosto.
Kim Moran, que tinha feito a pergunta com um tom ranzinza, percebeu a presença de Gyuyoung e rapidamente forçou um sorriso.
— Gyuyoung, coma bastante, está bem?
— Sim!
Em seguida, Seo Gyuha começou a movimentar os talheres com agilidade. Ele focou o ataque principalmente nas carnes, até que, algum tempo depois, sentiu um puxão de leve em sua roupa e ouviu a voz de Gyuyoung.
— Papai, eu quero ir ao banheiro.
— Ah, é?
Engolindo o que estava mastigando, Seo Gyuha se levantou prontamente, pegou a mão da criança e seguiu em direção ao banheiro. O olhar de Kim Moran, que observava a cena, logo se voltou para Lee Chayoung. Na verdade, havia algo que ela queria perguntar desde cedo.
Por causa de sua personalidade, ela não demonstrava muito, mas Kim Moran ficou bastante preocupada quando soube que Chayoung estava com problemas de memória. Há alguns dias, ela ligou para Seo Gyuha e acabou recebendo a ótima notícia de que a memória de Chayoung havia voltado. Embora estivesse aliviada, uma curiosidade natural surgiu.
“Como ele lembrou de repente?”
“Não sei. Disse que simplesmente lembrou de tudo.”
“Será que ele não estava fingindo esse tempo todo?”
Ela tinha dito aquilo em tom de brincadeira antes de desligar, mas realmente achava estranho. Que a memória tivesse sumido como sequela do acidente, tudo bem, mas como podia voltar ao normal assim, do nada? Não é como se o corpo tivesse um interruptor.
A pessoa que mais sabia os detalhes era, obviamente, o próprio envolvido. Logo, os lábios de Kim Moran se moveram.
— Ei.
— O quê?
— Como foi que a sua memória voltou, afinal? O Gyuha te bateu? Da última vez que nos vimos, ele estava considerando seriamente te dar um tapinha na nuca para ver se resolvia.
Diferente de Kim Moran, que falava sério, Lee Chayoung apenas abriu um sorriso leve.
— Quer mesmo saber?
— …….
Um arrepio, daquele tipo que surge quando algo é meloso demais, começou a percorrer o corpo dela.
:Ah, porra, sinto que meus ouvidos vão apodrecer se eu ouvir isso.” No entanto, como a curiosidade era maior que sua repulsa instintiva, Kim Moran hesitou como alguém diante da caixa de Pandora, tomou uma grande decisão e abriu a boca novamente.
— Fala logo.
— Eu estava no telefone com a minha mãe quando soube que o heat do Gyuha estava prestes a começar. Como a gente tinha discutido naquele dia… só de pensar que ele poderia desistir de mim ou, num impulso de raiva, acabar ficando com outro cara, eu recobrei o juízo na hora. Pensando bem agora, mesmo que minha memória tivesse sumido, as coisas sobre o Gyuha deviam estar gravadas no meu subconsciente. O Gyuha para mim é…
Enquanto ouvia Chayoung se empolgar e despejar palavras sem parar agora que tinha plateia, Kim Moran nem se deu ao trabalho de esconder sua cara de nojo e torceu os lábios.
O alvo do seu desprezo, é claro, era ela mesma.
“Putz, eu devia saber que seria algo assim.”
Ela estalou a língua e resmungou, como se Seo Gyuha estivesse bem ali ao seu lado.
— Eu não disse?
— O quê?
— Que não importa se você perde a memória ou o que aconteça, no fim das contas, você é quem está na palma da mão dele. O eterno submisso.
Com um gesto de queixo indiferente, ela apontou para ele, que apenas soltou uma risada boba e despreocupada, como se não tivesse um pingo de orgulho. O fato de aquela cena não parecer de todo ruim tornava o sentimento dela ainda mais estranho.
Kim Moran balançou a cabeça negativamente e tentou acalmar o estômago com um gole de café quente. Aquele era um dia em que, independentemente de quantos casais estivessem fazendo cena na sua frente, o frio parecia castigar seu rosto de forma implacável.
↫─☫ < FIM Dog And Bird >
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna
N/T: Obrigada por ler Dog And Bird. <3