Capítulo 01
↫─Capítulo 01
2. Noivo (1)
Basileia, Suíça.
Uma cidade que abriga a Art Basel, uma das três maiores bienais do mundo, e uma capital da cultura e da arte repleta de mais de quarenta museus e inúmeras galerias.
Lau e Yihyun haviam passado uma semana aqui, e hoje era o último dia deles em Basileia. Amanhã, eles pegariam o TGV de volta para Paris. O “Tour pelos Museus Europeus” de quase 40 dias estava chegando ao fim.
No último dia de sua longa jornada, os dois visitaram o Kunstmuseum Basel.
Eles já haviam dedicado cerca de dois dias ao local, mas planejaram visitá-lo mais uma vez em seu último dia, de forma mais tranquila.
Em uma tarde de dia útil, o museu não estava apenas quieto, mas silencioso.
Embora se reconhecesse o valor histórico e arquitetônico do Kunstmuseum Basel, ele na verdade não possuía uma grande coleção de obras famosas que seriam populares entre o público em geral. A menos que fosse durante a Art Basel, era raro que turistas estrangeiros fizessem uma viagem especial a esta pequena cidade apenas para ver as obras precoces de Picasso. A maioria dos poucos visitantes eram cidadãos de Basileia.
O olhar de Lau, que vagava pelo museu como se estivesse em um passeio, de repente fixou-se em um ponto.
de Chagall.
Um grupo de crianças, que pareciam ser alunos do ensino fundamental, estava reunido com seu monitor, sentado sob a obra de arte. As crianças, sentadas no chão, tinham cada uma um caderno de desenho aberto e moviam seus lápis.
Parecia ser uma aula onde eles esboçavam livremente o que quer que lhes viesse à mente após apreciar a pintura de Chagall. Era uma cena comum em qualquer museu europeu.
Lau observou-os à distância para não perturbá-los.
Ele não tinha contado a Yihyun, mas já havia visitado o Kunstmuseum Basel pelo menos dez vezes, tanto a trabalho quanto a lazer. Justo quando pensava em ir procurar Yihyun, deparou-se com esse grupo de aparência interessante.
Entre eles, uma criança em particular chamou sua atenção.
O menino, que usava óculos de aros pretos finos e redondos, tinha um ar introvertido, mas não parecia tímido. Seus lábios bem fechados e os olhos claros e brilhantes que se moviam ocupados de um lado para o outro por trás dos óculos davam-lhe uma impressão de calma, diferente de outros garotos de sua idade.
A criança estava completamente perdida em seu próprio mundo, sua caneta movendo-se em um estado de quase esquecimento de si mesma. A comoção de seus amigos brincando bem ao seu lado não parecia chegar aos seus ouvidos. Ele nem sequer estremeceu quando o cotovelo de um amigo acidentalmente o cutucou.
Talvez um jovem Yihyun fosse assim?
Enquanto observava a criança com esse pensamento, ele se viu sentindo muita falta de Seo Yihyun.
Lau verificou a hora em seu relógio de pulso.
— Não vou demorar.
— Você pode levar o tempo que precisar para olhar em volta, sabe?
— Vou apenas dar uma olhada rápida nas obras que quero ver mais uma vez.
Já haviam se passado duas horas desde que ele e Yihyun, que dissera aquilo, se separaram na entrada do museu. Ele checou o telefone, mas não havia mensagens.
E, no entanto, por alguma razão, Lau sentiu que poderia encontrar Yihyun sem ligar para ele. Ele sentia que sabia onde Yihyun estaria naquele enorme museu.
Ele começou a caminhar novamente, movendo as pernas que haviam pausado por um momento.
Ao passar pela criança de óculos redondos, ele deu uma olhada furtiva e viu que o garoto estava desenhando um quadrinho sob a pintura de Chagall. Os ombros de Lau balançaram enquanto ele soltava uma risada suave. Ainda assim, sua habilidade era notável.
Se fosse uma criança que se parecesse com Yihyun, ela também teria talento para a arte?
Não apenas Yihyun, mas sua mãe e seu pai, e até minha própria mãe — ambas as famílias transbordavam de pessoas que pintavam. Então nosso filho também poderia ter talento para a arte. Embora não importasse se ele quisesse fazer algo completamente diferente.
Perdido em tais imaginações, Lau saiu do salão de exposições e caminhou pelo corredor em busca de Yihyun. Então ele parou de repente, balançou a cabeça e zombou de si mesmo.
Nós nem somos casados ainda, e eu já estou pensando em um filho.
Ultimamente, ele se pegava contando com o ovo na barriga da galinha com muita frequência.
Viajar por mais de um mês e ficarem grudados um no outro 24 horas por dia, 7 dias por semana, o deixou completamente imerso na sensação de coabitação, em vez de apenas namoro. Esse era o problema.
Quem era aquele Lau WiKūn que uma vez afirmou que queria apenas Seo Yihyun e nunca tinha sequer pensado em um filho?
Tsk. Estalando a língua para si mesmo, Lau recompôs sua expressão e começou a caminhar novamente.
É claro que não era que ele quisesse especificamente um filho agora. Ele estava simplesmente imaginando o futuro dele e de Yihyun seguindo o curso típico dos acontecimentos… apaixonar-se por alguém que você ama de verdade, prometer um ao outro o para sempre, casar-se e, então, o nascimento de um filho.
Além disso, Yihyun ainda nem tinha tido sua manifestação completa como um Ômega.
Um filho era apenas uma fantasia vaga. O que Lau queria era o casamento com Yihyun. Uma união legal e social. Esse era o verdadeiro desejo de Lau.
Quem era aquele Lau WiKūn que antes era da opinião de que, fosse um casal Beta ou um casal Alfa-Ômega, não havia necessidade de casar e que morar junto era o suficiente?
Depois de conhecer Seo Yihyun, inúmeras versões de Lau WiKūn desapareceram no passado, em uma história que ele desejava negar.
Literalmente uma história sombria. Murmurando isso, Lau diminuiu o passo ao chegar à entrada de outro salão de exposição.
A pessoa responsável por mudá-lo tanto estava bem ali.
Um sorriso floresceu nos lábios de Lau ao avistar as costas de Yihyun. Era um sorriso tão charmoso que as pessoas que passavam olhavam para ele. Porque era um sorriso direcionado ao objeto de seu amor.
Exatamente como eu esperava.
Yihyun estava parado em frente a uma obra de Egon Schiele.
Era um dos autorretratos de Schiele.
Em vez de se aproximar de Yihyun imediatamente, Lau encostou o ombro casualmente na parede da entrada do salão. Eram as costas de alguém claramente em profunda concentração. Parecia melhor não perturbá-lo.
Ele ficou ali parado, olhando não para a obra de arte, mas para Yihyun. Dentro da moldura da visão de Lau, a cena era uma obra de arte em si. Uma que despertava um desejo de posse. Uma que ele queria contemplar para sempre.
Yihyun era frequentemente chamado de “o Egon Schiele do nosso tempo”.
Desde que um famoso crítico holandês o apelidou assim pela primeira vez, dificilmente havia um artigo sobre Yihyun que não incluísse essa frase.
Yihyun não mostrava reação positiva nem negativa a isso. Ele não parecia se importar muito, dizendo que expressões como “o segundo Fulano”, “o Fulano do Oriente” ou “o Fulano do Ocidente” eram frequentemente usadas em todos os campos.
Mas para um artista que abordava seu trabalho com sinceridade, ser comparado a outra pessoa possivelmente não seria uma situação bem-vinda.
No entanto, Yihyun nutria mais interesse do que ressentimento por Schiele.
Nesta viagem, os dois passaram mais tempo do que o planejado no Museu Leopold em Viena, na Áustria. Seu itinerário de quatro noites e cinco dias chegou a ser estendido por um dia. Foi por causa das obras de Schiele.
Algumas obras de Schiele também estavam em exibição aqui no Kunstmuseum Basel. Não eram peças particularmente famosas. Mas isso não importava para Yihyun.
Yihyun invariavelmente parava em frente às obras de Schiele. De longe e de perto. Do poder geral da obra às pinceladas detalhadas. Ele as observava seriamente. Como se para absorver até a última gota e torná-la sua.
Mesmo agora, Yihyun estava de frente para a obra de arte, imóvel.
Como se estivesse em um confronto.
Por qual mundo ele estaria vagando agora?
Um sentimento de alienação e solidão, como o que sentia ao observar Yihyun completamente absorto em seu trabalho pelas costas, fluiu de sob os pés de Lau. Uma ganância que ele sabia ser doentia e distorcida, um desejo por todo o Yihyun, agitou-se lentamente dentro dele.
Ele quase tinha perdido Yihyun por causa disso.
E, no entanto, a ganância sombria não fora completamente erradicada. A sorte era que agora ele sabia como lidar com ela.
Não há necessidade de ser impaciente. Yihyun me mostrará qual mundo ele encontrou através de seu trabalho. E depois que ele baixar o pincel, ele sempre voltará para mim. Ele olhará para mim, sorrirá, me abraçará e dirá que me ama, assim como sempre faz. Então tudo o que tenho que fazer é esperar por ele aqui. Como um adulto. Ou pelo menos fingir que sou um já serve.
Lau pegou o telefone e abriu o aplicativo da câmera.
No momento em que as costas de Yihyun, voltadas para a pintura, entraram na tela na composição desejada, ele prendeu a respiração e pressionou o botão.
Logo após a foto ser tirada, os ombros de Yihyun, que estavam parados como uma estátua, pareceram tremer levemente. Então, ele lentamente se virou da obra de arte.
No momento em que seu rosto, que estivera submerso em profunda imersão, encontrou Lau, ele se iluminou radiantemente. Diante dessa mudança, Lau sentiu uma sensação de alívio e felicidade tão intensa que fez seu peito doer.
Se eu esperar, ele volta para mim.
Era a felicidade de confirmar esse fato mais uma vez.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Othello&Belladonna